KURAI YOKUBÔ (desejos obscuros)
9 Capítulo 9- Verdade ou consequência!
Notas iniciais

– Isso tem que parar. – falou Rin ao colocar a calcinha rendada e depois o short curto.
– É mesmo? – Inoue continuou olhando as mensagens em seu celular. – E por quê?
Rin balançou os cabelos, fuzilou a amiga com o olhar e se pôs a ajeitar as alças do sutiã por baixo do top de algodão com a estampa de um gigantesco coração cor de rosa.
– Como por quê? Desde quando alguém me ignora desse jeito? E que falta de solidariedade! Eu só ia deixar que pensassem que nós éramos namorados pelo tempo suficiente para o meu pai me deixar em paz e liberar mais um cartão de crédito. É claro que, depois de ficar um tempo comigo, ele iria conhecer a benção de se tornar um hétero, mas isso já é outra história.
– Rin, você é filha de um artista. Tudo o que você faz vira notícia. Como Shun vai explicar ao namorado que está fingindo publicamente que namora uma garota? E como assim Shun conheceria a benção de se tornar hétero? O cara é gay! Gay!Você não tem noção das coisas.
– Pois bem, se é guerra que ele quer, é guerra que ele vai ter. – disse Rin puxando o cabelo para trás, vestindo a sua camiseta e, em seguida o short curto.
– Rin! Você enlouqueceu? Deixa o Shun em paz e parte pra outra.
Os olhos escuros brilharam cruelmente.
– Não, eu não enlouqueci! Eu sempre tive o que quis e vou ter o Shun, pode acreditar.
Inoue bocejou, enquanto guardava o celular na mochila.
– Bem, não conte comigo.
– Você não pode e não vai me abandonar! – gritou Rin segurando o braço da amiga.
Uma expressão fria e dura se fez presente no rosto de Inoue. Ela amava Rin, eram amigas desde pequenas. Aguentava os rompantes de menina mimada e a consolava sempre que seus inúmeros planos iam por água abaixo. Mas agora, sentia-se na obrigação de fazê-la crescer e ver o quão ridículo era aquele desejo descabido.
– Sou sua amiga desde sempre, mas não vou compactuar com esse absurdo. Shun é talentoso, tem a sua vida e não vou ajudar a destruir isso por sua causa!
– Você também se apaixonou por ele, não é mesmo? Quer dar uma de boazinha pra ter a chance de abocanhá-lo quando ele menos esperar.
Inoue arregalou os olhos.
– Rin... Você... Você tem que se tratar! Olha o absurdo que está dizendo!
– Absurdo? Desde que começamos a andar com o Shun, você sempre fica contra mim!
– E por que será, heim? Já parou para pensar no tipo de pessoa que você está se transformando? Cresça Rin! Eu estou cansada de ver você fazer merda e compactuar com isso!
– Pois então, vá embora! Eu não preciso de você, sua... sua amiga falsa!
Inoue nada disse. Pegou a mochila e olhou em volta. Quantas vezes passara a noite naquele quarto? O pôster gigantesco do L’arc em ciel, a cama redonda com vários travesseiros em forma de coração, o tapete felpudo onde tantas vezes as duas pularam brincando de karaokê quando meninas, as conversas, risos e choros...
Quando saiu, Inoue ainda olhou magoada para Rin que cruzou os braços e virou o rosto.
– Adeus, Rin. – disse ela e deixou a casa da amiga com um aperto no peito e lágrimas de tristeza e raiva nos olhos negros. Desta vez, não voltaria atrás e nem cederia. Se Rin fazia assim tão pouco da sua amizade, que fizesse suas loucuras sozinha!
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Shun e Aiolia chegaram ao sofisticado restaurante conhecido Aronia de Takazawa situado no elegante prédio contemporâneo no bairro Minato-ku. O ambiente era iluminado com jogos de luz que beiravam o clima cerimonial das casas de chá. No entanto, as louças, talheres e copos possuíam uma mistura do clássico oriental com a modernidade ocidental.
Quando os dois se acomodaram à mesa que Aiolia tinha reservado, Shun começou a observar o local e sorriu para o leonino que mantinha os belos olhos verdes fixos nele.
