Kaioshin Kai
8 Um Teste para Shin
Notas iniciais

A atmosfera na abóboda leste estava aparentemente tranquila. Shin cumpria suas primeiras funções, observado por Dai na bola de cristal, que estava de prontidão caso algo de errado ocorresse.
Shin ainda não conseguia entrar em todos os planetas com segurança. Como ainda era muito jovem, o seu escudo de proteção era também mais frágil e não aguentaria em planetas tóxicos como fogo ou gás. Restava-lhe apenas concentrar-se na detecção de energias malignas para, caso entrasse, passasse a responsabilidade ao Kaioshin que estivesse mais próximo e fosse mais forte e experiente.
Havia muito trabalho. O quadrante leste tem em sua maioria pequenos planetas, mas em grande número. Uma inspeção em busca de energias malignas leva cerca de vinte segundos, enquanto a inspeção visual e sensorial, sobrevoando o planeta por três órbitas defasadas 120° entre si, demora entre três a até cinquenta minutos. Em caso de inexistência de energias anômalas, não é necessário descer no planeta.
Passado horas, ele já havia feito inspeção em muitos planetas sem encontrar nada diferente do normal. Ainda lhe restava uma boa quantia de planetas a serem vistoriados e que estão mais próximos do limite com a dimensão de Yutaka.
Para vencer as grandes distâncias não basta voar. Mesmo na velocidade da luz, tudo parece parado ou então se move de forma muito lenta. Para contornar isso, apenas com teletransporte. A forma mais primitiva ainda é com o uso de portais, técnica usada unicamente por Nishi. Os demais Kais conseguem emulá-la também, mas usam o teletransporte por ser mais rápido e exigir menos energias. Como Shin ainda está em fase de aprendizado, muitas vezes evita tentar utilizá-la, já que pode acabar parando em lugares indesejados ou até mesmo perigosos.
Em determinado momento, Shin se aproxima de um planeta qualquer e sente que há algo estranho. Imediatamente entra em contato com Dai por telepatia, que estava de prontidão:
— Mestre, há algo errado neste lugar. Será que… — há certo nervosismo em sua voz.
— Acalme-se. Pelo que posso sentir não é grande coisa. Você conseguiria ir até lá verificar?
— Possivelmente. O planeta é muito parecido com o nosso, mas bem menor.
— Tudo bem. Desça com muito cuidado!
Shin ativa seu escudo para poder entrar no planeta protegido e inicia a descida. Conforme se aproxima, pode ter noção dos possíveis perigos:
— Como as nuvens são altas aqui… a temperatura está normal e o ar é respirável. Mas não posso perder tempo.
Como um cometa, ele usa o seu voo protegido em uma cápsula de ki que deixa um longo rastro no céu. Dessa forma se dirige até a provável origem da energia maligna, tomando todo o cuidado recomendado por Dai, que observa através da bola de cristal cada movimento dele. O jovem Kai também precisa agir de forma diferente e com movimentos mais calculados, já que as forças gravitacionais são muito menores.
Chegando ao local um grande lago se revela. No seu meio há uma pequena ilha com uma construção rústica bastante deteriorada.
— Então é dali que vem essa energia negativa, sinto-a crescer conforme me aproximo!
O momento é tenso. Shin não tinha muita experiência em combate, embora tenha dado um trabalho inesperado até mesmo para Minami por conta de suas técnicas peculiares de manipulação de energia. Sua força física também é ínfima comparada até mesmo com Nishi.
Shin então sobrevoa o lago e aterrissa na ilha. Uma luz azulada é visível entre as inúmeras fendas que há nas paredes. A energia negativa sendo emanada é intensa, mas ainda assim suportável.
Ele chega até a porta da casa e tenta a abrir. Estava trancada. Resolve então arrombar a porta sem qualquer cerimônia e se espanta:
— Mas… o que é isso?!
Um ser raça semelhante a Shinjin está em posição de meditação no centro preciso da casa, sob um tapete de energia. Tem aparência semelhante a humana, com um cabelo muito maior que o habitual. Suas orelhas lembravam a deles, mas bem mais curtas. A sua roupa, por outro lado, era iguais as que os Kaioshins usavam, exceto pela falta de ombreiras e por não possuir nenhum detalhamento dourado.
— Quem... é você? – Shin pergunta se aproximando devagar.
O ser abre os olhos e o encara claramente irritado.
— Como assim quem sou eu? Quero saber quem é você e porque quebrou minha porta!
— Eu sou o Kaioshin responsável por este quadrante do universo. Quero saber de onde vem e porque tamanha energia maligna!
— Muhahahha, quer descobrir? Descubra por si só! Porque não prova?
