Kaos - A Lenda de Asay
8 O Reflexo na Caverna
Notas iniciais
Aquela linha líquida vermelha quente, brilhante e viva se aproximava de mim, os gritos e súplicas da minha mãe se tornavam mais fortes e intensos. Ela me chamava sem parar. Era tão simples ajudá-la, era só me levantar, tirar as cordas do seu pulso e libertá-la. Tão... simples... o que estava me prendendo de fazer isso? Eu podia simplesmente salvar minha mãe...
Levantei minha cabeça e olhei pra ela com os olhos começando a lacrimejar. Olhei bem profundamente nos olhos dela, que transmitiam toda a dor que ela estava sentindo e passando naquele momento. Aquilo doía no mais profundo do meu coração, eu sabia o que devia dizer, apenas diga, Kaos...
— Você já morreu, mãe — comecei a chorar alto, aquela frase doeu como uma facada em meu peito.
— Não, não Kaos! Por favor, me ajude! Minha alma está sendo torturada, eu preciso da sua ajuda! — ela berrava. — Eu só quero sentir paz após a minha morte. Me ajude, filha! — ela não parava de gritar.
— Não, não é verdade, você não é minha mãe — eu gritava pra ela e chorava. Tentei parar de olhar pra ela, mas era muito difícil. — Pare de fingir que é a minha mãe! — gritei com ela chorando quase como um bebê.
— Kaos... Minha pequena... Por que está me rejeitando dessa forma? — ela chorava muito também. — Já não basta essa dor, ainda quer me apunhalar com essas palavras?
— Para, por favor! — comecei a tentar me colocar de pé, eu precisava sair dali. Ela não passava de uma alucinação...
Comecei a caminhar com muita dificuldade, ignorando os gritos da minha mãe, a cada passo que eu dava ela implorava para que eu voltasse e eu, com muita dificuldade, ignorei e continuei meu caminho para dentro da caverna como se tivessem duas balas de canhão presas em meus pés. Meu coração queria voltar e ajudá-la, mas minha mente sabia que aquilo não passava de uma alucinação.
Continuei caminhando e a voz e os gritos da minha mãe foram sumindo, até que em um ponto eu finalmente não escutei mais nada.
Senti um grande alívio e quando consegui respirar profundamente e fazer com que os gritos dela parassem de ecoar em minha mente, uma luz forte chamou minha atenção, como se estivesse amanhecendo dentro da caverna. Olhei na direção da luz, tentando tampar um pouco com meu braço esquerdo. Pisquei várias vezes para meus olhos se acostumarem e finalmente consegui ver uma pessoa, que se aproximava de mim na mesma posição que eu, como se fosse um reflexo. Quando meus olhos conseguiram voltar a enxergar naquela claridade, eu percebi que estava olhando para mim mesma, como se fosse um espelho. Me assustei um pouco, pois o fundo era de uma praia com palmeiras gigantescas e com uma água um pouquinho suja de algas, assim como a areia que parecia cheia de conchinhas e pedaços de corais trazidos pelas ondas e na verdade eu estava em uma caverna, então seria bem estranho refletir uma praia assim. Olhei para trás para ter certeza de que ainda estava na caverna e voltei a olhar para o reflexo e meu reflexo ainda fazia o mesmo movimento.
— Que coisa estranha é essa? — perguntei e o reflexo não seguiu minha voz e nem o movimento da minha boca.
— Estranha é você — meu reflexo me respondeu.
— O quê? — fiquei surpresa de conversar comigo mesma.
— De onde você veio? — ela me perguntou
— Do mesmo lugar que você, eu acho...
— Só não teve o mesmo destino, pelo que parece...
— Você é uma outra realidade ou algo assim? É um fantasma meu? Eu morri?
— Não faço ideia, só sei que não queria estar no seu lugar. Prefiro estar aqui, com meus pais e meu noivo.
— Pais? Noivo? — eu perguntava as coisas um pouco devagar, eu ainda não conseguia acreditar que estava conversando comigo mesma e ainda estava me recuperando dos gritos de minha mãe.
— Sim — ela respondia um pouco sem paciência. Então é essa cara que faço quando estou nervosa.
— Quem são seus pais?
— Simbad e Marina, ora essa. Como não sabe disso?
