Karasu
1 Capítulo 1
Consegui acordar na hora certa, embora eu tenha dormido muito tarde. Estou ansioso, e com medo também, claro. Não me sinto inferior por estar com medo nessa ocasião, por que, acho que todo ser vivo desse planeta teria medo de fazer uma “entrevista” em uma organização que, de certa forma não tem fins lucrativos, mas ninguém sabe seu paradeiro, ou quem é seu presidente. Exceto eu claro, que tenho uma idéia de quem ainda possa ser ele...
São 07h15min da manhã, e já estou pronto, só falta tomar um leve café da manhã. Então aproveitei para assistir TV e ver as noticias. Estou ansioso para saber se Karasu deu mais um passo à vitória. E para minha felicidade, assim que ligo a TV — que está no canto da minha miserável sala de apartamento — Vejo o famoso jornalista Pedro Guimarães, com o rosto estampado por um desespero controlado, a seu lado esta projetado um retângulo branco, — esse lugar da telinha, normalmente é usado para mostrar uma imagem que se refere a matéria abordada — nesse retângulo está escrito em preto a palavra, “Karasu”.
Ah, como fico feliz em ver como esse projeto está indo tão bem. Eu até me arrependo do porque, que sai do esquema tão cedo; e... E agora estou voltando feito um cachorrinho para seu dono depois que ele chega à casa de um dia de trabalho. Mas não posso me rebaixar tanto assim, creio que não chego a ser deplorável.
Pedro Guimarães prosseguiu com a reportagem:
– Hoje por volta das 01h30min da manhã, infelizmente – Ele bufou – foi encontrada mais uma vítima da... Karasu.
Eu adoro quando eles dizem isso – Me sentei no meu velho sofá com meu café da manhã nas mãos com total atenção ao noticiário.
– O senhor Carlos Barreto de Nóbrega, que acabara de assumir o cargo de Presidente na ITISP, Instituto Técnico de Informática de São Paulo, foi encontrado morto dentro de seu próprio carro que se encontrava na garagem de sua casa. Esse já foi o terceiro assassinato dessa semana; nos quais tristemente perdemos a senhora Rita Rodrigues, diretora de uma escola publica do Rio de Janeiro. E o senhor Luiz Dario dos Santos, prefeito da mesma cidade, Valença.
“Todos nós estamos esperando um resultado do legista, que não deu previsão de quando saíra à autopsia.
“As investigações seguem em um ritmo acelerado na esperança de acabar com os planos da Karasu, mas, o medo cresce cada vez mais nos corações dos nossos investigadores da policia, pois parece que a Karasu está presente em mais de um estado brasileiro, e parece muito bem saber o que esta fazendo. Informação que nós, como brasileiros, ainda não sabemos qual é.
“Até agora só foram encontradas duas provas, uma carta impressa em papel sulfite e o celular de Carlos. A carta acusava Carlos por lavagem de dinheiro; mencionava que o policiamento do nosso país é fraco por deixar que atrocidades como essa acontecer, “Somos obrigados a fazer o trabalho sujo de vocês da maneira certa” dizia a última frase da carta. Segundo os policiais encarregados de investigar o caso, Carlos estava com seu smartphone ligado e sem o bloqueio de tela, normalmente encontrado nesses celulares. No aparelho foram encontrados vários SMS comprovando e enfatizando as acusações feitas pela Karasu. Os números com os quais o senhor Barreto matinha contato estão sendo procurados e investigados.
“Sua mulher que está muito abalada, disse que aquele não era o aparelho celular que ele usava, mas, suas digitais foram encontradas no aparelho inteiro, o que leva a policia a acreditar que as acusações feitas a ele, são verdadeiras.”
Ótimo, agora posso desligar a TV. Essa noticia é suficiente para armar um sorriso de orelha a orelha em meu rosto. Eles estavam mesmo prosseguindo. Será que depois desses cinco anos, meu antigo amigo Davi Marques, ainda esta no comando? Tomara que sim, pois é o nosso plano, no final das contas, somos nós que vamos dizer aos nossos filhos: “Tudo começou quando eu fiz um amigo na escola...”.
Mas, ultimamente, tenho percebido que as emissoras de televisão, todas elas, só estão mostrando casos de pessoas importantes socialmente falando. Pelo que me lembro, o plano que criei junto com Davi era eliminar tanto pessoas malfeitoras importantes, quanto as que não têm certa importância para o estado – aliás, nada tem importância para o governo em suma maioria, além da própria realização – nesse quadro se encaixa os traficantes de drogas, os ladrões de baixo nível, os assaltantes, assassinos e também um simples bêbado que agrediu sua mulher.
