Kakegoto shitai ka

賭け事したいか

Você quer apostar?

Versão Revisada e Reeditada

Parte II

Kaeru 換える 'Alteração'

Deitado displicentemente em sua confortável cadeira de 'trabalho', reclinada ao máximo, fitava o Espaço acima de sua cabeça, admirando-o. Sentiu então a comum e leve tontura que tomava conta dos seus sentidos cada vez que estava na presença de alguém do 'outro lado'. Nem precisava olhar para saber quem era: só havia um alguém para vir até ali. Muito embora, em condições normais, o outro jamais se daria ao trabalho de vir. Com certeza estava bastante ansioso...

Não fez movimento algum, esperando que ele se introduzisse, queria aproveitar ao máximo todas as oportunidades que a aposta estava lhe proporcionando.

— Hnhn – ouviu o pigarro um tanto irritado e só então virou-se para notar o ser, sempre vestido imaculadamente de branco, ligeiramente constrangido por estar ali.

— Ora, ora, que visita mais inesperada. — Disse o jovem de vestes escuras, sentando-se na cadeira, que ajustou-se automaticamente à nova posição de seu ocupante – Creio que é a primeira vez que você vem ao meu 'escritório'. A que devo a honra? Não me diga que tem sentido saudades? Nem faz tanto tempo assim que eu não o visito.

O de roupas claras revirou os olhos em irritação. — Não vim aqui para aturar suas gracinhas. – disse um tanto grosseiro. Já não lhe bastava ter que se rebaixar para procurá-lo, ainda tinha que aturar aquele cinismo.

— Oh, mesmo? – disse o de roupas escuras fazendo uma cara de espanto perfeita, como se não houvesse outra razão para o outro estar ali. — Então...?

— Eu... – começou um tanto sem graça, seria bem comum daquele ser não ter levado a aposta a sério, e agora usá-la para zombar de si — eu... queria saber sobre... sobre a 'alteração'.

— 'Alteração'? – fez-se de desentendido, levantando-se da cadeira e andando até o outro – Que 'alteração'? – perguntou com a expressão mais inocente que conseguia imitar pairando na face clara e nos olhos azuis claros.

— Oras! – bufou o outro — Sabia que não podia confiar em você, não acredito que perdi todo esse tempo! – disse virando-se, furioso e irritado por ter sido tão tolo e confiado naquele ser cheio de artimanhas duvidosas; fora mesmo muito inocente, e agora tinha perdido um tempo precioso.

Mas não chegou a se afastar muito. Parou ao ouvir uma sonora e cristalina gargalhada.

— Eu estava apenas brincando. Você realmente está estressado. – Disse vendo o visitante de roupas claras virar-se e caminhar a passos lentos de volta. Seu olhar de divertido mudou para malicioso, e quando o outro parou, aproximou-se sussurrando de maneira sexy – Não vejo a hora de poder aliviar toda essa sua... tensão.

Afastou-se rindo ao notar o rosto do moreno tingir-se de escarlate.

— Já disse que não precisa ter pressa. Eu tenho tido um bocado de 'trabalho', sabe, toda essa história de iminência de guerra lá em baixo, fora o 'trabalho de rotina'. – disse sorrindo ao passar a mão pelos cabelos claros ao sentar-se novamente – De qualquer maneira, foi bom você ter aparecido, pois a ocasião propícia que eu estava esperando acontecerá daqui a algumas horas. – Piscou ativando algumas telas – A programação da 'alteração' já está feita, e creio que os resultados devam começar a aparecer logo em seguida, mas temo que a resolução total do problema vá demorar alguns dias terrestres. Desculpe por isso, — deu-lhe um sorriso embaraçado — mas sabe como é... 'alteração tipo S-N' e com energia mínima, não dava para o processo ser mais rápido.

O moreno olhou-o incrédulo. Ele não podia estar falando sério. Ainda não acreditava que ele conseguiria sequer fazer o que prometera. E o prazo de alguns dias terrestres para a resolução total parecia uma piada. Todas as soluções que simulara, davam prazos de, no mínimo, meses terrestres para a resolução total. Não, realmente não podia confiar nele. Devia ser apenas um jogo.

