K x K
1 Capítulo 1
Ela acordou sete da manhã, com o som do despertador zumbindo nos ouvidos, insistente. Ela não teve sonhos, como o de costume, afinal, a muito tempo suas noites são nada além de uma escuridão e um vazio que vem e vai como um lapso no tempo, e deixa mais cansaço do que qualquer outra coisa pra trás. Sonolenta, ela afastou suas cobertas, esfregando suavemente os olhos enquanto ia ao banheiro. Se despiu, jogando sua camiseta velha e o shorts de algodão em um canto, e deixou que a água fresca do chuveiro acariciasse a sua pele, despertando os músculos.
— Só mais um dia, vamos lá, você consegue- Repetia para si mesma, como um mantra matinal – Você aguenta mais um dia, eu sei disso, vamos lá.
Alguns minutos depois, desceu as escadas que levavam até a cozinha para tomar café, pegou uma tigela em um em uma prateleira alta bem elegante, encheu de cereal, e se soltou em uma cadeira, lentamente, comendo e observando de relance a conversa que sua mãe e seu irmão tinham no balcão alguns metros mais à frente.
— Você sabe que consegue querido- dizia- esses exames de admissão nunca foram nada pra você.
— Eu sei – a voz dele saia abafada por conta da fatia de pão que tinha na boca- É só que, você sabe, dessa vez não é qualquer escola, é “a” escola. Se eu passar, as minhas chances de ser aceito na universidade aumentam muito.
Ele gesticulava ansioso, enquanto passava manteiga em um croissant. Vestia um requintado suéter azul escuro, sem mangas, por cima de uma camisa num tom azul pastel. Calças caqui bege, e um sapato marrom polido até a perfeição. A roupa perfeita para causar a melhor das impressões para quem quer que fosse fazer a entrevista de admissão na nova escola de alta classe.
— Não se preocupe querido, eu tenho certeza que você não vai me decepcionar. Mamãe pagou os professores particulares mais caros para serem seus tutores, Aulas de francês e etiqueta. E mesmo que eu não tivesse feito isso, tenho certeza que você ainda seria aceito. Você sempre foi meu maior motivo de orgulho.
Ela deu um beijo molhado e demorado na testa de Joseph, deixando uma marca do batom escandalosamente vermelho que usava junto com todo o resto da maquiagem muito carregada. Usava um vestido branco e drapeado que terminava na altura dos joelhos (ela sempre usava branco), e um casaco cor de creme. Além de um salto vertiginosamente alto, combinando com a pele cor de oliva.
Alisson ouvia tudo cabisbaixa, encarando sua tigela de cereal. “Eu conseguiria passar nesse exame também, se me desses uma chance” pensou. “Claro que não.” – Rebateu uma outra voz em sua cabeça, falando lentamente num tom manhoso– “Você não conseguiria passar nesse exame, ou em qualquer outro. Você tem sorte dos seus pais serem ricos o suficiente para te pagar uma escola, porque você é uma burra! Uma estúpida e inútil, e nunca será boa em nada”
— Cale a boca – Sussurrou.
“A verdade dói, não é Alisson?” – continuou a voz – “Não importa, eu falando ou não, você sabe a verdade. Sabe que bem no fundo você é um desperdício. Uma insignificante, um nada! Como alguém como você pode existir? Porque não se matou ainda? Ninguém sentiria falta, afinal você não tem ninguém, porque é uma estúpida! Não é à toa que seus pais não te amam”.
— Cala a boca!
O que era planejado para ser um sussurro saiu quase que como um grito. Joseph e Estelle subitamente pararam a conversa, e a encararam como quem olha algum animal exótico dentro de uma gaiola.
