Kakera
9 Epílogo
Notas iniciais
http://www.youtube.com/watch?v=iBF5H8WfIS0
O vídeo tem a tradução da música, que, na minha opinião, combina muito com a história de Kakera. Dêem uma olhada.
“E quando eu for embora, eu só quero que ela continue seguindo em frente.”
Kanagawa, dezembro de 2011
— Natal
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O céu está pintado de estrelas e a lua é um sorriso branco flutuando na noite. Rin está debruçada na grade da sacada do apartamento, os olhos perdidos nas luzes de Natal que brilham como vaga-lumes na neve de dezembro. O cheiro temperado de frango frito serpenteia no escuro e dá água na boca.
Sesshoumaru adorava frango.
Do fundo do apartamento, vem o som de música alta e animada. Faz mais de uma hora que Kana está se arrumando — “ficando linda e poderosa”, como ela costuma dizer —, depenando o guarda-roupas e praguejando toda vez que tropeça nos próprios sapatos espalhados pelo quarto. Kana é a garota com quem Rin divide aquele apartamento no bairro universitário desde o começo do ano, quando ganhou uma bolsa de estudos para o curso de medicina. Ela agora quer salvar vidas. Sabe como é perder alguém que se ama e quer evitar que outras pessoas também percam.
A morte é uma velha traiçoeira que ela nunca vai perdoar.
Passaram-se dois anos, e ela ainda sente falta dele. Sempre vai sentir.
É quase meia-noite.
— Rin!
Ela olha para baixo e vê Kohaku acenando da calçada. Ele mora do outro lado da rua e, por algum motivo, está sempre sorrindo para ela. Um garoto magro e esguio com pinta de homem, mas que ainda tem aquele brilho infantil e ingênuo faiscando nos olhos. Kana tem idéias, no mínimo perversas, sobre a inclinação de Kohaku de estar sempre espichando um olhar sonhador na direção de Rin.
Toda manhã, os três amontoam-se num banco no fundo do ônibus que vai para a universidade e bocejam como gatos preguiçosos. Tem sido assim há um ano.
— Ah, Kohaku. — ela acena de volta. — Veio buscar a Kana?
— É, vamos encontrar o pessoal na praça e ver os fogos. Você não vem?
— Não se preocupe comigo. — pisca. — Tenho um bolo de Natal enorme aqui.
Rin finge que não percebe, mas a decepção no rosto dele é como um castelo de areia levado pela onda. Uma linha torta e carrancuda em que o lábio inferior se projeta para frente — como faz uma criança que recebe o não da mãe — é tudo o que resta de um sorriso que ia de orelha a orelha.
Ela sente vontade de rir, mas não o faz. A cena é engraçada, apesar de tudo.
— Sabe, Rin...
Ela já sabe o que ele quer dizer, e é melhor que não diga.
— Kana! Kohaku está esperando!
— Mas já?! — a voz vem de dentro do apartamento. — Não são nem...
— Sim, já são onze e quarenta e cinco.
— Oh, meu Deus! — portas e gavetas batendo. — Eu não acho minha bolsa!
É sempre assim.
Rin sorri um Feliz Natal e um pedido de desculpas da sacada quando Kana e Kohaku se afastam debaixo dos flocos de neve que começaram a cair — ela tagarelando sobre estarem atrasados, os saltos altos fazendo barulho na calçada, e ele simplesmente se deixando arrastar.
E quando então eles somem depois de uma esquina, Rin é apenas aquela garota respirando a própria solidão. Lembra de Sesshoumaru, daquele cabelo loiro quase branco, daquela palidez elegante, da voz aveludada que costumava lhe chamar de docinho e do cheiro de cigarro que ele tinha. Lembra de como ele a olhava e de como ela queimava debaixo daquele olhar, de como ele era gentil quando a tocava, do modo protetor e possessivo como ele segurava-lhe a mão quando estavam na rua. Lembra das melodias chorosas e arrastadas ao violão, da música gritada dos Sex Pistols, das nuvens de fumaça amontoando-se no teto da sala e dos gemidos subindo pelas paredes do quarto enquanto eles faziam amor.
Lembra-se da felicidade queimando dentro do peito.
Uma felicidade que já se apagou e caiu no sem-fim onde jazem as lembranças.
E ela agradece por ter sido tão feliz como a maioria das pessoas jamais será.
Os fogos da meia-noite explodem naquele céu gelado e Rin abre um sorriso de quem, na verdade, quer chorar. Mas não chorará. A noite está tão bonita que, se estivesse ali, Sesshoumaru ameaçaria lhe trancar num armário até que ela parasse com “aquela bobagem de garotinha”. E ela sabe que mesmo não podendo vê-lo ou tocá-lo nunca mais, ele ainda está por perto. Ela o sente — aquela presença calorosa que a envolve e a empurra para frente quando parece que nada mais tem sentido, que a desperta com um beijo e a arranca da cama todas as manhãs.
Afinal, ela sempre vai ser a sua garota.
Rin estende um braço para a noite — o outro está apertando Jaken contra o peito. A neve rodopia devagar num espiral que desce dos céus e vai derreter na palma de sua mão. No fim da rua, crianças escapam das mães e vão fazer bonecos gelados com olhos de tampinha e nariz de graveto. Kanagawa é uma enorme nuvem branca onde se perdem risos, luzes e lembranças.
— Feliz Natal, Jaken-sama.
Feliz Natal, Sesshoumaru.
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“Eu só quero que ela lembre de mim.”
Notas finais
Pra mim, o final da Rin nessa história não foi totalmente trágico e horrendo e, uh, inaceitável.
Ela perdeu a pessoa que amava, sim, e sempre vai se lembrar do Sesshoumaru e sentir falta dele. Mas foi justamente essa lembrança que a fez seguir em frente, vocês percebem? Ele continua sendo a força dela, a força de continuar, mesmo que sem ele. E acabou encontrando novas pessoas, fazendo amigos, tomando um rumo.
E esse é o mundo que eu quis mostrar pra vocês. O mundo que ninguém quer ver, mas que está sempre aqui, bem debaixo do nosso nariz. Os sonhos não duram pra sempre, mas isso não quer dizer que a gente não deva sonhar, certo?
Porque se não fossem os sonhos, onde estaria a beleza da vida, hm?
Agora, chega de mimimi.
Só queria agradecer, mais uma vez, a todos que acompanharam Kakera e comentaram a cada capítulo. Foi muito importante pra mim, vocês nem imaginam. Obrigada pela força, amores. sz
Beijos mil. *-*
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