Kakera

8 Capítulo 7


Notas iniciais
Oh, desire.
Esqueci completamente de postar o novo capítulo aqui ontem. Sorry. ):
Mas estou postando agora, e antes tarde do que nunca, né? q

“Eu poderia roubar a lua do céu se ela me pedisse. Eu poderia fazer desse mundo um inferno se ela quisesse vê-lo queimar.”

Outubro e novembro de 2009
— um último cigarro

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Quando Sesshoumaru abandonou o sofá e eles passaram a dividir a mesma cama, Rin começou a perceber coisas estranhas no meio da madrugada. Às vezes, eram as crises agudas de tosse. Ele sentava-se na beira da cama, curvava o corpo para frente e tossia até quase os pulmões explodirem. Então quando o acesso passava, ele se deixava cair ao longo da cama, exausto, e ela ficava-lhe a acariciar o peito até que a respiração voltasse ao normal.

Às vezes, eram os suores que lhe banhavam o corpo e os calafrios que o sacudiam em frêmitos nervosos. Rin acordava e encontrava os lençóis molhados debaixo deles, e por um momento, iludia-se dizendo a si mesma que o outono daquele ano estava mais quente do que o de costume. Mas então vinha-lhe aquela sensação estranha, aquela angústia sem explicação, e ela sabia que alguma coisa estava errada.

Só tinha medo de descobrir o que.

∷∷



— Rin...

A voz rouca, sussurrada, dele chamando por seu nome a fez estremecer. Estavam no chão da sala, engalfinhados entre o sofá e a estante da televisão, nus e ofegantes. Sesshoumaru investia com vontade, com tesão, entre as pernas dela, e embora Rin supusesse que o prédio inteiro podia ouvir os gemidos escandalosos que lhe escapavam por entre os dentes trincados, não conseguia simplesmente manter-se quieta enquanto ele a fazia derreter como um torrão de açúcar.

— Diga... Diga pra mim. — ele pediu enquanto beijava-lhe os seios.

— O quê?

Quase soltou um grito quando sentiu que ele sugava-lhe um mamilo.

— Diga que nunca será assim com outro homem. — e roçou a boca pelo pescoço dela, beijando, mordendo. — Diga que nunca te tocarão como eu te toco.

— Nunca haverá outro homem. Só você.

E quando ele derramou-se dentro dela — aquela parte sua que nunca vingaria no corpo de Rin — e deitou a cabeça pesada sobre seu peito, tudo o que Sesshoumaru quis foi ter um pouco mais de tempo ao lado dela, de sua garota.

— Só você... — ela repetiu baixinho enquanto afagava-lhe o cabelo. — Só você.

Então ele fechou os olhos e imaginou como seria tê-la para sempre.

∷∷



Há dias que ela tenta fazer aquela pergunta.

Há dias que ela pensa na resposta que ele pode lhe dar, e retrocede.

Mas agora são três da madrugada e ela não suporta mais fingir que está tudo bem. Há uma mancha de suor nos lençóis ao seu lado e o barulho solitário do chuveiro rastejando pelos cômodos escuros do apartamento.

Ela está só de calcinha quando joga as pernas para fora da cama e caminha decidida até o banheiro. Não há mais porta desde aquele dia — o dia em que ela pensou que o havia perdido para sempre —, apenas uma cortina pregada de qualquer jeito, e Rin empurra-a com força para o lado ao passar, um movimento nervoso e atrapalhado do qual Sesshoumaru teria rido se tivesse visto. Mas ele não vê, está dentro do box, apenas uma vulto por detrás da parede de acrílico.

Então, a pergunta:

— O que está acontecendo com você?

E como ele não responde, a aflição cresce e ela começa a falar:

— Por que não conta pra mim? Por que está fazendo isso comigo? Se estiver com algum problema, e eu sei que está, podemos dar um jeito e...

Mas a frase é cortada pela metade por um gritinho de surpresa que lhe escapa de súbito e as palavras não ditas se perdem para sempre no esquecimento. É tudo muito rápido — a porta do box que se abre, a mão branca que a puxa para dentro, a água fria que cai sem pressa e o corpo molhado que a prende contra a parede — e num piscar de olhos toda a sua obstinação se esvai.

E ela nem se lembra mais da pergunta que veio fazer.

∷∷



Era uma daquelas manhãs que ameaçam — nuvens gordas e pesadas boiando carrancudas, confabulando sorrateiras — quando Sesshoumaru levou o velho, mas ainda garboso, Opala Comodoro 79 de Naraku a uma estradinha esquecida do interior e deixou que Rin tomasse o volante.