– Gostou?
– Adorei. Este restaurante é bem diferente.
Aiolia sorriu. Os dois não costumavam sair, mas Shun era um jovem curioso e vivaz e, diferente de quando fora casado, não cometeria o erro de dedicar-se, somente ao trabalho e descuidar-se da relação à dois. Pesquisara aquele lugar com a mesma atenção e importância que dava aos negócios e ver a expressão contente do amante era uma recompensa que colocava no mesmo patamar que fechar uma transação comercial.
– Gostariam de uma bebida, enquanto analisam o cardápio? – sugeriu uma garçonete exibindo um sorriso educado e com os olhos fixos em Aiolia.
O leonino não pareceu perceber a forma com que a jovem o olhava. Ele permaneceu conectado aos olhos de Shun e disse:
– O que acha de experimentarmos os famosos drinques do chef Takazawa?
– Ótimo! – respondeu Shun com uma entonação forçada como se quisesse afastar a ousada garçonete a sua frente.
– Posso sugerir o Aka? É um drinque feito com saquê, suco de tomate cereja, licor de melancia e vodca. Todos que o experimentam adoram. – disse ela de forma ainda mais intensa.
Shun analisou-a com um olhar bastante crítico. Ela não era oriental e isso explicava a indelicadeza de encarar o cliente daquela forma. As orientais não costumavam cruzar a linha tênue que separava o prestador de serviço de seu cliente. Era uma questão de educação, cultura e bom-senso. Pela aparência, ela parecia ser bem jovem, algo entre 17 e 18 anos e sua postura sugeria que era seu primeiro emprego. Por alguns segundos, sentiu-se incomodado, mas... Aiolia era mesmo um homem bonito, elegante e bem sucedido. Poderia culpar alguém por deslumbrar-se com ele? Talvez o que incomodasse mais fosse aquela pontinha de insegurança bem lá no fundo que insistia em lembrá-lo que Aiolia já fora casado com uma mulher.
– Obrigada pela sugestão, mas Aiolia e eu vamos escolher algo que tenha a ver conosco. – disse Shun colocando a sua mão sobre a mão forte do leonino e olhando a garçonete bem dentro dos olhos. Podia ter suas inseguranças, mas Aiolia era o homem da sua vida e não ia retroceder frente ao flerte descarado de uma garçonete adolescente.
A expressão da garçonete murchou e Shun sentiu uma satisfação interna ao vê-la baixar o olhar.
– Como desejarem. Assim que decidirem é só chamar. Com licença. – disse ela se retirando.
Aiolia abriu um sorriso sedutor.
– Não conhecia esse lado seu...
– Lado meu? – questionou Shun.
– Possessivo e ciumento.
– Eu? Não sei do que está falando.
– Sabe sim. – afirmou o leonino intensificando o brilho dos olhos verdes.
– Vamos pedir? Estou com fome. – disse Shun desconversando e sentindo o rosto quente.
– Se tem algo que você não consegue, é mentir Shun. E eu amo isso em você. – falou Aiolia acariciando a mão do amante e sorrindo satisfeito. – Gosto que me queira desse jeito. – completou.
Assim que Aiolia fez sinal para outra garçonete, um casal entrou. O homem na casa dos 58 anos vestia um terno lilás, enquanto a garota parecia uma cantora de algum grupo J-pop com um short curto por cima de meias escuras e rendadas, um top justo com um gigantesco coração cor de rosa e cabelos presos no alto da cabeça num rabo de cavalo cujos fios estavam cobertos de pequenas estrelas feitas de acrílico.
Irritada, Rin não estava nem um pouco a fim de jantar com seu pai, mas quando ele insistiu ela achou por bem aceitar. Assim sairia de casa e talvez até fizesse compras para acalmar-se. No entanto, assim que seus olhos passearam pelo restaurante e ela viu o seu atual objeto de desejo com um homem bonito e sofisticado, ela agradeceu ao universo e sorriu. Finalmente saberia quem era o tal namorado de Shun!