— Desculpa, não foi com vocês – Disse ela enquanto deixando para trás a tigela de cereal e subindo rapidamente as escadas deixando tensão pairando no ar. Ela andava pelo corredor até seu quarto com os braços cruzados, pisando forte, e aos poucos sentiu as lágrimas, quentes e julgadoras, escorrendo pelas maçãs do rosto. “Droga”, pensou. As lágrimas vinham com mais força agora, escorrendo amargas, trazendo com sigo uma mistura de raiva e vergonha. Bateu a porta do quarto e correu até o banheiro. Parou na frente do espelho e observou bem as feições. Cabelos castanhos crespos e volumosos, olhos grandes cor de cacau, um nariz um tanto quanto anguloso e lábios grandes e rosados que contrastavam com a pele bem bronzeada. Já haviam dito que era bonita mais de uma vez, mas quando parava em frente ao espelho, só conseguia enxergar um monstro olhando de volta.
Esfregou os olhos húmidos e abriu uma das gavetas do armário em baixo da pia de mármore. Pegou lá no fundo uma lâmina de navalha, e observou o próprio reflexo retorcido nela. Trancou a porta do banheiro e se sentou no chão com as costas na porta, e após respirar fundo, fez um corte na parte de trás da coxa. A lâmina deslizou suavemente pra dentro da carne, encontrando um lugar em meio as outras cicatrizes. Marcas das outras tantas vezes que havia feito aquilo. Um fino filete morno de sangue escorria pela perna esquerda até pingar preguiçosamente no chão de ladrilho frio.
Ela sentia vergonha daquilo, daquela auto mutilação que bem no fundo ela sabia que não levaria a nada, mas aquilo era a única coisa que conseguia distrair seus pensamentos. A dor física não era nada comparado a dor que sentia na alma, mas era suficiente para proporcionar alguns segundos de alívio, caso contrário, tinha medo do que poderia acontecer, tinha medo do que sua mente poderia leva-la a fazer.
Passou alguns minutos ali, depois limpou a mancha vermelha que se espalhava no chão com um absorvente para não gerar suspeitas, colou um curativo no ferimento fresco e jogou o uniforme da escola por cima de tudo, sentindo um peso em cima dos ombros. Pegou a mochila em um canto do quarto, engoliu todo a vergonha e voltou a descer as escadas, sempre olhando para os próprios pés.
A mãe estava sentada em um banco, apoiada no balcão conferindo alguma coisa na tela do celular, distraída, e não pareceu nota-la. Alisson parou alguns metros atrás apoiada na escada para observa-la. Os cabelos ondulados caiam sobre os ombros ressaltando as maças do rosto e o pescoço. Era tão linda. “Diferente de mim” -Pensou- “Eu pareço um monstro. Queria ser como ela”.
Escutou passos atrás de si, indicando que o irmão descia as escadas, então deixou o caminho livre e foi esperar na porta.
— Vamos querido – Disse Estelle – Nós não podemos nos atrasar hoje. Não mesmo! Pontualidade ajuda a criar uma primeira impressão boa, e no final das contas, a primeira impressão é a que fica.
Ela andava nervosamente procurando as chaves com uma mão enquanto ajeitava os cabelos volumosos e cacheados de Joseph com a outra. Abriu a porta e pulou para fora imediatamente, fazendo com que Alisson tivesse que sair rapidamente também para evitar ser trancada dentro do apartamento.
O colégio que Joseph faria a entrevista ficava antes do que Alisson estudava em relação a casa deles, por isso ela se sentou atrás, observando os outros carros indo e vindo no transito com os fones no ouvido, enquanto sua mãe e seu irmão tinham uma intensa conversa na parte dianteira da carro, sobre a forma mais educada de se apresentar para o futuro diretor. Quando estacionaram, ela viu por trás dos vidros uma imponente construção, quase que como um castelo, com grossas paredes de pedras e um extenso gramado na frente. Vários jovens bem uniformizados e de aparência asseada andavam com livros nas mãos. Era melhor que muitas faculdades, por isso não era à toa o preço exorbitante que teriam de pagar na mensalidade. “Tudo pelo meu filho preferido” podia ouvir a voz da mãe ressoando no fundo da mente se ela por acaso viesse a questionar o assunto.
