Kakegoto shitai ka

賭け事したいか

Você quer apostar?

Versão Revisada e Reeditada

Parte I

Kakeo 賭けお Aposta

Olhos ligeiros, quase felinos, permaneciam longe, absortos; apenas vagueando pelo desenrolar sem fim de cifras e gráficos projetados à sua frente. Sua cabeça descansando sobre o joelho dobrado; uma perna abraçada junto ao corpo. Seu foco, seus pensamentos, eram apenas para o enorme problema que era seu dever resolver.

O trabalho era sua vida, fazia-o desde que se lembrava, não que se importasse... Pois não fora com objetivo de se ver livre dele que solicitara a própria transferência. Mas sim, na tentativa de colocar algumas coisas, internas, em ordem. Diferente de seu local anterior, ali naquele 'quadrante' trabalhava sozinho: era o único 'de seu lado' naquela 'área', por isso também, o único para resolver qualquer que fosse a adversidade.

Um incômodo calafrio subiu por sua espinha, pouco antes de ouvir o sonoro e familiar "Ei!" atrás de si, lembrando-o que, na verdade, não estava completamente só. Ainda que preferisse estar, levando em consideração aquela companhia. Não dignou-se a virar ou responder.

— Parece que alguém está estressado! – disse o recém chegado, com a voz melodiosa e levemente sarcástica.

Virou-se, enfim, lançando um olhar não muito amistoso ao visitante. Porém, este não se importou, já estava mais que acostumado àquela personalidade fria e distante. Piscou maroto:

— Se quiser posso te tirar dessa extenuação... – disse. E se não fosse pelo brilho malicioso em seus olhos, poder-se-ia dizer que seu sorriso era angelical.

Esforçando-se para ignorar o comentário impróprio, soltou um suspiro exasperado, voltando-se novamente para suas estatísticas. Já estava cansado daquelas insinuações, apesar de não conseguir conter o rubor suave que teimava em tomar conta de suas bochechas a cada vez que as ouvia.

— O que faz aqui? – perguntou um tanto quanto ríspido, agarrando-se a esperança de que ele pudesse ir embora logo.

— Ora... – o outro disse displicente aproximando-se mais – não se esqueça: eu também 'trabalho' aqui.

— Como se fosse possível esquecer...

O outro apenas sorriu com o comentário e se aproximou ainda mais, voltando seu olhar para os dados que dançavam no ar.

— Você não pode ver isso! – irritou-se ao notar a aproximação descarada, sua voz soando mais alta que o normal. Com um comando mental trocou a escala da projeção tornando-a mais abrangente, de modo que o outro não pudesse ver os 'detalhes'. – O que pensa que está fazendo? Você sabe que não pode ver meus dados, ainda que trabalhemos na mesma 'área', não pertencemos ao mesmo 'lado'.

O visitante rolou os olhos, dando de ombros.

— Você realmente está sobrecarregado demais... Tem certeza que eu não posso fazer nada para aliviá-lo? – disse enquanto seus olhos vagueavam pela figura alta masculina vestida inteiramente de branco. Aquela 'outra forma' era de longe a mais atraente com a qual já trabalhara; e também, a mais impassível. A camisa alva de gola alta ficava incrivelmente sedutora em contraste com a pele de cor bronzeada. Ele era, por inteiro, uma enorme tentação: cabelos castanhos escuros, jogados displicentemente sobre o rosto, a própria 'natureza' de pureza e recato dele. Teria sido puro acaso ele assumir uma forma tão sensual? Não, sua forma era perfeita aos seus olhos, a única coisa que lhe era verdadeiramente própria. Olhos de uma séria tranquilidade, frios e brilhantes, atentos a tudo, como os de um felino, sempre lançando-lhe olhares desconfiados. Ultimamente, porém, notara que havia uma perturbação impressa neles.

Uma pena estarem em 'lados opostos', pois não podia tê-lo para si, pelo menos não em condições normais...

— Deixar-me 'trabalhar' seria um excelente começo. – foi a resposta impaciente.

