Kaioshin Kai
3 Aprendendo sobre os Kais

Logo de manhãzinha Marble acorda com os primeiros raios de luz que atravessam a janela de seu quarto. Yutaka está reluzente após a chuva, e o pequeno córrego que passa ao lado da casa correndo pleno.
Após se arrumar, ele desce e se surpreende ao ver Kiyo na cozinha. Aparentemente não havia muito tempo em que havia chego de seu turno.
— Bom dia meu querido! – ela diz o abraçando — Como foi a sua noite? E o Kai?
— Ele está deitado ainda…
— Tudo bem, está cedo ainda. Não pensei que te encontraria acordado agora.
— Dormi cedo... – diz se aproximando de um cesto de frutas sob a bancada, tentando escolher uma enquanto continua — A chuva aumentou, então não consegui me concentrar na leitura por causa das trovoadas fortes.
— Anda chovendo muito ultimamente... – Kiyo solta um risinho – O Kai me contou que você estava preocupado com o seu lago.
Marble sorri sem jeito e escolhe um fruto roxo e suculento, de aparência semelhante a de uma maçã grande. Ele levemente joga o fruto pra cima, catando ele no ar.
— Sim, mas ele disse para que eu não me preocupasse.
Ela sorri brevemente e assinta com a cabeça.
— Preciso descansar, nos vemos depois. – diz se aproximando e lhe dando um beijo na testa, subindo as escadas logo em seguida.
O jovem kai a observa subir e tasca uma mordida no fruto.
— Mamãe parece um pouco estranha... Será que aconteceu algo?
Ele se aproxima da janela e vê os pássaros voando e cantarolando contentes. As plantas ainda estavam molhadas como orvalhos da água que caiu na noite cassada.
— Nah... Deve ser coisa da minha cabeça.
Ainda comendo o fruto, ele se dirige para a sala, onde pega uma bola de cristal que estava sobre as almofadas e a coloca debaixo do braço. Logo em seguida ele sai de casa, e começa a caminhar observando a paisagem verdejante à procura de um lugar para se sentar.
Atravessando a pequena ponte do riacho perto de casa, olha com atenção a água que corria com velocidade e o volume de água que havia aumentado.
— Se chover mais, a água virá para cima da ponte... Será que a mamãe não percebeu isso? – ele olha ao seu redor, observando o céu que no momento estava limpo enquanto terminava de comer o fruto – Não duvido que o tempo mude novamente. – diz suspirando com certo sentimento de impotência.
Continuando a caminhar por mais um tempo, ele escolhe o topo de uma colina onde conseguia ver o sol que ainda surgia no horizonte por entre as montanhas.
— Aaaaah, que lindo! – se espreguiça abrindo os braços o quanto podia.
Porém, ao fazer isso a bola de cristal escapa de sua mão, a pegando no ar.
— Pheel... que sorte!
Ao se sentar na grama, Marble pula dando um grito pondo as mãos no traseiro.
— Gelado! Gelado! Gelado! Molhado! Aaaaaah que droga! – ele joga a bola de cristal com cuidado na grama — Por um momento eu esqueci que choveu!! – ele tenta se secar um pouco, dando tapas na roupa – Ah, quer saber? Tanto faz. – diz se sentando novamente, já que estava molhado de qualquer forma.
A brisa matinal estava gelada e fazia com que seus cabelos balançassem lentamente. Marble observava o horizonte de braços cruzados sentado em posição de lótus, assistindo a paisagem mudar suas cores calmamente ao ritmo que o sol nascia.
Se há algo que ele gosta e lhe acalma é observar a natureza e suas mudanças. Desde pequenino ele se encantava fácil com coisas simples como essa — que deixava Kiyo feliz por ver a sensibilidade e percepção dele com o que acontecia ao seu redor.
— Os Kaioshins já devem ter acordado... – sussurra voltando sua atenção para a bola de cristal, que emana uma luz ao ele passar a mão próxima a ela – Eles me pareciam agitados ontem... Há algo diferente pra hoje? O menor me parece um pouco apreensivo. Falando nele, aparentemente é um dos que não estão em pé.
Marble continuava a observá-los como de costume. Às vezes tentava mudar o foco para outros lugares por curiosidade, como Kaishin e outros planetas. Anos atrás isso era um dos treinamentos que seu pai havia lhe dado para aprender a utilizar a bola de cristal, hoje já é uma coisa simples e corriqueira.
— Deve ser divertido conviver com vários amigos, assim como eles... Hm?
Sentindo a presença de alguém, ele olha para trás e vê seu pai subindo a colina com alguns livros nas mãos.
— Esqueci meus livros, papai?