Como que adivinhasse os pensamentos do moreno. Virou-se com os olhos brilhantes e um sorriso em seus lábios cheios e rosados e mostrou-lhe uma tela de programação. – Aqui. – apontou para um registro. O outro aproximou-se, seu olhar esverdeado lendo os comandos em letras azuis brilhantes.

— O que é isso? – perguntou incrédulo, olhos fixos no registro.

— É a nossa 'alteração'. – respondeu voltando o rosto para o moreno, adorando ver a expressão surpresa escancarada naquele rosto normalmente tão frio.

— Isso? Isso é a 'alteração'? – voltou o rosto na direção dele deparando-se com o olhar de pura satisfação – Só pode ser brincadeira! Você não vai conseguir resolver só com isso. É um problema de altíssima prioridade, 'tipo AC-RR'[7].

O loiro apenas sorriu. Um sorriso tão... sincero, que ele ficou sinceramente tentado a acreditar, mesmo conhecendo a 'natureza' do outro. Era aquela a 'alteração' que ele pretendia fazer? Voltou o olhar incrédulo para o registro de programação.

— Mas é temporária, com duração de…- procurou pela informação na projeção — três segundos! O que você vai modificar nesse tempo ínfimo que vai ter alguma importância? – perguntou, sem saber o que pensar daquilo.

O outro, sem tirar o sorriso do rosto em momento algum, solicitou a abertura do arquivo de detalhes, apontando: – Isso.

— Três algarismos? Você vai mudar três algarismos durante três segundos, e quer que eu acredite que isso, e apenas isso, vai desencadear os resultados para um 'problema Altamente Crítico' em alguns dias terrestres? – exasperou-se, enfrentando o outro; seus narizes quase se tocando devido a proximidade.

— Sim! Qual o problema? Vai funcionar porque é a ocasião certa; caso contrário, não funcionaria mesmo. – disse dando de ombros como se aquilo fosse óbvio. Pegou aquele pequeno dispositivo transparente e ativou-o, gravando uma permissão de acesso. – Aqui… – entregou outra plaquinha transparente ao de roupas brancas. – Com essa permissão e meu código de acesso você poderá acompanhar a alteração e as ações que se desencadearão com ela.

Seus olhos verdes estreitaram-se ao pegar a pequena plaquinha. Ainda não conseguia acreditar. Bem, de qualquer forma, quando a alteração não funcionasse, ele pelo menos poderia pedir que outro não lhe atormentasse nunca mais. Uma pena que esse tempo perdido não mais pudesse ser recuperado e para resolver aquele problema ele iria precisar... nem queria pensar em como faria para obter tanta energia para a resolução.

De repente lembrou-se de um detalhe: — Não sei seu código de acesso. – disse sentindo-se um pouco constrangido. Afinal, apesar de pertencerem a 'lados opostos' eles 'trabalhavam' no mesmo setor juntos já há algum tempo. Sem contar que era um setor pequeno e com apenas um planeta habitado, por isso só havia os dois: um representante de cada 'lado' para dar conta de todo 'trabalho'.

O outro apenas sorriu. – Imaginei. Você nunca se interessou em saber muito sobre mim mesmo. – falou fingindo estar magoado. – Meu código universal[8] é 001000403000208000.

O outro memorizou o número, convertendo-o imediatamente para o sistema de palavras que usavam naquele quadrante, o mesmo da raça que ali residia. – Então, até mais... Quatre – falou enquanto guardava seu registro de permissão e se retirava da sala.

Quatre sorriu maliciosamente, adorando ouvir o moreno pronunciando seu nome pela primeira vez. – Até mais... Trowa. – respondeu dando às costas ao moreno que parou à porta, surpreso ao ouvir a tradução de seu próprio código, não se lembrando de tê-lo informado alguma vez.

—-----------------------------------------------------------------

Kazashita PRIDE ga machigai da to shite mo[1]

翳したプライドが間違いだとしても

Mesmo que o orgulho que você carrega sobre sua cabeça também seja um erro

—-----------------------------------------------------------------

Repassou mais uma vez os olhos pela página do relatório, constatando que estava impecável. Enviou uma cópia diretamente à General Une, antes de bloqueá-lo com senha e armazenar o arquivo. Olhou ao redor de seu lap, procurando por alguma irregularidade em sua mesa, porém tudo se encontrava na mais perfeita ordem, como sempre. Seus olhos voltaram-se para a tela projetada vendo a mensagem de confirmação de recebimento. Missão cumprida.

