KURAI YOKUBÔ (desejos obscuros)
6 Capítulo 6 - Perdas e danos...
Notas iniciais


Decididamente, ele não havia gostado daquele homem! Era uma pessoa grosseira, com maus modos e um ar debochado que o irritava profundamente. Mas, como professor, sua missão era manter a educação e lidar com aquele momento inusitado com classe e firmeza.
– Pois muito bem, senhor Hiroaki. Sou Yoshiki e quero deixar algo bem claro entre nós. Não tolero falta de educação, portanto, cuide sua linguagem quando falar comigo ou com meu aluno. E não pode fumar aqui.
Hiroaki elevou uma sobrancelha e, em seguida soltou uma gargalhada.
– Desculpe! Mas, não pude evitar. De repente me veio a ideia de um canal privê com bastante sacanagem... Pense nisso, dá uma boa grana.
Yoshiki precisou de todo o seu autocontrole para manter a expressão inalterada, enquanto interiormente desejava retirar aquele sorrisinho do rosto de Hiroaki com um soco bem dado.
– Creio que não seremos parceiros, senhor. Então, por favor, nos dê licença.
– Pena... A bonequinha aí daria um ator e tanto. Até imaginei essa boquinha carnuda chupando um...
– O que você disse seu mal-educado? – interferiu Misty. – Ponha-se no seu lugar antes que eu o processe! – completou.
– Ora, ora! Está bem, eu estava só brincando. – falou Hiroaki elevando as duas mãos em sinal de rendição.
– Vamos, Misty. – disse Yoshiki secamente e com um olhar fuzilante.
Hiroaki não disse mais nada, apenas riu e pensou: Acho que não comecei muito bem como gerente de projetos...
O professor conduziu Misty para fora do estúdio com o humor alterado. Porém, quando ambos deixaram a estação de TV ele olhou para o aluno e sorriu com malícia.
– Vamos para a minha casa...
– Estou dolorido e aborrecido. – respondeu o jovem cruzando os braços.
– Ficou aborrecido com aquele idiota? Eu vou dar um jeito nele. Agora... quanto ao estar dolorido...Só posso prometer que vai ficar mais, mas, como sempre acontece, vai sentir prazer também. – disse Yoshiki levando a mão à nuca de Misty e acariciando-o.
Oscilando entre o mau humor e a tentação de fazer o que Yoshiki propunha, Misty acabou com a aceitação do prazer que sempre encontrava naquele jogo de submissão e dominação...
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Quando estavam dentro do carro e, como se tivesse percebido algo ou lido seus pensamentos, Hades encarou Minos e disse:
– O que aconteceu? Você está muito quieto.
– Como você sabe?
Hades encarou-o daquele jeito penetrante.
– Eu o conheço, Minos.
Sim, ele o conhecia. Além de amante, o executivo era seu amigo e mentor. Com ele, havia amadurecido e estava construindo um novo futuro. Seria justo ocultar aquele fato inusitado?
– É... você me conhece.
– Então, o que está te incomodando? Problemas na universidade?
– Não.
O olhar firme cedeu à carícia e Hades tocou-o na coxa.
– Conte. Vai se sentir melhor.
Minos fitou aqueles olhos que podiam ser frios, mas que se vestiam de ardor quando estavam juntos. Confie! sussurrava uma voz dentro da sua mente.
– Você acredita em destino? – perguntou ele.
– Não. Sempre acreditei ser o senhor do meu destino.
– Mas... nem naquelas situações inusitadas que seriam impossíveis e acabam acontecendo mesmo assim?
Franzindo o cenho, Hades diminuiu a velocidade.
– O quê quer me contar, Minos?
O jovem pensou em mil maneiras de contar aquela situação, mas optou por ser bem direto, como era do seu feitio.
– Hã... Bem, resumindo, Halldora está envolvida com um tal de Mirako. Esta noite, ele foi buscá-la lá em casa e os dois saíram para jantar. Mas, logo em seguida, eles voltaram, porque ele quase tinha atropelado uma mulher que surgiu de repente na frente do carro. Como ela não era japonesa e parecia perturbada, Halldora sugeriu que a levassem para a nossa casa e ela está lá.
– E quem é essa mulher?
– A sua mãe.