— Claro... – disse dirigindo-se a saída, fingindo que ia sair. – Mas, pensando bem, talvez não seja cansaço... e sim, frustração. – completou, voltando-se e chegando bem perto do outro, estendeu a mão como se fosse acariciar, por cima da blusa justa e branca, os contornos bem definidos do tórax atlético, mas seus dedos não chegaram a tocá-lo; não podia. Não sem a devida autorização. – Acho que não anda conseguindo cumprir suas metas... – sorriu perverso ao ver a expressão surpresa e irritada do outro. — Talvez eu possa te ajudar com seu 'problema de trabalho'.

— Você não seria capaz. – desdenhou, voltando-se para a projeção um tanto nervosamente. Aquele outro ser sempre vinha atormentá-lo e o deixava com estranhas sensações de... constrangimento. Sua presença era atordoante demais.

— Não!? Oras... o meu 'trabalho' está perfeitamente dentro do meu cronograma, tudo sob controle.

— Não queira comparar o seu 'tipo de trabalho' com o meu. – resmungou mal humorado.

— Por quê? Em 'essência' eles são a mesma coisa, apenas executados por 'lados' diferentes.

— Exatamente por isso, você não seria capaz de fazer um trabalho do 'gênero do meu lado'. Ainda mais se tratando de um problema deste 'nível'. – Finalizou voltando-se para o outro, tentando manter em seu rosto a expressão mais fria possível, enquanto focava no topo de uma lista, a fonte de sua preocupação brilhando em cores fortes. Talvez se ignorado ele desistisse e fosse embora de uma vez.

O visitante estreitou os olhos sorrateiramente, uma ideia interessante surgindo–lhe.

— Você quer apostar? – perguntou, seus olhos brilhando de forma diferente.

— Não diga besteiras. Para resolver este problema é necessária uma quantidade imensa de alterações, sem falar na energia deslocada. – parou por um instante mirando a face do outro, e sentindo um calor suave subir às suas bochechas ao reparar no brilho estranhamente perverso de seus olhos aquamarinos. Voltou-se rapidamente para as cifras desfocadas. – De qualquer forma não é o seu 'lado'. Você não tem autorização para fazer o 'tipo' de alteração que eu preciso.

O outro sorriu ainda mais, passando a língua pelos lábios rosados enquanto procurava algo no bolso de sua roupa escura. – Aí é que você se engana... no meu 'lado' não há restrições em relação ao 'tipo' de alteração. Vamos apostar! – retirou uma das mãos do bolso, estendendo um dispositivo transparente, no qual acionou mentalmente um comando que fez uma luz verde acender. — Apostarei com você, que posso resolver o seu problema, fazendo apenas uma alteração do 'tipo S-N' com o 'mínimo' de energia necessária, e claro, a partir do 'meu lado'.

— Uma alteração 'tipo Semi–Normal' com o mínimo de energia da escala, para resolver este problema? Pare de brincadeira, isso é impossível!

— Se tem tanta certeza assim, aceite!

O outro o encarou profundamente, podia ser uma armadilha, aliás, o mais provável é que fosse uma. Ele não devia se envolver com o outro 'lado', essas eram as recomendações: manter-se distante, eles não são confiáveis. Algo que ele jamais conseguira seguir desde que fora transferido para aquele quadrante. O outro parecia ter uma fixação sobre si, e ele simplesmente não conseguia repeli-lo completamente.

Não devia aceitar. No entanto...

— O que apostaremos? – se viu perguntando desconfiado.

— Se eu vencer, então você terá que fazer o que eu quiser. – respondeu, fitando seriamente os olhos do outro, vendo a expressão de descrédito passar para surpresa. – Se eu não conseguir... – continuou tranquilamente – você poderá me pedir qualquer coisa que queira.

Aquela aposta era muito suspeita. Qualquer coisa que ele quisesse? Era muito estranho. Ele poderia pedir dados confidenciais. Poderia pedir... qualquer coisa. Inclusive que o outro nunca mais falasse consigo ou viesse incomodá-lo. Ele faria isso? Passou os olhos pela figura do visitante, ele era mais baixo, vestindo-se sempre de cores escuras que contrastavam intensamente com a pele alva, tinha um rosto bonito e angelical, mas sabia que de angelical ele não tinha nada; o brilho quase sempre malicioso em seus olhos denotava bem o tipo de ser que era. Pertencia ao 'outro lado' portanto não era confiável... mas, o que tinha a perder? O outro não conseguiria de forma alguma realizar o que havia proposto.

