Júpiter e Vênus

30 Uma grande porcaria


Notas iniciais
Olá, sei que demorei um catiquim, mas não sumi! Promessa feita é promessa cumprida.

PEDRO

Chutei uma lata de Skol vazia no chão com o máximo de força, força impulsionada pela raiva e pela frustração que queimavam nos meus nervos. Gabriel me dispensou. De novo, depois de eu me humilhar na sua frente, implorando por um mínimo toque. A única coisa que eu conseguia me perguntar era QUEM ELE PENSAVA QUE ERA.

No instante em que eu o vi indo para o estacionamento, não pensei nem uma vez. Simplesmente o segui. Mil demônios do inferno, caralho, ele estava tão malditamente bonito que meu raciocínio se enuviou mais rápido do que o normal (considerando que o normal era o gato borralheiro fazer meu lado racional se apagar na velocidade da luz).

Mas ele me dispensou.

Ele negou meu fabuloso beijo.

Eu queria matá-lo!

E tudo o que me restou foi apenas abraçá-lo. Eu precisava, eu NECESSITAVA, ao menos do contato real de sua pele. E por um minuto, por um rebaixante minuto, até que tive. Enquanto seus dedos estavam no meu cabelo, quase imaginei que tudo o que aconteceu desde aquela segunda foi um pesadelo e que eu estava acordando.

Mas...

FILHADAPUTAMENTE MAS.

Ainda por cima, como se tudo não fosse o bastante, Marcelo tinha que aparecer. Por minha dignidade, eu fui obrigado a sair.

Arranhei o rosto e parei de andar. Lancei o olhar para trás. A fileira de carros era imensa. Era impossível ver o local em que estávamos ou ver Gabriel. Mas Marcelo já foi, não foi? Gabriel ainda tá lá? Direcionei o pé para o caminho de volta em um segundo. No entanto, subitamente, a voz familiar de Caio alcançou os meus ouvidos:

— Pedro!

Suspirei e olhei para o monte de árvores que cerceava o estacionamento logo acima. Ele estava com um serzinho ruivo totalmente ridículo que não me era estranho. O trem me encarou um instante, desenhou um sorriso largo e sumiu. Graças aos Céus, meus olhos iriam arder com a visão. Caio limpou algum suor do beiço e desceu.

— O que é? — perguntei impaciente.

Ele mordeu o lábio, me encarando com uma expressão esquisita.

— Caralho, o que é?

— Aaaan. — o jovem acordou. — Tá nervoso?

— EU NUM TÔ NERVOSO.

Caio arqueou as sobrancelhas, olhos castanhos continuando fixos em mim. Como se não fosse bastante, ele parecia estar afim de acrescentar irritação à que o Gabriel já me trouxe. Por que e para que diabos me chamou?

— Que diabo tu quer, Caio?

Ele balançou a cabeça.

— Vamo voltar para a festa?

Eu não quero festa nenhuma, porra.

— Beber, moço. Pra beber. — Caio adicionou. — Beber é a tua religião, não é?

Beber. Okay. Relaxei os punhos que estavam fechados desde o meu nada feliz encontro com o gato borralheiro. Talvez bebida me acalmasse. Dei de ombros, por fim. Caio meio que sorriu de canto e me puxou para campus acima, onde o pessoal continuava enchendo a cara e dançando tranquilamente. Nenhum deles tinha um Gabriel filho da puta para atormentar a vida.

— Cara, aquela caipirinha tava muito ruim. — Caio disse aleatório enquanto me arrastava para comprar Skol. — Viu?

— Não, não vi.

Vi, porém estava aborrecido demais para falar de caipirinha. Caio suspirou, me olhando de canto, e pediu duas Skol. Peguei a minha. Apertando o metal gelado entre os meus dedos com alguma força excessiva, a abri de qualquer jeito. Enfiei os 350 ml de líquido amarelo-morto garganta abaixo a trancos e travancos, de uma única vez. Enxuguei a boca com as costas da mão por fim.

Joguei a lata no lixo com alguma dose de boa pontaria.

— Pedro... — Caio começou em um tom baixo demais para o tom da música.

— Que é, Caio? Fala coisa com coisa!

Ele coçou a sobrancelha.

— Nada. Nada.

[...]

Bebi cerveja demais vezes seguidas após a primeira lata. Não encontrei mais o filho da puta do Gabriel depois. No fim, fui embora da festa excessivamente cedo para os meus padrões. Descobri que não estava achando graça nenhuma em nada. Não com um gato borralheiro cu doce na minha cabeça o tempo todo.

O sábado e o domingo se arrastaram, o primeiro numa ressaca longa, o segundo num tédio sem fim. Não quis ir numa segunda festa e não tinha Gabriel ou Jéssica para companhia. Simplesmente dormi, assisti aleatoriamente os filmes que passavam no Telecine e comi a comida que Gabriel deixou feita na sexta-feira.

A segunda chegou como uma fonte de alívio. A faculdade me livraria das paredes daquele apartamento tão vazio sem Gabriel. O silêncio ali me incomodava em níveis extremos. Eu só precisava ouvi-lo me chamando de princesinha, suas provocações insuportáveis, não me importava, não agora...

