“ATO 01 – INFERNO”

Quando sentei pela primeira vez naquela carteira velha de madeira, a expressão no rosto daquela professora que já nem lembro o nome me fez ficar aliviada, o engraçado é que não era uma expressão agradável, ela gritava com todos os alunos, humilhava as pessoas que erravam um exercício se quer de álgebra, mas de algum modo aquilo pra mim era o paraíso, até aquele sinal ardido tocar e eu ser jogada naquele campo impiedoso de batalha onde os abutres miravam em minhas entranhas. Por que eu tinha que passar por tudo aquilo? Minha mãe dizia que eu era diferente, e pessoas assim conseguiam mais coisas na vida, eu não tinha algum desejo em especial, mas depois dos súbitos ataques comecei a pedir a Deus para que eu fosse retirada daquele mundo sombrio, o ar que eu respirava era rarefeito, as consequências já estavam visíveis, e meus pais, sabendo disso, apenas ignoravam, entendendo que nada poderia ser feito em prol de um peso morto, afinal, ir para o colégio era obrigação de uma garota de onze anos, eu nunca fui de tirar notas altas, mas me esforçava para passar de ano, porém, todas as flechas que perfuraram minha carne flácida me deixavam longe do esforço necessário para alcançar a média aceitável, e desde que pisei naquele ninho de víboras famintas, me senti a pessoa mais acéfala do mundo, eu não podia mais encarar simples exercícios de física que antes, resolvia em poucos segundos. Eu era realmente uma pessoa amaldiçoada, pensei comigo mesma ao me sentar nas escadas daquele corredor mofado e silencioso naquele longo intervalo, um intervalo que parecia durar a eternidade, eram vinte minutos jogada em um battle royale com regras injustas, esperando para ser caçada, rezando para que naquele dia os predadores já estivessem satisfeitos, mas no final, eu sabia que eles nunca estariam.

- Olha só pessoal, a Andréia deve tá com dor de barriga de novo, por isso fica sentada ali na escada, pra ninguém sentir o fedor, mas pena que ela não sabe, que a merda se espalha pela escola toda, hahahaha! – Eu sorri ao olhar para aquele garoto cujo nome era o que menos me importava, todos ali eram denominados como demônios pelo meu subconsciente, eu apenas sorria aceitando tudo para o impacto não ser tão letal, todos os dias eu absorvia essa falácia, eram cinco pessoas rindo histericamente em minha frente, todas com facas nas mãos, prontas para me dilacerar violentamente, eu não podia morrer de uma vez? Por mais golpes fatais que sofria, os dias se repetiam, estava em um loop eterno, em um buraco negro sem fim, eu não esperava que ninguém pudesse me salvar mesmo, não via animes ou séries porque aquelas histórias de falsa esperança e protagonismo me levavam para um mundo ilusório onde me fazia ficar ainda mais vulnerável às pancadas.

- Por que você é tão gorda? Sua mãe te soca comida enquanto você fica amarrada em uma cama vendo programas educativos? Se quiser posso ir na polícia pra você, mas eles não iriam conseguir entrar em sua casa, tamanho o odor de ratos mortos que deve ter lá! Hahahaha! – De fato alguns deles sabiam ser bem cruéis, desde que entrei na quinta-série descobri que o mundo era mais cruel do que os noticiários trágicos diziam, aquilo não era nem metade do que eu presenciava, para uma garota de doze anos ser zombada todos os dias, algo estava muito errado, aquele vida não era para ter continuidade, era o que eu pensava todos os dias ao me olhar no espelho, me tornei uma existência desnecessária, um acidente do mundo.

