Kátia
1 Capitulo Único
Notas iniciais
Duas e trinta e cinco da manhã. A hora exata em que o cartão magnético destrancava a porta da cobertura daquele hotel de luxo, as luzes se acenderam sozinhas com a entrada de Kátia Follin. Uma mulher verdadeiramente deslumbrante, ela cheirava a álcool e a cigarro, suas olheiras cobertas com uma impecável maquiagem que afinava seus rosto e a deixava anos mais jovem, os cabelos negros, longos e ondulados pareciam um ninho de ratos. Mas nada disso a deixava menos deslumbrante, afinal, ela era uma mulher de garra, era Kátia.
O vestido de látex preto tinha um toque de fetichismo, mas o corte era enganoso. Comportado e chique na frente, decotado até o inicio da bunda nas costas, as luvas iam até um pouco acima de seus cotovelos. Ela suspirou se esticou toda, alguns ossos estalaram, ela sorriu de canto. Andou até sua penteadeira num canto do quarto, no caminho deixou seus saltos para trás e apreciou a sensação do carpete em seus pés cansados.
Se olhando no espelho de cristal, ela via uma imagem falsa de si mesma, uma imagem que ela mesma havia criado para aquela noite em especial. Com um lenço próprio para aquela tarefa, retirou a maquiagem, ela tinha pequenas sardas nas bochechas, marcas de cansaço nos olhos, um pequeno pé de galinha se formando no canto do olho. Retirou as lentes de contato, seus olhos eram muito mais bonitos, tinham a cor do céu, mas para aquela noite haviam sido escurecidos por uma lente castanha. Com calma soltou os grampos da peruca morena, mas foi com desdém que a jogou de lado, usou uma escova de cerdas macias para arrumar seus fios ruivos de corte curto. Enquanto o fazia pensou: “A idade chega para todos, não é?” e pensando nisso se levantou e se serviu uma taça de champanhe do frigobar.
Depois saiu do closet para onde tinha ido já sem o vestido, os seios expostos completamente, se olhasse bem de perto poderia ver uma pequena cicatriz embaixo deles, mas Kátia não se importava. Ela amava suas cicatrizes. Bebeu da taça em sua mão enquanto se olhava no espelho, fazia poses, se re-imaginava outra vez nos tapetes vermelhos, nos jantares beneficentes, nos bailes de gala, ela adoraria estar lá como era agora. Riu de si mesma pelos pensamentos tolos, colocou a taça já vazia sobre uma mesinha ao lado da porta do banheiro. Retirou a ultima peça de roupa e adentrou a banheira, tomou um banho que cheirava a rosas e saiu exalando tal cheiro em sua pele. Secou o corpo e com uma toalha sobre a cabeça saiu. Passando em frente ao grande espelho do closet ela parou e se observou novamente, agora totalmente nua, seus olhos foram diretamente na direção do pênis enrugado entre suas pernas. Ficou o olhando por longos dois minutos, se perguntava a razão de ainda ter aquilo, no fim deu de ombros, não era da conta de ninguém e se não era da conta de ninguém, também não devia ser de sua conta descobrir. Ela gostava de seu corpo assim, algo mais importava? Não.
Para dormir não vestiu nada, apenas tomou um copo de leite e se deitou. Olhando para o teto, esperou o sono vir. Quando conseguiu fechar os olhos, pensou no Luxúria, sua preciosa boate onde suas belas garotas lhe faziam dinheiro em troca de proteção, de um lar. Não se deixem enganar, Kátia vende mentiras, ilusões... Ela se vendeu a vocês, não é?
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