Minos esperava uma freada brusca, um olhar atônito seguido de um palavrão, mas ao invés disso, Hades continuou dirigindo calmamente e em silêncio até o clima dentro do carro pesar... Decididamente, enquanto Hades o conhecia, ele ainda se surpreendia com a frieza do amante.
– Não vai falar nada?
– O que espera que eu diga?
– Sei lá. Talvez alguns palavrões já que esse assunto te incomoda.
Hades continuou calado. Por dentro, a ansiedade ameaçava tirar-lhe o ar, mas como um bom praticante de *kendo, tratou de controlar a respiração e pensar no que fazer. Teria de falar com sua mãe e assim expor mais essa parte de sua vida que buscara trancafiar com chaves e cadeados. Paciência! Se tinha de fazê-lo, o faria. Talvez fosse a chance que teria de colocar Dione num avião e mandá-la de volta para casa.
Notando a tensão do amante, Minos devolveu a carícia que Hades havia feito em sua coxa. Deixou a mão pousada na carne rija e fitou-o bem dentro dos olhos. Estou com você!
O executivo soltou um suspiro.
– Obrigado por me contar. – disse, simplesmente.
– De nada. – respondeu Minos.
A luz das luminárias instaladas na rua banhava as construções do bairro em uma luz avermelhada que aquecia, mas ao mesmo tempo projetava sombras profundas e escuras, evocando sensações antigas de medo e segredo.
Luz e escuridão, verdade e mentira...
– Eu vou entrar e ver se ela ainda está. – disse Minos.
Hades assentiu e ficou observando a decoração urbana com toques tradicionais. Minos entrou, rezando para que Dione já tivesse ido embora, mas não foi atendido. Os três estavam tomando café e viraram o rosto na sua direção quando ele entrou.
– Minos! – falou Halldora com um tom de alívio.
– Oi, pessoal. Hã... senhora Dione, eu... trouxe alguém que deseja falar com a senhora. – disse Minos.
Halldora e Mirako demonstraram surpresa no olhar, enquanto Dione mantinha a fisionomia impassível. Ela só podia ser a mãe de Hades, mesmo!
– Halldora, senhor Mirako, vamos até a cozinha, sim? – falou Minos.
Dione olhou para o jovem e sorriu.
– Posso até adivinhar quem está aí. Meu coração de mãe não se engana. – disse ela.
Minos havia deixado a porta entreaberta, de modo que se podia ouvir a conversa. Assim que ele e os outros deixaram a sala, Hades entrou.
– Eu sabia... – falou Dione quase num sussurro.
– Vou levá-la ao hotel e de lá para o aeroporto. Vai voltar para casa e nos deixar em paz. Chega desta brincadeira de mau gosto. – disse Hades fitando-a com rancor.
– O destino é caprichoso... Eu não planejei isso, nem você. Mas, acabei vindo até a casa do seu jovem amante... E vejo em seus olhos que você o ama. Eu sempre soube que havia fogo em seu interior, Hades. Um fogo que você sempre negou a nós, mas que arde agora e é tão forte que me faz ter ciúmes.
– Pegue as suas coisas e vamos. – falou o executivo com o corpo tenso.
– Eu só trouxe a minha bolsa.
– Então vamos.
– Vou me despedir de Halldora e...
– Não, você não vai. Vamos!
– Por que tanta ira? Não vou ser mal-agradecida com quem me acolheu.
Hades inspirou. Seu controle se esvaía a cada olhar e palavra de Dione. Por que ela tinha de tê-lo procurado?
– Despeça-se e vamos!
Dione obedeceu. Despediu-se de Halldora e Mirako, educadamente. Porém, quando se aproximou de Minos, sua expressão mudou.
– Minos... um dos juízes do Inferno. Que amante mais apropriado meu filho escolheu. – disse ela tocando-o no rosto.
– Foi um prazer, senhora. – falou o jovem, um tanto constrangido.
Ela não respondeu, apenas sorriu.
– Vamos? – perguntou ela a Hades.
O executivo olhou para Minos e os outros. Despediu-se e encaminhou sua mãe para o carro.
A viagem transcorreu em silêncio até o hotel. Dione, de vez em quando, olhava para Hades que permanecia ereto na direção. Tinha vontade de conversar, mas sabia que seu filho não diria uma palavra. Doía sentir aquela rejeição palpável e explícita. No entanto, ela desejava tentar mais uma vez.
