Kalia
1 Capítulo 1 As Premeiras Camadas De Neve
Notas iniciais
28 de Dezembro de 1720, uma tarde fria, tão fria que o pequeno chafariz lá fora havia congelado. A neve caia sem pressa, como bailarinas dançando uma valsa, Mamãe estava junto à janela pondo a mesa. O que dizer da minha mãe? Submissa do meu pai, mesmo assim minha mãe era a pessoa mais calma que eu já vira, não pelo fato de ser minha mãe, mas realmente ela vicejava a tranquilidade a todo instante, mesmo quando meu pai colocava a culpa dos próprios erros nela. Eu lia junto a janela enquanto admirava toda a paz que envolvia aquele instante. Minha família era muito estável socialmente, era fácil para o meu pai manter a ordem já que éramos somente três pessoas naquela imensa casa, ele sempre foi um homem de poucas palavras, energético quando preciso e quando não preciso também.
Sempre que estávamos prestes a receber visitas importantes meu pai pedia para retirarem os melhores vinhos da adega, e naquela tarde receberíamos alguém mais importante do que de costume, não seriam grandes investidores ou compradores de armas. Meu pai era o dono de uma grande fabrica de armamentos, mas não era alguém que se interessava por esse tipo de negocio que receberíamos. Escutei os portões rangerem e ouvi o barulho abafado das patas dos cavalos na neve , meu pai acabava de entrar com sua carruagem puxada pelos seus lindos andaluzes negros, mas logo atrás havia outra carruagem sendo puxada por cavalos brancos que se misturavam a neve. Minha mãe olhou pela janela com um ar de aflição, meu pai com certeza devia ter lhe contato do que se tratava. Minha mãe nunca sabia quais assuntos as visitas do meu pai viriam tratar em nossa casa já que os negócios de meu pai somente a ele interessava, no entanto ela olhou como se procurasse um saída de um lugar que ela mal entrou, naquele instante eu soube que ela também fazia parte do que iria acontecer.
– Kalia, suba e apronte-se querida. — Disse minha mãe estendendo a o braço e mostrando as escadas.
Pedi ajuda para Alda uma de nossas empregadas que estava terminando de arrumar os talheres a mesa, e enquanto subíamos as escadas eu cochichei:
– Alda você ouviu alguma conversa do meus pais a respeito desse almoço?
Antes de me responder Alda me olhou atravessadamente por uns dois segundos com a cabeça ainda baixa ela me disse:
– Eu não ouvi nada Kalia. — respondeu com a cabeça erguida me olhando retamente.
Alda e eu não tínhamos formalidade uma com a outra, eu mesma a pedi que fosse assim, não me sentia na condição de exigir dela um respeito forçado. Conquistei o respeito dela através da nossa amizade. Mas não era porque eu era sua amiga que soube que estava mentindo, apesar de me considerar uma amiga, ainda sim, acima disso ela me considerava sua superior, não porque eu a lhe impus isso, mas porque o ambiente lhe mostrava que tinha que ser assim. Quando entramos no corredor no fim da escada e não estávamos mais a vista de minha mãe eu a puxei para perto da parede e perguntei novamente:
– Alda por-favor me conte o que você sabe. — neste momento as carruagens pararam.
– Venha, vamos para o seu quarto e eu lhe contarei o que sei. — segurava minha mão enquanto me puxava para dentro do quarto.
Entramos e eu fechei a porta, sentamos em minha cama e ela foi logo me contando:
– Eu ouvi seu pai dizer a sua mãe que o Duque Léesor viria hoje, mas o motivo da visita eu não sei.
O Duque Marco Léesor era um dos homens mais ricos da Austria, além de ser muito bonito também. A não ser que fosse declarar uma guerra não conseguia pensar em outro motivo pelo qual estivesse vindo até nossa casa.
– Venha Alda me ajude a trocar o vestido. — me levantei e fui escolher um.
