Kaidan 2068 - Contos em Cyberpunk
4 Homens ricos vivem & Homens pobres morrem
Notas iniciais
"A dureza do homem.."
O pelotão corria por dentro do fluxo calmo de um rio, que cobria seus joelhos com sua água gelada.
"..deriva daquilo que eles se propõem a proteger.."
A água se espalha com as passadas constantes, mas os olhos dos soldados apenas fitam o horizonte, enquanto cercados por uma mata pouco densa, mas muito mais verde do que era esperado.
".. Quando um homem deseja proteger aquilo que ama..."
Os gritos de incentivo de seus líderes impulsionam os soldados a marchar mais rápido, com mais força, com mais vontade.
"...nada pode impedir que ele faça o que é necessário.."
O pelotão chega ao limiar do bosque, os raios alaranjados do por do sol ofuscam seus olhos, fragmentando as imagens ao longe.
"...por isso, ame seu país, que Deus dará o que é necessário para protegê-lo."
Uma grande nuvem cobre os raios do por do sol, mostrando a cidade em frangalhos, tomada por torres esfumaçadas, pelo cheiro de metal carbonizado.
A imagem se afasta, dando o panorama de toda a região; as bombas caem, os gritos de "avancem" não param. O som dos tiros ecoa.
—--
5 MESES DEPOIS
O som dos tiros ecoa.
A face barbada coberta pelo visor tático não reage. Em sua mira um homem vestindo um duo simples e roupa com camuflagem incorreta para aquela região.
— Alvo abatido, comando — Fala o atirador.
"TUM"
O tiro atinge a cabeça do homem que estava na mira. Ele cai, e o sangue encharca a parede atrás de dele.
A imagem recua, deixando o atirador de costas, subindo, mostrando uma cidade ferida pela guerra. Outros homens se movem, se agrupando próximo ao atirador, estão juntos. Patrulhando aquela zona.
—--
— Esquadrão Verde 17, reportar — A voz falhada do comunicador ordena.
Um militar com implantes em um dos olhos pega um fone e o coloca na boca.
— Abatemos seis batedores, senhor — Sua voz rouca indica que suas cordas vocais foram afetadas por alguma coisa.
A comunicação só emite estática por alguns segundos. O som dos bombardeiros cruzando o céu ocupa a atenção dos soldados a volta.
— Tenente Silva, sua posição corre perigo. O radar informa que dois tanques autônomos estão avançando para ai. Defenda esse ponto, enviaremos reforços assim que for possível — A voz falhada do comunicador informou sem nenhum sentimento.
O oficial observava o céu, acompanhando o rastro distante dos bombardeiros. Eram dois, apesar de ele saber que deveriam ser pelo menos três para aquela formação. Seus olhos expressam culpa.
— Senhor, o comando não vai enviar reforços, certo? — Pergunta um soldado que limpava seu fuzil de assalto sem sequer encarar o oficial.
O oficial encara o soldado, com o nome "Trevor" na identificação.
— Levante soldado, temos que defender essa posição — Disse com sua voz rouca, sem pesar algum.
—--
Longe dali, em um andar parcialmente destruído de um prédio comercial, três soldados acabam de ouvir a mensagem pelo comunicador.
Um deles, com a identificação nominal de "Pollock", não tira visor tático, enquanto ajusta o alcance e observa a distância.
A imagem foca o prédio, dando ênfase ao andar onde o trio está.
Pollock observa da posição mais elevada uma grande avenida tomada de carros velhos, um avião de combate caído e destroços dos prédios adjacentes.
— Você não vê corpos né, Pollock? — Perguntou um soldado negro, bem mais alto que os outros dois homens. Seu uniforme carrega o nome "Ramos" na identificação.
— Não.. Pegaram novamente.. — O observador responde em um resmungo.
O terceiro homem come suas barras de cereais, enquanto presta atenção na conversa. Sua identificação não está à vista. Mas seu uniforme exibe abotoaduras diferentes, junto de uma insígnia de um punho fechado.