Ao chegar em minha casa, era sempre a mesma coisa. Meus pais me olhavam com aquele sorriso escrachado em seus rostos velhos e cansados, como se tudo estivesse bem e eu vivesse em um mundo colorido e repleto de amor, afinal, eles pagavam uma escola ótima para sua filha, davam de tudo que ela queria, mas nem sabiam o que acontecia, não sabiam que os demônios dilaceravam minha carne todos os dias, e aquilo que restou de mim aos poucos ia se evaporando e se tornando cinzas que pairavam no ar, e mesmo assim, ninguém as enxergava. Uma existência medíocre e em vão, ao deitar em minha cama, olhava para o teto novamente, quando estava ali, era o único momento do dia em que podia chorar quieta e me acalmar, mas essa paz durava poucos segundos, porque minha memória também era uma inimiga cruel que me atacava nos confins da madrugada, tirando meu sono e me fazendo relembrar de todos os ataques súbitos que sofria enquanto corria desesperadamente. Por que não posso vencer? São apenas...demônios. Eu pensei durante meses, tentando elaborar algum plano de contra-ataque, eu precisava disso, ao menos, lutar uma vez, apesar de saber que a derrota era eminente, eu queria esboçar reação, queria sujar minhas mãos e dizer que não foi uma derrota sem luta, mas como eu poderia enfrentar milhões de adversários unidos e sedentos por sangue? Eu era o exército de uma pessoa só, não haviam aliados, nenhuma amiga se quer pra me apoiar no embate, eu falava brevemente com outras garotas com características deveras peculiares da minha classe que também eram alvos de ofensas e outros atentados, mas como alguém assim, que era jogada no poço como eu, podia me ajudar? Tentei convencê-las a se unirem a mim e criarmos um exército revolucionário contra os demônios caçadores, mas a covardia predomina no reino dos fracos, uma vez em que você é despido e exposto no meio da multidão, se torna a escória, pronto para se ajoelhar e se render no primeiro olhar afrontador, usando uma coleira que nunca poderá ser retirada. O que me restava era segurar aquela única lança e ser a linha de frente e a defesa, sozinha e sem hesitar, eu tinha que atingir e matar ao menos um demônio.

Foi quando naquela manhã de sábado em que eu supostamente ficaria em casa sem fazer nada apenas fingindo que amo meus pais, que um sinal de Deus me mostrou que havia sim, uma estratégia para a virada. Minha prima Dalva juntamente com minha tia Dina nos visitaram, fazia mais de um ano que as duas não iam até nossa casa, foi uma surpresa, mas na certa, imaginei que a velha precisava de dinheiro, um dos únicos motivos pelo qual meus parentes nos visitavam, e olha que meu pai era só um mero siderúrgico. Eu já nem lembrava mais como a Dalva era, apenas sua aparência chamativa, cabelos longos, loiros e sedosos e uma pele branca e bem cuidada, ela era o tipo de garota vulgar que se atirava para o primeiro almofadinha do bairro, mas a fundo, não a conhecia, mas meu julgamento, dificilmente seria equivocado. Eu imaginei que a mesma não iria falar com uma gorda depressiva jogando seu gameboy no sofá da sala isolada de qualquer coisa viva do mundo, mas repentinamente, Dalva chegou do meu lado, com um sorriso malicioso nos lábios, e mesmo com quatorze anos, ela parecia mais confiante do que uma mulher de 30 bem sucedida.

- Oi, o que você tá jogando? – Foi uma pergunta idiota, pois visivelmente eu estava fingindo que jogava algo, já que aquela merda de vídeo game pouco importava, só queria um motivo pra ficar longe da tia Dina e ouvir a conversa chata com meus pais.

- Pokémon blue, você conhece? – Certamente uma garota como ela não conhecia nada sobre jogos e tecnologia, ela devia passar o dia todo em frente ao espelho se arrumando pra algum rapaz ficar babando por ela, e mediante a isso, eu até me sentia desconfortável falando com uma garota cuja aparência e personalidade se desassimilava infinitamente para com a minha, senti que o ar que respirávamos não era o mesmo, enquanto eu inalava o ar quente das chamas do inferno, ela vivia em um ambiente congelado e particular, um mundo onde ela controlava e decidia os caminhos a serem tomados, eu já não a invejava mais, afinal, invejar algo que você não pode ter é sem sentido, mas admirar sua beleza era um forte impacto em meu coração esburacado.

- Conheço de nome, mas, você não quer ver algo melhor do que esse joguinho aí?