— Não se preocupe, eu iria vir até você de qualquer forma. – chegando ao topo, ele faz um cafuné brincalhão, bagunçando o cabelo e Marble – Bom dia.
— Hahahaha, paaaai! – ele reclama já passando a mão na cabeça para arrumá-la.
— Já está observando os Kaioshins?
— Sim... Aliás, você disse uma vez que eles vivem em uma dimensão diferente da nossa, não é? Os acho tão diferentes…
Ele abre um dos livros, já bem envelhecido:
— Filho, sabe desde quando eu tenho este livro?
— Não faço ideia…
— Desde quando eu ainda não conhecia a Kiyo… Foi um dos meus primeiros livros. – Toshio se agacha ao lado dele.
— Uau! E quanto tempo é isso mais ou menos?
— Digamos que seja impossível contar… – diz em tom brincalhão aproximando se mais de Marble, deixando o livro mais à vista dele. E continua: — Bem, vamos recapitular: Aqui está a hierarquia universal: os minerais, os vegetais, os animais, os outros seres como os Kais, os Kaiôs, os Kaioshins, e nós: os Sagrados Supremos Kaioshins.
— Sim, disso eu me lembro.
— Todos na verdade fomos apenas alguma forma de energia um dia, assim como a luz que você vê e não vê. E continuamos sendo uma.
— Se refere a nossa alma?
— Exato. Ela é a nossa forma original. E sempre permanecerá.
— Então, o Universo é uma mistura de almas?
— Sim. Só que almas que ainda não estão aptas a terem um corpo, ou assumirem uma forma.
— Mas então um mineral constitui que ponto da escala evolutiva? E um vegetal?
— O mineral é a forma mais básica. Nesse estágio a alma apenas habita, não possuindo qualquer tipo de inteligência ou senso. Os vegetais são o próximo passo, mas também não possuem nenhum senso. Por isso podemos colher uma flor sem que ela sinta qualquer dor.
— E depois?
— Depois ingressamos no ciclo inteligente, nos tornando criaturas com sensibilidade. Ele representa a maior parte de nossa existência.
— Mas e no seu caso?
— Bem, eu não saberia como explicar… É uma questão que está na singularidade.
— E essa singularidade, o que seria?
— É o ponto máximo onde podemos enxergar. Como aquelas montanhas que somem no horizonte tão longe estejamos delas. Assim como elas, ao mesmo tempo em que estamos longe também estamos perto dos Kaioshins. Vivemos sim em uma dimensão diferente da deles, como você se lembra.
Um pouco intrigado, Marble volta a olhar as montanhas que compunham o horizonte que até pouco estava observando.
— Ah, uma questão: e sobre o mal, como ele surgiu?
Toshio se levanta e fecha o livro dando um suspiro um pouco pesaroso. Então ele lhe oferece a mão para que Marble também se levante.
— Bem, ele sempre existiu. Mas inicialmente foi uma questão de escolhas.
Marble se levanta com a ajuda dele, segurando a bola de cristal.
— Ainda na primeira era dos ancestrais, os Kais e Kaioshins não eram unificados e puros como são hoje. – os dois começam a caminhar calmamente, observando a paisagem — Não havíamos noção de que poderíamos estar convivendo com o inimigo ao lado literalmente. Aos poucos descobrimos e percebemos que não bastava um Kai se mostrar mais poderoso para ser um Kaioshin simplesmente, mas havia o livre arbítrio: escolher um lado. Assim descobrimos que não éramos todos iguais: uma parte deles optou pelo domínio completo das forças, para impor sua autoridade como Deuses ou para tentar parecer superiores, tendo a destruição como método de opressão. Já a outra se preocupou em preservar e criar possibilidades, usando o mérito e o respeito. Dessa forma, houve um momento em que decidimos criar dois lados por definitivo.
— Então naquela época não existiam os frutos Sagrados?
— Existia, mas como disse anteriormente, não havíamos noção do que os frutos diferentes significavam. Não havia nenhuma conduta, tudo era permitido dentro do nosso então limitado conhecimento em um Universo com pouco tempo de vida e vazio em sua maior parte.
— E eles se tornaram no quê?
— Comecei a chamar essa entidade como Makai, o oposto de Kai.
— E existem quantos?
— Na verdade não sei ao certo. Fato é que lá existe a mesma hierarquia que no mundo kai, mas com os valores inversos.
— Então é como se você tivesse um irmão maligno?
— Bem, vamos voltar a falar dos Kaioshins... – diz Toshio, voltando a folhear o livro.
Marble o olha um pouco confuso.
— Claro.
— Eles estão um nível abaixo de nós. São fisicamente parecidos, mas tem poderes e sabedorias mais limitadas. Entretanto, são os seres mais sagrados e poderosos de sua dimensão.
— E não são todos iguais, não é?