Ela não fazia a mínima idéia de como dirigir um carro.

∷∷



Primeiro, o ronco cavernoso do motor — um gorgolejar de engrenagens que assusta e excita ao mesmo tempo. Há algo de selvagem naquele carro: ele treme paciente, mas ameaçador naquela estradinha de terra, esperando, espreitando como uma pantera negra que analisa a presa antes de saltar sobre ela. Não é um carro para garotinhas. É um carro para caras que andam por aí com coturnos pesados, corpos tatuados e um cigarro pendurado na boca como Naraku e Sesshoumaru.

Mas ela “precisa aprender a se virar”, ele dissera. E por isso estão ali.

A direção resvala debaixo de suas mãos e Rin não se lembra mais do que precisa fazer. Acelerar, talvez — e qual é mesmo o pedal do acelerador? Tenta o da direita, mas o carro não sai do lugar. Ao invés disso, o motor geme furioso e ela se encolhe como num pedido de desculpas desajeitado.

Sesshoumaru está rindo, o rosto meio escondido numa nuvem de fumaça de cigarro e um cotovelo para fora da janela. E tudo o que Rin quer é conseguir sentir um pouco de raiva daquela risada.

— A marcha, docinho.

— O quê?

— Faça a marcha. — e depois de uma pausa: — De preferência, a primeira.

Como ela continua encarando-o como se ele acabasse de falar num idioma completamente estranho e absurdo, piscando em busca de compreensão, Sesshoumaru conduz a mão dela até o câmbio e engata a primeira marcha. Rin gosta do modo como a mão dele, grande e quente, cobre a sua com firmeza.

— Não solte a embreagem.

— Como? — ela ainda está pensando em como seria bom se ele a beijasse agora.

— Aquele pedal. — ele aponta. — Não tire o pé daí.

— Ah, certo. Não tirar o pé da embreagem.

Ela percebe quando ele leva a mão fechada até a boca e pigarreia baixinho numa tentativa de manter-se sério. Mas Sesshoumaru está estourando por dentro — há qualquer coisa de ridículo naquela situação — e, na verdade, Rin também quer rir.

— Agora vá soltando a embreagem devagar, bem devagar, enquanto acelera.

Ela afunda o pé no acelerador e o carro berra outra maldição.

— Devagar! — ele sacode a cabeça. — E você não está soltando a embreagem.

— Estou sim!

— Não está!

— Estou! — as unhas fincadas na direção. — Quer ver?!

E não importa se ele quer ver ou não, ela mostra mesmo assim — e se arrepende no instante seguinte. O carro pula, salta para frente como um felino que mostra as garras e dá o bote. Rin deixa escapar um grito cheio de pavor que pede socorro. Aquela coisa está viva, é uma besta indomável que quer jogá-la contra o vidro dianteiro a cada solavanco.

Sesshoumaru grita um palavrão e qualquer outra coisa que ela não escuta.

Ela só quer saber como parar aquilo, aquela fera que geme, arranha, pula e vai avançando aos trancos. Rin nunca viu nada parecido, não sabia que os carros eram criaturas terríveis assim. Os nós dos dedos estão brancos, tamanha é a força — e o desespero — com que ela aperta o volante: é o ponto em que se começa a perder a noção das coisas.

Coisas estranhas que acontecem de maneira ainda mais estranha.

Como fechar os olhos e afundar o pé no acelerador desejando que ele seja o freio.

— Pare! Pare! Por favor, pare!

Rin não percebe que está gritando e o carro avançando desgovernado pela grama alta até que tudo pára num baque. O mundo é uma grande e nauseante ruína depois de cinco segundos de apocalipse. Por um momento, há apenas um zumbido ensurdecedor e a sensação de que o corpo todo está desmoronando. Mas não, ela ainda está ali — e alguma coisa lhe diz que está inteira.

É a voz dele que a faz desgrudar a testa do volante e abrir os olhos.

— O que diabos você estava tentando fazer?

A primeira coisa que ela vê é a careta de cólera e assombro no rosto de Sesshoumaru. A segunda é a mão dele grudada no freio de mão.

∷∷



Kurt Cobain está gemendo uma canção no rádio que é como aquele céu cor de chumbo. As poucas árvores que se erguem no descampado são criaturas solitárias e sombrias debaixo da luz mortiça daquela manhã que cospe maldições aos sussurros. Não há sol e também não há chuva, apenas a ameaça sem rosto flutuando espectral entre céu e terra. O ar é um fantasma que poderia sufocar.