– Hades...
– Não vou conversar com você. Tudo o que eu tinha para dizer, já foi dito.
– Então porque foi me buscar? Podia ter deixado...
– Não, não podia. E sabe por quê? Porque tudo que você toca é destruído! Porque não bastou você ferrar com a minha infância e a de Pandora, você se alimenta da dor, da depravação que não consegue conter em si! Por Deus! Não há limite para essa sua doença? Vá embora!
– Eu amo você, Hades!
– Pare de dizer isso! Você não sabe o que é amar! E agora, por favor, não fale mais nada!
– Pode não acreditar em mim, mas é a verdade! Você é meu filho e eu o amo.
Hades freou de repente, o rosto, antes impassível, agora, transtornado. Seu olhar exibia um brilho perigoso e seu lábio inferior tremia. Sim, ela conseguia tirá-lo do centro, despertando dentro dele uma fúria perigosa, permeada pelos rancores e dores de uma criança que crescera em meio aos abusos e desatinos dos pais.
O impacto da freada brusca fez o corpo de Dione oscilar para frente. Ela olhou-o com os olhos cheios de lágrimas, mas nada disse, porque se surpreendeu com a dor viva que percebia nos olhos do filho.
– Se me ama, deixe-me em paz! Deixe-me esquecer! Saia da minha vida e da vida de Pandora! Tanto eu quanto ela estamos tentando viver nossas vidas! Por favor, se há um pingo de decência em você, deixe-nos! – falou Hades.
Em sua visão doentia e egoísta, Dione jamais se permitira saber ou sentir os efeitos e suas ações. Para ela, o prazer estava acima de tudo, até mesmo dos filhos. Entretanto, algo havia mudado. A perda do marido a deixara sem norte. O que uma submissa podia fazer sem seu Dom? Poderia enfim, dar vazão aos seus desejos mais secretos? Seus desejos só traziam mais sofrimento e o deixava gravado na alma dos filhos...
As lágrimas escorreram quentes pelo rosto maduro e ainda belo. Dione as limpou com as costas da mão e voltou o olhar para fora do carro.
Hades agradeceu ao silêncio de sua mãe e tratou de acelerar um pouco. Quanto antes chegasse ao hotel, melhor seria para si. Então, em meio ao silêncio quase ensurdecedor ele a ouviu dizer:
– Você tem razão, meu lugar não é aqui. Vou fazer o que me pede.
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Ângelo apanhou o paletó e o movimento dos músculos fortes de seu torso atraiu o olhar da jovem executiva que completava a mesa de negociação. Com um olhar discreto, ela avaliou o corpo viril, comparando-o com a suavidade metrossexual de seu namorado atual e pensou o quanto ainda preferia um homem mais maduro e em forma como o executivo. Sorriu internamente e pensou em uma estratégia para aproximar-se, enquanto revisava a pasta de documentos.
Ignorando a existência da jovem, Ângelo fechou o notebook e o colocou na pasta de couro, apanhando o celular. Sua intenção era ligar para Afrodite, para confirmar se ele viria, mas se deteve. Sentia a sua presença, mesmo sem vê-lo. A fragrância da pele alva parecia impregnada em si. Recebeu a pasta de documentos da jovem que lhe sorria de forma sugestiva, porém ele não notou.
– Senhor Ângelo, eu poderia ter uma palavrinha com o senhor? – perguntou a jovem.
– Poderia ser em outra ocasião? Estou esperando alguém, senhorita?
– Gisele. E sim, desculpe-me atrapalhá-lo. – respondeu ela com um rubor no rosto.
Foi então que Ângelo sorriu e ela sentiu o coração disparar.
– Obrigado. É que eu tenho um compromisso e quem eu espero já deve estar chegando. – falou o executivo.
A jovem assentiu com a cabeça e tratou de distrair-se para não ficar olhando aquele belo exemplar masculino.
Assim que Ângelo terminou de falar, Afrodite foi anunciado e avançava em sua direção. Vestia uma camisa de manga curta azul celeste e um jeans desbotado. Os tons da roupa acentuavam o azul cristalino dos olhos expressivos e os cabelos longos, presos em uma trança embutida, conferiam um ar romântico, quase feminino. Entretanto, apesar da beleza andrógina, ele mantinha uma postura aristocrática e atitudes que não eram nada afetadas.