Ramos engatilha um rifle de alta precisão, que está acoplado em um estabilizador ligado ao seu torso.
— Pegaram os implantes deles, correto Patrick? — Ele indagou enquanto avaliava algumas métricas de um visor na arma.
— Provável, nossas ordens são para fazer o mesmo. Nada de deixar tecnologia pra trás.. — Comentou de boca cheia, o soldado que comia e não tinha sua identificação à vista.
— Malditas ordens.. se preocupam mais com a porra dos equipamentos do que conosco.. — Respondeu rispidamente Pollock, sem atrapalhar sua observação.
O visor tático pisca em azul, quando se encaixa no rosto de Ramos, ele se posiciona no chão, deitado, mirando com seu rifle.
— Isso é guerra Pollock.. é isso que fazemos.. — Sua voz não expressa algum tipo de contentamento.
A imagem agora foca o prédio de um ponto de vista distante enquadrando a avenida e o andar onde o trio está. Um som alto, elétrico rompe o silêncio, seguido do barulho de impacto.
—--
No acampamento central.
— Tenente, a patrulha entrou em contato com os invasores. Um alvo atingido, eles estão recuando — Dizia um homem trajando um Light Suit de cor cinza, visivelmente avariado. O capacete dele está recuado, o visor indica "Stand By".
A imagem enquadra o rosto do Tenente e o peitoral do Light Suit com a cabeça do soldado que falava com ele. Ela se distância mostrando outros seis soldados também trajando Light Suits, da mesma cor, mais ou menos no mesmo estado, também com o capacete recuado. Todos parecem avaliar suas armas e equipamentos.
Soldados passam correndo, enquanto outros nos cantos, escorados em paredes ou próximos a fogueiras apagadas, carregam suas armas.
— Tenente.. — Outra voz chama o oficial.
— Os olheiros informaram que um dos tanques perdeu a blindagem frontal. Provavelmente pelo tiro do atirador. — Ele falou com clareza.
O tenente observava o céu cinza, prestes a chover.
— Sargento Alves, informe as equipes de infiltração que choverá, a camuflagem pode ser prejudicada — Disse com sua voz rouca.
Ele se vira, e encara o soldado no traje.
— Um dos tanques está sem a blindagem frontal, abatam esse primeiro — Disse enquanto se apoiava no cock-pit da Light Suit.
— Sim, senhor! — Falou o soldado.
— Separe um dos seus, tente levar o outro para longe daqui, vamos dar cobertura de fogo para ele — Ele olhou nos olhos do soldado, que era o líder do esquadrão.
Os olhares de pesar indicavam o que viria.
—--
Chove pesado, o chão está coberto de lama, as nuvens são escuras e os trovões iluminam a noite. Os feridos gemem de dor, enquanto os outros soldados fingem estar dormindo.
As barracas estão dispostas com pouca organização, algumas estão cobertas pelo teto do centro de convenções — parte do que sobrou dele. A imagem foca pontos azuis, dentro da escuridão. Ela se aproxima, adentrando a escuridão, passando pelos soldados que tentam dormir. O Tenente está de pé, observando a chuva cair, só seu olho cibernético, três pares de pequenos pontos azuis escaneiam a área.
— Senhor.. — Diz um soldado com o braço em uma tipoia que se aproximava.
— Diga soldado — Respondeu impassível.
— Eles nos deixaram para trás, para ganharem tempo, não é? — A voz do soldado era dolorida.
O oficial ficou em silêncio. Então o soldado voltou a falar.
— Aquelas corporações escrotas começaram essa porra de guerra. E agora nos abandonam nessa porcaria de cidade! O senhor não fica puto com isso?! — Ele grita nas palavras finais fazendo alguns dos soldados levantarem as cabeças para observar o que acontecia.
— Soldado.. — A voz rouca do Tenente saia com calma, enquanto lá fora um clarão de um raio iluminava o céu — com pontos vermelhos, dos caças autônomos inimigos.
Um alarme sonoro toca, e todos os soldados começam a levantar, correr para suas posições, enquanto se equipam.
