KARMA - ATO 01: INFERNO
2 Feixe de Escuridão
Quando foi a primeira vez em que matei um demônio? Não é engraçado? O Blade era um vampiro, mas também caçava vampiros, pensando bem, isso tudo faz sentido, você só pode derrotar aquilo que conhece, e eu, havia perdido por tanto tempo porque era um mero mortal sem aquelas garras afiadas e presas prontas pra dilacerar carne podre sem dó, sem respaldo, então, com essa reflexão, eu não vejo tanta emoção quando percebo que o sangue que derramo penetra em minha pele e não consigo mais retirá-lo nem com o ácido mais forte do universo.
Dois anos se passaram desde que eu fui convertida e aceita no inferno. Pensei que não ia durar muito, e de fato, foi um treinamento difícil para se adaptar àquelas labaredas e todos aqueles arpões me cortando sem descanso, mas apesar de tudo, de toda dor, eu sorria, sabendo que cada dia sobrevivendo naquele poço escuro era um passo a mais na minha conquista. Eu não queria um pedaço do inferno, eu queria o inferno todo, queria fazer aquelas pessoas pagarem da pior maneira, e se eu parasse pra pensar, não havia culpa nem remorso, achava isso uma bobagem, afinal, um inseto esmagado não sente nada. Em dois anos Dalva me transformou por completo. Comecei a andar com ela todos os dias, ela me apresentou várias pessoas supostamente importantes na cidade, mas logo depois percebi que essa definição de cidade era na verdade um mero bairro de classe média de São Paulo. No início sofri a descrença dos demais, um ser humano no inferno não poderia sobreviver, eu não acreditava em mim, mais do que os outros, pensava que no primeiro tropeço voltaria à superfície enquanto vomitava sangue junto de minhas tripas, mas o tempo foi se passando, e nada melhor do que o tempo pra nos deixar mais fortes e resistentes, o aço que queimava minha pele agora não era sentido como no começo, Dalva me fez emagrecer, ela me produzia, deixava eu usar as roupas e acessórios dela, me ensinou a conversar com homens, a enganá-los, a ser falsa diante de garotas da minha idade e conseguir o que eu queria. Levei um tempo pra chegar no nível dela, mas naquele dia em que vi dois garotos na porta da escola se esmurrando por mim, tive certeza de que minha coroa era cativa.
– Filho da puta, você olhou pra ela né? Olhou? – O primeiro garoto que havia dado o primeiro soco certeiro era Ricardo, um marginalzinho conhecido e popular por intimidar os outros, as meninas, por mais educadas e finas que fossem – o que era difícil naquele colégio público em que estudava – caíam todas em cima dele, um bad boy disputado e que se importava mais em ter do que amar, e sinceramente, eu não acreditava nessa palavra fútil introduzida pela sociedade pra cegar o rebanho que já havia nascido sem visão.
– Calma porra, ela quem me chamou! – João estava desesperado, sabia que Ricardo conhecia uma galera da pesada. Eu havia dado em cima dos dois, sem que eles soubessem, os conquistei em menos de uma semana, e com uma armadilha simples, atrai os dois pra minha arena, agora era só apreciar o derramamento de sangue em um pedestal. Os demônios em volta do espetáculo riam e pediam por mais, duas pessoas se matando por mim, pensei, o que mais eu posso fazer com tal poder? Queria bem mais, queria não só aqueles moleques pobres do ensino médio, meu alvo era bem mais extenso.
Com o passar do tempo, houveram mais brigas e intrigas por minha causa, os garotos não aguentavam me ver com outro, a escola havia se tornado um battle royale, um survivor game onde eu, sentada de camarote, apreciava a degradação efêmera daqueles seres, os demônios eram tão fracos, pensei, tenho essa vantagem, pois nasci humana. Será que...eu nasci mesmo humana? – Comecei a questionar minha natureza, mas pouco importava, de 20 garotos da classe, 14 me amavam e se masturbavam por mim, e alguns outros deviam ser tímidos ou otakus demais pra dizer algo. Eu era o centro das atenções, as garotas viviam falando mal de mim, invejando, querendo ter o meu corpo, e um ponto cujo qual esqueci de colocar em prática, mas que fora ensinado por minha mestra, era o auto controle. Se eu tivesse isso, podia ter tudo, e quando comecei a penetrar nos olhos daqueles adolescentes burros cobertos de tesão, o controle foi total, sem falhas.
Cada dia era um diferente, não só na escola mas por internet, fazia os mesmos caírem aos meus pés e lamberem meus sapatos enquanto olhavam para mim encoleirados, e eu nem precisava de muito, era o mesmo papo com todos, em um ano havia feito três namoros acabarem, eu comemorei muito nesses dias, libertei esses demônios que estavam presos, agora eles se alimentavam de carne fresca, eu não era mais a senhorita esquecida e menosprezada, eu era parte do mundo, mesmo que de um mundo negro e cheio de falsidade, eu só queria que as pessoas olhassem para mim, como olhavam par minha prima, com aquele desejo carnal e vontade de abocanhar, agora era só eu e meus alvos esperando pelo abate.
– A Andreia deu pro Caio de novo ficou sabendo? Que vagabunda, meu essa menina tá saindo dos limites. – Enquanto eu apenas sorria esperando no banheiro, dentro da repartição, onde podia ouvir tudo o que a Tamires e a Sofia falavam, mal sabiam elas, que era isso que eu queria.