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Afrodite desligou o celular e sorriu. Ângelo era sempre atencioso e ligava quando ficava mais tarde no trabalho. Aquela noite era uma delas. Melhor assim! Agora terei mais tempo para a surpresa que imaginei. Pensou o loiro que estava no Mercado de Peixes Tsukiji, o maior centro de frutos do mar do mundo. O lugar abria cedo e permanecia aberto até a noite, onde a exposição da mercadoria dividia espaço com restaurantes e barracas de degustação. Havia um clima luxuriante naquele mercado onde as cores, os aromas e as expressões de quem o frequentava compunham um cenário único.
Atento à variedade de peixes, lagostas, lulas e siris em meio ao burburinho do público, Afrodite não percebeu dois homens trajados como executivos que o vigiavam atentamente. Estava escolhendo um dos peixes que o vendedor assegurava ser saboroso e também afrodisíaco quando foi abordado.
– Senhor Afrodite? – disse um deles baixinho.
O loiro elevou os olhos dando de cara com um rosto arredondado, olhos ocultados por óculos escuros e um sorriso perigoso.
– Sim?
– Queira nos acompanhar, por favor. Precisamos ter uma conversa com o senhor.
Afrodite sorriu nervosamente, sua mente disparando um alarme que não soube precisar a causa, mas que sinalizava forte, fazendo-o se arrepiar.
– E quem são os senhores?
– Somos enviados do senhor Kobayashi.
– Não conheço. Acho que cometeram um engano, senhores! Com licença. – disse Afrodite tentando sair dali.
Duas mãos fortes, uma em cada braço o seguraram e o apertaram de leve, o suficiente para que ele soubesse que não tinha escolha.
– Venha conosco sem resistir. Se tentar algo ou gritar, seu namorado sofrerá consequências. O senhor Kobayashi deseja, apenas, conversar com o senhor. Logo estará de volta.
Os olhos azuis de Afrodite se arregalaram e ele olhou em volta. De repente, os sons, aromas e movimento o fizeram experimentar uma náusea repentina. Era o medo! Pensou, enquanto tentava respirar e controlar o terror.
– Pois bem, eu irei, mas tirem essas patas de cima de mim!- disse ele empinando o nariz.
Um dos homens sorriu.
– Sua beleza é uma arma poderosa, senhor Afrodite. Porém, deixe-me avisá-lo que se tentar alguma coisa, nós não seremos gentis.
O loiro fuzilou o homem com o olhar e seus olhos observadores procuraram assimilar todos os detalhes físicos dos dois. Ambos eram de estatura mediana, usavam terno preto, sapatos envernizados, cabelos curtos e relógios caros. Podia-se ver um pedacinho de uma tatuagem em ambas as mãos. São yakuzas! Percebeu ele.
– Pois bem, então vamos, preciso estar de volta para o jantar. – disse ele em tom de desafio.
Os homens o conduziram a um carro esporte preto com vidros fumê. Tudo feito de forma rápida e discreta até chegarem ao subúrbio onde ficavam armazéns abandonados e alguns ainda em atividade. Após estacionar, caminharam em direção ao menor deles que ficava próximo a uma construção abandonada.
O lugar estava vazio. Havia janelas quebradas e caixas abertas empilhadas em um canto. Lâmpadas suspensas projetavam uma luz amarelada onde dançavam pequenos pontinhos de poeira. Uma cadeira no centro da projeção de luz parecia um objeto teatral, compondo um cenário para uma peça dramática.
– Sente-se. – disse um dos homens.
Afrodite franziu o cenho.
– Prefiro ficar em pé. Obrigado.
– Sente-se! – insistiu o homem obrigando-o a fazê-lo.
A atitude fez o loiro estremecer, porém se manteve aparentemente sob controle.
– Não é necessário violência, Kamamura. Ainda mais com alguém tão belo e delicado... – disse uma voz rouca e profunda.
– Sim, senhor Kobayashi. – falou o homem curvando-se em uma saudação.
Afrodite encarou o homem maduro e vestido com um kimono negro bordado com um grande dragão dourado. Ele não era mal-encarado, mas a expressão dura não deixava dúvidas que era um mafioso.
