Notas iniciais
Está um pouco corrido para escrever, por isso que demorei tanto hehehe The Other Side of Paradise - Glass Animals

A aula de biologia mal havia começado e Joel já tinha me jogado um papelzinho para chamar minha atenção.

— Psiu, Charlie. O que você vai fazer sexta?

— Nada marcado ainda, por quê? – Perguntei sem levantar os olhos do meu caderno

— Ah, me convidaram para uma festa aí, quer ir? A gente podia chamar a Jasmine também. E se você conseguir, o que eu duvido, a Carmen.

Rindo, respondi que ele não conseguia ficar quieto um fim de semana sequer. Ele retrucou que a escola não havia começado de verdade ainda.

— Não, imagina. Só estamos no meio da primeira semana de aulas.

— Exato! Ainda é férias, praticamente.

— Bom saber que você pensa isso, Joel. Suas notas também ficarão nas férias esse semestre? – O professor parou entre nossas carteiras e reclamou, cruzando os braços. – Você também, Charlie. Eu conversei com você ontem mesmo. Vamos lá, o que acontece se um casal de sangue AB tem uma criança? Ela pode ter sangue tipo O?

— Não sei, Mr. Rodriguez.

— Era o que eu imagina. Pare de falar e preste atenção na aula! – Ele brigou, aumentando o tom de voz no decorrer da fala e batendo as mãos nas pernas.

Permaneci olhando para o caderno, sem me mexer. Então, quando ele andava de volta para a lousa, revirei os olhos perguntei baixo para Joel qual o problema dele comigo.

Mr. Rodriguez voltou a explicar sobre os tipos sanguíneos. Ele continuava a me encarar, bravo. Empurrei a minha mochila preta em cima da mesa para fazer tipo uma barreira e abri meu caderno. Para desenhar e não para copiar a lousa, obviamente. Comecei pelo formato do rosto e depois para o cabelo. Automaticamente, o lápis foi fazendo um rosto bem conhecido dos meus pensamentos. Só não fiz os olhos, porque não sei desenhar tão bem assim.

— Charlie, – Joel voltou a me chamar – você nem quis saber de quem é a festa?

— Ata que fui eu! Foi o idiota do Mr. Rodriguez que não me deixou perguntar.

Sem pensar muito, eu citei o nome dele um pouco alto demais. Ele virou rapidamente para trás e procurou quem o tinha chamado, confuso. Abaixei o rosto depressa e voltei a desenhar. Não pareceu funcionar muito bem, porque ele parou com o olhar em mim e, me jogando o pedaço de giz, pediu que eu fosse à frente.

— Será que você poderia resolver esse exercício?

Travei. Todo mundo estava me olhando, inclusive pessoas que nunca notaram a minha existência na classe. Gaguejando, respondi que não tinha ideia de como fazer.

— Como você não sabe?! – Mr. Rodriguez não é muito bom em controlar a raiva – Eu já fiz quatro exemplos aqui na lousa! – Ele fechou os olhos e respirou fundo. – Você ao mínimo sabe responder a pergunta do começo da aula? Dos pais AB? – Permaneci em silêncio. Ele bufou muito bravo – O que raios você está fazendo?

Irritado, ele correu até minha mesa. E se digo correu, é porque ele correu mesmo! Moveu minha mochila quase derrubando-a. Estupidamente, fechei o caderno e o segurei contra o peito. Isso me dedurou. Ele esticou o braço e pediu para ver. Sem dizer uma palavra, entreguei o caderno. Ele abriu e folheou, o que com certeza foi pior do que ele ver o desenho de Kayla.

— Faltam cinco minutos para o sinal, a classe está liberada. Charlie você fica.

As pessoas levantaram num pulo. Muitos riram e cochicharam que eu estava ferrada. Joel foi o último a sair, assustado. Ele sussurrou que estaria me esperando lá fora. Dúvido, porque com certeza ele sairia correndo para contar para todo mundo que eu estava levando bronca de novo. Mr. Rodriguez puxou agressivamente a cadeira da carteira da frente e sentou. Ficou me encarando por um minuto inteiro. Eu não conseguia encara-lo, então olhava para a mesa branca suja de poeira de borracha. Ele apoiou o caderno e cruzou os braços.

— O ano nem começou direito, Charlie. Você bem sabe que o ano passado foi mais que estressante e ainda assim está começando esse do mesmo jeito. – Folheou as páginas, mês mostrando o que eu já sabia – Foram somente duas aulas e seu caderno já está cheio de... o que raios é isso? – Ele adora dizer “o que raios” – Desenhos? Estão mais para rabiscos. Isso aqui não é aula de artes, caramba! Você não sabia sequer responder uma pergunta simples explicada no início da aula! Eu não entendo como você...

Eu ainda encarava a mesa. Não por vergonha ou medo. Era mais por... sei lá, não saber para onde olhar. Ele sempre faz o mesmo sermão. Todo ano, toda semana eu escuto e concordo com a cabeça. Depois, segundo ele, esqueço tudo e tiro 3 ou 4 na prova. Então ele pede para conversar com meus pais e eu levo esporro em casa. No final eu consigo passar de algum jeito. Mas é isso que importa, não?

— ...mesmo assim! Você pode até pensar que tudo isso que digo é idiotice e que meu único propósito é encher o saco, mas eu não estou tentando ser o vilão! Eu realmente me preocupo com sua educação...

É, estou vendo.

— Eu não o que se passa na sua cabeça, Charlie. Todos os professores estão reclamando da sua dispersão desde o ano passado. Nós sabemos que não foi fácil ver seus pais se separando e ter seu irmão morando fora de casa tudo ao mesmo tempo, mas você tem que aprender a lidar com essas coisas da vida! Aprender a superar as coisas!

Nessa hora eu olhei para ele. Levantei a cabeça bem devagar e encarei bem no fundo da sua alma. Percebi que ele ficou desconfortável. Às vezes eu sei fazer a outra pessoa estremecer. Se me permitir, eu sou uma das pessoas que melhor domina a arte do tratamento silencioso.

Porque, obviamente, só por ele me dar aula de biologia três vezes por semana, ele me conhece muito bem. Ele sabe o que eu senti quando meus pais se separaram, ou quando meu irmão se mudou. Ou mesmo quando meu cachorro morreu, ou quando eu briguei feio com Joel, ou quando eu quase reprovei, ou quando eu me apaixonei por Kayla. Ah é, ele sabe tudo o que eu sinto e sofro. Ele sabe tudo o que se passa na minha cabeça.

Se ele sabe de tudo isso, como ele pode dizer que eu não consigo superar as coisas? Meu querido, você não tem noção do quanto eu consigo superar.

— Eu só quero te lembrar que o problema é seu. – Ele voltou a falar, mas com a garganta um pouco presa no começo – Eu tentei meu melhor para te avisar. Você parece estar se distraindo muito. Se continuar desse jeito, talvez não consiga passar na minha matéria. Nem nas outras.

Então ficamos nos encarando por um tempo. Ele esperava que eu falasse alguma coisa, mas não ia. Ele suspirou e olhou para baixo para arrumar o sapato. E, me mandando embora com a mão, completou:

— Um dia você terá que deixar tudo isso sair, Charlie. Um dia você terá que conversar com alguém.

Andei até a porta e a bati forte atrás de mim. Já fora da sala, murmurei, ironicamente:

— Pode deixar, Mr. Rodriguez. Você será o primeiro a saber quando eu resolver fazer isso.