Podia ir embora ou ficar; não tinha horário fixo para o trabalho. Ele sempre estava à disposição. Podiam chamá-lo sempre que sua presença fosse necessária. Ainda sim, acabava ficando mais na sede do governo do que em sua própria casa. De certa forma era porque não tinha muito o quê fazer em casa. Às vezes, estudava alguma nova tecnologia, lia um pouco para se distrair, arrumava a casa... coisas desse tipo apenas. Na verdade, sentia que sua casa era por demais vazia... Certa vez, pensara em adotar algum animal de estimação, porém o pensamento não durou muito. Provavelmente ele não conseguiria oferecer-lhe a atenção necessária entre o tempo que passava no trabalho e as viagens em missões. Era verdade que em seu atual cargo ele não precisava ir pessoalmente mais, poderia mandar algum subordinado; entretanto seu perfeccionismo exigia um acompanhamento que ele não confiava em delegar a ninguém. Enfim, a ideia não se provara prática ou viável.

Seus olhos fitaram, além das paredes de vidro de sua sala, a central de inteligência que chefiava. Todas as baias de trabalho estavam ocupadas, os lap's conectados na rede, alguns funcionários trocavam de turno, outros apenas prosseguiam. Seria impressão sua ou havia uma certa agitação diferenciada? O centro de inteligência do governo funcionava vinte quatro horas todos os dias do ano, sem nunca parar. Orgulhava-se de administrar aquele departamento. A segurança era um ponto vital, especialmente agora com a tensão de uma iminente revolta. Por esse motivo ultimamente havia mais casos sendo investigados que o normal, mais protocolos de segurança implantados. Ele não se importava, trabalhando mais ele sentia-se aliviado daquela sensação incômoda que vinha lhe atormentando. Ou talvez apenas estivesse se mantendo distraído dela.

Reparou em alguns rostos olhando para si, e logo se viraram quando os encarou. Havia muitos comentários sobre sua personalidade fria e anti-social, que ele acabava por escutar muitas vezes não intencionalmente. Uma das mais recorrentes é que seu mau humor era devido a falta de... bem, um relacionamento. De fato, não era algo que ele não costumava ter. Saía ocasionalmente com alguns homens, mas nenhum conseguira lhe despertar algum interesse além de o distrair por algumas horas. O mais perto que chegara de algum tipo de relacionamento, foi o caso que tivera por algum tempo quando estava na academia militar. Zechs Merquise era o nome que usava na época, para passar despercebido na academia antes de assumir sua função como Chanceler da esfera terrestre. Como se alguém tão… bem apessoado[9] como ele pudesse passar despercebido de alguma forma.

Eles haviam dividido o mesmo alojamento durante os primeiros anos na academia; lhe parecera prático e sem maiores implicações, uma forma de relaxar e aliviar as frustrações uma vez que tinham bem pouco tempo livre. Terminaram, se é que se poderia empregar esse termo, quando Zechs foi transferido para um alojamento particular, e passou a ter atividades específicas em sua preparação para assumir a função como Chanceler.

De qualquer maneira não estava procurando por companhia. Nem sequer sabia o que procurar. Sabia que faltava algo na sua vida, embora não soubesse o quê.

Voltou seu olhar para seu lap, decidindo-se por ficar e trabalhar um pouco mais.

(...)

Sentia-se totalmente exausto. Por mais que a loja tivesse fechado cedo por ser véspera de Natal, o dia fora extremamente cansativo, pareceu-lhe que mais da metade das pessoas daquela região deixaram para comprar os presentes literalmente no último momento. Felizmente, até mesmo o super-importante gerente Tsubarov devia ter alguma família, ainda que lhe parecesse estranho o fato de alguém conseguir suportar aquele homem arrogante, e insistira em atender rapidamente os clientes e fechar a loja no horário de feriado.

