Capítulo 01 – PORTAL

Eu tinha somente três anos de idade, tudo que eu podia enxergar em meu campo restrito de visão era um teto branco com pequenas manchas marrons, um pouco abaixo, no canto dos meus olhos, parecia ser um tipo de plástico transparente que cobria meu nariz e minha boca, dele saía uma fumaça com um gosto horrível que quem experimentasse jamais poderia esquecer. Não tinha idade para raciocinar direito e entender a situação, mas ao fundo. eu ouvia vozes de pessoas rindo, em algumas ocasiões ouvia gemidos de dor, as horas pareciam passar, eu não sabia pois não tinha noção do tempo e mal consigo me lembrar de tudo, para uma criança de três anos, qualquer detalhe já é uma grande vitória, mas sabia que vários dias estavam sendo terminados, eu não conseguia me mover, até conseguia, mas com muita dificuldade, sempre aparecia uma mulher para me ajudar, às vezes ela tinha um rosto diferente, alguns angelicais, outros infernais, e analisando isso agora, é óbvio que no purgatório estavam todos os tipos de almas, aquelas corrompidas pelo mau, as envenenadas e caídas no sofrimento, aquelas que respingavam um pouco de bondade, almas que não sabiam o que estavam fazendo ali, ah, essas deviam ser a maioria, pois via pessoas vagando sem sentido, seus olhares vazios me diziam que eu não estava em uma situação tão horrível, apesar de ficar quase três meses na cama de um hospital, eu até estava me acostumando com aquele lugar, a cama no começo era dura e estreita, mesmo para uma criança de três anos, eu mal podia me virar nela, meus pais nunca tiveram condição de pagar um convênio hospitalar, então aquele local era nada mais do que o serviço público degradado, então eu não poderia reclamar do inevitável e comecei a aceitar onde eu estava, aquilo iria durar por mais algum tempo, quando finalmente pisei naquele chão gelado de marfim, eu sabia que estava abrindo as portas da realidade e que muito mais, além de tubos e uma cama de hospital, me aguardariam.

Com seis anos de idade aprendi que eu tinha deficiência pulmonar, eu havia ouvido esse nome mas não fazia muita ideia do que seria esse diacho, uma criança de seis anos apenas sabe o que são as coisas, mas não tem ideia da situação real. Eu sabia que era uma doença, e nesses últimos três anos indo para o hospital todo mês, eu não podia imaginar que seria diferente, mesmo com pouca idade, devido à minha rotina, pude perceber as coisas ao meu redor, digamos que por conta disso, evoluí bem mais do que humanos que podiam andar por aí e fazer todas as coisas consideradas ‘saudáveis’, eu não tinha inveja deles, pois eu sabia que estava evoluindo mais rápido, e com isso, poderia sair do purgatório mais rápido, os que apenas sorriam e andavam sem preocupações estavam destinados a ficarem pela eternidade, perdidos, com seus olhares vazios, mas a cada pontada no peito, a cada desmaio, eu pressentia que estava diante da libertação, podia enxergar um pequeno feixe de luz quando caía de cabeça no chão, pensava que era minha fuga, mas acordava com um senhor usando uma máscara branca colocando um tipo de lanterna em meus olhos enquanto ele os abria, ele me analisava a fundo para saber se eu estava pronto para sair daquele local, mas eu nunca estava. Não importava quantas vezes eu iria, os testes ainda diziam que não era a hora, mesmo tomando várias doses de venenos que minha mãe me dava, aquilo tudo não era o suficiente para quebrar as correntes que me prendiam ao local da punição sem fim. Foi aí que comecei a pensar que aquelas pessoas não queriam que eu saísse de lá! Oras, era óbvio, meus pais me amavam, as únicas pessoas no mundo que amavam alguém sem vida, e eu sabia disso, pois caso contrário eles teriam me abandonado em uma lixeira qualquer, mas minha mãe sempre esperava eu dormir para ir se deitar, ela estava lá, esperando que eu achasse minha rota de fuga, então eles na verdade, não queriam que eu fosse, por isso ela me dava aqueles venenos, cada um com um gosto diferente que faziam meu paladar perder o sentido, ela ficava do meu lado somente para garantir que eu não a deixasse, eles eram espertos, acho que adultos tem uma percepção diferente das crianças, sabiam que eu estava rumando para aquele plano que sempre sonhei, por isso ela saía do meu lado, ela sempre me abraçava fortemente quando eu cuspia sangue, por que eles não me deixavam ir? Isso não é egoísmo demais? Eu só queria sentir o ar puro, eu li uma vez que há um planeta chamado terra, onde as crianças podem brincar livremente, sempre quis jogar bola, aquilo parecia realmente divertido, como era na televisão, sempre quis ter amigos, juntos poderíamos soltar pipas, eu havia visto algumas no céu, pareciam pássaros, eu queria apenas ir dormir e acordar depois do meio dia, olhar para a manhã ensolarada de domingo e sentir cheiro da comida gostosa da minha mãe, ir correndo pra cozinha e abraça-la, abraçar meu pai com toda força, de tarde iríamos caminhar em um parque com várias outras famílias, iria de mãos dadas com minha mãe, sentaríamos pra comer algum sanduíche e tomar suco de caju, haveria um lago enorme em nossa frente, várias aves, gansos, patos, aqueles dias então iriam se repetir pra sempre e pra sempre, eu comecei a rir quando percebi que mesmo saindo de lá, eu não poderia chegar a um lugar desses, eu disse que haviam vários tipos de almas naquele mundo, almas presas destinadas a pagar seus pecados, e eu era uma que se encaixava na categoria de almas sem correção, eu fui criado por Deus de forma errônea, estava partido e ninguém se preocupava mais em concertar, os anjos faziam desdém de mim, fingiam que nem me viam, até os demônios não viam serventia em me usar, eu estava sozinho, se eu um dia achasse uma libertação mesmo, eu cairia no inferno.