Cheguei na universidade muito antes do horário oficial do início das aulas, coisa que não era exatamente do meu feitio (nem de longe). O sol iluminava timidamente o prédio da Engenharia Civil. As faxineiras ainda terminavam de limpar as salas. Peguei as escadas para o andar que seria aquele troço de Física.

Quando eu estava prestes a abri a porta da sala em que seria a aula, uma mão negra se adiantou e girou o trinco antes de mim.

— Bom dia. — uma voz masculina falou.

Virei o rosto para trás. Era o professor. Tinha nas mãos uma bolsa de couro marrom e um projetor. Última coisa que queria no mundo era me deparar com professor.

— Hm. — murmurei.

Entramos os dois. Eu sentei na cadeira de sempre no canto junto à parede da janela e ele começou a conectar o projetor a um notebook preto em cima da mesa. Aula de slides. Simplesmente a melhor aula para dormir, ainda mais que além dos slides, haveriam os números chatos como bônus.

Esperava que ele não puxasse conversa comigo.

— Você não costuma chegar cedo. — O CARA PUXOU CONVERSA COMIGO. — Menino Bozza.

E ELE SABIA MEU NOME.

Ele puxou uma extensão e a colocou na tomada, olhando para mim. Me remexi, refletindo se tiraria uma voltinha lá fora até que desse oito horas. O que eu teria para falar com um professorzinho universitário, um professorzinho universitário preto? Por favor. Quase revirei os olhos, a pontinha da irritação na garganta.

— É. — meio que resmunguei.

Ele terminou o serviço e puxou uma cadeira para sentar. Em seguida, arregaçou as mangas da camisa.

— Seu pai é fazendeiro, não é? Sérgio Gutenberg Klotzsche Bozza...

— É. — resmunguei novamente, somente um pouco surpreso por ele saber o nome completo de meu pai. — Ele é fazendeiro.

— Eu o conheci. — ele continuou. — Há uns 25 anos atrás.

Mas o quê? Oi? Como assim? Franzi a testa, sem querer querendo curioso. Eu não conseguia imaginar o todo-poderoso Sérgio Gutenberg no mesmo lugar que aquele homem. Só não cabia na minha mente. Ele riu e apoiou os cotovelos sobre os joelhos, olhos escuros em algum ponto do teto, estalando os dedos da mão esquerda.

— Eu estava na faculdade, ele estava no Ensino Médi... Enfim. Você é muito parecido com ele.

Fez uma pausa.

— Até demais.

Arqueei as sobrancelhas. Bem, eu infelizmente era parecido com meu pai. Nem minha mãe sabia distinguir as fotos dele jovem com as minha de agora. Ele sorriu de canto. Movimentou os lábios, mas nenhum som saiu de sua boca. De repente, uma turminha de três desengonçados chegou, numa barulheira digna de pirralho do Ensino Fundamental. Grunhi, rolando as órbitas.

— Bom dia, professor. — disse um. — E aquela prova?

— Não sei pra que a pressa pela correção e notas. — ele falou, se levantando. — Só tem 0.

— Ah não, professor. — o outro se manifestou. — Faz isso com a gente não!

— Eu? Vocês que fazem consigo mesmos.

Soltei um suspiro aborrecido e me afundei na cadeira. Outros chegaram logo depois, falando também da prova que o professor não entregava de volta, falando da festa de sexta, falando de uma ida a uma chácara. Uns falaram comigo ao passar no espaço da minha fileira, mas estranhamente, demorando o olhar demais em mim. Eu adorava ser observado, sou fabuloso, porém, desse modo...

— E aí, Pedro. — Caio finalmente deu as caras e sentou na cadeira de trás. — Bom dia.

Ele deu um tapinha no meu ombro.

— Oi. — falei.

— Como foi... Como foi o sábado e o domingo?

Uma grande porcaria.

— Normal. — respondi. — Caio.

— Oi?

— Como é mesmo o nome desse professor?

— Uai, Sanches. Leandro Sanches. — ele disse. — Por quê?

— Nada não.

Então, a aula começou. Me ajeitei para dormir. No entanto, ao invés de um silêncio propício ou algo próximo a ele, risadinhas e piadas ecoaram do fundo da sala. Não pude fechar os olhos. Senti a mão de Caio na minha camisa. O professor, o tal do Sanches, parou no terceiro slide e acendeu a luz que estava apagada. Ele cruzou os braços.

— Eu pensei que estava numa sala de universidade, não da quarta série. Também pensei que não precisava fazer isso. Será que posso seguir com a aula?

Todo mundo se calou.

— Que bom.

[...]

Depois de Física haveria ainda aula de Geometria Analítica e apenas um intervalo no meio. Caio e eu descemos. Ele estava estranho, na verdade. Nas vezes que alguém passou por nós dois, mal falou com a pessoa e me obrigava a disparar. Eu não fazia a mínima questão de conversar com gente daquela faculdade no momento, mas isso não era o normal de Caio.