Viu Joseph descendo do carro e Estelle acenando e desejando boa sorte do banco do passageiro.
Os dez minutos que se passaram até o colégio de Alisson seguiram carregados de silêncio. Ela, sem jeito, encarava as próprias unhas enquanto a mãe dirigia calmamente. Já na porta da escola, Alisson juntou um pouco da coragem que tinha, e pronunciou as palavras diretamente da sua garganta seca:
— Mãe... você não gosta de mim?
Estelle que estava distraída com alguma coisa, focou a atenção em Alisson pela primeira vez em semanas.
— Como? – Perguntou ela tirando os óculos de sol e se virando para encarar a garota sentada sem jeito no banco traseiro.
— Perguntei se você não gosta de mim.
No fundo de sua alma, ela esperava uma resposta amorosa. Esperava que a mãe a confortasse, a abraçasse e a aceitasse. Esperava que tudo finalmente seria como sempre quis, e que enfim, pela primeira vez a vida teria o amor da mãe que sempre ansiou, mas sabia que nada daquilo jamais aconteceria, então se preparou para uma resposta ríspida ou até mesmo xingamentos. Esperou fúria, que ela risse ou qualquer reação possível, mas ela apenas virou-se novamente e disse:
— Desce logo por favor, eu estou com pressa.
A falta de reação doeu nela mais do que qualquer coisa poderia ter doido. Sentiu algo dentro de si se quebrando. Rapidamente pegou suas coisas e desceu do carro, antes que Estelle pudesse vê-la chorando. Usando toda a força de vontade que ainda tinha, subiu as escadas da fachada do colégio, e correu para o seu armário sem olhar para os lados.
O dia seguiu tedioso. As primeiras aulas de literatura arrastaram-se, monótonas enquanto ela, meio distraída desenhava algo em seu caderno. A aula de cálculo que veio a seguir acompanhou o mesmo ritmo. Ela quase cochilava quando o sinal tocou, soando alto por todos os cantos avisando do intervalo.
Alisson sentou-se em uma mesa um pouco afastada. Com os fones de ouvido, comia e observava o movimento de adolescentes que fervilhavam por todos os lugares. Alisson não tinha amigos para comer no intervalo. Na verdade não tinha amigos para nada, nem ao menos um colega. O mais perto que tinha disso eram as pessoas que ela era designada para fazer trabalhos em grupo de vez em quando. Trocava algumas palavras sobre o conteúdo, mas nunca passava disso. Ela não sentia muita falta, tinha se acostumado a viver sozinha. As vezes fantasiava sobre ter amigas, ir ao shopping ou só conversar, mas logo caia na real. “Quem iria querer ser sua amiga menina? Amiga de uma escrota como você? Por favor, todo mundo odeia e você sabe muito bem.”
Um toque em seu ombro chamou sua atenção. Ela virou-se assustada e se deparou com três garotas que pareciam mais velhas que ela. “Talvez do último ano” pensou. Todas as três eram bonitas a sua própria maneira. A que havia tocado seu ombro era alta e esbelta, tinha cabelos lisos e castanhos que desciam até o meio das costas, contrastando com a pele bem clara. A da e, esquerda era negra, tinha o lábios bem grossos e um cabelo cacheado preso com um lenço. Já a terceira tinha um cabelo curto e louro, e uma pele bronzeada, como de pessoas que moram no litoral.
A do meio fez sinal para que Alisson tirasse os fones. Ela por sua vez, ainda sem entender o motivo daquela abordagem, obedeceu, guardando os fones no bolso.
— Oi, desculpa incomodar você – Começou a de cabelos castanhos- É que eu reparei que você sempre senta sozinha, e nós pensamos se você não gostaria de alguma companhia.
As três sentaram-se no banco a frente dela, sorridentes, enquanto Alisson tentava balbuciar algo.
— Ok –Disse por fim.
— Quantos anos você tem? –Perguntou a loura em um tom descontraído.
— Quinze.