Era um domingo chuvoso, eu tinha completado dez anos de idade, quando abri meus olhos ao acordar, olhei para os lados para verificar se ainda estava na gaiola, e infelizmente nada tinha mudado, mas sentia algo diferente naquele dia, a minha janela estava com um pequeno pedaço aberto, um pedaço suficiente para que o vento fresco proporcionado pela chuva atingisse meu rosto, eu tinha medo de respirar fundo, pois quando o fazia, parecia que eu tomava umas vinte facadas no peito, às vezes eu ficava o dia todo em uma bomba de oxigênio no sofá vendo algum canal sem conteúdo na televisão, tinha dias que pensava que morreria afogado mesmo estando embaixo do céu azul, eu queria muito poder sugar com minhas narinas e estufar meu peito com aquele vento gélido, ouvia as gotas de chuva caírem no chão lá fora e sentia que poderia ser uma delas, cair sabendo que me chocaria contra o chão, e depois disso, evaporaria novamente, subiria ao céu com a esperança de um novo recomeço, eu não ligava mais se meus pulmões explodissem, eu imaginava meu corpo todo inflando e minhas entranhas voando pelas paredes brancas daquele quarto pequeno, então respirei fundo, sugando todo ar que vinha até mim, a quase escuridão do quarto tomou meus olhos, o sentimento de dor, antes mesmo de acontecer, tomava conta do meu corpo, e isso me fazia bem, pois era um sinal de que eu ainda estava trancado naquela caixa maldita, quando eu não sentisse mais dor, eu saberia, finalmente, que havia conseguido a libertação. De alguma forma, quando soltei a respiração (no momento mais crítico, como sempre acontecia), eu não senti as facadas. Meus olhos se arregalaram, eu me levantei e abri toda a janela que rangeu bem alto se ecoando pelo quarto, lá fora as nuvens cinzas indicavam o resplendor do dia, eu fiz mais uma vez, puxei o fôlego em meu peito, respirei fundo e soltei o ar com tudo, eu senti um pequeno formigamento, mas a dor não existia, a dor que eu antes sentia a cada minuto, a lança que perfurava meu peito enquanto eu dava qualquer passo, em qualquer lugar, fora quebrada. Eu estava mesmo... liberto? Já haviam se passado dez anos, dez é um número significativo, acho que eu já tinha merecido toda punição que recebera, não havia mais porque continuar as seções, eu sei que no fundo sou uma pessoa boa, minha família tem boa índole, fui criado com essa perspectiva de mundo, mesmo encarando várias feras por dia naquele labirinto, eu ainda conseguia sorrir porque meus pais me davam força e mantinham a bondade em seus corações, eu queria mesmo poder ficar com eles pra sempre, e quando minha mãe ficasse mais velha, eu retribuiria todos os favores que ela me fez, eu não via mais as coisas como antes, por mais que meus pais não me deixassem partir, eles sabiam que eu não estava preparado, aliás, eu poderia partir mesmo? Só existia uma rota de fuga? Eu respirei mais uma vez, e outra, várias vezes consecutivas, e a ideia de que havia outra saída se clareou em minha mente, ouvia ao fundo o som das correntes sendo quebradas, minhas pernas ficaram trêmulas, eu senti pela primeira vez algo que sempre diziam por aí, mas que nunca entendi o significa, uma palavra sublime que eu ignorei, mas que agora fazia todo sentido; Esperança. Quando as primeiras lágrimas desceram do meu rosto, assim como as gotas de chuva que caíam no chão, eu senti que queria reviver, que não queria mais ser um cadáver preso no purgatório.