Nesses dez dias que estava trabalhando na loja, não se lembrava de ter conseguido chegar em casa enquanto ainda houvesse luz do dia. Então podia considerar que era um dia bom. Jogou-se no sofá, colocando as pernas para o alto. Havia um spray em algum lugar do banheiro que ajudaria a aliviar a dor e o cansaço nelas, mas não estava muito disposto a ir buscá-lo.

Além do que, passaria as próximas horas sentado à frente de seu lap, executando o plano que Chang elaborara. Desde seu encontro com o chinês ele tinha trabalho durante a noite montando e testando o vírus para invasão e quebra de segurança da Shenlong. E essa noite seria o momento de hackear o novo sistema deles e instalá-lo, provando o quanto o mesmo era ineficaz. Bela maneira de passar a noite de Natal.

Não que se importasse com a data em si, há muitos anos que a data havia perdido totalmente seu significado na sociedade atual. Mas seus tios sempre foram bastante religiosos, e essa data sempre fora comemorada com muito entusiasmo por eles. Não se lembrava de ter passado algum Natal longe de sua única família, dos anjos e estrelas brilhantes que eram espalhados pela casa. Sem contar a comida especial que sua tia preparava, onde cada prato tinha um significado. Olhou ao redor de sua pequena sala reparando que não havia feito decoração nenhuma. Tão pouco pensado em comprar alguma coisa diferente da usual e prática comida congelada de todas as noites. Era quase como se fosse uma noite qualquer, exceto pelo fato que ele desejava do fundo do coração estar em uma situação bem mais promissora. Bobagem sua achar que os desejos tolos se realizam?

Pegou seu lap e ativou-o, comandando-o a efetuar uma ligação para sua família em L2. Melhor falar com seus tios agora, uma vez que mais tarde estaria ocupado. E se ele não ligasse, eles ligariam para desejar felicidades. Não que não quisesse falar com eles, apenas estava pouco à vontade; gostaria de estar mais animado e dar notícias melhores. Enfim...

— Duo! – veio a voz alegre junto com o sorridente rosto de sua prima Hilde na projeção – Feliz Natal!

— Feliz Natal, Hil. Como vocês estão?

— Está tudo bem. Adoramos os presentes. Mas você não precisava se incomodar com isso.

— Eu sei, é que como esse ano não vai ser a mesma coisa, já que EU sou o verdadeiro espírito das festas e não poderei estar aí, então para pelo menos alegrar o ambiente eu decidi mandar umas lembrancinhas. – disse com um ar metido e confiante.

— Bobo. Mamãe e papai querem falar com você também. Beijos Duo, eu estou morrendo de saudades.

— Também estou, baixinha. – provocou-a, vendo-a mostrar a língua em meio a risos.

— Querido que saudades. – seus tios apareceram na projeção – Você tem comido direito? Parece tão abatido.

— Estou um pouco cansado, tia, trabalhando muito, cheguei em casa Faz pouco tempo.

— Duo, claro que é importante lutar para conquistar seus sonhos, mas não se esgote tanto, lembre-se de viver e aproveitar o presente, filho. – disse seu tio com o semblante sereno.

O que ele poderia dizer? Que estava tentando, mas que a vida teimava em conspirar contra? Não queria preocupá-los, especialmente naquela noite. – Eu sei tio, não precisa se preocupar; estou bem mesmo só um pouco cansado. – sorriu um pouco forçadamente, tendo certeza que não seria capaz de enganá-los.

— Meu bem, nós ficamos felizes por você estar realizando seus sonhos. – disse a tia, com olhos brilhando por trás das lentes dos óculos – Só lamento por você não poder estar conosco aqui nessa data tão especial, não é a mesma coisa comemorar sem você Duo, querido. Entendemos que o trabalho novo esteja puxado. Sabemos o quanto você quer ser bem sucedido. Mas, Duo, sua felicidade deve sempre estar em primeiro lugar.

Seus olhos adquiriram uma expressão um pouco mais profunda pensando no significado de tudo aquilo. Sentia-se feliz? Realmente feliz? Era aquilo que desejava quando viera para a Terra? Perguntou-se se eles estariam conseguindo se virar bem sozinhos. Se Hilde estava tendo que trabalhar muito já que ele não estava mais lá para ajudar. Fizera certo em deixá-los lá? Separar-se de sua família, das únicas pessoas no mundo que se importavam com ele, ainda mais em um momento tão tenso da política nas relações entre as Colônias e a Terra?