E Rin não dá a mínima.

Porque, pela primeira vez, ela está dirigindo.

O Opala — aquele felino de épocas passadas — avança imponente pela estradinha sem fim. O campo coberto de verde também não tem fim, se perde no nada esquecido pelo homem. O tempo está parado, congelado naquele momento que é muitos e um só: nuvens feias e gordas boiando baixo, rolos de fumaça que saem da boca de Sesshoumaru e morrem ao caírem da janela, o ronco grave do motor, a sensação esquisita da vida queimando dentro do corpo.

E ela sorri.

Orgulhosa. Eufórica. Embevecida.

Os olhos verdes de Sesshoumaru mordem-na e acendem dentro dela uma chama que arde com a força de mil infernos. Chega a doer. Ele joga o toco do cigarro no carpete emborrachado aos seus pés e apaga-o com a sola do coturno. Nada precisa ser dito: está tudo escancarado no modo como ele a olha e no modo como ela reage.

Só a voz arrastada de Kurt Cobain murmura Drain you quando eles pulam para o banco de trás.

E isso é o que Rin chama de eterno.

∷∷



Então vem a tempestade.

Ela está deitada no banco traseiro só de calcinha e a blusa meio amarfanhada no corpo, o cabelo esparramado sobre o estofado e um pé apoiado no encosto do banco da frente, quando o vento chega numa lufada violenta e assovia ao passar pelas janelas do Opala. Rin ergue-se, espia para fora e vê a ventania lambendo a grama alta como uma criança que lambe um sorvete.

Sesshoumaru está de pé ao lado do carro fechando o cinto de tarraxa.

— Será que já está chovendo na cidade? — ela pergunta, debruçada na janela.

As nuvens agora correm depressa, atropelam-se.

— Talvez. Por quê?

— As janelas ficaram abertas.

Ele apóia os cotovelos no batente da porta traseira que está aberta e espia para dentro. Há um sorriso naquele rosto que a convida a esquecer as janelas e ficar ali, debaixo da tempestade que vai cair num minuto, fazendo ela bem sabe o que enquanto o céu despenca sem piedade. É uma idéia tentadora, e Rin quase sorri de volta — o sim pelo qual ele espera —, mas lembra-se das ameaças de Naraku naquela manhã e limita-se a negar com a cabeça. “Se não trouxerem meu carro de volta até o final da tarde, vou caçar vocês dois como os malditos filhos-da-mãe que são e alimentar o Buyo com seus pedaços”, ele dissera.

Buyo é o gato sanguinário de Kagura.

— Não? — ele ergue as sobrancelhas, sarcástico.

Ela deixa os ombros caírem com um suspiro e o encara numa súplica.

— Por favor, não faça isso comigo.

A gargalhada de Sesshoumaru é algo que lhe dá água na boca.

— Tudo bem, vamos embora. — ele concorda. — Ou Naraku vai pensar que fugimos.

— E nos caçará até a morte.

Rin veste o short que estava caído debaixo do banco do motorista enquanto tagarela sobre como deve ser terrível acabar como comida de gato — ainda mais daquele gato, que mais se parece com uma criatura selvagem e demoníaca do que com um animal doméstico. Já está quase pulando para o banco da frente, agarrando-se aos encostos e enfiando um pé sobre o freio de mão, quando percebe que Sesshoumaru não saiu do lugar.

Ela gira o rosto para olhá-lo — a pergunta está na ponta da língua, “você não vem?”, e o sorriso aberto pela metade — e gela como se a Morte lhe tivesse soprado a nuca: Sesshoumaru está branco feito um cadáver.

— O que você tem?

Mas ele não responde.

Apoiado na porta que se inclina sob o seu peso, o corpo meio curvado para frente e os olhos semicerrados como quem sente dor, ele é uma figura de cera prestes a desmoronar.

— Sesshoumaru, você...

Então o pânico explode dentro dela e tudo é uma mancha escura de terror.

Ele não consegue respirar.

— Ah, meu Deus! — é a primeira vez, em muito tempo, que Rin chama por Deus.

Sesshoumaru está caindo quando ela o pega por um braço e o puxa com aquela força desesperada para dentro do carro. Suas unhas riscaram a pele do braço dele e provavelmente haverá um “galo” sob a cicatriz de meia-lua mais tarde — onde sua testa encontrou acidentalmente o batente da porta —, mas aquilo não importa. Apenas o peito magro e pálido que sobe e desce com dificuldade.