Um feixe de energia salta do tapete em direção à Shin, que reage rapidamente saltando para o lado, mas que ainda assim, leva um pequeno corte no rosto.
Dai observava tudo apreensivo.
— Você não é bem-vindo aqui. – o ser se levanta, permanecendo flutuando sobre o tapete — Vá embora ou será morto!
— O quê? Vejo que não quer conversar... Sou um diplomata, não gosto de ter que lutar. Mas para proteger a integridade desse quadrante, se tiver que arrancar respostas na base da força, o farei. – Shin serra o punho discretamente.
O ser ri de forma sarcástica batendo palmas.
— Baixinho desse jeito e rosnando... Que fofo. O que aconteceu com os outros Kaioshins? Um estava no bico do corvo, outro era uma rolha de poço, um se achava o guerreiro lendário e... Ah... A moça... – ele olha para Shin com um sorriso mal intencionado – até que ela não era de se jogar fora.
— Ora seu...! – Shin dá alguns passos para frente.
— Meu planeta, minhas regras. FORA DAQUI! – ele aponta para a porta.
Rapidamente Shin usa uma técnica que anula as energias do tapete, fazendo o ser dar com a cara no chão.
— QUEM É O BAIXINHO AGORA?!
— Muito bem! — Dai aplaude do outro lado da bola de cristal.
Humilhado, não resta alternativa ao ser, a não ser atacar. Um flash sai do chão, explodindo a casa. Por sorte Shin escapa ileso usando o teletransporte, que falha em partes o deixando no ar e o fazendo cair sentado no chão. Ele observa a queda dos detritos e a nuvem de poeira em uma distância considerável da casa.
O ser surge dentre a poeira e caminha em direção a Shin, que se levanta e o encara ambos olhando fixamente um para o outro.
— Quem é você afinal?
— Muhahahahha… Saudações, eu sou o Grande Hikaru!
— Saudações? – Shin o olha confuso — Não me faça rir, já ouvi falar de você... Como veio parar neste universo? Você é um Maikai?
— ORA SEU! Como ousa me insultar! – Hikaru ameaça a lhe golpear, mas Shin evita recuando.
— Por que quer mais poder? VAMOS, FALE!- Shin engrossa a voz.
— EU NÃO LHE DEVO SATISFAÇÕES! – diz partindo para cima de Shin com uma sequência de golpes.
Como não sabe exatamente as motivações de Hikaru, Shin apenas permanece na defensiva, sem usar qualquer tipo de golpe. Dai o orientou a jamais destruir ou enfrentar algo sem antes saber exatamente as causas. Hikaru então se afasta dando um pulo para trás.
— Por que não me ataca?! – diz Hikaru serrando os punhos.
— Você não me disse qual a sua intenção de possuir ainda mais poder. Como quer controlar algo se sequer é capaz de se comunicar?
Hikaru se enfurece e sua energia aumenta drasticamente. Shin percebe e se afasta cada vez mais.
— Não fuja de mim seu pirralho, vou lhe dar o que merece!
Uma esfera de Ki maligno é formada repentinamente nas mãos de Hikaru, que o lança em direção à Shin, que a desvia tranquilamente para espanto de Hikaru.
— Me nego a lutar com você seriamente sem saber o que quer aqui! Vamos, me conte!
Hikaru repete o golpe, novamente sem sucesso.
— Pode fazer isso quantas vezes você quiser, e do tamanho que quiser. Não lutarei com você! Você não vale a pena...
— O QUE VOCÊ DISSE?!
A última sentença de Shin faz a fúria explodir em Hikaru: seus olhos mudam de cor, ficando avermelhados. Uma quantia ainda maior de energia maligna flui pelo seu corpo, fazendo sua aura cada vez mais brilhante. Dai observa tudo com atenção.
— O que está fazendo?? – Shin o observa com um misto de surpresa e aflição — Seu corpo é incapaz de segurar toda essa energia!
As águas do lago mais abaixo chegam a formar grandes vagas por causa da agitação da água. Hikaru está concentrado em reunir o máximo possível de energia maligna em seu próprio corpo. Shin sabia que se ele continuasse, iria se matar.
Sem perder mais tempo, o jovem Kaioshin parte em alta velocidade em direção a ele, acertando um forte murro no estômago, o lançando contra a água. Isso fez com que Hikaru perdesse a concentração, fazendo a energia maligna em seu corpo se dissipar.
Hikaru sai furioso da água e permanece no ar observando as mãos.
— O que você fez comigo?! – ele fecha os punhos e olha com raiva para Shin, que o observava na beira do lago.