Então, ou a mídia estava escondendo essas realizações da Karasu, ou o líder dela – que pode ser o Davi – não estava mais seguindo o combinado.
Terminei de tomar meu café com leite e de comer minhas bolachas de sal. Peguei dinheiro e guardei no bolso junto com meu celular. Fui até o banheiro escovar os dentes, onde finalmente encontrei meus óculos. Peguei meu livro “Crime e castigo” de Fiódor Dostoiévisk, o qual estava adorando. Tranquei a porta do meu minúsculo apartamento e desci as escadas com meu livro na mão. Meu relógio de plástico em meu punho indicava 7 horas e 45 minutos.
Com certeza a estação de trem vai estar cheia, mas, tenho que agradecer por morar em um domicilio exatamente de frente à estação. Dei poucos passos até chegar à portaria do condomínio, o que eu não considero uma, digamos que seja um pequeno portão enferrujado que nem automático é, e o portão é acompanhado de um senhor na casa dos quarenta anos, seu porte físico é apenas gordo. Guilherme é o nome dessa besta fofoqueira, eu costumo chamá-lo de Gordon, ainda não sei da onde tirei esse apelido, mas com certeza foi por causa de sua aparência. Pobre Gordon.
– Bom dia, Angelo! – disse ele ao abrir o pequeno portão para mim com simpatia exagerada.
Eu simplesmente passei pelo portão e fiquei olhando os carros passarem na rua, quando ouvi o trinco velho do portão se fechando, me virei e percebi que ele me fitava com indignidade, então finalmente dei um leve aceno com a cabeça tão secamente que até eu senti ódio de mim.
Gordon sempre me irritou, sempre foi aquele que só faz cuidar da vida dos outros. Ele sempre exagerou na simpatia comigo, tentando descobrir algo interessante, mas até então ele só sabia meu nome, o que aumentava seu interesse em mim.
Finalmente caminhei pela calçada até chegar a um conjunto de várias faixas brancas que atravessam a rua de modo paralelo. Ela dizia proteger você de ser esmagado pelo pára-choque de um retardado que só tem lugar no inferno. Pelo visto ela já falhou muitas vezes. Desprezível faixa de pedestres. Desprezíveis motoristas irresponsáveis que mataram meu querido cachorro.
Enfim, atravessei a rua, dei início a uma subida naquelas escadas que dão um rangido deprimente. Direcionei-me em direção a uma placa que diz: “Bilheteria”. E o que não é uma surpresa, a fila estava enorme, mas o atendimento é rápido, em três minutos eu estava de frente para aquela mulher que se encontrava atrás de uma cabine transparente, ela aparentava ter trinta anos de idade, tinha cabelos castanhos amarrados em um rabo de cavalo muito mal feito e uma pele branca cheia de acnes.
Ela estava com um olhar distante. Provavelmente pensando se os filhos arrumariam a casa até ela chegar, ou se o marido estava com outra neste momento.
Eu lhe passei três reais pelo compartimento por baixo do vidro, ela pegou o dinheiro com habilidade, colocou a nota de dois reais e a moeda de 1real em seus devidos lugares na gaveta do dinheiro e me passou uma passagem. Foi quando pude ver que, ao invés uma aliança no dedo, ela tinha uma marca mais clara do que a pele no resto do dedo anelar da mão esquerda, o que indicava que ela já foi casada por um bom tempo. Provavelmente descobriu que o marido a traía com uma vadia por ai, simplesmente por que a vadia com certeza tinha mais energia para lhe dar na cama, já que a mãe trabalha demais e ainda tem de se preocupar com os filhos. As pessoas definitivamente não conseguem nada sozinhas...
Dei uma piscada para ela e um sorriso simpático – um jovem dando em cima dela talvez levantasse sua moral -, nem parei para ver sua reação e me dirigi à catraca. Desci as escadas rolantes até encontrar uma placa vermelha pendendo no teto, dizia: “Jandira”.
Meu destino era o Parque Villa-Lobos, porém, como a estação estava cheia e eu sabia que o trem não teria espaço nem para colocar o pé. Então embarquei no trem em sentido Itapevi, o sentido contrario daquela linha, era a três estações daqui, e como é de lá que a maioria das pessoas vinham para trabalhar, o trem para lá estaria quase vazio.