— Sério? – A garota com a faixa na cabeça exclamou surpresa- Você parece mais velha.
Percebendo o olhar magoado de Alisson, completou:
— Velha em um bom sentido, eu digo. Mais madura, se é que me entende.
Ela corou espontaneamente. Nunca havia escutado um elogio daqueles.
— Eu sou Sarah- Disse a de cabelos castanhos – A loura é Brie, E a nossa querida “madura” aqui é a Lillian.
— Só Lilly – Completou ela lançando um olhar incisivo para Sarah.
— Eu já fui como você, sabe? – Sarah soava melancólica – Eu sei como pode ser difícil fazer amizades, ainda mais e uma escola como essa, com tantas pessoas esnobes e escrotas. Estuda aqui a quanto tempo?
— Um ano – respondeu baixinho.
—Nossa... Bom, cada leva seu tempo, acho – Disse rindo – Mas de qualquer forma, eu não gosto de ver pessoas sozinhas por ai. Quer comer com a gente? A nossa mesa é logo ali.
Ela apontou para uma mesa mas a frente, perto das escadas. Alisson sentia surpresa, felicidade e ansiedade, tudo ao mesmo tempo. “Elas parecem legais” pensou.
Concordou com a cabeça, esboçando um sorriso tímido.
O intervalo que sempre era rodeado de um torpor para ela, pela primeira vez naquela escola foi divertido. As quatro garotas conversaram distraidamente pelos minutos seguintes, arrancando até algumas risadas de Alisson. Ela sinceramente não se lembrava da última vez que tinha rido, mas a sensação era boa. Decidiu que gostava delas.
— A nossa aula começa daqui a pouco – Sarah conferia o horário no celular – Vamos ao banheiro?
Ela concordou, e as quatro garotas seguiram o corredor a direita até encontrarem o banheiro feminino, no final dele. Ela entrou e ao lavar o rosto, percebeu pelo espelho que Brie checava se alguém usava os cubículos, enquanto Lilly fechava a porta, fazendo guarda.
Um arrepio subiu a espinha dela, algo estava errado. “Merda” pensou.
— Sabe, eu realmente gostei de você – Sarah se aproximava calmamente, como um predador espreitando – Eu até já te considero uma amiga minha. E amigas fazem favores uma para as outras, não é?
Alisson estava toda tensa. Ela não se mexia. O coração começou a pulsar loucamente no seu peito, a respiração ficou mais rápida, e pequenas gotas de suor começavam a aparecer em sua testa.
— Nós sabemos que você é uma das mais ricas dessa escola – Continuou ela – E como nossa amiga, estávamos pensando se você não poderia emprestar algum dinheiro. Estamos loucas para ir ao shopping. E se você quiser, pode ir também.
— Mas vocês estudam aqui também – A voz dela era hesitante e tremula – Vocês devem ter dinheiro.
— Nem todo mundo é rico como você. Meus pais se esforçam muito pra pagar essa escola, deixando eles sem dinheiro pra mais nada. Não seja tão egoísta, vamos lá.
Sarah colocou a mão no bolso do suéter de Alisson. Ela, por sua vez, afastou-a com um empurrão.
— Não encosta em mim! – gritou.
A ação foi mais um reflexo do que qualquer outra coisa, não queria ameaça-las ou começar uma briga, mas para o seu azar, o empurrão foi forte o suficiente para derrubar Sarah no chão.
— Você ficou louca sua puta?! – Brie exclamou aproximando com toda a velocidade.
Antes que Alisson pudesse reagir, um punho fechado veio em sua direção, acertando-a na têmpora, fazendo com que todo o mundo em volta se tornasse um borrão. Um lampejo de dor se alastrou por todo o corpo quando um segundo soco atingiu seu nariz, transformando-o em uma massa deformada e repleta de sangue. Alisson perdeu as forças e caiu pesadamente no chão, com um som seco.
— Você é retardada menina? Só pode- ouvia Sarah dizer – Eu vou acabar com você. Eu vou acabar com você!
