Kakera
2 Capítulo 1
Notas iniciais
“Eu estava perdido. Eu estava afundando e não me importava.”
Abril de 2009
— dois dias depois
~
Rin acordou banhada no próprio suor.
O peito subia e descia com violência quando ela sentou-se de súbito na cama e procurou, no escuro, o monstro de seu pesadelo. Mas não, o Sr. Akira não estava ali, não lhe bateria com o cinto e também não a trancaria no porão escuro e encardido do orfanato, como fizera várias vezes quando ela era menor. Aquele homem nunca mais a tocaria, nunca mais colocaria os olhos sobre ela, Rin tinha prometido a si mesma no dia em que fugiu.
Fora apenas um pesadelo — o que não mudava o fato de que ela não sabia onde estava. Esperou que os olhos se acostumassem ao escuro e olhou melhor ao seu redor. O quarto era pequeno, atravancado e o próprio caos. Fiapos de luz escapavam das frestas de uma janela fechada, revelando todo tipo de coisa espalhada pelo chão: camisetas e meias, jornais, carteiras de cigarro, embalagens de comida, garrafas vazias, uma mochila, um violão caído perto da cama.
Um homem dormindo.
Não qualquer homem. Ele.
Rin prendeu a respiração — temia acordá-lo se soltasse o ar rápido demais, alto demais. E então ela não saberia o que fazer. Jogado displicentemente sobre uma velha poltrona de estofado em frangalhos, ele parecia ao mesmo tempo inofensivo e assustador. Os longos cabelos de um loiro tão claro que se assemelhava ao branco — e não era mesmo branco? — caíam-lhe sobre os ombros, e toda a sua pele era de uma palidez tão mortiça como Rin nunca tinha visto. A calça jeans escura, única peça de roupa que vestia, só acentuava tamanha brancura.
E como era belo... Esguio, magro, estranho, mas de uma beleza sem igual. Ela não pôde deixar de se sentir envergonhada, ali, tão perto. Ela, aquela coisinha pequena, desajeitada, estragada. Aquela coisinha medíocre. Não conseguia imaginar por que ele a trouxera para sua casa, quando qualquer outro não teria se importado.
Porque ninguém, nunca, havia se importado.
E sem perceber que o fazia, ela inclinou-se sobre a cama para vê-lo melhor. Mas já não era suficiente. As tatuagens nos braços dele que ela não compreendia; as veias, azuis, visíveis sob a pele na parte de dentro dos cotovelos; os pés descalços no assoalho gasto do quarto. Nada bastava. Ela precisava chegar mais perto, ainda mais perto, e descobrir o que ele era — como se estivesse diante de um animal raro que ela via pela primeira vez.
Então, ali estava ela. De pé ao lado dele, a cabeça inclinada para o lado, observando-o curiosa e silenciosamente. Não ousava tocá-lo, mas estava tão próxima que podia sentir a respiração dele no rosto, um hálito de cigarro e álcool. Havia alguma coisa em sua testa, uma cicatriz. Rin chegou mais perto para ver: uma cicatriz em forma de meia-lua.
Foi então que ele abriu os olhos.
~
— Bu.
E ela jogou-se para trás, assustada, cobrindo a boca com as mãos por ter deixado escapar um grito de surpresa. Acabou tropeçando no violão deixado ao pé da cama e caindo, sentada no chão, como uma criança.
Durante os cinco segundos que se seguiram, tudo foi um silêncio desesperador. Então, quando Rin sentiu que o coração ia explodir, ele começou a rir — na verdade, a gargalhar. E embora o rosto queimasse, ela tomou coragem para erguer os olhos e encará-lo.
Aquele homem estranho.
— Tudo bem. — ele suspirou, parando de rir. — Não vou comer você.
Ela continuou olhando-o, muda, assustada e sem saber o que fazer.
Mais silêncio.
Ele então inclinou-se na poltrona para ela e observou-a com curiosidade. Aqueles dois olhos verdes, tão perto, pareciam mesmo a ponto de comê-la.
— Você fala?
Ela engoliu à seco.
— Sim.
— Bom. — ele coçou o queixo. — Se sente melhor?
— Sim... — Rin assentiu, embora não lembrasse de que havia adoecido.
Ele a encarou como se estivesse cansado dela.
— Pode, então, falar qualquer coisa além de sim?
— Sim. — a palavra saiu antes que pudesse pensar nela.