– Quem é o senhor e por que me trouxe aqui?
Kobayashi sorriu.
– Curiosidade. Eu sou um homem prático, mas nem todos que trabalham para mim possuem essa... prerrogativa. Alguns se deixam perturbar pela beleza ou pelos prazeres e com isso, tem maiores chances de falhar. E, cá entre nós, senhor Afrodite... – disse ele se aproximando do rosto do jovem. – Eu não admito falhas!
– E-E o que isto tem a ver comigo? Eu nem o conheço!
Segurando o queixo delicado, o yakuza olhou-o bem dentro dos olhos, antes de falar:
– Sua beleza pode mesmo perturbar um homem que tenha certas preferências. Eu não imaginava que fosse tanto...
– Eu continuo sem entender!
– Seu amante, Ângelo, decidiu perseguir um dos meus protegidos e eu não vou admitir que isso aconteça! Kanon tem um papel a desempenhar e continuará lecionando na universidade. Portanto, eu não quero que ele seja prejudicado. Fui claro? Mantenha seu amante fora disso ou a próxima conversa que terei será com ele e creia, não serei tão educado como estou sendo com o senhor.
Afrodite estremeceu e antes que ele dissesse algo, um homem chegou ao local trazido por outros dois vestidos de terno. Com o rosto tomado por hematomas, a boca sangrando e a respiração ofegante, o homem foi jogado aos pés de Kobayashi.
– P-Por f-favor... Eu tentei... Eu tentei fazer o que o senhor ordenou! – disse o homem respingando saliva e sangue pela boca.
Kobayashi olhou para ele e para Afrodite.
– Tentar não é o suficiente. – disse ele retirando uma pistola de dentro do kimono e apontando para a testa do homem.
O loiro levou a mão à boca quando o yakuza puxou o gatilho e a cabeça do homem oscilou, enquanto a parte de trás explodia lançando pedaços de ossos, carne e cérebro para todos os lados até formarem um monte sangrento no chão empoeirado.
– Tirem este lixo daqui e levem o senhor Afrodite. – disse Kobayashi guardando a pistola e olhando, sugestivamente para o jovem.
Os homens deixaram Afrodite em um táxi e desapareceram em meio à multidão. O jovem tremia e tentava suprimir as lágrimas que teimavam em queimar-lhe os olhos. A cena do homem sendo morto se repetia muitas e muitas vezes em sua mente, causando um enorme mal-estar. Sentia náuseas, medo, horror... Só em pensar que Ângelo podia ser morto daquela forma lhe causava um medo tão profundo e uma dor terrível que oprimia seu peito de forma a dificultar-lhe a respiração. Tinha que tomar uma atitude e sabia qual.
Quando entrou no apartamento às escuras, não conseguiu mais segurar a angústia. Foi até o banheiro e se trancou lá. Lágrimas quentes escorreram e os soluços finalmente se libertaram, fazendo-o estremecer. Chorou durante muito tempo, desesperado pelo que tinha que fazer.
Minutos depois, ouviu a chave na porta e os passos firmes do homem que amava. Entrou embaixo do chuveiro e deixou a água escorrer pelo rosto.
– Afrodite! – chamou Ângelo.
– Estou aqui! – respondeu o loiro.
O executivo entrou no banheiro com um sorriso nos lábios e desejo nos olhos.
– Eu estava enlouquecendo naquela reunião... Queria voltar para casa e para você. – disse ele já se despindo.
Disfarçando a tristeza, Afrodite respirou fundo e sorriu.
– Então venha... Deixe-me cuidar de você. – disse ele abrindo os braços.
Ângelo segurou-o pela cintura e, sem qualquer aviso, encostou completamente o corpo nu no dele, beijando-o de forma quente e voraz.
A água quente se derramava entre os corpos, enquanto Ângelo deixava a boca carnuda para saborear a pele alva e luxuriante do pescoço de Afrodite. Demorou-se sugando e lambendo, as mãos passeando pelas costas produzindo arrepios. Quando tocou os mamilos, Afrodite sorriu e o afastou.