Enquanto estava mergulhado em meus pensamentos, o trem chegou bloqueando a paisagem do prédio onde eu morava com suas listras cinza e vermelhas. Como eu imaginava estava quase vazio, me aconcheguei em um dos bancos e ele deu partida. Cheguei em Itapevi após nove minutos enquanto lia algumas paginas de meu livro. Quando a portas esquerdas do trem se abriram, uma manada de pessoas se pôs a entrar e a disputar os poucos bancos, após esses segundos de guerra, os que conseguiram um banco para aguentar a viagem de pouco mais de uma hora se vangloriaram, e a grande maioria ficou de pé se apoiando nas barras de ferro tampando tudo que se chamava espaço no chão com os pés.
Pronto, eu tinha meu lugarzinho, e agora era só esperar alguns minutos para o trem partir.
Após partir, eu podia ver pela janela do ao meu lado a vegetação sendo deixada de vista, assumindo outras formas. Aquilo era tranquilizador, mas meu pescoço já estava doendo daquele jeito. Então fiquei analisando as pessoas, algumas com os olhos fundidos no celular, outras atentas para conseguir um assento quando seu ocupante desembarcar, e alguns cochilando em seu próprio braço.
Isso sempre me faz viajar nas minhas memórias, comecei a pensar em como vim parar em Jandira:
Eu me apaixonei por uma garota, ela foi minha primeira namorada. Tínhamos 14 anos de idade, na época não tinha problemas, pois o projeto da Karasu que eu tinha iniciado com Davi ainda não tinha dado resultado algum: não passava de um flerte. Quando fiz 15 anos o projeto da Karasu começou a caminhar, e eu fiquei com medo. Um erro trágico. Acabei por dar preferência a meu namoro que não tinha nem um ano. Tudo correu bem, até que quando fiz 16 anos, essa tal garota... Terminou comigo! E desde então nunca mais tive notícias de Davi, que sempre tinha se mostrado contra o namoro.
Eu tinha feito aquilo por aquele amor ridículo que eu sentia, queria protegê-la, evitar um futuro desgraçante de fugitivos e ter uma vida normal, mas eu ainda não tinha maturidade suficiente para lidar com o que eu quero na vida e com um relacionamento ao mesmo tempo.
Minha vida desabou depois disso, tudo aconteceu de forma errada. E vim parar em Jandira. A única coisa que eu ainda tinha de bom era meu curso de química na faculdade. E todo dinheiro do qual eu dispunha vinha da pensão do meu pai.
E agora ali estava eu, indo em direção ao meu passado que não terminou. Karasu. Nasci para isto. É nisto que quero acreditar.
Continuei lendo meu livro enquanto o trem seguia caminho, imaginando como seria estar na pele de Raskólhnikov, o desgraçado do personagem principal.
O trem seguiu até a estação de Osasco, onde desembarquei e embarquei em outro trem do outro lado da plataforma, este ia em direção a Grajaú.
Neste desembarquei duas estações depois, “Villa-Lobos Jaguaré”. Esta estação é exclusiva para um grande parque, o Villa-Lobos. Esse era o ponto de encontro combinado. Mas, ainda tive que andar um pouco, caminhei até um banquinho de madeira perdido em uma das trilhas. Ele era branco, estava entre duas árvores, e ficavam a nordeste de uma torre em ruínas a mais ou menos 150 metros.
É bem aqui, tenho certeza.
Sentei-me neste, e fiquei a espera de alguma coisa ou alguém. Este era o ponto de encontro, e eu ainda não sabia como seria abordado.
Fiquei esperando por longos minutos, minha gastrite estava me matando por conta da ansiedade. Os minutos eram tortuosos e a dor não estava ajudando, mas também, não posso desistir. No fundo eu imagino que seja um teste. Então passei o tempo lendo.
Depois de exatos sessenta minutos, sentado no mesmo lugar, o tormento acabou. Fez-se ouvir um barulho semelhante a um grilo, porém, muito mais agressivo.
Cri, Cri!
Era uma espécie de radinho nextel preto. O som era de uma mensagem de texto que me deixou super feliz.
Parabéns! Você é bem paciente,
perfeito para nós. Se quiser mudar
o mundo: ligue para este número.
Eu olhei em volta pela centésima vez, sem nenhum resultado, mas estava feliz. Claro que eu estava me sentindo humilhado por estar fazendo testes para entrar em um projeto que eu criei, mas, tenho de admitir. Estou em uma situação horrível, tanto social quanto financeira, e isso de alguma forma, promete me ajudar.
Fiz a ligação.
– Olá Angelo, como vai? – disse um homem alegre.
Isso me pareceu bem amistoso para uma organização desse porte.
– An... Olá, estou bem... – eu disse.
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