O homem afundou o rosto na palma da mão e acabou soltando um suspiro, ou uma risada, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Rin gostou de como aquilo soava. Ele enfiou a mão num dos bolsos da calça jeans quando alguma coisa ali começou a fazer barulho: um celular, ela logo percebeu.
Quando ele levantou-se da poltrona, parecia ainda mais alto do que ela supunha. Observou-o — do chão, que parecia o seu lugar — pegar uma camiseta preta que estivera pendurada na porta e vesti-la. Lia-se Sex Pistols nela, e Rin ficou imaginando o que significava. Ele então sentou-se na beira da cama, que rangeu sob seu peso, e colocou as meias e os coturnos de couro.
— Preciso sair. Você fica aqui e me espera. — ele olhou-a. — Tudo bem?
Ela assentiu. O que mais poderia fazer?
— Certo. Agora venha aqui.
E quando ele saiu do quarto, Rin simplesmente seguiu-o. Não entendia por que tudo ali estava tão escuro e as janelas fechadas, se ainda era dia. Bateu o rosto nas costas dele ao não ver que ele tinha parado, e precisou se apoiar na parede para não cair outra vez.
De repente, uma luz se acendeu e ela percebeu que estavam parados na porta do banheiro. O braço dele apontava para as portas do balcão debaixo da pia.
— As toalhas estão ali. Tome um banho quando quiser.
Não precisaram andar mais de cinco passos para passar pela sala — um amontoado de sofá, televisão, rádio, estante e lixo — e chegar à cozinha. O apartamento era minúsculo. Rin ficou parada ao lado da mesa de quatro lugares enquanto ele tirava uma garrafa de água da geladeira e bebia no gargalo.
— Deve ter alguma coisa pra comer no armário, caso esteja com fome. — ele fez uma pausa e olhou pensativo para o armário empoeirado. — Só olhe o prazo de validade antes de comer.
— Onde você vai? — ela só se deu conta da pergunta depois de tê-la feito.
O homem encarou-a, calado, por um momento. A porta da geladeira ainda aberta, a garrafa de plástico na mão, a meio caminho da boca. A garota havia dito qualquer coisa além de sim, afinal.
— Trabalho. — ele devolveu a garrafa à geladeira. — E estou atrasado.
Ia saindo pela porta da cozinha, quando ela começou a titubear.
— Eu... Eu ainda não sei...
— O meu nome, não é? — ele atalhou. — É Sesshoumaru.
— Sesshoumaru. — ela repetiu baixinho, mas ele ouviu e sorriu, achando graça.
— Quer me dizer o seu?
Ele já ia saindo, apressado. Rin ouviu o barulho de chaves tilintando quando ele passou pela sala.
— Rin. — ela forçou a voz a sair alta o suficiente para que ele pudesse ouvir.
— Esteja aqui quando eu voltar, Rin.
E então o som da porta batendo.
~
Era quase meia-noite quando ele voltou.
Rin colocou os CDs de volta no lugar — Ramones, Stooges, The Clash, todas bandas que ela não conhecia — e correu para a cama enquanto os passos dele faziam estalar o assoalho. Sentou-se sobre as pernas e esperou, como uma estátua, que Sesshoumaru aparecesse na porta do quarto. Não havia encontrado nada que ainda estivesse bom para comer no armário da cozinha, e estava faminta, mas ao menos tomara banho e sentia-se bem melhor sem aquela camada de suor e sujeira colada ao corpo. Pegara uma camiseta dele — seu vestido estava imundo e estraçalhado — e esperava que Sesshoumaru não se importasse.
De fato, ele pareceu nem notar.
— Ah, aí está você. — ele jogou duas sacolas plásticas sobre a cama, diante dela, e deixou-se cair na poltrona. — Pensei que tivesse fugido.
Rin pensou em dizer que não tinha para onde fugir, mas o cheiro de comida que veio das sacolas atiçou-lhe a fome e ela ocupou-se em espiar para dentro delas. Antes que pudesse perceber, já tinha aberto uma embalagem de onigiri e abocanhado o bolinho de arroz.
Há quanto tempo não comia comida de verdade?
Sesshoumaru pegou uma das sacolas e foi para a janela do quarto, abriu-a com a facilidade que só o dono da casa tem e sentou-se recostado na moldura enferrujada. A brisa fresca da noite encheu o cômodo e Rin ouviu os barulhos da rua: carros acelerando, pessoas falando e um cachorro latindo. Só então percebeu que não fazia a mínima idéia do que havia do lado de fora daquele apartamento, e na verdade, aquilo não lhe importava.