- Algo melhor? Como o quê? – Aquela conversa havia tomado um rumo que nem em mil anos, eu esperaria que tomasse. A possibilidade dela se interessar em falar comigo era remota, mesmo que ela estivesse dopada ou que sua mãe houvesse lhe forçado – o que eu achava mais provável -, não imaginei que seu tom de voz soaria tão natural quando ela olhasse diretamente em meus olhos.

- Venha cá. – Dalva se sentou ao meu lado no sofá e tirou o seu celular do bolso, algo que ela ficava o tempo todo em suas mãos falando com seus diversos amigos ou ficantes, supostamente. Me aproximei de Dalva, mas sem chegar muito perto, não queria que ela sentisse o cheiro de carne queimada que eu emitia, ela já devia imaginar que eu era o alvo da caçada noturna no submundo, mas ainda assim, queria relevar.

- O que é isso? – Dalva me pediu com um gesto para olhar na tela do seu celular, foi então que me deparei com um vídeo de um rapaz se masturbando. Ele olhava para a câmera com os olhos fechados enquanto movimentada seu membro com sua mão de uma maneira rápida, eu fiquei sem reação, havia visto isso muitas vezes na internet, o meu único refúgio da dor, mas ver aquilo no celular de Dalva me fez ressaltar o quão cretina ela era, devia ter vários vídeos e fotos do tipo, ela era uma sedutora nata, brincava com os garotos por diversão, aqueles mesmos garotos que me cortavam com lâminas envenenadas, se eu pudesse ter alguém que me ajudasse nessa guerra santa, Dalva era uma forte aliada, mas, pensei então: “Dalva é um demônio também. Será que não há mais ninguém aqui, além de demônios? É claro que não, estamos no inferno! Eu esperei por ajuda esse tempo todo, ajuda de anjos que viriam em carruagens douradas me resgatar, mas quem nasce no inferno está condenado a viver nele, sem purificação divina, sem esperança de um Deus, mas, ainda sabendo isso, eu queria lutar. Como lutar no inferno? Mas espera, isso é muito mais fácil do que lutar no céu, aqui não existe pudor, aqui não existe clemência, então, eu só preciso ser um demônio ainda pior dos que me atacavam. Eu era um peixe pequeno sendo caçado por tubarões, mas li em um livro, certa vez, que os animais se adaptam para sobreviver em cada ambiente, será que era o mesmo comigo? Uma zebra podia se adaptar para lutar contra leões? Foi quando me lembrei que Dalva, com minha idade, era uma garota raquítica, seu cabelo era duro e ela possuía aparelho e mal sorria, era uma garota quieta e insegura, mas dois anos depois, ela estava lá, no trono de satã, com suas marionetes e esbanjando poder. Ela devia me ensinar, ela devia me treinar, foi o que pensei”.

- Dalva, quem é esse? – Eu sabia que não era seu namorado nem nada do tipo, e na verdade, não era isso que queria perguntar, mas o que eu desejava dizer não saía de minha garganta, eu queria que ela me ajudasse, mas, por que um demônio ajudaria alguém que ainda nem sabia que era da mesma espécie? Estou em um lugar que nada é de graça e ninguém tem piedade de ninguém, então certamente, Dalva não faria isso sem alguma retribuição, e foi quando decidi oferecer meu primeiro sacrifício para a entrada no nível mais profundo do inferno. Antes que Dalva pudesse responder e se gabar do garoto que ela tinha conseguido um vídeo, a interrompi – algo que achei que nunca faria antes – e pegando meu game boy, o ofereci a ela. – Pegue, fique com você, estou lhe dando isso. – Dalva me olhou como se eu fosse uma doente, ela pensou que eu era uma garotinha paranoica e que se sentia ameaçada pela presença dela.

- Me dando o vídeo game? Mas por quê? O que você quer em troca? – Dalva, como um demônio rei, já sabia minhas intenções, ela era boa, ela era a única pessoa que podia me tirar daquele mar de lava.

- Eu quero ser a rainha do inferno, quero conquistar um amplo território e ter mais de cem homens aos meus pés. – Foi quando percebi, naquele momento, que meu casco havia se quebrado, e finalmente, havia me tornado um demônio.

“O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui.”