Despediu-se desejando Feliz Natal e todos aqueles votos de alegria e paz. Encerrou a conexão e ficou apenas fitando a brilhante tela holográfica vazia. A luz que entrava pela janela estava fraca, fazendo com que o apartamento ficasse banhado em sobras. Continuou deitado no sofá, apenas pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo. Até reparar no relógio luminoso que marcava dezoito horas. Horário combinado.

— 'Luzes' — comandou, e as luzes do apartamento acenderam imediatamente. Sobre seu tórax, seu lap vibrou indicando uma ligação. Pontual como sempre. Atendeu vendo a projeção do rosto de Wufei. Seus cabelos estavam mais brilhantes e perfeitamente lisos que o normal. – Boa noite, Maxwell. Já está em casa?

— Hey, Fei, felizmente sim. E você?

— Estou indo para a casa do meu sogro agora, Yan foi pela manhã. A comemoração deve começar por volta das nove horas.

— Ok! Estarei pronto. Já está tudo preparado, eu fiz o estudo e o mapeamento dos dados que você me mandou e já escolhi a melhor rota para invadir e instalar nosso queridinho. – respondeu um tanto quanto empolgado. Invadir e destruir. Esperava que eles tivessem backups dos dados importantes, porque naquela noite, se tivesse uma bomba em mãos não hesitaria em usá-la.

— Perfeito. Desejo-lhe uma boa sorte.

— Igualmente, pois para lidar socialmente com esse seu pessoal você também vai precisar.

O chinês sorriu e assentiu. – Ah, Maxwell, Feliz Natal! – disse antes de encerrar a ligação.

Duo olhou por alguns instantes para a tela vazia e murmurou um 'Feliz Natal' de volta. Levantou-se do sofá, indo até a escrivaninha onde depositou o lap, foi até a cozinha pegando algo para beliscar enquanto trabalhava. Em seguida puxou a cadeira e sentou-se com um sorriso feroz no rosto. Aquela prometia ser uma noite no mínimo interessante.

(...)

Conectou-se ao sistema remoto, autorizando as senhas vocais e escaneando sua impressão digital. Passou então a monitorar cada ponto da central. Todo o prédio era controlado por um sistema que ele mesmo ajudara a desenvolver e implementar, todas as saídas, entradas, dutos de ar, encanamentos de escoamento, estacionamento de aeronaves, absolutamente tudo, especialmente as comunicações internas e externas. Tanto a intranet, quanto à extranet, tinham sistemas de seguranças poderosos, projetados e desenvolvidos por ele mesmo. Garantindo assim a segurança do Chanceler e os principais membros do conselho.

Não havia histórico algum de invasão no sistema. Ninguém nunca conseguira ultrapassar suas barreiras de proteção. Qualquer conexão era rastreada e eliminada através de um vírus defensivo. Realmente era um trabalho de mestre. Um pequeno sorriso orgulhoso mostrou-se em seus lábios, ainda que não passasse de um leve encurvar.

Voltou seu olhar para o salão onde os outros funcionários trabalhavam, estranhando novamente a movimentação. Seu pessoal parecia fazer mais ligações que o normal para aquele horário tardio, então alguns levantaram cumprimentando-se e trocando pacotes coloridos. Que diabos estava acontecendo afinal? Não parecia ser alguma violação de protocolo de segurança, o rosto dos funcionários não demonstrava preocupação ou qualquer sentimento similar, eles pareciam... contentes. Voltou seu olhar para o relógio no canto da tela do lap, notando que passava alguns minutos da meia noite. Decidiu que não era nada a se preocupar e simplesmente ignorando a movimentação do lado de fora de sua sala, voltou seu olhar para as telas de monitoração que estava usando, fechando-as. Era tarde, nem mesmo vira o tempo passar, era melhor ir para casa e tentar dormir um pouco, pois pretendia estar logo cedo de volta. Guardou o lap na pasta. Desativando os sistemas da sala e trancando tudo.