– Afrodite... – murmurou Ângelo.
O jovem sorriu e Gisele percebeu que havia algo entre os dois, fato que a fez murchar um pouco em sua admiração pelo executivo. Um homem daqueles se relacionando com um... gay! Pelos deuses! E o gay é mais bonito que uma mulher!
– Bem, com licença. – disse ela fechando a porta.
– Por que estamos nos encontrando aqui? – perguntou Afrodite.
– Porque vou levá-lo até a universidade.
– Ângelo! Eu não quero outra cena daquelas e posso muito bem cuidar de mim.
– Não vou fazer cena, apenas vou insistir mais uma vez que o melhor para aquele filho da mãe é pedir demissão. Afinal, como diz o ditado: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.
– Se eu soubesse que era isso, não teria vindo. — disse Afrodite virando de costas e cruzando os braços.
Ângelo o abraçou por trás de modo possessivo, fazendo-o fechar os olhos. Afrodite tentou ignorar o tremor em seu corpo enquanto dedos másculos roçavam sua pele, bem abaixo da bainha de sua camisa.
– Eu cuido do que é meu. – sussurrou ele, deslizando uma das mãos para dentro da camisa e tocando a pele nua do jovem.
– Falando assim até parece que eu sou sua propriedade. – disse Afrodite tentando se afastar, mas Ângelo continuava a segurá-lo com firmeza.
– É o meu jeito de falar. Eu o amo e vou defendê-lo sempre. – Falou o executivo aconchegando-o melhor, de modo que as costas de Afrodite estivessem pressionadas contra o seu corpo quente.
– Se você me ama, não vai mais criar confusão sobre este assunto. Resolvi que é bobagem me abalar por algo do passado. – disse o loiro instintivamente contraindo os músculos da barriga no momento que a outra mão do executivo circulou sua cintura do lado oposto.
– Você talvez não queira, mas aquele homem ainda o deseja e eu vou mostrar o quanto isso é perigoso para a saúde dele. – sussurrou Ângelo, enquanto seus lábios quentes roçavam o pescoço do amante, enviando novos tremores pelo corpo esguio.
– Não. Eu não quero que... – a frase morreu em seus lábios quando Afrodite sentiu Ângelo mordiscar-lhe o pescoço e, em seguida, o lóbulo da orelha.
O loiro já não podia esconder o súbito tremor de seu corpo. Não sabia como aquele homem o fazia derreter-se como se nunca tivesse experimentado tais carícias. Era algo irracional e selvagem, uma combinação explosiva de sensações que o fazia inclinar o quadril para frente e sentir a ereção do italiano contra as suas nádegas.
– Pena que não posso continuar... Não quero que se atrase. – disse Ângelo desfazendo o contato.
– Isso não é justo! Você é um manipulador, Máscara da Morte.
O italiano sorriu. Sim, Afrodite despertava em si a fibra do guerreiro possessivo e selvagem que residia dentro de si. Seria capaz de matar por ele, se fosse preciso.
– Máscara da Morte ao seu dispor, bello.
Afrodite sentia os olhos azuis escuros queimando-o e, em seu íntimo, soube que jamais fora amado assim, com tanta ânsia e força. Um lado seu exultou, enquanto o outro temeu que algo pudesse dar errado...
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As primeiras aulas já haviam terminado. O intervalo reuniu os alunos do Desigh em um recanto que continha um jardim de pedras e uma lancheria, uma sala de vídeo e informática.
Em meio ao burburinho de conversas, risos e selfies sendo tiradas por inúmeros celulares, por um momento, Shun imaginou ter ouvido errado. Ou então, enlouquecera.
– Como assim você não vai desmentir que somos namorados? – disse ele olhando para Rin.
– Calma fofucho! Vamos deixar que pensem que somos namorados, assim meu pai fica satisfeito por eu estar com alguém da universidade e me deixa livre. O sonho dele é que eu namore um bom moço e você se enquadra, perfeitamente, neste perfil!
– Livre você já é. Até demais! – cortou Inoue.