Ele está sufocando, e ela não sabe o que fazer.

— Por favor, por favor... — a voz sai embargada. — Respire!

Os olhos dele rolam sem foco pelo teto do carro, aqueles olhos esgazeados perdidos no escuro de um pesadelo, e tudo o que Rin é capaz de fazer é chorar e sacudi-lo pelos ombros. Ela não sabe quando começou a chover, mas agora a água cai com brutalidade sobre o carro e as extremidades dos bancos estão ficando encharcadas.

Sesshoumaru parece-lhe terrivelmente mortiço sob os clarões que rasgam e fazem tremer os céus.

— Olhe pra mim! Sesshoumaru, olhe pra mim!

Ele pisca, tenta distinguir o rosto dela, mas tudo é como papel molhado.

— Rin... — apenas um sussurro, e como lhe dói.

— O que eu devo fazer?! Me diga, por favor, porque eu não sei!

Sesshoumaru só consegue pensar que não quer deixá-la ali.

— Dirija.

Um trovão estoura na tempestade e tudo estremece. O mundo está desabando, fantasmas de vento e chuva rodopiam ao redor do carro como num cortejo fúnebre e Rin sente que a própria respiração lhe falta.

Ela não suporta mais vê-lo agonizar.

— Dirigir? Mas pra onde? E eu não sei se... — as lágrimas brilham, geladas, nos olhos.

Ele ainda está vivo o suficiente para segurar-lhe a mão trêmula e abrir um daqueles sorrisos para os quais ela não sabe dizer não.

— Dirija, docinho.

∷∷



O ponteiro do velocímetro esteve cravado nos 80km/h durante quase o tempo todo, só desceu para os sessenta nas curvas. Os pneus derraparam nas ruas molhadas mais de uma vez, gritos arrastados de desespero na solidão da chuva que caía, aquele pranto desconsolado de uma tarde escura como a noite. E pelo caminho foram ficando lixeiras dobradas ao meio, placas arrancadas da calçada, pedaços de lataria que se soltavam às pancadas e daquele medo que dissolvia e rastejava como sombra com a água para os bueiros.

Respire.

Respire.

Por favor, respire.

Mas quando ela olhava para trás e via o sofrimento estampado no rosto de Sesshoumaru, o quanto lhe custava ainda estar ali, Rin não sabia se sentia alívio ou dor. Ou se sentia os dois.

Então a fachada do Nihonidai Hospital surgiu debaixo da tempestade e uma chama quente de esperança brilhou naqueles olhos que também choviam. Ela não percebeu que esteve chorando o caminho todo até encontrar o próprio rosto refletido no espelho interno do carro.

∷∷



Fazia horas que ela esperava.

Tinha consciência de que já estava há muito tempo encolhida naquela cadeira dura rente à parede do corredor, mas não fazia idéia se ainda era dia ou se caíra a escuridão da noite. Não se surpreenderia, aliás, se lhe dissessem que passavam das quatro da madrugada. Estava numa espécie esquisita de transe: sentia soltar-se do corpo e voltar àquela manhã no descampado como num sonho envolto em brumas. Afundava a cabeça sobre os joelhos e dormitava, para então despertar num sobressalto que lhe sacudia o corpo todo.

E sentia o coração tão apertado a ponto de doer fisicamente.

Queria ver Sesshoumaru.

Queria estar com ele.

Mas o médico e as enfermeiras a barraram quando ela tentou entrar no quarto para onde o haviam levado quase desacordado. Fizeram-lhe uma série de perguntas que ela respondeu mecanicamente enquanto apertava e estalava as juntas dos dedos.

— Ele apresentou algum mal-estar ultimamente?

Rin lembrou-se de como Sesshoumaru parecera doentio naquelas madrugadas em claro.

— Sim. Às vezes, ele... Não conseguia respirar direito.

— Teve tosse? Suores, principalmente à noite?

— Sim.

Os lençóis molhados, o cheiro de suor subindo quente pelas paredes do quarto.

— Perda de peso?

Ela limitou-se a assentir com a cabeça.

— Ele fuma?

— O tempo inteiro.

— Usa drogas injetáveis?

Silêncio.

A lembrança daqueles olhos vermelhos, insanos, a assombraria para sempre.

— Heroína, cocaína, morfina...

— Sim. — embora ela não soubesse qual. — Já faz algum tempo.

O ruído da caneta rabiscando coisas numa prancheta.

Passos apressados indo e vindo pelo corredor branco.

