Kaioshin Kai
6 O Planeta Kaishin

O sol ajudava a alegrar a pequena feira na parte mais central de Kaishin. Era época de colheita, e os agricultores estavam muito satisfeitos tanto pela quantidade como pela qualidade de seus produtos, após meses de trabalho árduo. O clima entre eles também era de euforia, pois a Festa da Colheita estava próxima.
A cidade de Kaishin foi construída em uma região privilegiada. Há muitas belezas naturais no local devido ao relevo acidentado. A cidade possui um traçado viário radial, com seis ruas convergentes para um templo, e um quartel militar não muito longe dali, no qual aloja os guerreiros mais brilhantes daquele planeta. Por onde você andasse pela cidade, sempre poderia acessar o seu centro facilmente. Distâncias maiores separavam as fazendas com Kais camponeses.
Em Kaishin, há uma pacata cidade onde há um shinjin guerreiro chamado Nobuhiko, no qual mora em uma região afastada da área urbana da cidade. Como seus pais já faleceram, ele vive sozinho em uma pequena casa, tendo como tarefas básicas o treinamento e aperfeiçoamento contínuo, além de prestar ajudas diversas na cidade.
Embora ele chame muita atenção em Kaishin por suas habilidades, como todo bom guerreiro possui o físico bem treinado, é um kai alto de cabelos castanhos na altura do ombro e franjas rebeldes, pele caucasiana e olhos castanhos. Não possui um papel sagrado relevante, pois é um guerreiro. O planeta e cada quadrante daquela dimensão são resguardados por cinco seres chamados Kaiôs; que são os deuses auxiliares dos Kaioshins. Tal como os mais poderosos dali, eles se dividem em quadrantes, com um deles sendo o mestre.
Os Kaiôs mantém contato contínuo com os Kaioshins. Na posição de deuses subordinados, também recebem ordens para atuar em alguns casos onde sua ajuda é necessária, especialmente na proteção e conservação da árvore Kaiju, onde muitos Kais, Makais e — raramente — Kaioshins nascem.
O mestre de treinamento e comandante de todo batalhão de Nobuhiko, chamado Hayato, é um Kai já idoso, mas muito respeitado em toda a cidade por sua grande sabedoria. Conta-se que ele já foi o Kai guerreiro mais notável e forte de toda Kaishin, mas que foi enfraquecendo com o tempo justamente por causa da idade — embora ainda se mantenha muito mais ágil e sagaz que a maioria dos guerreiros.
Como de costume, naquele dia Nobuhiko começava sua longa caminhada diária rumo ao batalhão. O dia estava muito agradável: ainda amanhecendo aos poucos, com o céu limpo e estrelado de um lado e mais claro de outro. Uma leve e refrescante brisa soprava, ainda carregando o ar gelado da noite.
O caminho que faz passa pela beirada das montanhas, dando-lhe sempre privilegiada visão de toda a cidade e as praias embaixo. Alguns de seus colegas também faziam este caminho, mas costumavam passar mais tarde.
Um deles é Yoshiaki, atualmente destacado como o melhor dos guerreiros juntamente de Nobuhiko. O histórico de ambos é longo, e se conhecem desde que nasceram, pois suas famílias moravam lado a lado. Eles formam uma das melhores duplas de luta de toda Kaishin justamente por essa proximidade e conhecimento.
Ao descer a montanha, há uma pequena fonte. Ela existe para os viajantes tomarem ou levarem água para encarar a subida íngreme e implacável. A pequena estrada que foi construída possui várias curvas para tornar a subida suave, o que aumenta o seu comprimento demasiadamente.
Kaishin possui entrada livre, embora já tenha sido murada no passado em função de disputas territoriais que foram encerradas há milênios por influência de Makais que ali moravam após um tratado de paz. A muralha foi demolida, e com sua caliça se construiu boa parte dos alicerces da cidade.
Nobuhiko chega à cidade, agora com o sol já escapando da linha do horizonte. Crianças já brincavam nas ruas, enquanto os pais abriam suas tendas ou saíam para o trabalho no campo. As mães permaneciam em casa ou frequentavam as tendas, por vezes também indo até o templo acender ou conseguir incenso. Diferente do Planeta Sagrado – que possui o céu em tonalidades rosadas ou lilás -, Kaishin costuma ter o céu azulado na maioria das vezes.
Hayato, como sempre, esperava pacientemente pela chegada dos guerreiros que moravam fora do templo. Os residentes já estavam de pé e treinando:
— Bom dia Mestre, Kai? – diz Nobuhiko batendo continência.
— Kai, bom dia.
— Hoje o dia está bom. Poderei treinar na floresta novamente?
— Claramente.
— Treinaremos com os arco e flechas, espadas ou técnicas de Ki hoje, senhor?
— Nenhuma dessas opções. – Hayato dá as costas para que ele o acompanhasse.
— O que faremos então?
— Saberá.
Neste momento, Yoshiaki ingressava pelos portões:
— Olá Mestre, olá Nobuhiko, Kai? – ele pergunta afobado.
— Kai. — ambos respondem.