Despediu-se contidamente dos outros funcionários, como sempre fazia. Não pôde deixar de notar os olhares estranhos dirigidos a sua pessoa enquanto deixava a sede do governo como se fosse uma noite como outra qualquer.

(...)

Duo esticou os braços por cima da cabeça, enquanto dava um sorriso satisfeito ao constatar que a compilação do seu vírus especial não tinha nenhum erro. Estava mais que pronto. Agora era só invadir e introduzi-lo no mainframe. E claro que ele ia fazer isso a partir da rede da matriz, o que permitiria que todas as outras fossem infectadas. Assim o estrago seria maior, e as chances de rastreá-lo seriam menores. O novo sistema de segurança, aquele que havia boicotado o projeto de Wufei, fora instalado em todas as filiais da Shenlong Corporation do Planeta, inclusive na matriz. O sistema até que era bem eficaz. Mas Duo era profissional, e modéstia à parte, considerava-se muito bom; sem contar que com as informações detalhadas que Wufei mandara fora muito fácil detectar as falhas do software para desenvolver o vírus. Sem contar, que o sistema de rastreamento e bloqueio de conexões do software, ainda não havia sido implementado plenamente. E isso era uma grande vantagem para que ninguém soubesse quem fizera aquilo.

Sabia que essa era uma atividade altamente ilícita na sociedade atual. Mas essa parecia ser sua única promessa de uma porta de saída do buraco em que se encontrava. Ademais, apesar do pouco tempo de convivência ele confiava em Chang, sabia que ele era um cara correto e estava apenas buscando ajeitar sua própria situação com a família da finada esposa e na companhia. Depois, planejara tão bem a rota, que não acreditava que algo pudesse dar errado. Sentia-se muito seguro.

Olhou para o relógio na tela do lap, vendo que eram vinte e três horas e vinte e três minutos. Riu, achando interessante aquele horário. Era hora de começar a trilhar sua rota de entrada. Estralou os dedos e pôs se a digitar os endereços, da linha que escolhera de entrada para o sistema da matriz: uma linha antiga, analógica e pouco usada, que tinha poucas das proteções digitais superpotentes atuais. Foi abrindo as portas do sistema até chegar ao mainframe de dados, onde as proteções eram mais fortes e lhe dariam um pouco mais de trabalho. Sorriu perigosamente, nem se lembrava mais do cansaço que sentia ao chegar em casa algumas horas atrás.

(...)

Pousou a mão sobre a catraca de entrada, sentindo a comum picada de extração de sangue[10] para liberar a entrada no prédio do governo. Era ainda muito cedo. Nem seis horas da manhã, marcava o enorme relógio ornamentado do prédio. Descansara um pouco, embora não tivesse dormido quase nada. Passou a noite olhando para o teto escutando músicas que nem sabia ao certo quais eram. Ultimamente suas noites eram sempre assim. Por fim, cansara-se de ficar deitado e resolvera voltar ao trabalho. Talvez nem devesse ter ido para casa, seu tempo teria sido melhor aproveitado se tivesse ficado trabalhando.

Adentrou o salão seguindo direto para sua sala, cumprimentando algumas pessoas polidamente. O ambiente parecia ter voltado ao normal, sem toda aquela agitação da noite anterior, embora ainda lhe parecesse anormalmente mais 'colorido'. Acomodou-se em sua cadeira iniciando seu lap e já abrindo os sistemas de monitoração no ponto que parara na noite anterior. Notou então o aviso de uma mensagem em sua caixa postal. Abriu-a mais por curiosidade, porque ao ver o remetente já sabia que não devia ser nada de importante.

Era de Relena, irmã caçula do Chanceler, que parecia ter uma vontade especial de gastar o tempo dele. Na mensagem, ela perguntava o motivo dele não ter comparecido à festa na noite anterior.

Festa?

Ela dizia que ficara desapontada, pois estava esperando-o como acompanhante. Mas que esperava que ele estivesse bem e lhe desejava um Feliz Natal.

Natal? Então era esse o motivo do alvoroço na sessão na noite anterior. Ele nem sequer havia se lembrado; também com a quantidade de trabalho que estava tendo ultimamente, como poderia? Apesar de que, embora não se importasse com essas comemorações de sentido puramente comercial, sentiu-se estranhamente chateado e solitário.