Ele rapidamente voa até Shin, tentando golpeá-lo, o que se mostra inútil tamanha diferença técnica, já que ele se desviava com facilidade. Shin o encarava independente da posição:
— Eu salvei a sua vida, você é um inconsequente! Perguntarei novamente: me diga o que pretende!
— MORRA!!!
Cansado da situação, Shin dá alguns saltos para trás se afastando, e rapidamente se concentra juntando as mãos e fechando os olhos, criando uma camada fina de aura branca nelas. Quando Hikaru se aproxima para golpeá-lo mais uma vez, Shin consegue segurar os punhos fechados dele e utiliza sua técnica para imobilizá-lo, o deixando desesperado sem poder reagir.
Shin se aproxima olhando nos olhos dele, de forma a examiná-lo com mais cuidado.
— Como eu suspeitava... Estava tentando confirmar isso enquanto me desviava.
O jovem kai põe as mãos na testa dele, deixando sua aura fluir e envolver os dois. Essa ação dele faz com que a energia negativa seja forçada a deixar Hikaru, que grita como se estivesse sendo torturado.
Uma nuvem de Ki maligno, com a mesma silhueta de Hikaru se forma. Ela toma vida quase de imediato e tenta atacar Shin, que usa uma das mãos para manter Hikaru protegido da energia maligna utilizando de um escudo de Ki, e com a outra, projeta um feixe de Ki de alta potência que é lançada na figura de Ki maligno, que se desintegra desaparecendo logo em seguida.
Hikaru está para desmaiar no chão, mas Shin o segura. Rapidamente ele tenta transferir um pouco de sua energia com cuidado, deixando-o com vida.
— Você foi manipulado por um Makai... Não sei qual é o seu verdadeiro nome, mas creio que você faça parte do pequeno vilarejo que há não muito longe daqui. A partir de agora, não há mais o que temer. Você continuará vivo... – sussurra Shin.
Higashi o deixa encostado em uma árvore e parte para outro planeta. Estava satisfeito com o sucesso de sua batalha contra o Makai. Dai o chama telepaticamente pouco tempo depois:
— Vi que usou com maestria o que lhe ensinei. Parabéns!
— Obrigado mestre, apenas cumpri o meu dever.
Eliminado o possessor de Hikaru, a energia do planeta volta a ficar em equilíbrio. Ele acorda instante depois sem se lembrar do ocorrido.
O restante do dia foi bastante tranquilo para Shin. Os demais planetas não necessitaram de nenhuma intervenção, deixando claro estar tudo em perfeita ordem.
Higashi volta até o meio do quadrante leste, fazendo uma última verificação geral. Não encontra nenhuma anomalia, e então, volta para o Kaioshinkai.
Lá, os demais Kaioshins já haviam chegado. Como sempre, Nishi vai até ele, e o saúda:
— Oi!! – ela acena animada — Como foi o primeiro dia como Kaioshin do Leste?
— Foi intenso… — diz dando um longo suspiro em seguida – Dentro de casa te conto mais, como todos juntos.
Nishi fica um pouco apreensiva ao reparar no arranhão no rosto de Higashi, mas permanece em silêncio.
Eles se juntam em uma mesa com os demais Kaioshins. Minami estava contando como foi o seu dia.
Shin estava bem cansado e por vezes, quase dormiu na mesa. Nishi, que estava ao lado dele, servia como uma escora, corando-se toda vez que ele pendia para o lado dela.
— Higashi, tudo bem? — questiona Dai.
— Uh? Ah, sim. Minha vez?
— Isso mesmo, conte para os seus colegas como foi o seu primeiro dia!
— Ah, tudo bem… Eu me cansei bastante por ter enfrentado um adversário.
— Ele era forte? — questiona Minami, se mostrando interessado na batalha.
— Depende do que você se refere a força. Ele estava sendo manipulado por uma energia Makai. Reparei que ele não havia pupila, então consegui purificá-lo. Estranhei ele ter uma certa semelhança conosco…
— Ah, era apenas um Shinjin normal, Higashi. – Kita explica com alguns risinhos — Nem todos moram apenas em Kaishin, é uma variação da nossa própria raça. Alguns de poucos foram levados para colonizar esses planetas isolados para cuidarem deles.
— Isso eu não sabia. – Shin coça o queixo pensativo.
— Bem, de qualquer maneira, o gesto de Higashi foi nobre, conheço certo Kaioshin aqui que talvez não agiria com a mesma proatividade. – diz Nishi lançando o olhar como indireta para Minami, que desvia o olhar fingindo não ser com ele.
— Ora, sem brigas os dois! — tutela Dai.
— Aproveite que está tão participativa e conte sobre seu dia, Nishi. – alfineta Minami cruzando os braços.