– E você, não se meta nisso! – falou Rin enfiando o dedo indicador no rosto da amiga.
– Rin, eu não estou brincando! Eu vou desmentir isso queira você ou não. Meu namorado não gostou nada desta reportagem e isso pode acabar nos prejudicando.
– E quem é esse seu namorado? É alguém importante? – perguntou ela elevando uma das sobrancelhas cuidadosamente desenhadas.
– Sim, ele é.
– Quem é ele?
– Não vou dizer!
– Se quer tanto que eu desminta, vai ter que me contar tudinho!
Shun revirou os olhos. Rin era uma garota mimada, acostumada a ter todos sob os seus pés. Era inteligente e vivaz, mas a mania de mandar em tudo e todos já começava a desagradá-lo. Por que cismara com ele?
– Eu conto o que eu quiser. Se não quer desmentir, está bem! Mas, a partir de agora, me esqueça!
– Ei! Você só pode estar brincando, né?
– Adeus, Rin.
A garota ficou de boca aberta ao ver Shun dar-lhe as costas. Pela primeira vez em sua vida, Rin sentiu seu ego ser ferido. Mas essa dor não chegava aos pés da frustração em descobrir que o único homem que lhe chamara a atenção fosse gay.
Agora não era mais uma questão de um simples desejo, mas de orgulho. Shun realmente achava que podia desprezá-la como se ela fosse qualquer uma?
– Eu vou descobrir quem é esse tal namorado. – disse ela entre dentes.
– Quer um conselho, amiga? Deixe o Shun em paz! Ele é um bom amigo e uma das mentes mais brilhantes deste curso. Por que insiste em criar problemas? – falou Inoue.
– Por quê? Porque eu gosto dele, é por isso! Eu nunca me apaixonei antes e quando acontece, o cara é gay!
– E você acha que ele vai deixar de ser gay por você? Ah, amiga! Nem você tem esse poder!
– Será? Espere pra ver! – disse a jovem mordendo o lábio até sentir o gosto do próprio sangue.
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Dione entrou em sua suíte no Daiichi Hotel Tokyo. Retirou os sapatos e pousou os pés no carpete macio. Seus olhos estavam vermelhos, a maquiagem borrada. Ao fechar os olhos, ainda podia visualizar com clareza a expressão de Hades, a dor e a raiva nos olhos que eram tão parecidos com os seus. Ele esperava que ela arrumasse suas coisas e partisse e ela o faria.
Havia perdido a batalha e reconhecia que perdera os filhos também ou, talvez, nunca os tivesse tido. Sentira uma culpa inédita ao constatar que Hades, o seu amado, jamais a perdoaria. Sentia também por Pandora, a filha que permitira ser abusada e que dividira consigo um papel que nunca devia ter sido levada a desempenhar.
Acostumada a ignorar a dor alheia, agora experimentava um nó na boca do estômago. No fim, só lhe restara a solidão e o ressentimento dos filhos...
Uma batida brusca na porta a retirou de seus devaneios. Devia ser Hades, apressando-a, porque era um homem ocupado e a queria longe, o quanto antes.
Ela caminhou lentamente até a porta e começou a abri-la. De repente, a porta estremeceu com o peso de um corpo jogado sobre ela, fazendo-a recuar.
A porta fechou e Dione ficou horrorizada ao ver os olhos azuis do estranho tomados por um brilho de loucura misturado ao ódio. Ela abriu a boca para gritar, mas ele avançou sobre ela e colocou a mão enluvada de couro preto sobra a sua boca, esmagando-a contra os seus lábios e abafando qualquer som que ela tentava emitir.
Ele resmungou alguma coisa em alemão. Versada em várias línguas, ela entendeu o insulto e isso a fez ter forças para tentar empurrá-lo.
– Fique quieta! – rosnou ele.
Mesmo sendo uma submissa em outras ocasiões, Dione resolveu não obedecer e começou a lutar com todas as suas forças, socando-o e tentando chutá-lo na virilha.
– Cadela! – disse ele e, antes que ela finalizasse o golpe, ele fechou o punho e lhe deu um soco no rosto, bem entre os olhos.
Dione sentiu a cabeça ser jogada para trás e bater na parede com tanta força que quase a fez desmaiar.