Escolhi um branco, vermelho na barra e nas mangas que formavam um sino em volta das minhas mãos, eu sempre gostei muito dele. Logo quando terminei de me vestir minha mãe bateu a porta.
– Não podemos ficar esperando você por muito tempo, já estão pondo o almoço a mesa e seu pai quer que você desça logo. — disse minha mãe parada junto a porta.
Em nenhuma ocasião meu pai quis que eu me apressasse, pois como eu disse os seus negócios somente a ele lhe interessava, mas aquelas palavras de minha mãe confirmaram o que eu já imaginava. Aquela não era um visita qualquer.
– Já estou descendo mamãe, vou colocar o colar e os brincos.
Sentei-me de frente ao espelho e pedi Alda que me ajudasse com o feixe do colar, era uma bela gargantilha de brilhantes com rubis formando uma linha em seu meio. E eu estava pronta, se fosse a morte que estivesse me esperando eu estaria linda para ela. Desci as escadas junto com Alda e quando nossos rostos já tinha uma visão da sala meus pais e o conde estavam me olhando descer as escadas, meus pais pareciam apreensivos enquanto o conde parecia estar apreciando as nuvens serem arrastadas pelo vendo no céu quando olhava para mim.
– Bom Tarde Conde Léesor , espero que esteja gostando de nossa recepção. – Disse eu com um leve sorriso no rosto.
– Adorável, seus pais realmente sabem como entreter uma visita, e agora com vossa presença acredito que ficará melhor ainda. – Logo após o termino de sua frase ele se aproximou e beijou minha mão.
Não era cortejada assim a não ser em Bailes por amigos da família. Fomos para mesa enquanto eu sentia estranhamente minha mãe ainda diferente, ela vagava o olhar sobre meu pai, as vezes como se quisesse que ele encaixasse algo em sua cabeça. Sentamos a mesa e as nossas empregadas nos serviram. O conde olhava todos os meus movimentos, até o modo como eu comia, ele podia ser bonito mas não era nenhum pouco discreto, e aquilo já estava deixando incomodada. Não que meus modos a mesa fossem como o de um mendigo, mas realmente ser observada sempre me deixou constrangida. A situação começa fica enfadonha quando meu pai dirigiu a palavra ao conde:
–Desculpe-me a indelicadeza, mas Fiquei sabendo que o senhor conde irá a Bélgica em breve, e coincidentemente eu também estarei indo. – disse meu pai limpando o canto direito da boca com o guardanapo.
– Sim, senhor Sanstho, tenho algumas propriedades e negócios que tenho que saber como andam pessoalmente. Ah, séria muito bom se pudéssemos acompanhar um ao outro nesta viagem, não acha?
– Claro que sim. – respondeu meu pai dando uma risada.
– Mas deve ser torturante viajar e ficar tanto tempo sem ver duas belas damas como essas. – disse Léesor olhando pra mim e minha mãe, com um sorriso que devo confessar, encantador.
– É uma pena deixar minhas duas belas joias, mas todo homem tem que cuidar daquilo que possui e se eu não trabalhar como cuidarei delas? – retrucou meu pai.
– Certo, está certo, um bom homem sempre cuida de sua família. – respondeu o conde.
O almoço continuou enfadonhamente com meu pai e o conde conversando sobre os mais variados assuntos, eu poderia ter dormido e caído de cara no meu prato, minha vontade mesmo era de ler um bom livro. Perdida em meio aos meus pensamentos fui surpreendida por uma pergunta do conde.
– Não concorda Lady Kalia?
– oh-oh, Claro que sim. — Respondi sem o mínimo de noção sobre qual assunto falavam
– Viu, até sua filha concorda. — Disse o conde gargalhando acompanhado do meu pai.
Sinceramente, sua beleza não me interessou nem seu titulo, logo pareceu apenas uma pessoa comum aos meu olhos. Não por maldade minha ou falta de empatia, era como um tecido que quando você olha a primeira vez pensa “isso daria um lindo vestido”, mas olhando outra vez você pensa “o vestido pode até ficar lindo, mas combinaria comigo?” .
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