Fechou e excluiu a mensagem, sem dar-se ao trabalho de responder.

Era melhor se concentrar arduamente no que era importante, a segurança do Chanceler e da ordem do governo da Órbita Terrestre.

Voltou seu olhar para o sistema de monitoramento e resolveu continuar a análise dos relatórios de conexões das linhas mais antigas e pouco usadas. Tinha projetos para desativá-las em breve, mas enquanto isso não acontecia precisavam de um monitoramento específico. Um hacker experiente escolheria uma rota daquelas para tentar acessar os dados confidenciais do governo. Embora Heero duvidasse que qualquer um fosse capaz de passar por suas paredes de segurança.

(...)

Olhou para o relógio mais uma vez, faltavam dois minutos para a meia noite. Wufei não havia lhe dito que precisava 'lançar a bomba' exatamente a meia noite, alguns minutos antes não faria muita diferença. Sem contar que ele estava mais do que ansioso para ver seu vírus entrando em ação. Todas as barreiras já haviam sido derrubadas, e por sorte naquele horário nenhum programador fanático estava de plantão para notar a invasão e tentar impedi-la manualmente, já que o sistema sozinho não era páreo para Duo Maxwell.

Preparou o comando que continha o endereço da última porta em seu caminho juntamente com aquele que enviaria o 'pacote' pronto para ser executado. Olhou mais uma vez, conferindo o endereço: 219 . 149 . 190 . 60 Port 7001 . 518.[11]

Estreitou os olhos e executou o comando, esperando ver as mensagens dos arquivos corrompidos por seu vírus. Mas ao invés disso, recebeu um alerta de rastreamento, e antes que pudesse executar qualquer proteção para tentar driblar sua localização, viu seu sistema ser travado e invadido por um sistema que não era o da Shenlong Corporation.

Mas que diabos? Alguns segundos antes ele estava dentro da Shenlong, havia penetrado sorrateiramente, conferindo cada porta de entrada e derrubando as barreiras, não havia nada que pudesse travá-lo daquela maneira. Que diabos havia acontecido?

Ele conferira o último endereço, e mesmo que ele tivesse errado algum número a rota de entrada estaria fechada e o máximo que deveria ocorrer era uma mensagem de erro.

Não teve muito tempo para pensar. O sistema que o travara era extremamente eficiente e não sabia como burlá-lo. Antes que se comprometesse, pois certamente iriam conseguir suas informações de dentro do sistema de seu lap se demorasse mais. Decidiu pela maneira drástica de bloquear o rastreamento, abriu o dispositivo brutalmente, arrancando a placa de comunicação e a bateria. Aquilo danificaria quase que permanentemente o lap, mas já não importava, pois estava infectado pelo sistema de proteção, que era no formato de um vírus defensivo muito engenhoso.

Só esperava que não houvessem tido tempo para conseguirem maiores informações sobre ele. Jamais vira um sistema de segurança agir tão eficaz e rápido como aquele. Ficou curioso sobre de onde pertenceria. Porém, mais ainda, sobre quem o teria desenvolvido.

(...)

Heero mal acreditara quando viu o alerta de invasão ser projetado em vermelho na sua tela. Olhou os dados da invasão mais que depressa e não pôde acreditar. Como era possível que houvesse chegado até tão longe. O sistema de segurança não tinha detectado a abertura de nenhuma das portas anteriores que levavam àquele caminho. Como alguém conseguira penetrar tão fundo, perto do sistema de dados confidenciais, justamente o sistema que tinha dados sigilosos sobre as principais fontes de ameaça das Colônias, e sem deixar rastro algum!

Felizmente seu sistema bloqueara a conexão além de deter o pacote que na certa era um vírus e armazená-lo em local seguro para uma análise posterior. Porém, apesar do bloqueio do sistema invasor, Heero viu com desgosto que o rastreamento e a obtenção de informações não foram completados, devido a provável destruição da máquina invasora, pois não havia outra maneira de pará-lo.