– Obedeça e nada vai acontecer com você! Meu negócio é com o seu filho, aquele maldito!
Ao ouvir aquilo, algo cresceu dentro de si e ela gritou a plenos pulmões.
– Socorro! Chamem a polícia!
Johann agrediu-a, novamente, desta vez na boca, fazendo-a sentir o gosto de seu próprio sangue. Em seguida, puxou um longo cachecol de seda que trazia pendurado nos ombros e tentou amordaçá-la sem sucesso.
Por um instante, Dione só pensou que não podia deixá-lo machucar o seu filho, apesar da dor latejante que sentia no rosto. Semiconsciente, ela mal percebeu o que aconteceu a seguir, embora ouvisse o som de movimentação ao longe.
Uma chave girou na fechadura e a porta se abriu de repente. Ouviu-se o ruído de passos pesados, enquanto homens armados invadiam a suíte. Johann sacou da arma que trazia dentro do casaco e olhou em volta com um ar feroz, procurando uma saída alternativa.
Hades estava com os seguranças do hotel e encarava incrédulo, o homem que fora preso há meses atrás. Num flash de segundo, pensou em como o destino podia ser caprichoso. Haveria mesmo um carma? Um destino?
– Aí está você, maldito! Pensou que eu ia apodrecer na prisão, enquanto você se refestela aqui fora? Você me tirou tudo! Você me deve! – gritou ele, insano, enquanto segurava Dione pelo pescoço e encostava uma arma entre as costelas dela.
– Você está louco. Ninguém tirou nada de você. Você mesmo se colocou onde está!
– Não... Eu vejo tudo com muita clareza! Eu vou tirar de você o que tirou de mim! Seus parentes, seu amante. Tudo! Você vai saber o que é se sentir sem chão!
Dione ouviu aos gritos do alemão e tentou abrir os olhos. Doía, mas ela olhou para Hades com a visão nublada e um sorriso nos lábios ensanguentados.
– Você... é um idiota. Pode me matar. É um favor que fará aos meus filhos.
Por alguns segundos, Johann hesitou.
– Largue essa arma! Você só está complicando ainda mais a sua vida. – ordenou Hades.
Totalmente insano, Johann apontou a arma na direção do executivo. Sua mão tremia, mas seu olhar estava decidido. Só um tiro! Um único tiro e eu levo esse maldito comigo para o Inferno!
Dione percebeu a intenção de Johann e num ato desesperado, girou o corpo e tentou apossar-se da arma que ele tinha em mão. Foi tudo muito rápido, o disparo, o corpo estremecendo e por fim o desmoronar lento que parecia uma cena de filme em câmera lenta.
Hades avançou na direção de Johann, mas era tarde demais. Dione caiu e os seguranças dispararam, logo a seguir. O alemão estremeceu violentamente antes de desabar para trás com três balas cravadas no peito.
– Dione... – murmurou Hades tomando o corpo dela em seus braços.
– Filho... – falou ela com a voz entrecortada.
– Eu estou aqui. – disse Hades, afastando gentilmente o cabelo que caía sobre o rosto dela e pressionando a ferida com a outra mão. – Chamem uma ambulância! – ordenou ele.
– Hades... Eu falhei...
A voz dela estava arrastada e ofegante. O sangue pingava do canto de sua boca, assim como vertia do ferimento no abdômen.
– Não tente falar. Aguente firme. – disse Hades.
– Você... tinha razão... eu... eu fui uma... péssima...mãe. Mas... no fim... eu...
– Psiu... fique quieta, mãe.
Ao ouvir Hades chamá-la de mãe, Dione sorriu e lágrimas escorreram dos seus olhos inchados.
– Você disse... você me... chamou... de mãe... Fazia muito tempo...
– Sim, eu chamei... – disse o executivo acariciando-lhe a face.
Hades estava pálido, pois sabia o que ia acontecer. O tiro fora fatal. Dione estava morrendo. Sustentou a cabeça dela com cuidado e carinho, ouvindo-a murmurar suas últimas palavras.
– Diga... diga a Pandora... que... eu sinto... muito.
A ambulância chegou rápido, assim como a polícia. Porém, era tarde demais. Hades sustentava o corpo inerte e frio da mãe em seus braços, embalando-a como se fosse uma criança. Não havia lágrimas em seus olhos, apenas uma tristeza profunda e um sentimento de perda que, agora, se colocava acima de toda raiva e mágoa cultivadas durante anos.