Antes, quando as correntes se envolviam em meu corpo, aquelas correntes saídas do forno e pesadas, eu não podia ir para a escola, recebia aulas particulares em casa, e assim eu fui indo até chegar no quarto ano do ensino fundamental teoricamente, e agora que eu podia andar, que eu podia olhar para o céu sem medo de me afogar, eu poderia finalmente me sentar em uma cadeira escolar, levar meu lanche feito com carinho por minha mãe e comer com meus amigos no recreio, podia chorar ao ir mal em uma prova, comemorar quando tirasse um dez em matemática, poderia me despedir de todos em uma sexta-feira querendo que a segunda chegasse novamente, poderia jogar futebol com todos, saber a sensação de como é chutar uma bola, quem sabe até marcar um gol, conhecer alguma garota que me deixasse corado e pensativo antes de dormir, ter uma professora que me elogiasse pelo meu esforço, ser repreendido por conversar muito em sala de aula, comemorar as aguardadas férias, eu iria finalmente para outro mundo, um portal havia se aberto em minha vida, eu não queria acreditar, no fundo, que aquilo fosse real, pois já me iludi muito durante esses anos, mas foi quando me deparei com a lousa verde em minha frente, o cheiro de giz e todo aquele barulho de crianças animadas, que percebi que o havia atravessado. Antes de sair de casa, olhei para o horizonte da rua, o sol estava começando a nascer, mas eu não via isso, eu via um mundo desmoronando, a gaiola em que fui mantido por muito tempo se arrebentava, ouvia sons de trombetas e violinos eufóricos soando com o cantar dos pássaros matinais, a trégua de Deus, a viagem que eu esperava ser sem volta, o meu renascer da punição necessária.

Mas havia algo que eu ainda não sabia. Uma pessoa que passou tanto tempo no purgatório, como eu, pensei, vai ser quase como um Deus nesse mundo frágil, mas era nesse ponto, que eu me enganava. O purgatório era criado para nos testar, alimentar a força interior de cada ser destruído, eu via na tv e em algumas revistas algumas crianças felizes indo com seus pais para a escola, amigos brincando de pega-pega, esconde-esconde, queimada, isso não tinha como se comparar à seção infinita de tortura, foi o que pensei até que vi a verdade daquele mundo para onde eu tinha ido.