— Fechado. – respondeu por fim.

O outro não conseguiu segurar o sorriso vitorioso que tomou conta de seus lábios. Mentalmente acionou outro comando, fazendo a luz do dispositivo se apagar, e emitir um pequeno som. Duas pequenas plaquetas transparentes que continham a gravação da aposta saíram de dentro do dispositivo. Guardou uma e entregou a outra. Mal conseguindo conter a vontade de tocar o moreno.

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Hashiri-tsuzukenakereba mirai wa nai[1]

走り続けなければ未来わない

Se não continuarmos correndo, não haverá futuro

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Terminou de ouvir a mensagem, estático ficou fitando o rosto holográfico imóvel na tela de seu lap[2]. – Repetir – comandou com a voz cansada, e a face artificial pôs-se imediatamente a repetir a mensagem, porém ele já não prestava atenção. Seus olhos prenderam-se na parede meio desgastada... não sabia se comemorava ou chorava.

Aquela mensagem era a primeira resposta que recebia de uma série de testes e entrevistas que fizera para conseguir um emprego. Não era uma empresa grande como a última em que trabalhara, mas ainda sim havia alguns pontos interessantes. Quando recebeu a mensagem ficou bastante esperançoso, afinal, suas qualidades eram superiores às exigidas no cargo para o qual fizera o teste. Estivera confiante, até ouvi-la por inteiro: soara como uma piada de muito mau gosto aos seus ouvidos.

Suspirou passando a mão pelos cabelos em sinal de total desânimo.

Estava morando na Terra fazia um ano e há quatro meses atrás havia conseguido um emprego de programador sênior em uma das maiores empresas de telecomunicações do planeta. Shenlong Corporation[3], estava no ramo de tecnologia há dois séculos; e embora, os donos fossem totalmente tradicionalistas, a empresa evoluía visivelmente à frente das outras. Possuía filiais em todas as auto-regiões[4] do planeta e atendia até mesmo as colônias espaciais. O sistema de comunicação da região onde vivia, bem como as vizinhas, era todo dela. Isso sem falar do governo, era a Shenlong que provia as telecomunicações para eles. Era sem dúvida a maior, melhor e mais influente de toda a órbita terrestre.

Mas aquele que era seu "emprego dos sonhos" durou pouco.

Quem o contratara fora um sócio minoritário, que, no entanto, estava desenvolvendo um importante projeto: um software de segurança que seria implantado não só naquela, mas em todas as filiais da empresa, principalmente na matriz que ficava em Bruxelas, no antigo continente. Era um projeto grande, coordenado diretamente, onde ele e os outros programadores eram subordinados diretos. O salário era excelente e a carreira promissora.

Pela primeira vez desde que viera para a Terra as coisas pareciam estar dando certo. Estando longe da família e conhecidos, agarrou aquela oportunidade com desejo, se engajando completamente no trabalho. Seu excelente desempenho fez com que no terceiro mês de empresa, se tornasse o responsável pelo projeto quando o seu chefe precisou viajar à matriz por duas semanas.

Confiante de um futuro melhor, chegara até mesmo comprar presentes de final de ano para seus tios e sua prima, pretendendo levá-los pessoalmente em uma viagem até a colônia em que nascera para passar as festas de fim de ano.

No entanto, apenas dois dias antes do retorno de seu superior, recebeu uma chamada dele dizendo que tivera alguns problemas e devia se ausentar por mais uma ou talvez duas semanas. Estranhou uma vez que todos os recursos do projeto já estavam previamente aprovados, mas desconhecendo a parte burocrática resolveu não se preocupar no momento. Qual não foi sua surpresa ao receber no mesmo dia um comunicado oficial de desligamento da empresa. Fora demitido sem maiores explicações. No comunicado não havia a assinatura do cara que o contratara, apenas a assinatura de uma patente mais alta. Simplesmente dizendo que ele não se encaixava no perfil tradicional da empresa.

Mais um suspiro e girou na cadeira, brincando, tentando relaxar, tentando pensar...