– Primeiro, o banho... – sussurrou embebendo a esponja em sabonete líquido e acompanhando a trilha de pelos do peito másculo, descendo até o abdômen até encontrar o membro que já estava em riste fazendo-o sorrir e gemer ao sentir a carícia.
Sem parar de banhá-lo, Afrodite tocava os músculos e, de vez em quando, depositava beijos nos lábios entreabertos do amante. Ângelo sorriu feliz e o abraçou com força, beijando-o implacavelmente, demonstrando o quanto o desejava...
Afrodite se entregou, a angústia em saber que teria de deixá-lo o fez aproveitar cada segundo daquele amor. Já tinha derramado lágrimas de dor e desespero e agora precisava sentir, apenas sentir...
Baixou os olhos para a ereção dele e pegou-o com as mãos ensaboadas. Envolveu-lhe a coxa com uma das pernas e encaixou o falo em sua entrada. Ângelo gemeu e trouxe Afrodite para si, batendo com as costas dele na parede do box, sentindo novamente aquele desejo insano de possuí-lo, de sentir-se engolfado por aquele corpo insaciável e quente.
Adentrou-o com um só golpe longo, e Afrodite arfou ao ser preenchido pela virilidade do amante. Envolveu o pescoço de Ângelo com os braços e o cavalgou, sentindo-o gemer rente ao seu rosto e acolhendo os gemidos dele com a boca, mordiscando-o e lambendo-o com volúpia...
A água quente os envolvia como um turbilhão, batendo nas peles, aliciando, fazendo par com as carícias sôfregas...
O cheiro da pele viril, o movimento dos quadris, o falo poderoso dentro de si, tudo tão perfeito, tão intenso como tudo que possuía um fim... Pensava Afrodite, embriagado de desejo e aflição. Ser tomado daquela forma e ser amado por Máscara da Morte era uma experiência que jamais se repetiria em sua vida e a constatação quase o fez soluçar. Então, para calar sua mente, tomou a boca de Ângelo na sua e o beijou como se fosse a última coisa que faria em sua vida.
Com investidas poderosas e sentindo a língua de Afrodite em sua boca, Ângelo gozou e levou Afrodite ao orgasmo. O êxtase foi tão arrebatador que a visão do loiro turvou e Máscara da Morte grunhiu, derramando-se dentro dele, ouvindo o próprio coração, enquanto mordia o pescoço alvo e fazia Afrodite ofegar de paixão...
Afrodite não conseguia se mexer. Não de exaustão após o prazer intenso, mas por saber que tudo aquilo acabaria, que o único homem capaz de virá-lo do avesso, de fazê-lo sorrir e amar sofreria com a atitude que tomaria. Ele o odiaria!
Portanto, simplesmente continuou encostado à parede do box, abraçado ao amante, esperando o coração acalmar-se no peito. O toque carinhoso de Ângelo o trouxe de volta à realidade. Aqueles olhos azuis furiosos se transformavam em pura ternura ao mergulhar nos seus e isso só aumentou a dor.
Ângelo o conservou junto a si deixando que a água lavasse os resquícios do sexo que haviam feito. Em seguida, fechou a água e envolveu Afrodite na toalha. Como sempre acontecia, tomou-o nos braços e o levou para a cama espaçosa onde o loiro deixou-se ficar inerte com os braços estendidos para cima.
Afrodite fechou os olhos quando Ângelo deitou-se ao seu lado, aconchegando-se ao belo corpo e suspirando.
– Eu sou um homem de sorte. – disse ele.
O loiro apertou ainda mais os olhos e nada disse. Então o celular de Ângelo tocou e Afrodite agradeceu a quem quer que fosse, porque isso impediu o executivo de vê-lo suprimir as lágrimas que achara já ter derramado.
– Sim? – falou o executivo não reconhecendo o número na tela do celular.
Quando a voz se identificou, ele olhou para Afrodite como quem diz: não sei quem é. Entretanto, após alguns minutos de conversa, Ângelo desligou e sorriu.
– Era Kobayashi. Disse que marcou um horário para falar comigo com a secretária, mas teve um imprevisto e não conseguiu avisá-la a tempo.