No começo poucas pessoas falavam comigo, oras, eu era uma criança magricela, estranha, com olheiras, eu parecia um estrangeiro naquela classe de mais ou menos vinte crianças saudáveis e agitadas, eu ainda não conseguia sorrir o tempo todo e muito menos ficar animado com tudo, era natural até todas as feridas do outro mundo cicatrizarem, mas ninguém entenderia isso, mesmo que eu explicasse, eles iriam zombar de mim quando eu contasse que estava em outro mundo, as pessoas desse lugar pareciam ser céticas e fechadas á coisas que lhes eram distantes, apenas acreditam no que podiam ver e sentir, e a maioria ali nunca havia sentido dor, então não me espantava a reclusa que eu sofria, eu era um ser interestelar indevido que havia tomado o lugar sagrado deles, um intruso, era assim que eu me denominava. Mas mesmo com isso, eu estava feliz, me sentia superior, assim como pensei que iria ser, ao longo do tempo fui percebendo o egoísmo daquelas pessoas que sempre tiveram tudo na vida, eu que estava sempre forçado a olhar para aquele teto branco, sentindo o gosto daquela fumaça interminável, conseguia enxergar toda a fraqueza imposta naquele mundo de areia, todos ali não sabiam o que era nadar em lama, eles andavam em uma corda bamba imaginando que jamais cairiam, e eu, que havia me levantado, que havia conseguido sair de um local que muitos não resistiram, ganhava mais força com o passar dos dias, eu via as fofocas, as intrigas criadas, a inveja, a cobiça, as panelas formadas, e quando percebi, eu já estava distante de todos, tinha poucos amigos, ou quase nenhum, era um mundo totalmente diferente do que eu imaginei quando abri aquela janela, não haviam sorrisos no recreio, não havia elogio por parte dos professores, não havia futebol, eu nunca era escolhido na educação física, e eu nem podia me esforçar demais também, ninguém nunca se despedia de mim ao ir embora, eu não conversava demais na classe porque ninguém tentava puxar assunto comigo, mas mesmo com isso, mesmo com as expectativas quebradas, eu estava vivo. Me olhava todos os dias no espelho e não via mais minha carne apodrecendo, eu não era o cadáver na beira do penhasco, aquele mundo poderia ser frágil feito um barco de papel, mas eu me sentia sólido como uma rocha nele, pelo simples fato de acordar e....viver.

Durante o ensino médio, eu decidi que queria ser diferente de todos aqueles humanos quebrados, eles só poderiam ser bons novamente se passassem para o purgatório, mas foi aí que percebi que nem todos eram qualificados pra isso, e que eu, havia tido sorte por ter conseguido essa chave de acesso, sempre pensei que eu era um dos escolhidos, alguém colocado no planeta terra para fazer algo de bom naquele mundo onde a plateia somente ria e dançava conforme a dança, e mal viam eles que a dança se repetia infinitamente, então eu, que estava ciente de tudo, um dos únicos que não era um fantoche, tinha que fazer algo para quebrar a artificialidade daquele lugar. Eu comecei a ser o melhor aluno na sexta série, ninguém me alcançava, eu entrei para o time de tênis do colégio, minha escola felizmente era uma das melhores da cidade, meu pai havia conseguido um emprego melhor e tinha condições de pagá-la, eu era admirado pelas garotas, invejado pelos homens, tudo que jamais imaginei que aconteceria, eu estava começando a ter domínio daquele plano, perto do purgatório, aquilo era brincadeira de criança. Mas ainda havia algo que me incomodava. Eu tinha parado de acreditar, tinha parado de almejar algo a mais, no purgatório, eu sentia que queria ir pra outro lugar, me libertar, mas e agora? Aquele mundo não era ilusório demais? Uma vida supostamente feliz não poderia existir assim, e uma pergunta que eu nunca tinha feito: Por que eu saí do purgatório? Eu havia mesmo sido punido o suficiente? Havia ganhado experiência necessária para ser um cosmonauta em outro lugar? Eu percebi que aquele mundo não fazia sentido algum quando conheci Maiara. Meu primeiro amor e a primeira pessoa que quis ficar do meu lado. Eu amava e era correspondido, eu, que mal comecei a viver. No dia em que iria pedi-la em namoro, com meus 14 anos, antes de sair de casa, estava escovando os dentes, eu olhei para o espelho em minha frente e minha imagem era de alguém perfeito. Eu tinha cor, meus olhos estavam abertos e vivos, tudo estava tão claro como a luz solar, foi aí então, que o medo tomou meu corpo, olhando para aquele eu parado com a escova na mão, eu percebi que nada podia ser mais artificial do que aquela imagem refletida, soube disso quando vi sangue espalhado pela pia do banheiro, um leve arrepio tomou minha espinha, eu senti uma incontrolável falta de ar, não era igual as vinte facadas que eu tomava diariamente, mas era um facão em chamas, que me pegou por trás, e naquele momento, naquele instante em que sorri para mim mesmo no espelho, percebi que havia caído na pior armadilha de todas, a armadilha da vida real. Afinal, eu ainda estava no purgatório.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.