Kare Dake ga Inai Machi
1 Kare Dake ga Inai Machi: Choque de realidade
Notas iniciais
Olá, me chamo Satoru Fujinuma, como vocês sabem eu passei 15 anos em coma devido ao meu último revival. Já se passaram 9 meses desde que eu saí do hospital e lidei com o Yashiro. Desde então eu venho exercendo minha profissão como mangaká, mas muita coisa aconteceu nesses 9 meses, minha veia de escritor me fez querer escrever esse diário que eu nem mesmo sei se algum dia publicarei ou não, estou apenas escrevendo-o nos meus períodos de folga, e por folga eu não quero dizer apenas do trabalho mas de tudo que venho fazendo, afinal eu perdi 15 anos da minha vida, 15 anos de existência, eu não posso tê-los de volta, então vivo intensamente como não vivi esse tempo todo.
Minha rotina desde então vem sendo bastante atarefada — rotina talvez não seria a melhor palavra, se tem uma coisa que passei a odiar depois de tantos revivals foi a monotonia e fazer sempre as mesmas coisas, Kenya e Hitomi acham que estou super divertido e certo do que estou fazendo e me invejam, já que eles como Advogado e Médico, respectivamente, não podem se dar o luxo de sair da rotina. Porém, eles não me criticam, diferentemente de outras pessoas, como a minha mãe e a Hinazuki-san, elas acham que está tudo bem se eu não passar dos limites, esse é o problema, eu não ligo mais para limites. Ah, há uma outra pessoa que critica um pouco meu modo de viver, Airi Katagiri — já estou umas semanas sem vê-la e isso já me dá uma certa angústia. É estranho, pois poucas semanas depois de eu sair do coma eu ainda não conseguia entender como a Hinazuki-san se casou com o Hitomi, assim não quero criticar o Hitomi nem nada do tipo, mas eu salvei a vida dela, sei lá, eu de certa forma queria que ela tivesse esperado por mim mesmo sem saber se eu voltaria ou não a vida, mas depois de pensar um pouco e lembrar do bebê dela eu me conscientizei, afinal foi a minha vida que parou por 15 anos e não a dela. E com a ajuda do destino, meses depois eu encontrei a Airi num local que nos encontramos durante meu último revival, e eu pude ver quem eu realmente amava de maneira não apenas altruísta/de amizade — você pode pensar que a Airi foi uma compensação por eu não poder ficar com a Hinazuki-san, mas não é isso, Kenya sempre indaga isso de maneira sarcástica e eu odeio quando ele faz isso, eu prefiro acreditar que fomos destinados um ao outro. Esqueci de mencionar, mas venho me encontrando com ela durantes esses meses, estamos longe de namorar, mas ela me faz muito bem e eu sei que rola o mesmo — Airi é muito sincera com seus sentimentos e opiniões. Da última vez que a encontrei foi quando decidi pular de bungee jump de uma ponte em Kyoto, ela gosta de fazer esse tipo de coisa que faço, mas como eu disse antes não há limites mais para mim, quero aproveitar tudo, tanto que consegui irritar ela quando cancelei um jantar com ela para participar de um salto em conjunto de paraquedas — esse evento só aconteceria de novo depois de 2 anos, e quem sabe o que acontece nesse período. Como diria Kenya e Hitomi, eu sou um viciado em tempo.
Fim de semana passado Hinazuki-san chamou todo o pessoal da antiga escola para um festival de filmes que iria ocorrer na cidade, Hitomi disse que ela queria reunir todos de novo, já Kenya achava que o real motivo era que ela queria conhecer a Airi — de vez em quando ainda a chamo de Katagiri-san, o que deixa ela irritada — e Takagi-san, noiva de Kenya — foi uma surpresa para todos, pois apesar de ter mudado um pouco ele não era muito de falar abertamente de suas relações com pessoas além de seus amigos. Sobre minha ida ao festival, no começo fui relutante, pois era algo muito monótono, mas Hinazuki-san insistiu, foi até onde trabalho junto de Hitomi e até mesmo seu filho, os três fizeram caras de carente e eu não pude recusar. Quando contei sobre isso para a Airi, ela ficou super empolgada — bem mais do que quando saímos juntos -, pois falo muito dos meus amigos e de nossas aventuras no passado.
Durante o festival percebi algumas mudanças em cada um dos meus amigos, Kenya estava bem mais descontraído do que eu o conhecia, poderia ter sido a influência da Takagi-san que parece um pouco com ele, ou não, era algo mais natural mesmo, ele mudou um pouco. Já Hitomi foi o que mais me surpreendeu, era normal que eu ou Kenya fôssemos os "líderes" do grupo, éramos nós que tomávamos as decisões em qualquer situação, agora o Hitomi era esse cara, quem nos guiou e disse onde ir no festival inteiro foi ele. Hinazuki-san confidenciou para a galera enquanto Hitomi não estava perto como ele foi chamativo ao pedi-la em casamento, fez algo em público e tudo mais, quando ele voltou minha mania de pensar em voz alta se ativou e acabei soltando: "Já me surpreendi que o Hitomi foi capaz de falar com uma garota, imagina fazer um pedido em público". Todos riram, Hitomi fez uma cara de indignação, aí logo me desculpei e ficou tudo bem. Contudo, esse festival não foi marcado somente por esses detalhes, as três garotas passaram boa parte do festival juntas — isso assustou Kenya e a mim um pouco. Então, quando elas decidiram parar na exposição de filmes amadores, nós, os garotos, ficamos sozinhos, Hitomi tentou acalmar eu e Kenya sobre o que as garotas poderiam estar conversando tanto, porém, ao chegarmos nos últimos estandes ele fora interrompido por mim, eu avistei um cara alto, de sobretudo e chapéu levando uma criança para de trás do último estande, eu simplesmente não hesitei, minha mente disse que era ele, corri e empurrei ele com força o suficiente para arremessá-lo ao chão: YASHIRO! — gritei bem alto. Porém, cometi um terrível engano... não era ele, ao chegarem lá Kenya me afastou e Hitomi foi falar com o homem. No fim, eu agi feito um idiota, não havia banheiros públicos no festival e o homem estava levando a filha para fazer xixi, pois a coitada não aguentava mais segurar. Hitomi assumiu a responsabilidade do ocorrido e me fez pedir desculpas ao homem, levei um sermão longo do Hitomi, as garotas chegaram no meio do sermão, tive que explicar o que aconteceu para todas, Takagi-san ficou pasma.
Na volta para casa foi ainda pior, ao chegarmos ao estacionamento presenciamos um assalto, quer dizer, eles presenciaram, eu participei. Um homem franzino de jaqueta de couro preta contra uma mulher, eu novamente não hesitei, corri e me coloquei na frente da mulher impedindo que ele tomasse a bolsa dela, e consequentemente a esfaqueasse, ele se assustou com minha atitude abrupta e correu — a faca dele cortou de leve minha blusa. Dessa vez não pude fugir do sermão de ninguém, todos ficaram bravos comigo, Kenya resolveu falar também, ele foi bem mais conciso e realista ao falar, ele disse que eu não era mais uma criança, ainda assim eu tentei argumentar, acabei falando sem querer que minha mãe já morreu esfaqueada uma vez pelo Yashiro em uma linha do tempo e que aquilo me lembrou isso, não adiantou, e depois do que a Hinazuki-san, com olhos marejados, disse eu não pude mais argumentar nada: "Já chega, para de pensar nisso, para de tentar ser herói, ele não está aqui, nessa cidade ele não existe mais."
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