Afrodite sentiu-se gelar por dentro.
– Você o conhece? – perguntou o loiro.
– Pessoalmente não, mas descobri que ele faz parte do colegiado da universidade. Vou falar com ele sobre o seu professor de fotografia.
Afrodite sentou-se, de imediato, na cama.
– Esqueça o Kanon.
– Nunca. Esse cara vai sair da sua vida por bem ou por mal. Por enquanto eu estou usando as armas leves. – disse Ângelo.
O loiro admirou aqueles olhos azuis que podiam endurecer ou revestir-se de amor. Sentiu-se péssimo pelo que faria a seguir, mas ainda assim, aproveitaria aqueles últimos momentos.
– Venha cá... Esqueça tudo isso e faça amor comigo. – sussurrou com as lágrimas escorrendo mais quentes do que a pele.
Ângelo acreditou que ele estava emocionado e lambeu a trilha úmida de uma das faces, num gesto de profunda intimidade. Devolveu-lhe as lágrimas com os lábios para que ele as saboreasse de volta.
Foi então que o fez deitar-se, novamente e o possuiu novamente. Agora, devagar e menos selvagem do que acontecera no chuveiro. No entanto, aquela ternura e cuidado doeu fundo em Afrodite. Não porque ele estivesse tenso, mas porque deixar Ângelo seria como a mais dolorosa das mortes.
– Eu te amo... – disse Máscara da Morte arremetendo devagar e olhando fundo nos olhos de Afrodite.
O loiro deixou-se levar e correspondeu a cada movimento, a cada gemido e carícia. E então gozou novamente e agarrou-se ao corpo viril, mordendo o lábio inferior até sentir o gosto de sangue. O orgasmo chegou ao mesmo tempo para os dois e tudo explodiu fragmentando-se em ofegos e estremecimento. Ângelo puxou Afrodite e permitiu-se ser consumido por aquela voragem de amor, enquanto o loiro pensava no próximo passo da atitude que teria de tomar. Não bastava, simplesmente, deixar o italiano, precisava fazer com que o odiasse e não se importasse mais...
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Yoshiki encarou Misty com frieza e se afastou do corpo de Minos. Ao contrário do que o jovem esperava, o professor não se justificou ou manifestou surpresa pela sua presença ali. Por um momento, sentiu medo do que viu nos olhos negros cravados em si, até que o silêncio foi rompido.
– Como entrou aqui? – perguntou o homem mais velho.
– A p-porta não estava trancada e eu...
– Você me seguiu. E por quê? Não, não se dê ao trabalho de responder eu sei o motivo. – falou Yoshiki, com toda a calma do mundo, buscando o roupão que costumava deixar em um cabide perto da cama.
– Você fodeu com ele! Na verdade, você o estuprou. – disse Misty elevando a voz.
– E você o drogou, não foi?
– Eu não!
Com uma rapidez inesperada, Yoshiki se aproximou de Misty agarrando-o pelo pescoço e o empurrando até ele encostar as costas na parede.
– Sim, você o drogou e me seguiu até aqui para ver o resultado da sua ação doentia... Deve ter imaginado mil coisas, não é mesmo? Será que imaginou ser fodido por ter sido mau e desrespeitoso? Heim? O que acha? Devo te comer, enquanto aperto esse belo pescoço e acabo contigo? – falou o professor apertando ainda mais a garganta de Misty.
– A-Ah...P-Por F-Favor...N-Não... – implorou o jovem agarrando-se às mãos que lhe apertavam a garganta e sentindo o ar faltar.
Yoshiki não soube de onde tirou forças para lidar com aquela situação tensa e inusitada. Depois que cedera ao desejo de fazer sexo com Minos, parecia que outro Yoshiki emergira daquela experiência perversa. Sentia-se poderoso, dominador e sem medo. E junto a tudo isso, uma excitação intensa que começava a amedrontar e seduzir Misty. A relação entre os dois era sempre permeada por toques de violência e submissão, algo que o jovem aceitava de bom grado...