O módulo[5] em que vivia era pequeno e simples. Felizmente não se mudara enquanto estava empregado, caso contrário agora estaria em maus lençóis. Ainda bem que sua vida complicada o tornara comedido. No máximo, havia se dado ao luxo de comprar alguns poucos artigos para seu conforto, os quais, devolvera a maioria às lojas. Manteve apenas os presentes para a família. Poderia devolvê-los também, mas ele não queria fazê-lo. Afinal, viera para a Terra no intuito de conseguir um bom emprego e ajudá-los, aqueles presentes demonstravam que as coisas estavam saindo como planejara.

Embora não fosse mais verdade, ele se recusava a acreditar.

A viagem teria de ser cancelada, mas pelo menos poderia mandar os presentes.

Riu amargo, desviando seus olhos dos presentes sobre a sua mesa, voltando-os para a figura feminina que terminara de repetir a mensagem e estava estática aguardando instruções.

Procurara vários outros empregos, fizera testes, entrevistas, mandara currículos, tentara alguns contatos. Não que suas qualificações fossem ruins, definitivamente não eram. Sempre se saía muito bem nos testes, tinha bastante conhecimento de sua área, era simpático e comunicativo. Se gabava por ter um charme natural que facilmente cativava as pessoas. O problema era sua origem. Nascera na colônia espacial L2, uma colônia pequena e com uma situação econômica complicada. Mas qualquer cidadão de qualquer uma das colônias que estivesse na Terra atualmente estava enfrentando sérios problemas.

Estavam à iminência de uma revolta armada por parte das colônias. O governo andava abalado, e havia um clima de tensão entre a Terra e as Colônias espaciais. Muitos estavam com medo que viesse a estourar uma guerra. Não que ele acreditasse nisso; nos dias de hoje, dificilmente os políticos arriscar-se-iam em uma guerra. Na realidade ninguém sabia o que poderia acontecer e a maioria das empresas estava simplesmente evitando contratar cidadãos das colônias.

Dentre todas as suas tentativas, esta fora a única resposta que recebera em retorno. Era de uma rede de departamentos de eletrônicos, eletrodomésticos, e tudo mais que se necessita em um lar nos dias atuais. Eles tinham sistemas próprios internos de controle de vendas, faturamento e atendimento ao cliente. Ele se inscrevera e fizera os testes para atuar no desenvolvimento e manutenção desses sistemas. Infelizmente, como dizia a mensagem, para essa área eles não estavam contratando ninguém no momento. Porém devido ao seu excepcional currículo e desenvoltura, lhe propuseram uma vaga na área de consultor de eletrônicos temporário. Início imediato. Se ele desejasse aceitá-la deveria estar no dia seguinte às nove da manhã na loja número 512, no centro comercial, falar com o gerente responsável: Tsubarov.

— Consultor de eletrônicos... – murmurou sozinho e aborrecido – ou traduzindo: vendedor de eletrônicos. Não, ele não queria aceitar. Seu orgulho relutava fortemente. Olhou novamente para a pilha de presentes e então para a fotografia de seus tios e de sua priminha, bem, já não tão priminha assim. Pelo menos ele poderia pagar as contas do mês, que deveriam chegar dentro de alguns dias. E como a própria mensagem dizia, era apenas um emprego temporário de final de ano. Passada as festas de final de ano talvez fosse mais fácil arrumar outro que poderia lhe trazer os benefícios que procurava. Era melhor aceitar, antes que a situação se complicasse mais.

Quem sabe, logo a poeira baixasse sobre toda essa história de guerra, então, talvez, as coisas ficassem mais fáceis...

(...)

Enquanto mantinha firme no rosto seu melhor sorriso "Duo Maxwell", praguejava internamente. Três dias. Apenas três malditos dias e já queria mandar aquela merda toda para o inferno. Não que fosse o trabalho em si. Ele não se importava em vender e em atender pessoas, o problema é que em épocas de fim de ano, isso era extremamente desgastante. Tinha hora para entrar e nunca para sair. Passar o dia todo em pé andando de um lado para o outro e sorrindo o tempo todo, além de muita dor nas pernas, deixava-lhe também com dor no maxilar... Isso quando também doíam-lhe os ouvidos de ter a 'sorte' de encontrar algum cliente contrariado. Sem falar no 'gerente Tsubarov', um velho chato, que se achava o ser mais importante e indispensável de toda a órbita terrestre.