Mastigou com imenso prazer o primeiro sushi, já cutucando o segundo com o hashi, quando ele começou a falar:
— Eu estive pensando sobre o que aconteceu, aquele dia... — uma pausa enquanto ele remexia a comida na embalagem com o par de hashis, distraído. — Talvez você queira ir a um médico, e...
— Não. — ela cortou-o.
Não, não queria falar sobre aquilo. Não queria lembrar, se fosse possível.
— Foi a primeira vez? — ele insistiu.
Mas não precisou de nenhuma resposta. Rin apenas se encolheu e endureceu como alguém que sente dor, baixou os olhos para a embalagem de comida e permaneceu daquele modo, sangrando, sangrando, sangrando...
— Está tudo bem agora. Não vai acontecer de novo.
Ela ergueu os olhos até ele, aqueles olhos cheios de tristeza.
— Como você pode saber?
— Você não acredita em mim?
E quando ele a encarou, firme, ela soube. Rin soube de muitas coisas.
— Acredito. — ouviu-se afirmando, e sentiu que era verdade.
O silêncio os engoliu, mas daquela vez, não foi desconfortável. De algum lugar da rua, o cachorro voltou a latir e Sesshoumaru soltou um palavrão baixinho, mas não tão baixinho que Rin não pudesse escutar. E sorrir.
Sorrir como há muito, muito tempo, não sorria.
— Que idade você tem, Rin? — ele perguntou.
— Quinze. — respondeu após enfiar um sashimi na boca. — E você?
— O que você acha?
— Dezoito? — ela pensou, então chutou outra vez. — Dezenove?
Ele jogou a embalagem vazia de comida pela janela e fitou-a com sarcasmo.
— Vinte.
— Quase. — ela deu de ombros.
E pela primeira vez, sorriram um para o outro.
~
Mais tarde naquela noite, antes que Sesshoumaru a deixasse no quarto e fosse dormir no sofá da sala — ela havia insistido para que ele ficasse com a cama, que era sua por direito, mas ele se recusara —, Rin chamou-o pelo nome e ele parou na porta, esperando.
Silêncio.
— Obrigada. — ela disse.
Ele a fitou, calado, um pouco mais.
Poderia ter dito que ele também se sentia agradecido simplesmente porque ela estava ali. Poderia ter dito que matara os dois garotos que a violentaram e que, não, não se sentia nem um pouco arrependido do que fizera. Poderia ter dito que nunca deixaria que outro homem tocasse nela daquele modo. Poderia ter dito, apenas, boa noite.
Mas não disse nada.
Apenas saiu e fechou a porta.
~
Para Rin, os dias que se seguiram foram todos iguais e todos incrivelmente diferentes — e sim, isso é possível. Dormiam sempre até o meio-dia, no mínimo. Às vezes, ela acordava com o som da música vindo da sala, caminhava nas pontas dos pés até lá e espiava, como uma intrusa, pela quina da parede. Sesshoumaru estava atirado no sofá, sem camisa, as pernas para cima e os calcanhares sobre uma das prateleiras da estante, o longo cabelo branco esparramado no estofado desbotado e nuvens de fumaça subindo até o teto enquanto ele fumava.
E ouvia-o murmurando as letras das músicas.
“God save the queen, she ain’t no human being”, ele havia cantarolado uma vez, e ela não entendeu o que aquilo queria dizer.
Às vezes, Rin acordava primeiro, passava pela sala como uma assombração, no mais absoluto silêncio, e preparava o almoço — as meninas do orfanato onde crescera “ajudavam” na cozinha, e assim ela aprendera a cozinhar. Então ele chegava bocejando, sentava-se à mesa e comia com vontade.
E elogiava a comida que ela havia preparado.
Às quatro horas — ou um pouco antes, ou um pouco depois, ele não era pontual —, Sesshoumaru saía para o trabalho. Rin soubera que ele trabalhava num cinema porque à noite, quando voltava para casa, comentava com ela qualquer coisa banal sobre como tinha sido o dia: uma garota que gritou durante todo um filme de terror, ou uma criança que derrubara um pacote inteiro de pipoca sobre a poltrona — e ele precisou limpar “aquela droga”, no final da sessão —, ou um moleque qualquer que tentou entrar sem pagar o ingresso. Algumas vezes, simplesmente reclamava do patrão. “Aquele gordo estúpido” e “aquele porco filho-da-mãe”.