— ... A dureza do homem deriva daquilo que ele se propõe a proteger. Quando um homem deseja proteger aquilo que ama, nada pode impedir que ele faça o que é necessário. Por isso ame seu país, que Deus dará o que é necessário para protege-lo — Disse a voz rouca, quando a primeira bomba atingiu o solo, centenas de metros à frente iluminando o local onde estava.
O soldado já não estava mais ali, ele corria para fora da construção com seu fuzil, trajando apenas sua roupa.
A imagem corre para fora do local, em um panorama que mostra os soldados no solo disparado contra as unidades autônomas que voam. Ela se distância, e mostra os cogumelos que seguem explosões enormes uma após a outra surgem em pontos distintos da cidade.
O quinto cogumelo se ergue exatamente da construção onde o tenente estava que acabava de explodir.
—--
Uma manhã ensolarada tomada pela brisa fresca do mar. O visual é pacato, uma praia, com alguns barcos velhos na areia, a água indo e voltando.
— Ei.. Ramos, você acha que a guerra acabou?— Perguntou uma voz fraca que vinha da parte interna, oculta pela sombra, da carcaça de um barco.
— Eu não sei Pollock.. Mas para a gente acabou — O soldado Ramos, um homem alto, com porte físico invejável, está sem camisa, deitado na areia. Seus olhos estão fechados, e seus braços cobrem seu rosto.
Um pouco longe dali, o terceiro integrante do time avança e observa a distância com o visor tático. Ele veste uma roupa diferente, composta por pequenos tubos negros e finos, que replicam a estrutura muscular do corpo humano. Apenas sua cabeça está de fora.
Não há armas ali, ele apenas observa do limite entre a praia e faixa urbana, uma das ruas que leva para dentro da cidade vazia.
— Ninguém aqui, essa área deve fazer parte da zona de exclusão de risco. Estamos sozinhos e seguros — Dizia Patrick, enquanto Pollcok segurava o rádio numa posição que Ramos pudesse ouvir lá deitado na areia.
—--
O soldado Patrick sentava-se confortável, vestindo o traje tático, em uma cadeira de praia chamuscada, quando Ramos, sem camisa, surge carregando o companheiro visivelmente ferido nas costas.
— Lindo dia na praia, não é mesmo? — Perguntou o ferido Pollock enquanto descia com cuidado das costas do amigo.
Ramos olhou para ele movendo o cenho.
— Lindo seria se você pesasse 10kgs a menos— Comentou com humor.
Os três riram, enquanto a imagem se distanciava e mostrava a ausência de uma das pernas de Pollock. Havia um torniquete, e as bandagens estavam limpas, no entanto.
O homem vestido com o traje militar se levanta, dando as costas para a dupla.
— Tem um hospital a uns três quilômetros daqui, lá têm medicamentos. Vamos concertar sua perna fodida — Disse com um tom confiante.
Pollock se ergueu apenas com os braços, se apoiando em uma lixeira velha caída. Ramos apenas observava os dois.
— Sempre quis uma perna de ferro.. — Disse entre os risos, o soldado perneta.
— Você carrega ele Patrick, com esse traje você nem vai sentir.. — Falou Ramos enquanto olhava para trás, tendo seu rosto focado lentamente pela imagem.
A imagem vai girando lentamente, primeiro foca Patrick que erguia seu amigo feriado com cuidado.
— Olhar para trás só vai te lembrar de que somos soldados.. — Ele fala para seu outro amigo.
A imagem termina o giro, focando em colunas de fumaça que se erguem a quilômetros no céu, de algum lugar distante.
— ..Soldados deixados para trás, em uma guerra perdida, por que precisavam fazer o que era necessário..— Patrick termina de falar, enquanto a imagem se eleva, agora focando o trio de cima, lentamente pegando mais amplitude e mostrando mais da praia e a cidade vazia. No mar, um barco está parado na areia, com um rastro atrás. Próximo a ele, destroços, e muitos corpos sendo balançados pelas ondas.
Fale com o autor