Tudo ali era tão claro que chegava a ser nauseante.

E então lhe disseram palavras estranhas que ela não entendia. “Endocardite aguda e infecciosa.” “Comprometimento das válvulas cardíacas.” Havia alguma coisa errada com o coração de Sesshoumaru: foi tudo o que ela compreendeu.

— Mas ele vai ficar bom, não vai?

O médico apenas soltou um suspiro cansado, a prancheta presa debaixo do braço, e pousou a mão no ombro de Rin. Ela encolheu-se como se ele a tivesse batido.

— Não podemos fazer muita coisa agora. Ele deveria ter se tratado quando isso começou, mas nada foi feito e a infecção evoluiu depressa. Aplicamos a medicação, mas não está mais em nossas mãos, você entende?

Não. Ela não entendia. Não queria entender.

— Seja o que for, vai acontecer essa noite.

E deixou-a sozinha naquele corredor que cheirava à morte.

O mundo que Rin conhecia tinha começado a desabar.

∷∷

Ela perambulava de um lado ao outro do corredor da UTI naquela primeira hora de madrugada, uma figura exaurida e atormentada, quando o grito de uma enfermeira lhe eriçou os pelos dos braços. E vinha do quarto de Sesshoumaru. Que os seguranças do hospital lhe arrastassem para fora aos berros e lhe jogassem debaixo da chuva triste que ainda caía, que se danassem todos eles.

Ela precisava vê-lo.

Mas ao invadir o quarto numa corrida desesperada, desejou não ter visto.
Sesshoumaru era a morte encarnada.

Uma magreza exacerbada. Uma palidez doentia sob a luz gelada que descia do teto. Os olhos fundos, cansados, de quem tem lutado por muito tempo e não consegue descansar. E todos aqueles fios e máquinas ligados ao seu corpo como monstros de metal a sugarem-lhe o último sopro de vida...

Rin chegou a tempo de vê-lo arrancando do rosto o tubo de oxigênio.
E jogou-se sobre ele como a criança assustada e chorona que era. Queria perguntar por que ele não contara que estava doente, por que deixara que as coisas chegassem aquele ponto. Queria chamá-lo de idiota aos gritos e estapeá-lo por fazê-la sofrer como se nada, nunca mais, fosse dar certo. Queria beijá-lo com a saudade de mil anos e muitas vidas. Queria dizer que o amava e que ele era tudo o que ela sempre teria no mundo.

Queria só ficar ali naqueles braços que já não eram tão quentes e que quase não tinham força para apertá-la.

— Rin... — ele murmurou baixinho. — Me desculpe.

— Por quê? — seus soluços pipocavam alto pelo quarto. — Por que fez isso?

Sesshoumaru beijou-lhe o alto da cabeça e embalou-a naquele abraço.

— Eu só queria passar o resto do meu tempo com você.

— Seu idiota... — ela choramingou. — Ainda vamos ter muito tempo e...

Um acesso de tosse o atingiu e Rin sentiu-se chacoalhar junto ao corpo dele. A enfermeira e o médico tentaram lhe arrancar de perto da cama, mas a mão de Sesshoumaru ainda a agarrava com força pelo pulso e ela empurrou-os para longe. Não sairia do lado dele, não mais.

— Doutor, sem o oxigênio ele vai... — miava a enfermeira. — Doutor, olhe! Olhe!

Sesshoumaru passou a mão trêmula pelo peito e arrancou os fios colados à pele, assim como fez com o tubo fincado na parte de dentro do cotovelo. O monitor ao lado da cama soltou um grito fino que se espichou numa angústia mecânica e abafou os protestos das duas criaturas de branco a matraquearem ao pé da cama.

— Calem-se, vocês dois, e saiam daqui. — ordenou Sesshoumaru.

E apesar de sua voz ter saído imperiosa, Rin percebeu o quanto aquilo lhe custou.

— Espero que você saiba que... — começou o médico.

— É, eu sei. Agora vá para o inferno e suma da minha frente.

A enfermeira tinha os dois olhos esbugalhados e a boca meio aberta quando o médico a levou consigo para fora do quarto e fechou a porta. O monitor havia parado de gritar e tudo mergulhou num silêncio mortiço. Rin deitou a cabeça sobre o peito de Sesshoumaru e ficou ali escutando o coração dele bater. Um chiado arranhava-o por dentro a cada respiração.

— Rin, pegue... — uma pausa para recobrar a voz que falha. — Meu cigarro.

— Não vai fumar agora.