Inicialmente ela lhe responde mostrando a língua e continua:
— Foi um dia tranquilo, nada me aconteceu. Tanto que sei que era apenas para fazer uma simples inspeção, mas acabei parando em alguns planetas na região norte do meu quadrante para cuidar de uma parte que sofrera com a seca até esses dias atrás. Constatei que o clima estava mudando e dei um certo “empurrãozinho” – diz simulando as aspas com os dedos – para a natureza agisse e voltasse a ter vida.
— Ou seja: aquilo virou uma floresta. – conclui Minami em tom de ironia e riso.
— Bom, err... – claramente Nishi fica sem graça e abre um longo sorriso – Não pude me conter.
— Fez um bom trabalho de qualquer forma, Nishi. Poderia ter esperado um pouco mais para ver se a natureza reagiria sozinha. – diz Kita com um sorriso gentil – Então, Sr. Dai, o que tem a dizer?
Dai faz um breve silêncio encarando a todos, fazendo os Kais olharem apreensivos para ele com o suspense.
— O que vamos comer?
Todos caem para trás, Nishi e Higashi riem da situação.
— SR. DAI! – Minami chama a atenção também não podendo conter o riso.
— Ora, todos já relataram o que tinham que relatar, agora quero comer.
— Podem deixar que hoje eu farei a comida. – diz Kita animado indo em direção à cozinha.
— Precisa de ajuda, Sr. Kita? – pergunta Nishi se levantando.
— Hoho, não por hora. Se precisar te chamarei.
— Kai! – responde concordando.
O olhar de Nishi é novamente atraído para a ferida de Higashi. Ela pega um pequeno estojo de cima do balcão e o chama para a varanda da casa, onde um senta ao lado do outro.
— Nossa... As luas estão enormes hoje! – observa Shin sem tirar os olhos do céu.
— Sr. Kita disse que estaremos ainda mais perto delas nos próximos dias. – reponde mexendo no estojo.
— Kai, então elas ficarão ainda maiores... AI! – ele é surpreendido com um algodão banhado em remédio natural sobre o corte do rosto – Pra quê isso?!
— A não ser que ache estiloso ter uma cicatriz eterna no rosto, posso parar por aqui. – diz ela em tom zombeteiro.
Ele ri e faz sinal com a cabeça para que ela continuasse.
— Ainda irei aprender aquela técnica de cura...
— Você tem talento para essas coisas de qualquer forma, Nishi.
— Hihi... – ela se cora e termina de fazer o curativo, guardando o medicamento.
— Obrigado, Nishi… Hoje eu fiquei pensando no que é ser um Kaioshin de fato enquanto trabalhava.
— Um... Kaioshin de fato? Verdade?
— Sim. Tudo por causa do combate que eu tive hoje.
— Quem você combateu? Não era apenas um simples Shinjin possuído?
— Sim, é por isso mesmo. Eu não contei ao Dai que eu já tinha notado algo estranho nele logo de partida, e por isso evitei ao máximo o uso da força. Felizmente, não precisei destruir nada e pude ter certeza do que faria quando tive certeza do que estava acontecendo. — ele observa as luas sendo cortadas por algumas nuvens.
— Você se sentiu mal em algum momento com isso?
— Na verdade, não. Eu certamente estaria triste se soubesse que teria matado alguém em vão. Malditos Makais!
A fala mais entonada de Shin chama a atenção de Minami, que normalmente também vai para a varanda após jantar:
— Isso é perigoso. Guerreiros não podem ter toda essa sensibilidade, garoto.
Nishi o fuzila com os olhos.
— Eu sei, mas… — Shin responde sem olhá-lo.
— Não há mais nem menos em uma batalha. Especialmente se você está lá para vencer.
Nishi vai até Minami, com uma expressão bastante séria, e cochicha:
— Não acha que é um pouco inapropriado usar este tom agora, suposto guerreiro?
— SUPOSTO?
— É, suposto. Você anda meio esquisito nos últimos tempos. Não sei o que andou estudando, mas esse seu fascínio em ser um guerreiro às vezes cansa. Deixe o Shin comigo. Ele ainda não entende algumas coisas, e precisa sim de alguém que o ajude no Ki, não apenas no verbo.
Apesar de não concordar, Minami se afasta. Kita logo aparece, chamando todos para dentro novamente:
— O que fazem aí ainda? A comida já está esfriando e vocês não comeram.
Nishi e Higashi assintam e seguem o conselho do mais velho. Mas antes que ela fechasse a porta, fita o céu com ar de preocupada.
“Isso é estranho... Mas melhor eu não comentar nada por hora... Preciso limpar minha mente disso caso desconfiem de algo e tentem lê-la...”, ela pensa.
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