Precisaria abrir uma investigação imediatamente para descobrir que raios de invasão fora aquela, e principalmente o responsável por ela. Abriu o relatório do sistema de segurança, vendo que a conexão era proveniente de outra auto-região, Nova Iorque, do outro lado do oceano. Já era um bom começo, pelo menos conseguira dados bastante precisos da localização, o que reduzia sua área de busca. Disparou mensagens para reunir sua equipe imediatamente. Não era qualquer um que iria querer acessar o banco de dados sigiloso do governo, e ainda menos seria qualquer um que saberia onde o encontrar. Mas acima de tudo, achava que ninguém seria capaz de driblar seu sistema de segurança daquela forma, penetrar até a última barreira, e tão sorrateiramente, só podia ser uma equipe altamente capacitada.

Provavelmente algum golpe para apagar ou alterar os dados de registros. Seria esse o ato que finalmente desencadearia a tão controversa revolta. Estariam as Colônias planejando uma invasão realmente?

Abriu uma conexão com o setor de transporte, sendo atendido por um rapaz com cara de sono. Sem delongas ordenou: — Aqui é o Comandante Yui, estou expedindo uma ordem para preparar um jato para a auto-região de Nova Iorque imediatamente.

—-----------------------------------------------------------------

Escrito por: Diana Lua em 07/01 e 17/02/2006

Revisores da primeira versão: Lídia Paula

Reedição em: 05 e 06/02/2014 — Publicado: 07/02/2014

Ultima Alteração: 27/12/2022

Notas finais
Alterações relevantes: # Alterações sobre a construção do Heero para solidificar a solidão da sua vida. Inclusão de sutilezas para intensificar o clima de guerra que permeia o plano de fundo da história. Suavização de alguns termos tecnológicos, deixando-os mais fácil para fazer analogias mesmo pra quem não conhece muito (espero!). Explicações: # Se alguém ficou confuso com a diferença de tempo entre Heero e Duo, lembrem-se que um está no equivalente ao EUA e outro na Europa e existe uma coisa chamada fuso-horário. Embora exista uma nova ordem mundial sem a divisão de países isso nada afeta as diferenças de horários. Espero que eu tenha conseguido deixar mais claro nessa versão, uma vez que houve comentários confusos sobre isso na versão do Contest. # Peço desculpas pelo corta e volta desse capítulo, eu precisava sincronizar os momentos dos dois e não sou muito fã de quando se escreve do ponto de vista de um e depois de outro porque tem que voltar a história e recontar; particularmente acho isso chato! Eu queria que acontecesse simultaneamente sem precisar ir e voltar. # Eu tive muitas reclamações sobre a parte tecnológica, uns dizendo que era cansativo e outros reclamando da falta de explicações. Mas, na verdade, tem muito pouca coisa que eu inventei. Todo esse papo de IP e rotas são reais, acho que é linguagem tão comum pra mim que não me preocupei em explicar, mas também não acho que essas explicações caibam no texto. [1] Trecho da música tema: Tobira no Mukou he, do Yellow Generation, trilha sonora de Full Metal Alchemist. Nesta versão traduzida e adaptada por mim [7] Bem que eu queria lembrar o que significa essa sigla, mas não deixei nenhuma anotação quando escrevi. Imagino que deva ser algo "Altamente Critica – Resolução Requerida". Normalmente eu deixo anotações porque nunca escrevo as coisas por acaso, mas dessa não achei nada e também não me lembro. [8] O código universal deles nada mais é que a conversão do silabário japonês em uma matriz, tendo três algarismos para cada posição, a primeira representando linha, a segunda coluna, e a terceira a sonorização da sílaba. Então basta ver como se escreve o nome em japonês e montar o código. Eu sou nerd mesmo, desculpem por isso. Mas eu queria deixar claro que não foi um número gigante escolhido aleatoriamente. [9] Eu não podia deixar passar essa. Tinha muitos adjetivos pro Zechs super gato, mas o Heero é um cara contido, então ficou só isso mesmo. Ao invés de lindo, sexy e delicioso. [10] Igualzinho do filme Gataca, quem pensou nele não se enganou. [11] Esse endereço de IP foi escolhido aleatoriamente. Qualquer semelhança é mera coincidência. Apenas o formato é o mesmo de um endereço real. Na publicação na foram colocados espaços entre os pontos devido a restrição do próprio site que não permite colocar o endereço corretamente.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.