Ofegante, Misty tocou o rosto do professor e levou os dedos aos lábios dele. Yoshiki sorriu perversamente... os mordiscou lentamente e, em seguida, aliviou a pressão no pescoço do jovem virando-o até que encostasse o rosto na parede.
Misty fechou os olhos e sorriu ao sentir suas mãos sendo apoiadas ao lado da sua cabeça, enquanto Yoshiki foi despindo-o com certa violência, arrancando a camisa do uniforme, as calças, até chegar à pele alva e lamber-lhe as costas, descendo até a bunda redonda que se empinou, ainda mais, ao sentir os dentes mordiscando-a, com volúpia.
Uma orgia de sensações o invadiu, o medo acentuando o prazer... Misty estremeceu deliciado ao sentir a língua quente e molhada dentro de si, enquanto Yoshiki gemia deleitando-se com o gosto do medo no corpo do jovem... A pele arrepiada, seu sabor agridoce, as pequenas gotículas de suor... Seus dedos substituíram a língua e ele surpreendeu-se com o prazer que sentia em tocar Misty ao mesmo tempo em que lançava o olhar para o corpo nu de Minos que permanecia desacordado como uma testemunha cega de tudo aquilo.
A mistura da raiva, medo e excitação conferiu a Misty um tesão, quase insuportável, e foi com esta emoção desenfreada que ele pediu:
– Vai... mete logo! Me come...
Yoshiki o penetrou de uma vez, mergulhando dentro dele com fúria, para depois mover-se mais devagar, estocando-o lenta e profundamente, sentindo a resistência da cavidade apertada e junto com ela, novamente o prazer torturante e indescritível de estar mergulhado em um corpo jovem.
Olhou para a cama e para Minos. Sorriu de forma insana, imaginando-se, novamente dentro dele e de Misty, os dois ao mesmo tempo... Ele teria Minos, novamente. Mas o queria participando, implorando e gemendo pela possessão!
Ignorando as fantasias do professor, Misty gemeu, entregue e lânguido, enquanto forçava o corpo para trás, tentando sentir Yoshiki mais fundo, mais seu... Então a cena mudou. Yoshiki puxou seus cabelos para trás com força, sussurrando obscenidades, mordendo-o no ombro e moveu-se com força, transformando o prazer em dor. Mesmo assim, os dois ofegavam enlouquecidos, quase chegando ao clímax que ameaçava explodir violento e louco.
Completamente fora de si, Yoshiki acelerou o ritmo dos movimentos, agarrando os quadris de Misty, arremetendo e continuando a cravar os dentes na carne macia e quente, enquanto levava uma das mãos ao falo pulsante dele e sentia-o vibrar e gotejar, antevendo o que viria...
Com um prazer sádico, apertou com força a ponta do membro de Misty fazendo-o gritar de dor e então gozou, negando ao jovem o prazer que sentia em dobro...
– Você... você não me... deixou gozar e me machucou. – choramingou Misty.
Yoshiki saiu de dentro dele sem nenhum cuidado. Olhou para o membro sujo de sêmen e sangue e falou com toda a calma:
– Esse é o seu castigo, só vai gozar quando eu achar que já pagou pelo que fez.
– Mas... você...
– Não discuta comigo! Limpe-se e se vista. Temos muito a fazer.
Meio estonteado, Misty obedeceu. Pegou as roupas jogadas e olhou na direção da cama onde Yoshiki estava se sentando para observar o semblante adormecido de Minos. Não sabia o que o professor faria, mas se sentia ligado a ele como se ele fosse uma das drogas que ingeria. Era inevitável. Não conseguia lutar contra o que sentia, apesar da realidade brutal de submissão e dor que Yoshiki impunha a relação entre eles. Também estava insatisfeito em dividi-lo com Minos, porém tinha um trunfo em suas mãos e iria usá-lo no momento apropriado.
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Quando a campainha tocou, Halldora já se preparava para dormir. Olhou no relógio e percebeu o adiantado da hora. Minos ligara dizendo que tinha ido com os colegas em um clube noturno. Será que tinha perdido a chave de casa? Pensou ela, enquanto girava a maçaneta e abria a porta.
– Oh! senhor Hades... – disse ela.