— É claro que sei disso, só precisava...
— Confirmar?
— Sim, porque eles estão mortos...
Meu reflexo se assustou com a informação e ficamos um tempo olhando uma para a outra.
— Nossa! Não me imagino em aventuras sem meus pais vivendo comigo. Deve ser terrível pra você.
— Eles participam das aventuras com você? — eu disse encantada só de imaginar e com um pouquinho de inveja.
— Sim! — ela riu. — Papai e mamãe são maravilhosos! Eles sempre têm um plano para sair das piores situações. Papai um dia desses me ensinou uma técnica com as cordas do navio que podem me salvar de qualquer problema, basta achar a corda certa, no lugar certo — ela piscou pra mim.
Eu ri, minha risada pareceu um pouco cansada. Fiquei imaginando toda a situação das cordas e como ele poderia ter me ensinado também. Me peguei desejando viver tudo isso também.
— O papai e a mamãe estão por aí? — perguntei ansiosa por vê-los e tentando ver além do meu reflexo. Eu sentia meus olhos pesados de tanto chorar.
— Sim, estão arrumando as coisas para voltarmos ao navio e ir rumo a novas aventuras.
Ela apontou para um ponto ao norte e eu pude vê-los arrumando o bote e rindo. Eu não conseguia ouvi-los ou vê-los com tantos detalhes, mesmo com meus poderes de semideusa. Mamãe, com seus cabelos curtos até o ombro, reclamou alguma coisa e meu pai continuou fazendo cara de convencido e riu quando ela saiu brava com ele. Como ele ainda era um moleque, dei uma risadinha. Então apareceu um outro homem ao lado dele, de cabelo curto preto e bem elegante, com um sorriso encantador. Ele ajudou a mamãe com algumas coisas pesadas que ela não dava conta de carregar e ela agradeceu, xingando ainda mais o papai, que a pegou e a girou abraçados. Eles riram e mamãe desfez a cara de brava. O rapaz continuou sorrindo e colocando as coisas da mamãe no bote.
— Quem é aquele marujo? — perguntei ao meu reflexo e então percebi que algumas lágrimas haviam saído dos meus olhos. Ver meus pais sorrindo e vivos era algo que sempre mexia comigo.
— Marujo? — ela olhou estranho pra mim.
— Sim, aquele que ajudou a mamãe...
— Ah, Killian — meu reflexo sorriu de maneira fofa, nunca me vi sorrir daquela forma e com aquele sentimento. — Killian não é marujo, ele é meu noivo.
Fiquei chocada e precisei piscar algumas vezes para acreditar no que havia acabado de ouvir. Noivo?
— Noivo? — a pergunta saiu mais calma do que o berro que foi em minha mente.
— Sim — ela deu uma leve suspirada. — Você ainda não conheceu Killian? — ela olhou pra mim com uma mistura de indignação e tristeza.
— Espera... Você não conhece Jack Sparrow? — o que havia acontecido com ele para que eu estivesse com esse tal Killian?
— Sparrow? Ai, pelos deuses! Não quero nem passar perto! — ela disse se arrepiando.
— Por que?
— Ele é um cretino, vive dando em cima de todas as mulheres que encontra. Ainda bem que nunca dei bola pra ele. Mas Killian... Ele realmente conquistou meu coração, sabe... E olha que não é uma tarefa fácil!
— Não mesmo — eu disse dando uma risadinha cansada.
— Não me diga que você nos uniu com o Sparrow — ela disse meio enojada.
— Bom, ele realmente me ama aqui. Nós sempre salvamos a pele do outro, afinal, nossos pais morreram e eu era muito nova, como me viro sozinha...
— Entendi — ela me cortou parecendo mais aliviada — juntos por conveniência, não é?
— O quê? Não! Claro que não...
— Ah, não seja ingênua, Kaos. Você não conhece muitos piratas além do Sparrow, não é mesmo? — eu não soube o que responder e confesso que fiquei com um pouco de vergonha, pois ela tinha razão, eu não conhecia muitos piratas atraentes, não como aquele tal de Killian. — Foi o que eu imaginei... Acredite em mim, Sparrow provavelmente está com você porque ele não tem opções mais bonitas que nós ou alguma meretriz que caia na lábia dele. Ele se acha um conquistador.