Os dois seguem o mestre em um silêncio suspeito.
— Yoshiaki, o treino será diferente hoje. – sussurra Nobuhiko.
— Ah é? O que faremos?
— Não sei.
Yoshiaki olha para Nobuhiko arqueando uma sobrancelha.
Outros Kais ali treinavam no pátio central com toras e pedras, ou então em combate coletivo com força reduzida. Os dois então entram na sala de Hayato, onde ele pega um papel já envelhecido:
— Escutem: hoje irei dificultar um pouco nosso treino de criação. Vocês terão que fazer uma ponte sobre o rio que passa atrás do Templo. Podem usar embasamento de pedras e estrutura de madeira, mas que seja fácil de montar ou desmontar.
— Uma... Ponte? – Nobuhiko questiona confuso e com certo tom de desapontamento.
— Uma ponte naquele rio? Isso é possível? – pergunta Yoshiaki surpreso.
— Perfeitamente, eu fiz uma no passado sozinho, em dupla será fácil — declara Hayato.
— Se já fez uma vez, por que não a deixou lá? – Nobuhiko indaga.
— Ora, sem perguntas. Apenas vão! – diz Hayato fazendo sinal com as mãos para que saíssem dali.
— Bem, então não vamos perder tempo, Yoshiaki! Isso poderá levar o dia todo.
— Kai! – Yoshiaki concorda, levantando o punho em sinal de determinação.
Rapidamente os dois saem correndo e com um impulso levantam voo até o local mandado.
O referido rio possui mais de 400 metros de largura naquele ponto. As profundidades chegam a cerca de um metro, não mais que isso, sendo possível cruzá-lo tranquilamente a pé.
— Como vamos fazer uma ponte de madeira tão longa aqui? Foi fácil no outro que fizemos outro dia porque era mais estreito. – diz Yoshiaki observando o local.
— Isso não será muito difícil.
— Tudo bem. O que pretende?
— Yoshiaki, consiga toras daquela floresta... toras inteiras. – Nobu olha ao seu redor pensativo — Eu vou naquele monte para pegar pedras para fazer as bases.
Ele assinta e os dois se separam para recolher o que seria usado.
Yoshiaki ia para a floresta, enquanto Nobuhiko já carregava o seu Ki para conseguir as pedras. Ele se aproxima de um bloco rochoso, e dispara vários golpes nela:
— Haaaaa!!!!
Ao usar uma técnica especial, ele consegue partir vários blocos em forma de tijolos com cerca de 50cm, pesando cada um cerca de 200kg.
Yoshiaki chega à floresta e usa uma técnica parecida, mas mantendo o formato cilíndrico dos troncos. Usando o seu Ki, põe mais de trezentas árvores no chão, já as limpando da mesma forma.
Para não molharem toda a roupa, os rapazes tiram as botas, o kimono e a blusa, permanecendo somente com a calça – na qual é dobrada até os joelhos.
Nobuhiko carrega cinco blocos de rocha por vez, empilhando-os no meio do rio, até completar quarenta pilares com cinco tijolos de altura. Yoshiaki traz quatro troncos por vez, com Nobuhiko o auxiliando para que ficassem alinhados e encaixados nos pilares.
Ao final do dia de dispêndio energético, eles terminam a ponte. Hayato aparece para conferir o trabalho:
— Muito bem, Kais! — fala caminhando sobre a ponte.
Hayato emana uma leve aura amarelada que também envolve os guerreiros, e todos começam a flutuar. Após subirem cerca de 100 metros, Hayato vira para olhá-los:
— Uma boa ponte tem que resistir a uma cheia.
— O-o que? – Nobuhiko fica preocupado.
— Observem.
— Oi? – Yoshiaki o olha assustado.
Com um pouco de esforço, Hayato barra o fluxo do rio nos arredores da ponte, mas sem inundar as margens, formando uma muralha d’água de 10m de altura. A ponte fica completamente submersa, e resiste:
— Muito bem Yoshiaki, impermeabilizou a madeira como deve ser.
Após um tempo, Hayato abre um dos lados da sua barreira, e permite que a água escape para o mar, gerando uma correnteza muito forte. A ponte resiste ilesa:
— Parabéns Nobuhiko, base sólida. Estão aprovados, sem ressalvas.
Os kais sentem-se aliviados por passarem no teste. Todos descem até o nível da praia:
— A ponte ficará aqui, como forma de acesso a outra margem do rio para todos. Ambos estão dispensados.
Os dois agradecem o reverenciando e saem caminhando com suas roupas amarradas na cintura: Nobuhiko alongando seus braços os colocando atrás do pescoço e Yoshiaki estralando os punhos.
— Aaaaaargh! Finalmente! Estou morto de cansaço!
— Então, Nobu, irá direto para casa hoje?
— Hmmm... Creio que sim, por quê?
Yoshiaki permanece em silêncio por um momento, com um breve sorriso e olhar tranquilo ao horizonte.
— Por nada...
— Tem certeza? – Nobu deixa de se alongar e o observa desconfiado. – Pois não é o que parece.
— Uhum...
— Poderíamos jogar cartas mais tarde, o que acha?