– Boa noite. Perdoe a hora, mas eu precisava falar com Minos. – disse o executivo.
Halldora sorriu, um tanto embaraçada por estar vestindo um pijama. Porém, diferente do passado, ela agora usava roupas de dormir bastante recatadas, a não ser quando saía com o namorado.
– Por favor, entre. Minos não está, ele e a turma da faculdade fizeram um trabalho durante a tarde e depois foram se divertir um pouco em um clube noturno. Mas foi bem cedo, creio que logo ele já está chegando.
– Um clube noturno... – repetiu Hades um tanto decepcionado.
– Ele me ligou avisando. Na verdade, ele disse que nem queria ir, mas está tentando se enturmar, já que passarão o fim de semana juntos estudando.
– É natural. Minos é jovem e precisa mesmo conviver com pessoas da sua idade. – disse o executivo tentando conter uma pontada indesejável de ciúmes.
– Que bom que o senhor entende. É um homem experiente e inteligente. Minos o adora! Aceita uma xícara de chá?
– Sim, por favor. Sabe em qual clube ele foi?
– Ele disse algo como... deixe-me lembrar...Acho que o clube se chama Ageha.
Enquanto Halldora ia até a cozinha, Hades sentou-se no sofá e olhou para as fotografias expostas na pequena estante. A reforma no apartamento tinha sido bem sucedida, Minos e a tia viviam uma vida nova e normal em família. O conceito de normalidade nunca tinha sido aplicado a sua vida pessoal, nem a de Minos. No entanto, ambos estavam tentando estabelecer parâmetros de uma vida a dois o mais próximo da normalidade.
E era, absolutamente, normal que Minos fizesse novos amigos e saísse para se divertir. Repetia para si mesmo, desconhecendo a sensação desagradável que experimentava dentro de si.
– Aqui está. – disse Halldora trazendo uma pequena bandeja com chá e alguns biscoitos doces.
– Obrigado. – falou Hades tomando a xícara na mão e deixando os biscoitos.
– Fez boa viagem? – perguntou ela tentando puxar assunto.
– Sim. – respondeu ele, olhando o relógio.
Sem saber como conduzir a conversa, Halldora rezou em silêncio para que Minos logo chegasse, porém não foi atendida. Minutos se passaram e nada do jovem. Criou-se uma atmosfera um tanto tensa, apesar de conversarem sobre alguns assuntos da Fundação.
– Bem, eu não vou tomar o seu tempo. Já está tarde. – falou Hades levantando do sofá.
– Se quiser esperar, não tem problema. Vamos ligar e ver se ele já está chegando. – disse Halldora.
– Não, eu falo com ele depois.
Assim que Hades chegou à porta, o telefone tocou e Halldora foi atender.
– Sim? Quem? Ah, um colega do Minos. Ele não virá para casa? Como? Ah, sim. Ele vai ficar na sua casa e de lá vocês embarcam para a viagem de estudos amanhã. Certo. Obrigada, por avisar.
Hades ouviu a conversa e percebeu a expressão desconcertada de Halldora.
– O que aconteceu? – perguntou ele.
– Um colega de Minos disse que eles beberam um pouco demais e que acabaram indo para a casa de um deles, um tal de Misty. Ele disse que Minos não estava em condições de vir para casa e que estão cuidando dele para que possa viajar amanhã.
Aquela revelação fez Hades franzir o cenho. Minos se embebedando? O seu amante indo dormir na casa de outro?
– Eu peço desculpas e... confesso estar chocada com isso. Minos não costuma beber e... bem, eu nem sei o que dizer. – falou Halldora com a voz trêmula.
– A senhora conhece esse colega?
– Não, eu não sei quem são os colegas dele e isso me preocupa. Minos nunca os trouxe aqui ou foi a casa de algum deles, até agora...
Hades foi até o telefone e conferiu o identificador de chamadas. Gravou o número e pegou o seu celular. Ligou e ficou esperando, até que uma voz juvenil atendeu perguntando:
– Sim? Quem fala?
– Meu nome é Hades e eu quero saber, exatamente, o que aconteceu com Minos.
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