— Não, não são. Os poderes entre eles variam enormemente. São cinco atualmente: quatro Kaioshins e uma Kaioshin.
— Mas porque apenas uma garota, e não três ou duas? — Marble coça a cabeça pensativo.
— Isso não é uma coisa determinada. A geração anterior teve dois Kaioshins e três Kaioshins.
— E hoje em dia, quem é o melhor deles?
— Bem, não há necessariamente um melhor, varia conforme os aspectos. – Toshio o faz parar de caminhar, fazendo com que a bola de cristal de Marble se manifestasse — Em termos de hierarquia o de nome Dai é o responsável por orientar os outros quatro. – ele explica mostrando na bola — Ele é o mais poderoso, esse sendo o Sagrado Kaioshin. Enquanto Higashi, o pequenino de pele púrpura, é o mais fraco por ser o mais jovem.
— Sempre o achei mais fraco, até pelo seu porte.
— Depois temos Minami, o Kaioshin do Sul. Ele é o fisicamente mais forte, seguido de Kita, o Kaioshin do Norte e por fim, Nishi... A Kaioshin do Oeste.
Marble esboça um breve sorriso ao vê-la. “Acho ela divertida, isso a torna fofa”, ele pensa.
— Não sei você papai, mas tenho um pressentimento de que ela e o pequeno Higashi tem uma estreita ligação, diferente dos outros três.
— É o que parece... Isso é algo que foi ficando mais raro com o passar do tempo. As últimas 10 gerações ficaram muito mais preocupadas em adquirir força e resultados, deixando inevitavelmente esse tipo de afeição de lado.
— Foi assim que a mamãe conheceu você, não?
— Mais ou menos... Nossa história foi muito mais difícil, pois eu já era um Kaioshin, e ela uma simples Kai... Uma bela shinjin camponesa. Ela tirava suspiro de muitos... Hahaha, haha... – ele ri sem jeito.
— Aaaam... Ela não estava no seu nível então?
— Claramente não. Mas o problema em si não foi hierarquia, isso era o de menos. O problema foi ela como qualquer kai normal, viver até 1/10 do tempo de vida de um Kaioshin. O que piorava, até então por eu não saber quem eu realmente era. Mas bem, essa história eu deixarei para outra hora... – ele pega a bola de cristal das mãos de Marble e lhe entrega os livros.
— Tudo bem papai… algo a mais que me queira falar sobre os Kaioshins?
— Ah, sim: eles são vulneráveis. No passado, houve uma guerra com o lado Makai onde quase perdemos. Muitos deles morreram assassinados, e pior: absorvidos. Quando isso acontece, sua alma e energia são aprisionadas na esfera Makai. Lembro-me de sentir as dores angustiantes de suas peles sendo queimadas e destruídas, suas almas esmagadas… Naquela época eu não pude intervir porque não consegui acessar seu universo. Agora, eles tem um conjunto de chaves para me chamar quando necessário… Mas tenho minhas dúvidas que ainda se lembrem delas.
— Espera... Então não podemos acessar a dimensão deles?
Toshio suspira, voltando a caminhar:
— Sim e não...
— Quê? Espere! Por que? Pai! – ele o segue — Tá mas... E quando eles não são absorvidos, o que acontece?
— Eles vêm para essa dimensão: o Outro Mundo, mais exatamente em um planeta longínquo onde levarei você um dia para conhecê-lo.
Por um momento um silêncio toma conta da caminhada. Marble baixa a cabeça pensativo, enquanto uma leve brisa joga parte dos cabelos do pai no rosto dele.
— Me desculpe fazê-lo se lembrar de coisas ruins, pai…
— Não há nada de ruim meu filho… através das recordações do passado, e com seus erros, é que aprendemos a cuidar hoje do amanhã.
— E... sobre os kais normais? O que eles fazem?
— Bem, eles na verdade vivem como nós, mas a maioria não sai do planeta Kaishin. Existem outros planetas habitados por raças diferentes de Kais e até mesmo de outras mais diferentes de nós. Mas Kaishin concentra quase a totalidade de seres com nossa semelhança.
— Kai! Isso me deixa ainda mais empolgado para desbravar os universos afora! – diz Marble empolgado.
— Hahahaha, vamos com calma. Quem sabe qualquer dia desses eu te leve, hm?
— Oh! Sério??
— Mas é claro, por que não?
— Yaaaaay! – Marble sai correndo animado, deixando o pai para trás.
— Haha, esse garoto...
Toshio o observa de longe correr e brincar com os pássaros, nos quais tentava pegar quando pousavam nele. Achava graça em vê-lo animado daquela forma, via muito de Kiyo no garoto. Porém o dia estava apenas começando e como sempre, havia muito a aprender.
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