Olhou o relógio luminoso da loja: cinco da tarde. E como querendo lembrá-lo de alguma coisa seu estômago roncou... talvez ele devesse almoçar. Acabou de despachar o cliente, e avisou a garota do balcão que ia comer alguma coisa e voltava logo.

Sentou-se no fast-food à frente da loja e escolheu no cardápio holográfico, um número qualquer que continha uma combinação barata de lanche, refrigerante e batatas fritas. Uma refeição bem gordurosa e não recomendada para uma alimentação saudável, seu tipo favorito. Apoiou os cotovelos na mesa e a cabeça nas mãos, meio sem saber o que fazer e se sentindo um fracasso total. Emitindo um bip, o tampo da mesa abriu-se, por onde saiu a bandeja contendo o pedido, fechando-se em seguida[6].

Pegou o lanche encarando-o por um momento e antes que o mordesse, seu lap vibrou no bolso da calça. Nem mesmo comer em paz ele conseguia. Apostava que era o 'todo importante gerente Tsubarov' querendo saber por que não estava na loja. No entanto, qual não foi sua surpresa ao atender, e a projeção holográfica mostrar o rosto de Chang Wu-Fei. Ninguém menos que seu ex-chefe na Shenlog Corporation.

— Maxwell. – ele falou e parecia bastante cansado – Eu realmente sinto muito. Não sabia o que havia acontecido até voltar de viagem. Eles fizeram tudo pelas minhas costas, e quando eu voltei foram tantos problemas para resolver que não pude entrar em contato com você antes. Eu sinto muito mesmo. – despejou. Seu olhar negro o fitando com profundidade através do holograma.

Duo arregalou os olhos mal acreditando. A demissão lhe parecera injusta e cheia de descaso, mas, ainda que tivesse um bom relacionamento com o ex-chefe, não esperava um pedido de desculpas. Chang era bastante fechado, mas não era tão difícil ler suas reações. Levando-o da maneira certa ele era uma pessoa amigável e leal, um pouco implicante talvez, porém Duo conseguira conquistar um pouco da amizade do outro homem com suas habilidades sociais.

— Que isso cara! Eu vi as assinaturas do comunicado... Relaxe! – Sorriu sinceramente pela primeira vez nas últimas semanas.

— Na verdade eles fizeram isso para me atingir. Logo após você, mandaram embora todos os meus subordinados diretos de outros departamentos e projetos.

Não disse nada. Não havia o que dizer.

Estava surpreso por finalmente saber o motivo de sua estranha demissão. Amaldiçoou sua sina, parecia ter sido sorte ter se tornado o líder do projeto tão rapido, mas talvez se não fosse por isso ainda estivesse empregado. E qual a probabilidade de trabalhar justamente com a pessoa que estava sendo boicotada na empresa. Ainda que nem de longe, Chang parecesse ser importante o suficiente para sofrer esse tipo de ataque. A julgar pelas patentes da carta de demissão, eram os caras grandes daquela filial.

— Eu... gostaria de conversar com você pessoalmente. – continuou.

— Claro. Quando? – respondeu após mais alguns instantes de hesitação.

— Pode ser hoje à noite? Podemos jantar.

Duo titubeou um pouco, estava cansado, e não tinha dinheiro para gastar por aí com jantares. Mas o olhar firme e um tanto preocupado do outro acabou por convencê-lo.

— Ok. Às oito então, naquele lugar jantávamos quando trabalhávamos até tarde?

— Combinado. Até mais tarde.

E sem mais delongas a tela desapareceu. Duo ficou por algum tempo olhando para o lap desligado sem entender o que fora aquela conversa. Mas também não teve muito tempo para pensar, logo Tsubarov entrou no fast-food bufando e berrando que ele estava 'demorando demais para voltar' e que 'a loja estava cheia' e 'quem ele pensava que era'. Duo apenas se levantou deixando o seu nada saudável almoço na mesa. Bufou, engolindo a raiva, parado na frente de seu 'todo poderoso gerente' e descaradamente pegou do bolso da camisa dele o cartão de identificação e passou-o pelo leitor óptico, para que a conta fosse cobrada.