Sentiu a ponta de um sapato pressionando seu abdômen com um golpe único e tão intenso, que ela não resistiu e perdeu a consciência.
Acordou com o toque suave de uma mão em seu ombro. Lentamente abriu os olhos.
— Ei, você está bem? O que aconteceu? — Dizia um vulto alguns centímetros acima do seu rosto.
Alisson entrou em pânico, e começou a se debater e a gritar, tentando se desvencilhar do seu captor.
— Calma! – Dizia a voz- Quem quer que tenha feito isso com você já foi embora, eu tô aqui para ajudar.
O vulto se transformou em uma garota de óculos e cabelos negros que aparentava quinze ou dezesseis anos. Ela estava ajoelhada ao Lado de Alisson, que estava deitada no chão em uma poça de saliva e sangue.
A garota ajudou ela a se sentar, e com um lenço, limpou um pouco do sangue do nariz dela que escorria por todo rosto.
— eu entrei no banheiro e te achei aqui — Explicava- Na hora eu me assustei. Cheguei até pensar que estivesse morta, mas então vi que estava respirando e tentei te acordar. O que aconteceu com você?
Alisson permaneceu calada. Não poderia contar a ninguém sobre aquilo. Se suas agressoras soubessem de sua delação, poderiam querer voltar para terminar o que haviam começado. A garota entendeu que ela não queria conversar sobre o assunto.
— Eu vou chamar alguém, espere aqui — Disse a garota levantando-se.
— Não! – A voz de Alisson saia com dificuldade – Eu posso me cuidar sozinha.
— Você tem certe...
— Por favor.
O olhar de vergonha e humilhação de Alisson foi suficiente para comover a garota, Que ajudou-a a se levantar, e foi embora, deixando o número de celular anotado em um papel.
Vasculhando a bolsa, Ela percebeu que o pouco dinheiro que tinha em sua carteira havia sido levado, mas pelo menos o celular ainda estava onde havia deixado. Com as mãos trémulas, digitou nervosamente o número da mãe e escutou o som de discagem até que Estelle atendesse do outo lado.
— Mãe... sou eu.
— O que você quer? – A voz dela era ríspida e sussurrada – Eu estou ocupada.
— Aconteceu algo. Eu estou machucada.
— Não é o momento para isso!
As lágrimas escorriam pelo rosto dolorido. O desespero tomou conta do corpo, e ela já soluçava nervosamente.
— Por favor- Ela chorava copiosamente – Por favor.
— Eu estou com seu irmão agora, e você sabe o quanto isso é importante! Não seja egoísta!
Um zumbido contínuo veio do outro lado da linha, indicando que a mãe tinha desligado o telefone. Alisson largou o celular e sentou-se no chão do banheiro, ao lado da mochila. Abraçada nos próprios joelhos, a garota chorava. Todo o ínfimo resquício de orgulho que ainda tinha se esvaia conforme as lágrimas escorriam pelo rosto machucado. Ela soluçava, e batia na própria cabeça, balbuciando “estúpida, estupida!”.
“É tudo sua culpa” a voz dentro da sua cabeça repetia insistente “É tudo sua culpa”.