E Rin apenas ria, achando engraçado.
— Do que você está rindo? — ele fingia-se mal-humorado. — Já pra cozinha.
Ela sorria, curvando-se teatralmente para fazer uma reverência.
— Hai, Sesshoumaru-sama.
E ia preparar o jantar, deixando-o no quarto com aquele meio-sorriso sarcástico.
~
Quando ficava sozinha no apartamento, Rin ocupava-se tentando tornar aquele lugar humanamente habitável. Tirava nuvens de poeira dos móveis e descobria coisas realmente interessantes nos lugares mais inusitados: uma lata de refrigerante vazia e amassada dentro do armário do banheiro, um chinelo atrás da geladeira, um copo debaixo do sofá e até mesmo uma revista dentro do guarda-roupa, entre os tênis — uma revista pornô, ela corou até o último fio de cabelo ao perceber.
Colocou o nariz para fora do apartamento pela primeira vez ao sair para levar o lixo — tentara não jogar fora nada que ele pudesse querer, aquele homem estranho. A rua sempre lhe fora cruel, feia e impiedosa. A rua sempre fora o seu inferno. E agora que saíra dela, não queria mais voltar. Rin pensou que se pudesse passar o resto da vida enfurnada dentro daquele apartamento com Sesshoumaru, seria maravilhoso — muito mais do que simplesmente maravilhoso, mas não existia uma palavra para o que ela queria dizer.
Um carro passou roncando pela rua. Em algum lugar ali perto, uma mulher gritou xingando e um homem berrou de volta: “urusai!” Um menino de bicicleta veio dobrando a esquina, derrapou e caiu. Seu choro cheio de dor e medo inundou a rua, e como se isso não bastasse, o cachorro — “o maldito cachorro que fica latindo à noite”, dissera Sesshoumaru — juntou-se à gritaria. Rin encolheu-se, assustada. O coração tremendo dentro do peito.
Tudo a apavorava.
A rua era um monstro, e as pessoas igualmente monstruosas.
Pálida, ela correu de volta para dentro do apartamento e bateu a porta, dando duas voltas na chave. Arrastou-se até um canto escuro entre o sofá e a parede da sala, abraçou os joelhos e escondeu o rosto sobre eles. Nunca mais voltaria para a rua, para aquele horror sem fim, e se não pudesse mais ficar ali, preferia morrer.
Sesshoumaru era tudo o que ela tinha.
~
Aquele homem estranho, e solitário.
Como ela não tinha percebido antes?
O modo como ele, às vezes, ficava olhando pro nada, perdido. Perdido em algum lugar dentro de si. Aqueles olhos tão bonitos, e tão tristes — de uma tristeza tão profunda que ela quase não suportava encará-lo naqueles momentos. E quando ele sentava-se na janela do quarto, à noite, e tocava qualquer coisa no violão, Rin sentia os olhos cheios de água e o coração apertado.
Porque eram canções de solidão.
E ela sabia como era ser sozinho no mundo.
Ficava ali, sentada sobre a cama, chorando por dentro — chorando por ele, pela sua dor — enquanto ele tocava. E via-o como ele era de verdade, como sabia que ninguém mais podia ver: uma coisa solta no mundo, deslocada no tempo e no espaço. Um desapego da humanidade, uma tristeza sem precedentes, um grito de agonia sem voz.
Um solitário.
Assim como ela, Sesshoumaru era um solitário.
Naquela noite, o violão emudeceu de repente e ele a encarou, confuso — lágrimas desciam pelo rosto dela.
— O que você tem? — perguntou perplexo.
Mas não recebeu resposta.
— Rin? — ele chamou, o nervosismo crescendo em sua voz.
Novamente, o silêncio.
Então ela desceu da cama e fez o que sentia que precisava fazer: abraçou-o. De súbito, sentiu-o congelado debaixo de seus braços, petrificado. Imaginou que ele havia parado de respirar, pois tudo, absolutamente tudo, caiu num silêncio abissal.
O mundo desapareceu ao redor deles.
Ainda eram só os dois quando, por fim, Sesshoumaru colocou os braços ao redor dela e a apertou com uma gentileza, uma ternura, que Rin nunca havia conhecido.
Ela escutou o coração dele batendo, batendo, batendo... Batendo sempre.
E aquilo era tudo o que importava.
~
“Então ela apareceu. E, cara, ela me salvou sem precisar dizer nada.”
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