Não ia pagar pelo pedido que nem ao menos podia comer. Saiu, indo de volta ao trabalho, tentando solenemente ignorar as palavras não muito educadas proferidas por Tsubarov que vinha logo atrás.

(...)

Desceu do transporte coletivo flutuante um tanto animado. Afinal, há pelo menos três semanas não fazia nada além de ficar em casa queixando-se da virada de sua sorte e procurar emprego, e nesses últimos três dias trabalhava o dia todo para morrer na cama ao voltar para casa.

Não que aquele jantar fosse um grande programa, mas ele realmente gostava do ex-chefe. Chang era uma pessoa que abaixo da superfície super perfeccionista era realmente boa e interessante. Ficara feliz por ele realmente se importar a ponto de ligar e querer encontrá-lo. Verdade que não fizera muitos amigos na Terra, sentia-se carente com isso, pois em L2 vivia cercado de pessoas que conhecia desde sua infância.

Ao chegar ao restaurante seu ex-chefe já o esperava. A atendente levou-o à mesa comentando que há tempos ele não aparecia, ele a despistou jogando com seu charme característico e elogiando-a galantemente.

— Maxwell – Wufei disse levantando-se e estendendo a mão – Você está um trapo.

Em meio a uma sonora gargalhada, Duo apertou a mão do outro e o puxou para um abraço rápido. — Posso dizer exatamente o mesmo de você, Fei.

O outro deixou de lado seu desgosto pelos apelidos e sorriu um pouco. Sentaram-se e fizeram os pedidos.

— Pelo visto as coisas não estão muito fáceis para você também.

— Não, definitivamente não estão. Mas e você conseguiu outro emprego? Eu posso lhe arranjar uma carta de recomendação se precisar.

— Ah, não se preocupe por enquanto – falou sem entusiasmo – estou em um emprego temporário, não é grande coisa, mas vai quebrar o galho neste mês e talvez no próximo.

— Você não parece feliz.

— E como poderia estar... – disse fazendo um bico. – Pelo menos posso me consolar, vendo que você continua no mesmo emprego, que é bem melhor que o meu, e também não parece nem um pouco feliz. – terminou com um sorriso enviesado.

Chang apoiou um dos cotovelos na mesa e esfregou as têmporas com as pontas dos dedos. Só pela expressão preocupada do chinês, Duo pode deduzir que as coisas estavam realmente complicadas. Mas não houve tempo para tocar no assunto, pois o jantar chegou.

— Duo... – Falou finalmente o chinês depois de alguns momentos de ambos comendo em silêncio, surpreendendo o outro, pois jamais o chamara pelo primeiro nome. – Eu realmente sinto muito pelo que lhe aconteceu.

Duo suspirou. Falante como era, obviamente, havia contado muito de suas aspirações e planos para o chefe, desde o motivo que o levara a vir para o planeta até seus próprios sonhos, que não incluíam passar o resto da vida em L2 tocando o ferro-velho de seus tios. O emprego na Shenlong fora sua primeira vitória... que durara pouco demais, para lhe dar esperanças que as coisas pudessem se ajustar.

— Relaxe Fei. – disse forçando um pouco o sorriso.

— É culpa minha Maxwell, você foi demitido para me atingir. Juntamente com os outros.

— Não se deixe atingir, oras! Aposto que você já terminou o 'nosso' projeto. Então eles terão que te engolir e pronto. Eu vou me virar, como sempre me virei. — Disse sem realmente acreditar, mas tentando dar crédito às próprias palavras com uma piscadela marota.

— O projeto foi rejeitado. – Wufei disse simplesmente, soando um pouco áspero demais.

— Como? – Duo não pôde impedir-se de falar alto. Olhares por todo o restaurante se voltaram para eles, fazendo com que Duo corasse e distribuísse sorrisos desconcertados como pedidos de desculpas. – Rejeitado? Mas estava praticamente aprovado! – disse um pouco mais contido, porém não escondendo a surpresa e a revolta.

— Foi boicotado. Eles estão querendo me tirar de lá de qualquer maneira. Quando fui apresentar o protótipo para testes eles já tinham outro sistema testado e validado. Deviam estar planejando há algum tempo.

Duo esfregou a mão nos olhos nervosamente.

— Não acredito... Que filhos da-

— Maxwell!