Ela ficou escondida no banheiro até o sinal do fim das aulas tocar. Então se lavou o rosto, disfarçou os ferimentos o máximo que pode com a ajuda do cabelo, e saiu se escondendo no meio da multidão. Não esperou a mãe. O caminho de volta para sua casa a pé levaria em torno de quarenta minutos, mas ela não se importava. Queria sentir o vento e ver a multidão sem rosto que habitava aquela cidade por pelo menos mais uma vez, porque ela havia tomado uma decisão. Se mataria assim que chegasse em casa. Não é como se esse pensamento tivesse surgido repentinamente, ou só por causa da surra que havia levado no banheiro. Há anos, ou melhor dizendo, desde que tinha consciência para entender o mundo, ela soube que não era bem vinda. A mãe de Alisson, Estelle, tinha vindo de uma família latina e pobre. Ela teve que lutar para subir na vida, e não tinha vergonha de dizer que a sedução era uma das suas armas. Quando tinha vinte e cinco anos, encontrou o pai de Alisson, Damon. Ele, por sua vez, havia nascido em berço de ouro. Herdeiro de um império, com trinta anos já era um dos maiores magnatas no ramo imobiliário. Quando se conheceram, Estelle logo fez questão do casamento, para que enfim atingisse o patamar de vida que tanto queria. Após alguns anos de casado, ela teve Joseph, seu irmão mais velho. Ele era o “filho de ouro”. Bom em matemática e em ciências, alto, bonito e educado, o herdeiro perfeito pra tudo que o pai havia construído, mas depois do nascimento dele, o casamento dos pais havia ficado conturbado. Estelle, desesperada para manter o marido, engravidou novamente, dessa vez de Alisson, Na esperança de que mais um filho iria segurar o matrimonio, mas infelizmente aquilo havia surtido o efeito contrário. O pai nunca havia aceitado a filha, pois sabia que ela havia sido concebida apenas com o intuito de manter o casamento, e a mãe, a culpava pelo relacionamento arruinado. Ainda quando era uma criança de dois anos, após a separação, os pais lutaram no tribunal. Nenhum deles queria a guarda de Alisson. Após um longo processo, ela terminou por ficar com a guarda da mãe, sendo assim, via o pai no máximo duas vezes no ano, com visitas que, no mínimo, podem ser chamadas de “impessoais”. Sempre fora tímida, e sempre tivera dificuldade de interagir com os outros, diferente do lindo, perfeito e carismático Joseph. Aprendera a ficar calada para evitar problemas, aprendera a ser invisível, a ser ninguém, e todos a sua volta aprenderam a ignora-la. Nunca fora amada por ninguém, o que em longa data, acabou por gerar tristeza, que levou em depressão, que levou as auto mutilações. Mas enfim tomara coragem de acabar com tudo isso, com toda dor que sentia. Estava cansada de tentar ser notada pelos pais, de tentar ser aceita e amada. Enfim iria descansar.
Ela andava rapidamente, tentando disfarçar os ferimentos no rosto, e apoiando uma das mãos na barriga, para tentar amenizar a dor pulsante por causa do chute que tinha tomado. Mas apesar da dor, a suave brisa que passeava pelo rosto era agradável. O sol se punha no horizonte, dividindo espaço com as silhueta dos prédios ao longe, formando uma linda vista. Alisson até se permitiu sorrir. Sabia o que estava prestes a fazer, mas ao invés de tristeza ou melancolia, sentia uma espécie de alívio.
Após virar a esquina, chegou enfim a sua casa. Subiu as escadas, e após uns instantes procurando a chave na sua bolsa, entrou e subiu para seu quarto. Largou a mochila no chão e se despiu, ficando apenas com as roupas íntimas. Ao se olhar no enorme espelho do armário, acariciou levemente o enorme hematoma roxo e esverdeado em sua barriga. Involuntariamente, seus lábios formaram um largo sorriso, que se transformou em uma farta gargalhada. Sabia que sua mãe e irmão iria demorar muito para chegar, provavelmente jantariam fora para comemorar mais uma fase gloriosa da sua vida, então se permitiu um pouco de diversão. Pegou o notebook, e colocou com o máximo de volume “makes me wanna die” da banda “pretty reckless”.
Só de calcinha e sutiã, ela dançava e pulava descontroladamente no quarto. Ela gritava, pulava, extravasando tudo que havia passado nesses anos todos. Enfim, seu sofrimento cessaria.
Quando a música silenciou, notou que o a aba do seu tumblr que havia deixado aberto na noite anterior piscava. Havia recebido uma mensagem de fã. “Mensagem de fã?” Pensou. Isso era mais do que inusitado. Ela tinha menos de cem seguidores em sua página, e ela não postava nada de excepcional. Na verdade usava o site mais como um diário pessoal, onde compartilhava coisas de seu interesse.
