Por onde eu deveria começar? Bom, se for dizer diretamente e sem enrolação, eu praticamente nasci morto. Não havia vida naquele bebê tirado do ventre da minha mãe, minha pobre mãe que teve que suportar a dor de carregar um cadáver. Eu não acredito em fantasmas nem em espíritos, e acho que a maioria dos humanos também não, por mais que eles queiram, as pessoas só podem crer naquilo que veem, ainda tem aquelas que acreditam em algo só porque foi passado de geração para geração, como ‘lendas’, então, com isso, diria que é normal ser cético quando se vive uma vida mundana e sem nenhum acontecimento surpreendente ao redor, eu nunca me interessei por essa área ou por coisas que fugissem muito da nossa realidade, se estivesse afirmando isso, certamente seria uma mentira descarada, afinal, uma pessoa sem vida, tende a negar a realidade e a procurar um outro espaço, um local onde a vida não tem tanta importância como no mundo material. Apesar dos meus esforços, no fundo do meu eu apagado, sabia que era impossível encontrar uma outra dimensão, afinal, quando se está preso no mundo real, não há como obter a salvação indo para outro plano, não para quem já está morto. Depois de um tempo percebi que isso não era o cotidiano comum em que uma pessoa poderia viver, eu comecei minha investigação a fundo, ainda estava em busca do rio de Aqueronte, quando me deparei com uma nota em uma revista científica qualquer que eu lia na colisão entre fé x ciência que estipulava todas as noites antes de fechar os olhos e adentrar à fuga dos sonhos, e essa nota dizia: “Estamos todos no purgatório?” Eu não continuei lendo a matéria, ao invés disso, apenas me deitei na cama e me pus a pensar, não nessa frase, mas na minha vida. Onde eu estava esse tempo todo, a dor que imergia do meu peito não podia ser sentida por uma pessoa sem vida, então, voltei meus olhos para a revista do lado do travesseiro; “Estamos todos no purgatório?” Todos? Eu não diria isso, ainda deve haver alguém lá fora vivendo, sorrindo, amando, mas, se eu me levantasse da cama iria ficar de frente para o espelho, meu reflexo falecido, aquilo iria me responder, afinal, estamos mesmo no purgatório.