— Mas Fei... a troco de quê tudo isso? Sua esposa não é filha de um dos presidentes?

— Exatamente por isso. – Ele respondeu um tanto evasivo desviando o olhar.

— Não me diga que você está se separando dela? – Perguntou Duo levantando uma sobrancelha. Vira diversas fotos da esposa de Wufei e do filho deles, no entanto, nunca a conhecera pessoalmente, e Chang raramente a mencionava.

— Duo... – ele suspirou voltando-lhe um olhar triste. – Merian morreu há cinco anos, logo após o parto.

O outro abriu e fechou a boca várias vezes, sem saber o que dizer. Como ele não sabia de uma coisa dessas? Se bem que nunca vira uma foto da moça junto com o filho deles. — Desculpe... eu não fazia ideia... droga Chang, você nunca me deu a entender que era viúvo.

— Eu sei. Não precisa se desculpar.

Duo voltou a comer, em silêncio, por alguns instantes. – Então qual o motivo de quererem te afastar?

— Eu conheci outra pessoa. – ele respondeu, olhando pela janela, levemente corado.

— Não sabia que todo aquele tradicionalismo chines ia contra viúvos encontrarem outra esposa.

— E não é. – ele respondeu ainda olhando para fora, agora mais corado que antes.

— Então que diabos está havendo? Por acaso ela não é chinesa?

— Isso também, mas o verdadeiro problema... é que não é… ela.– ele falou calmamente, mas seu rosto estava vermelho como um tomate, e a água no copo que ele segurava, tremulou levemente.

Duo quase engasgou com a comida, alcançou seu copo com água, bebendo rapidamente. Assim que recuperou o fôlego, não pôde deixar de rir, um tanto quanto alto demais. Deixando o outro ainda mais vermelho e constrangido do que já estava.

— Quer parar com o escândalo. – murmurou o chinês entre os dentes.

— Desculpe… – disse tentando controlar o riso – eu não esperava que você jogasse no meu time. Eu simplesmente jamais imaginei isso.

— Não faço ideia como eles souberam. Nós nos vimos tão poucas vezes, sempre com extrema discrição.

Duo olhou para o outro deixando todo o deboche de lado. Aquela não era uma situação fácil. – Mas não creio que você teria me chamado aqui para pedir conselhos afetivos.

O outro o olhou bravo, e depois sorriu levemente. – Não, definitivamente não.

— Então...?

— Eu acho que tenho uma maneira de conseguir, que o projeto seja aceito e acabar com essa perseguição. E precisarei da sua ajuda para isso, não posso garantir que você terá o emprego de volta, mas eu obviamente pagarei pelo trabalho.


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Escrito por: Diana Lua em 12 e 13/12/2005

Reedição em: 19/04/2009 — Publicado: 19/04/2009

Revisores: Lídia Paula

Última alteração: 25/12/2022

Notas finais
Alterações relevantes: * Mudanças em relação ao tempo dos acontecimentos para poder dar mais veracidade ao bom desempenho dele no emprego e a amizade dele com o Wufei. [1] Trecho da música tema: Tobira no Mukou he, do Yellow Generation, trilha sonora de Full Metal Alchemist. Nesta versão traduzida e adaptada por mim [2] Lap – dispositivo eletrônico inventado por mim! Nesse tempo futuro é a evolução dos computadores, eu imaginei algo como um dispositivo parecido com um palm, com abas laterais que abrem, alguns poucos botões de touch-screen para ativar as opções e que faz projeções holográficas, de maneira que a tela, o teclado seriam projeções holográficas geradas pelo dispositivo físico. [3] Não resisti! É uma referência a Corporação Cápsula de Dragon Ball. [4] Como é ficção não tem graça se eu não me complicar um pouco. Auto-regiões são neste cenário as divisões governamentais do planeta, ou seja, não existem mais países. O mundo foi agrupado politicamente ao comando de um Chanceler (sim, como o do Star Wars) e subdividido em auto-regiões administrativas. [5] Módulos – São as moradias da grande parte da população, pequenos módulos multifuncionais um pouco maior que aquele que aparece no filme Quinto Elemento como o 'apartamento' do Bruce Wiles. [6] Que se lembra de Os Jatsons? Desenho de ficção de Hanna-Barbera da década de 60.