– Realmente, se eu pegar essa menina de graça com meu namorado ela perde os dentes. – Sofia era uma garota baixa e com peitos enormes, ela bancava de roqueira apenas para impressionar os garotos, mas era podre e hipócrita, apenas fazia o que os outros achavam correto, não tinha opinião própria, e só se abria com Tamires, pois com o restante da classe, ela se passava de garota educada e filha de um empresário rico e mesquinho como era, um manequim totalmente artificial que a maioria já tinha conhecimento, mas ela continuava a farsa apenas por esporte. As duas já estavam irritadas, pois antes, quando eu era apenas a Andréia Baleia, elas dominavam qualquer homem, demarcavam território, porém, hoje, com meu domínio, nem os nerds davam bola pra elas, eu era a estrela, mesmo tirando a roupa elas não me tirariam do trono.
– Mas como aquela gorda conseguiu ficar tão bonita? Aposto que fez cirurgia. – Naquele momento senti vontade de esfaquear a Tamires, ela não era nada magra, e se achava a gostosa por ter uma pele clara e olhos azuis, mas ter rosto hoje em dia não é tudo, no atual momento, eu era bem mais do que as duas juntas, elas sabiam disso e não sabiam mais como lutar, eram demônios engaiolados e indefesos. Respirei fundo e decidi sair do banheiro com um ar de superior, olhando para as duas como se fossem meras baratas.
– Com licença, acho que já ouvi o recalque demais, agora vou viver o mundo real ao invés de ficar em um banheiro falando da vida dos outros, perdedoras. – Com a cabeça empinada, olhei do alto para as duas que não disseram nada ao me verem saindo. Chegando lá fora, percebi que insetos eram fáceis de virarem apenas gosma, eu já havia me vingado de quase todos que me fizeram sofrer anteriormente, mas faltava uma pessoa: Kevin.
Com 12 anos, ele foi meu primeiro amor. Um dos raros garotos que falava comigo, mesmo eu sendo o alvo da classe toda praticamente. Ele sempre me cumprimentava e oferecia seu lanche no recreio, como não me apaixonar? Uma garota cercada de feras selvagens, encontrando um caçador, só poderia querer se jogar de cara. O problema é que Kevin não fazia nada em relação aos seus amigos. Eles me zombavam mas Kevin apenas observava, eu pensei que isso era normal, ele não podia fazer nada, oras, ele iria arrumar briga com seus melhores amigos? Com dez? É claro que não. Pensei que no fundo ele me quisesse bem, comecei a mandar várias cartas pra ele, uma por dia. Eu via o mesmo as lendo na sala de aula e sorrindo, em seguida, ele as guardava em seu fichário, aquilo pra mim significava muito. Será que diante do furacão, havia uma brecha para salvação? Aqueles espinhos que perfuravam meu corpo começaram a sair aos poucos quando eu olhava para os olhos puxados de Kevin, ele era tão doce, será que eu tinha chance? Foi quando percebi que o inferno é realmente o inferno, mesmo com breves ilusões. O ambiente pode parecer menos quente, mas o fogo só é contido por um tempo, e depois, você já se vê incinerado e agonizando enquanto vira cinzas.
Em certa ocasião, um dia após Kevin ter me chamado de fofa, eu decidi que era hora de me declarar pessoalmente. Ele estava afim de mim, eu tinha certeza, mesmo eu, uma perdedora sem amigos, ele me queria, aquilo tinha mudado minha vida, eu já sentia que tinha tudo. A lava virou gelo, os abutres viraram gaivotas, o bafo quente era uma brisa suave, eu estava dando meu primeiro passo fora do inferno. Andei na rua como Alice correndo atrás do Coelho, mas as horas naquele momento não importavam, pois quando chegasse a hora do recreio, ele iria me ouvir, eu poderia ter um namorado, um namorado bonito e popular, eu pensei que a dor que passei naquele momento havia sido necessária, pois agora estava sendo recompensada, lembrei imediatamente que para tudo que queremos temos que dar algo em troca no mesmo valor, acho que era esse o significado. Entrei na escola e corri para a sala de aula, eu iria rir muito na cara da Sofia quando andasse de mão dada com o Kevin, todos saberiam que eu não estava derrotada, era minha ascensão!
Ao entrar na classe, foi quando senti a lança envenenada perfurando meu coração. Foi um golpe certeiro, aquele ferro quente havia feito um rasgo que fez meu sangue jorrar por alguns metros, comecei a perder o ar, a cada momento em que me focava nos arredores da sala de aula, mais sangue espirrava sobre as paredes, a neve derretia dando lugar às chamas, as gaivotas eram tostadas com o fogo, e todas aquelas crianças viraram demônios que me conduziram até aquela armadilha. Eu apenas caí. As cartas que mandei para Kevin estavam todas espalhadas pela classe enquanto todos riam, ele havia colado tudo, olhei para o mesmo pedindo alguma explicação, mas ele só riu, riu tão intensamente que todos começaram a rir também.
– Ela achou mesmo que você ia dar bola pra ela, olha como ela veio arrumada! HAHAHAHA. – Bruno chegou a sentir dó da menina ao mesmo tempo ria junto da classe toda. Eu estava em uma roda sendo apedrejada, naqueles poucos segundos havia perdido sangue demais, foi quando percebi, que não havia fuga do inferno, e agora, sabendo disso, frente a frente com Kevin, ele sentirá o calor daquele ferro que me perfurou, da pior maneira possível, até que ele peça para que eu o mate de uma vez por todas.
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