Vi seu tumblr e me interessei bastante. Procuro pessoas exatamente como você, e para melhorar, você mora perto de casa. Tenho uma proposta que tenho certeza que pode te interessar. Me mande mensagens nesse site. Dia ou noite, eu vou responder. No aguardo, J.
Embaixo da mensagem, havia um link anexado, para um site que ela conhecera. Sabia que seria bem mais sensato deletar a mensagem, já que poderia ser algum vírus ou malware para danificar o computador, ou até roubar o seus dados, mas ela não tinha nada a perder, não hoje.
O link levava para um site completamente escuro, com nada além de uma caixa de diálogo na parte inferior, que escrevia com uma fonte antiquada em um verde neon.
Oi?
Após alguns instantes, uma mensagem brotou na sua tela.
Opa! Até que enfim vc respondeu.
Alisson franziu o cenho.
Não sabia que eu tinha um fã esperando minhas respostas.
Hahaha, na verdade eu tenho esperado ansiosamente
Ela não sabia o que responder.
Eu conheço vc?
Na verdade não, mas eu te conheço. Leio o a sua página faz um tempo, e eu acho que eu tenho uma proposta que pode te interessar.
Alisson engoliu seco. Não sabia por que, mas estava tensa. Tinha a sensação de que aquilo seria importante.
Oq é?
Dessa vez a mensagem demorou para chegar. Alisson encarava a tela, ansiosa, esperando resposta do desconhecido. Após quase dois minutos, a mensagem apareceu, curta e direta, que a atingiu como uma facada.
Me diz, você já quis matar alguém?
A caixa de diálogo pulsava verde, quase que como a batida de um coração. A respiração dela de repente ficou mais rápida, e a ideia do suicídio que ela estava tão certa sobre, se esvaiu quase que imediatamente. Ela lambeu os lábios, pensativa. Provavelmente era só uma brincadeira idiota, mas apesar daquilo, preferiu contar a verdade. Hesitante, digitou a mensagem, e a enviou sem nem pensar, como quem se tirasse um curativo.
Já. Todo dia.
Eu sabia. Posso te contar um segredo? Eu tmb quero alguém morto.
E oq isso tem haver?
As batidas do coração de Alisson eram mais intensas agora, Como se tivesse corrido uma maratona. Era só um troca de mensagens inocentes com uma pessoa que ela ao menos conhecia, mas tinha algo profundo, e de alguma forma, sabia que a pessoa do outro lado falava sério.
Eu tenho uma proposta pra você. E se, eu matasse essa pessoa pra vc?
Ela levantou-se da cadeira, estupefata. Olhava para a tela do notebook, mas as palavras pareciam não fazer sentido. Ela se sentiu zonza. “Será que ele está falando sério?”. Respirava pesadamente. Não era uma pegadinha, ela não sabia como, mas conseguia sentir. Ela sentou-se de novo, observando a tela pensativa. Porque alguém diria uma coisa daquelas em um site estranho, ela não sabia. Digitou e apagou uma resposta diversas vezes. Estava confusa, mas a ideia mesmo sádica era tentadora.
E pq vc faria isso?
Na cabeça dela, passaram-se milénios até que a resposta chegasse, mas quando chegou, tinha desejado nunca ter aberto aquele link.
É simples. Eu mato alguém pra vc, e vc mata alguém para mim.
A resposta parecia óbvia. Qualquer pessoa fecharia a página e seguiria com a vida, mas Alisson não conseguiria parar de pensar em como seria a sua vida. Pensou em tudo que havia passado desde a infância, pensou nos pais. Se aquilo fosse só uma brincadeira estúpida, não tinha nada a perder, mas se não fosse, as coisas ficariam muito sérias. Olhou para o teclado, mordeu o lábio inferior, contemplativa. “quer saber, foda-se” pensou, e respondeu:
Ok. Eu faço.
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