— Não acredito que seja só isso...
— Ele conseguiu mesmo enganar você com todo aquele romantismo europeu barato... — ela pareceu levemente indignada e mais uma vez aquele olhar de pena surgiu. — Mas olhe só, guarde minhas palavras, no primeiro momento que ele conhecer alguém que seja mais interessante que você, ele não vai pensar nem duas vezes antes de ir embora. E não digo apenas fisicamente, digo também por questão de interesses próprios — fiquei pensativa. Realmente eu não me surpreenderia se isso acontecesse. — Kaos, Killian é maravilhoso, ele realmente gosta de estar comigo. De estar com a gente — ela apontou para nós duas. — Já passamos por tantas coisas juntos que não imagino mais como seria navegar sem a sua companhia. Você pode vir pra cá, que tal nos tornarmos uma só? — ela sorriu e entregou a mão pra mim.
— Como assim?
— Você vem pra esse lado e nos tornamos uma só, Kaos. Você vive aqui, onde nossos pais estão vivos e você sente o que é ser amada de verdade e não por falta de opção.
— Isso não está certo... — eu disse sem acreditar muito nas minhas próprias palavras. Afinal, por que não seria certo ser feliz?
— Como não? Nós somos uma só, não lembra? Essa aqui também é sua vida.
Ela tinha razão, ali é meu reflexo, é a minha vida e eu poderia ficar ali com meus pais e conhecer esse Killian...
— Mas não... Não! Isso é um truque dessa caverna! — acordei para a realidade piscando algumas vezes.
— Truque? Claro que não. Que caverna?
— Você não é real, essa vida aí desse lado não é real!
— Claro que é — ela riu como se eu fosse uma criança ingênua. — E acredite Kaos, quando eu digo que merecemos algo melhor que Sparrow, eu digo a verdade. Mas se você não quer vir, tudo bem... — ela recolheu a mão que havia oferecido a mim. — Mas guarde bem o que digo: Sparrow não é nosso destino, você saberá quando encontrar Killian.
— Você é louca... Pior! Eu estou louca! Você é uma alucinação dessa caverna, já chega — balancei a cabeça pra ver se ela sumia, abri os olhos e ela permaneceu ali, no mesmo lugar, me esperando tomar uma decisão.
— Você tem essa escolha em suas mãos, Kaos — ela esticou novamente a mão pra mim. — Sua felicidade só depende de você.
Será que devo pegar? Será que é possível mesmo isso acontecer? Eu fui ao Tártaro, a Terra do Caos, já ouvi várias histórias e vivi coisas sobrenaturais. Por que minha felicidade não podia estar no sobrenatural também?
Não, a ignorei e continuei andando. Mas ela foi diferente, ela não me implorou pra ficar ou para ir para o outro lado. Fiquei olhando pra trás enquanto continuava meu caminho pela caverna, para saber se ela voltaria a falar comigo. Será? Será que eu deveria voltar e saber mais sobre esse Killian? Será que ele é real? Será que eu deveria encontrá-lo e desistir de Jack, afinal isso foi dito também logo que entrei na caverna. Eu raramente fico apaixonada por alguém, nunca vi aquele olhar apaixonado em mim antes. Era o mesmo olhar que Will lançava para Elizabeth. Por que gosto tanto desse Killian? Eu o vi de longe e realmente ele parecia atraente e bem familiarizado com meus pais... Como seria essa vida?
Não Kaos, pare de ser iludida por essa caverna, lembre-se do que a Cigana disse...
Mas e se... E se eu desse só uma olhadinha? Se eu só conhecesse esse Killian mais de perto? Como seria? O que meu coração sentiria? Eles brilhariam como as do meu reflexo? Como será a voz dele? O que ele fez para conquistar meu coração e o que eu fiz para conquistar o dele? Como nos conhecemos? Olhei para trás e a luz ainda estava lá. Meu reflexo já teria ido embora?
— Kaos? — chamei por meu reflexo.
Não vi nenhum movimento na luz. Não escutei nenhuma voz, ninguém saiu de lá de dentro. A única coisa que ouvi foi o barulho das ondas terminando de se quebrar na praia.
Será? Será que devo ir conhecê-lo?
Voltei a caminhar em direção à luz com bastante cautela.
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