Era, apenas, um filho e sua mãe, uma pietá invertida e trágica se desdobrando na morte súbita, constituindo o ponto final onde o passado se dissolvia no sangue e nas lágrimas, colocando um ponto final naquela difícil relação...
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Pandora precisava de ar. Ver a mãe morta e saber que nunca mais a veria trouxe-lhe culpa e dor. Dissera coisas horríveis a ela e mesmo que fosse para se defender, ainda assim, sentia-se triste e mal pelo último encontro entre elas ter terminado daquela forma.
Hades a tocou no ombro e ela o abraçou com força.
– Ah, Hades... Eu não queria que ela morresse. O que vamos fazer?
– Vou levar o corpo para Nova York. Creio que ela gostaria de ser enterrada ao lado do marido. Também preciso tomar providências para o inventário.
– Eu vou com você.
– Tem certeza?
– Tenho. Apesar de tudo, ela era minha mãe.
– Eu vou encontrar Minos e depois vou fazer as malas. Me encontre à noite. Vou reservar as passagens.
Pandora viu seu irmão olhar, uma última vez para o corpo sobre a mesa. Segurou as lágrimas e tocou no ventre. Ainda não podia sentir o bebê, mas saber-se preenchida de vida a fazia desejar encerrar o passado e viver sem culpa. Aproximou-se da mãe morta e depositou um beijo na testa fria.
– Descanse em paz, mãe.
– Vamos. – disse Hades e os dois deixaram a sala sem olhar para trás.
Assim que deixaram a sala de necropsia, Pandora foi buscada por Radamanthys e, em seguida, Minos chegou e foi ao encontro de Hades.
– Hades eu... nem sei o que dizer, eu... Aquele alemão escroto! Bem que o Hiroaki podia ter acabado com ele naquela vez. – falou o jovem fitando o rosto sério do executivo.
Ignorando a última fala do amante, Hades tomou a mão de Minos na sua.
– Faltou a aula para vir aqui?
– Claro! Halldora me ligou e eu pedi permissão para o professor Yoshiki para vir. Não ia deixar você sozinho em um momento desses!
Contrariando sua postura fria, Hades deixou-se abraçar por Minos. O calor do corpo jovem o confortava e a forma intensa com que agia sempre fora agradável para si. Sentia-se, estranhamente vazio, porém triste.
– Eu vou ter que me ausentar por uma ou duas semanas. Tenho que cuidar do inventário. – disse Hades interrompendo o abraço.
– Eu entendo.
– Pretendo estar de volta no seu aniversário.
Minos sorriu.
– Eu queria estar fazendo vinte e um. – disse ele com um tom malicioso.
–Ah, é? Por que tanta pressa?
Minos franziu o cenho.
– Você não gostaria que eu fosse mais velho?
– Para mim está bom assim. – disse Hades com um meio sorriso.
O jovem fechou o semblante, mas depois sorriu.
– Eu vou te perdoar, porque não é o momento de te pressionar. Mas saiba que você concordou...
– Aja com moderação e não faça nada imprudente até eu voltar.. — disse Hades tentando manter-se impessoal, embora se lembrasse do que havia dito ao amante quando ficaram juntos de fato, pela primeira vez.
Sorrindo, Minos deixou escapar um suspiro.
– Não vou ter tempo de fazer nada. O professor Yoshiki montou um grupo de estudos, então vou enfiar a cara nos livros e me preparar para as provas. Ele até disse que iremos para uma biblioteca em Nagasaki para que nós possamos nos aprofundar e não sermos distraídos por nada. Não precisa se preocupar, quando voltar estarei virado em um nerd.
Hades tocou no rosto do amante e sorriu.
– Cuide-se. Agora volte para os estudos, não quero que se atrase por minha causa.
Minos beijou o executivo nos lábios. Um beijo lento, a princípio. Porém, em seguida, Hades aprofundou o beijo até que ambos ficassem sem ar. Os dois se olharam bem fundo dentro dos olhos.
– Boa viagem. – disse Minos.
– E você, juízo. – falou Hades e ambos se despediram sem saber o que os aguardava...
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