K²
17 Recompondo-se
Notas iniciais
Porque essas coisas acontecem comigo? Eu sei que toda família tem seus problemas, todos tem suas tragédias, mas meu Deus, comigo é uma coisa atrás da outra. Não consigo ter um dia de sossego, sempre que as coisas estão boas vem uma notícia ruim.
Minha visão estava um pouco embaçada, mas eu sei o caminho de cabeça. Bati na porta, mesmo que estivesse aberta tive problema para abrir a maçaneta. Limpei meu rosto na manga do casaco e entrei.
Estava com a respiração ofegante e um pouco suado, pois eu corri muito rápido. Kyle me olhou com espanto e veio até mim.
“Kenny, o que houve com você?” Disse me sentando no sofá.
“M-minha mãe morreu Kyle...” Murmurei.
“O que?!”
“Ela sofreu um acidente e não resistiu.” Afundei meu rosto em seu ombro e deixei minhas lágrimas correrem soltas. “Isso é tão injusto! Ela não era uma pessoa ruim, ela não merecia isso.”
Kyle tentou acalmar meu choro e soluços com beijos na testa e cafuné no meu cabelo então deitei em seu colo. Eu acabei me acalmando eventualmente, pelo menos por fora, por dentro ainda sentia uma dor uma mistura de angustia e impotência. Eu fiquei pensando ‘e se eu estivesse lá’, mas sei que de nada adiantaria ficar me culpando.
Sentia uma saudade, mesmo que ela tivesse acabado de ir embora, a ideia de que ela não ia mais voltar pra me ver e pra ver meus irmãos me entristecia. Ao menos, agora ela não precisa ficar trabalhando horas em um trabalho de merda, não tem mais que aguentar meu pai bêbado, nem passar fome.
Ai mãe, mal passou um dia e eu já estou assim, como que vou ficar de agora em diante? Kevin, Karen, e agora?
*****
Acordei no sofá mesmo, havia um cobertor, travesseiro e um bilhete na mesinha na minha frente. Verdade, hoje tinha aula! Peguei o bilhete.
Bom dia/tarde Kenny! Não quis te acordar, acho melhor você tirar o dia para descansar, quando eu chegar a gente conversa sobre sua mãe se você estiver confortável com isso. Tem café da manhã na cozinha,
Beijos, Kyle! :3
Olhei no relógio, ainda não era hora de buscar Karen na escola, então resolvi esquentar a comida e ligar a TV pra ver se me animava um pouco. Faz tempo que fico sem apetite.
Quando deu o horário, peguei meu casaco e fui até a escola de minha irmãzinha, ao menos pra ela eu precisava parecer forte, então tratei de me recompor. Ela já estava me esperando do lado de fora da escola.
Ela veio até mim e começamos a andar o caminho de volta, eu já esperava que ela estivesse triste, mas ela é sempre tão sorridente e faladeira que o silêncio da caminhada a tornava mais fria que de costume. Eu queria dizer algo, mas não sabia o que.
“Porque isso aconteceu com a mamãe?” Ouvi Karen murmurar.
“Q-que?”
Ela me olhou fundo nos olhos, seus olhinhos claros estavam vermelhos, deve ter chorado muito noite passada. Uma lágrima escorreu de seu rosto antes que ela pudesse voltar a me perguntar, aquilo que eu não tinha resposta.
“Por que a mamãe teve que nos abandonar?” Ela esfregou suas mãos no rosto. “Por que ela tinha que morrer Kenny? Por que Mysterion, não a protegeu?”
Senti um aperto no peito, sentia como se a culpa fosse minha mesmo, mas o que eu poderia fazer? O que dizer? Agachei-me para ficar numa altura mais próxima da de Karen.
“Escute...” Disse segurando suas mãos, seus olhos estavam encharcados “Às vezes Deus faz escolhas que nós não entendemos, mas é o curso das coisas. Mamãe agora está em um lugar melhor, longe de preocupações, longe de problemas.”
“Verdade?” Ela me perguntou soluçando.
“Claro, ela está agora lá em cima” Apontei para o céu, era o fim da tarde, mas já podiam se ver algumas estrelas. “Ela está entre os anjos, cuidando deles como cuidava de nós, e um dia vamos revê-la, mas até lá devemos nos esforçar para ter a melhor vida possível. Imagina como ela se sentiria triste se te visse chorando assim?”
Karen ficou um momento em silêncio, olhando o céu que começava a nevar.
“Acha que mamãe pode ver a gente?” Perguntou.
“É claro que sim, ela está nos observando lá de cima, e cuidando de nós. Nunca duvide disso, ela nunca nos abandonaria.”
Senti Karen apertar minha mão forte, ela então virou seu rosto para as estrelas e gritou, me surpreendi, foi um pouco inesperado.
“Desculpa mamãe! Eu prometo que não vou mais chorar!” Ela bateu bem forte no peito e continuou gritando “Eu sinto muitas saudades, mas vou me esforçar!” Ela então se virou pra mim com um sorriso determinado e me abraçou.
Eu acho que subestimei Karen, ela pode ser criança, mas é forte, vai ficar bem. Não sei ao certo quanto a mim, sei o que eu disse, mas não tenho certeza se acredito. Mas acho que não vem mais ao caso.
Depois do abraço, me levantei e segurei sua mão, sentia como se um peso imenso tivesse deixado meus ombros. Voltamos até minha antiga casa andando em silêncio, mas agora o caminho não estava mais tão frio acho que é porque Karen já estava sorrindo. E mesmo que discretamente, eu também.
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