— O cigarro e o isqueiro. — ele aponta. — No bolso da minha calça.

— Não. — ela está encolhida debaixo do braço dele.

— Eu estou morrendo. Vai negar meu último pedido?

Ela o encara com os olhos cheios de água, o lábio trêmulo e um medo imenso de continuar sem ele, de ficar sozinha. Não entende como Sesshoumaru pode pensar em fumar quando mal consegue continuar respirando, mas vasculha os bolsos do jeans dele largado sobre a poltrona no canto do quarto e atende seu último pedido: um último cigarro.

Ele tosse, não é mais capaz de uma boa e longa tragada. A nuvem de fumaça que agora sobe para o teto branco parece um fantasma velho e doente. Rin beija-lhe o contorno da mandíbula e ele percebe que os lábios dela estão molhados. Sente o gosto triste das lágrimas da única garota que amou quando a beija devagar — não quer perder nada dela agora.

— Quando eu for embora... — ele sussurra. — Não fique sozinha no apartamento.

— Não quero que você vá.

— Pegue suas coisas e vá pra outro lugar. Comece tudo de novo.

Sesshoumaru afaga-lhe lentamente o cabelo.

— Não quero ir a lugar algum se você não estiver comigo...

— Não diga bobagens, docinho.

A respiração dele é agora uma coisa ruidosa que definha.

— Eu te amo tanto... — ela não fala, chora. — Que quero morrer também.

— Eu também te amo, e por isso quero que viva.

O cigarro ainda está aceso na boca de Sesshoumaru quando ele fecha os olhos e dorme para sempre.

∷∷



O apartamento pareceu apenas uma sombra vaga quando ela passou pela porta. Os móveis eram vultos mortos, carcaças assombradas, mergulhados no escuro e na solidão de décadas. Ela tinha estado fora por apenas uma noite — aquela noite terrível da qual jamais se esqueceria — e era como se o tempo tivesse se espichado num espaço de anos e mais anos. Era como se aquele lugar nunca tivesse existido.

Como se nada nunca tivesse acontecido.

Será que ela havia sonhado tudo aquilo?

Não. Não fora um sonho. As mãos frias dele naquele último instante foram reais. A dor que agora ela sentia também — a dor de perder a única coisa que se tem no mundo, a única esperança, o único motivo. Ela estava só, mais uma vez, e compreendeu que agora seria para sempre. Mesmo que estivesse no meio de uma multidão, Rin estaria sempre só.

Porque ele se fora, e a deixara para trás.

Arrastou-se até o velho sofá, abraçou Jaken contra o peito e encolheu-se como um feto na barriga da mãe — daquela mãe que ela nunca teve. E sentiu o cheiro dele no estofado esfarrapado: o cheiro de suor, cigarro e solidão. Aquele cheiro de coisa perdida que rola, rola, rola sem destino pelo mundo. E ela chorou.

E chamou pelo nome dele, mas ele não veio.

Ele nunca mais voltaria para ela.

Aquele homem estranho.

— Por quê? Por que você não me levou junto, Sesshoumaru no baka?

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“Eu poderia levá-la comigo só para poder ver aquele sorriso uma vez mais.”

Notas finais
Ok, agora antes de me jogarem pedras, LEAIM ISSO:
Sei que vocês não queriam que o Sesshoumaru morresse no final, queriam que ele ficasse vivendo feliz pra sempre com a Rin e tal. Mas vocês acompanharam a história até aqui, vocês sabem como foi a vida do Sesshoumaru e espero que entendam que nada relacionado a ele poderia acabar num conto de fadas.
Well, essa fanfic não é pra ser um conto de fadas.
É algo que pretende se identificar com a realidade, como as coisas são de verdade.
E as escolhas que a gente faz, todas elas, nos levam por um caminho. E às vezes esse caminho não tem volta, vocês entendem? Só nos resta encarar as consequências daquilo que fizemos. E foi isso o que aconteceu com o Sesshoumaru. Ele já estava doente antes de encontrar a Rin.
E foi esse o caminho que ele acabou tomando.
Se depois de entender isso, vocês ainda quiserem me esfolar viva, à vontade.
Mas devo dizer que essa seria a minha consequência, porque eu amei escrever essa fanfic e amei o modo como ela acabou se saindo aos meus olhos. E, claro, amei o quanto vocês gostaram dela até então. sz
E enfim, o epílogo sai dia 22.
Espero que vocês ainda estejam aqui pra saber como ficou a vida da Rin depois disso. ♥