— Hehehe... hehe... he... Desculpe, mas ficará pra próxima. – Yoshiaki fica sem graça colocando uma mão na nuca.
— Hahahahahaha! Ora, o que está aprontando, Yoshi? – Nobu lhe dá uma empurrão.
— Haha... É a Yoshiko, sairemos para jantar hoje.
— Ah é, a garota! Às vezes me esqueço de que é quase um Kai casado.
Ele arregala os olhos se corando.
— O-Ora... Ainda não a pedi...
— E o que está esperando? Já está saindo e se encontrando com ela há tempos! Vai esperar algum outro kai chamar atenção dela, hã hã? – diz Nobu o provocando enquanto o cutuca com o cotovelo.
— N-NÃO! Não é isso!!
— HÁ! Não bobeia. – Nobuhiko mostra a espada de Yoshiaki que havia pegado sem que ele percebesse.
— Hey! C-Como? Devolve-me isso! – diz tentando pegar.
— ...Ou você poderá perde-la sem perceber assim como peguei sua espada.
Yoshiaki o olha arqueando uma sobrancelha.
— Está comparando a Yoshiko com a Hyuki?
— Heh... Sabe que apenas estou te enchendo o saco. – ele joga a espada em direção ao amigo, que a pega no ar. – Vamos indo, o galã aí tem que se aprontar.
Nobuhiko volta a caminhar enquanto Yoshiaki embainha a espada e o segue.
— E quanto a você, Nobu?
— Hm? Eu?
— Sim... Não conheceu ninguém?
Ele fuzila Yoshiaki com os olhos.
— Você me perguntou isso ontem.
— De ontem pra hoje daria muito bem pra ter aparecido alguém, cara.
— Heh... Até parece...
— Você é muito pessimista quanto a isso. Há tantas garotas que te olham e você não dá bola a nenhuma.
— Quer que eu fique com uma kai mesmo não sentindo nada por ela?
— Daqui uns anos você não subirá mais de posto, você sabe.
— Haha... Que sujeira, Yoshi. Espero que não esteja fazendo isso com a Yoshiko... – diz Nobu em tom risonho.
— Claro que não! Acha que sou quem?
— Bom, ela conseguiu aquietar seu facho, então acredito em vocês.
— Hahahahaha! Ora, seu... – Yoshiaki ameaça a bater, fazendo com que Nobu acelerasse alguns passos.
— Hahahaha, é verdade, cara...
Estavam se aproximando do lugar aonde cada um seguiria seu rumo, quando Nobuhiko continua:
— Até amanhã, Yoshi. Divirtam-se!
— Kai! – reponde fazendo positivo com o dedo e logo segue seu caminho.
Nobuhiko olha para o horizonte enchendo os pulmões de ar puro, colocando as mãos na cintura com olhar confiante, embora muitas vezes a monotonia do dia-a-dia lhe pegava.
— Bom, Nobuhiko, isso é só o começo...! – diz a si mesmo.
O sol estava quase sumindo, então não havia muito que ser feito naquele dia:
— Ah, não posso ficar nessa vida por mais tanto tempo... Sinto-me entediado quando não estou trabalhando. Preciso... De algo novo! Droga, mas estou muito cansado para sair...
Relacionamento era algo que Hayato considerava o problema mais grave de Nobuhiko. Sua vida solitária não era normal nem para os demais guerreiros, acostumados a passar longo tempo trancados no batalhão sem ver sua família, já que alguns tipos de treino exigiam isolamento total. Embora Nobuhiko seja muito tímido e quieto, sempre causa certa disputa entre as kais, embora nenhuma tenha ousado ir até ele e falar o que sente diretamente.
Porém, Nobuhiko sabia que uma relação não era escolha apenas dele, visto o grande número de casais em Kaishin que não dão certo na primeira vez. Yoshiaki mesmo teve três mulheres antes de Yoshiko. Hayato também, à diferença de que sua esposa já faleceu. Ele se põe a pensar:
— Será que há algo que possa explicar isso além da minha falta de iniciativa? Por que sou tão tímido? Yoshiaki está certo... Se eu continuar nesse ritmo, ficarei para atrás daqui alguns anos. – ele permanece em silêncio por um momento e de repente explode – MAS QUEM DIABOS INVENTOU ESSA MALDITA REGRA?! Por que tenho que estar casado para poder subir meu posto??? Eu ser solteiro não significa que sou imaturo ou menos responsável que os outros! Grrrr.... – ele chuta uma pedra.
Para Yoshiaki, tudo ficou muito mais fácil após se unir à Yoshiko. O seu ganho nos treinamentos e na saúde foi notável, aumentando de forma surpreendente a sua concentração e domínio, tal qual geralmente acontece com kais que se casam por se tornarem mais atentos e responsáveis para cuidar de sua família.
Resta saber se com Nobuhiko o ganho seria tão expressivo a ponto de deixá-lo ainda mais notável, se isso daria certo ou... Se simplesmente ele continuaria sendo tão desajeitado que o faria permanecer sem alguém para que possa ganhar subir de nível como guerreiro.
Fale com o autor