— Pedro. — ele disse enquanto sentávamos na grama ao lado do prédio da faculdade, debaixo de uma árvore. — Vamo matar a outra aula?

— Tu não mata aula.

Ele deu deu de ombros.

— A professora de Geometria é um saco.

Juntei as sobrancelhas. Não, esse não era o Caio. Eu já havia chamado Caio quinhentas vezes para tomar uma ao invés de aturar aula chata. Mas ele sempre dizia que não era filho de fazendeiro e precisava de um diploma para ganhar dinheiro depois. Não era de repente que ele me viria com essa conversa. E pensando bem, Caio já estava estranho na festa...

— Que porra tá acontecendo, Caio?

Ele girou o boné para trás.

— Como assim?

— Você.

— Eu... — ele dobrou as pernas. — Tá. Tem algo que preciso falar. Lembra qu...

Seu celular assoviou chamada no bolso. Caio suspirou e puxou o aparelho. Revirei os olhos, impaciente. Eu era mais importante do que seja lá quem estivesse do outro da linha. Ele atendeu. Aparentemente, eram os pais. Balancei as pernas enquanto ele falava de dinheiro do mês, contas e o preço do aluguel.

Decidi ir no banheiro. Levantei na hora do “eu sei que esqueci, mas vou na lotérica ver isso, eu sei mãe, eu tô na faculdade, anram..”. Ele provavelmente não me percebeu.

Mas não entrei. Eu ainda estava na porta quando ouvi:

— Então, o Bozza é viadinho mesmo?

— Que viadinho, é viadão, dá o cu, queima rosca.

— E ele fica tentando forçar um negoço de macho, né?

— É. — risadas. — Só fachada.

— Mas eu não tenho nada contra gay não, até tenho um amigo que é.

— Mas quem é o macho dele mesmo?

— Aí eu não sei. Tem uns que dizem que é de Letras, outros dizem que é História.

E foi como se o tempo houvesse parado ao meu redor. “Bozza é viadinho”, “queima rosca”, “gay”... Meu coração de repente era uma pedra de puro gelo que não se movia no peito. Pisquei por vários segundos, tentando processar. Eu não era o assunto da conversa, era? Existia outro cara de sobrenome Bozza por ali, não tinha? Não podia ser eu. Não podia, não podia, simplesmente não podia. Eu não podia ser o centro daquilo. EU NÃO PODIA.

O que tá acontecendo?

Não.

Não.

Não.

Não.

Não.

EU NÃO SOU VIADO, CARALHO!

Não. Não. Não. NÃO. Não. Não. NÃO. Não. Não. Não.

Fechei os punhos. Eu queria bater na cara de todos os envolvidos naquela merda de banheiro. E eu iria fazê-lo. Porque eu não era viado e eles não tinham o direito de falar daquela maneira como se eu fosse um. Na verdade, eu queria matá-los. O gelo deu lugar a uma fornalha de raiva. Entrei de uma vez. Eram três e eu os reconhecia das rodas de cachaça. Eles me encararam com uma expressão surpresa.

— Bozza...

Desferi o primeiro soco no queixo de um.

— EU NÃO SOU VIADO, Ô PORRA.

Entretanto, subitamente senti duas mãos que me puxavam para trás com força. E apesar de eu tentar me desvencilhar, não pude fazer nada. Os três filhos da puta sumiram de diante dos meus olhos e ouvi a voz de Caio falando algo que não fui capaz de compreender. Ele me arrastou para fora e somente me soltou no instante em que chegamos à mesmo ponto da grama em que estávamos minutos antes.

— POR QUE ME TIROU DE LÁ, POR QUÊ?

Ele respirou fundo, desviando o olhar.

— Eu não sei se você percebeu, mas tá dentro da universidade. Quer saber a encrenca que poderia ocorrer?

Talvez ele tivesse razão, mas não liguei.

— ELES ME CHAMARAM DE VIADO!

— Pedro! — Caio segurou meus ombros com uma força que eu nem imaginava que ele tinha. — Olha pra mim. Olha pra mim.

Fui obrigado a olhar, afinal, ele quase me beijou, metendo a cara na minha. Não foi muito agradável.

— Sabe como eu descobri que tu tava com o Gabriel? — ele perguntou e não esperou que eu formasse uma resposta na minha mente. — O cara que eu pegava me contou. Ele começou uma fofoca falando de vocês dois nessa universidade inteira. Não ia adiantar brigar com aqueles três. Todo mundo, Pedro, todo mundo, Pedro, tá falando isso. Eu sei que eu devia ter falado, mas eu não pensei que ele seria tão baixo e... Se quer brigar com alguém, briga comigo...

Caio tirou as mãos de mim. Minhas pernas repentinamente não funcionavam e eu caí no chão sem seu apoio. A universidade inteira. A universidade inteira tinha conhecimento de que eu ficava com um homem. Os caras no banheiro estavam dizendo que eu tinha um macho, mas nem sequer sabiam o nome dele, nem ao menos o curso! Eu era o único real exposto na história. Apertei as têmporas. Claro, isso havia iniciado... Naquele dia! E eu simplesmente deixei a merda de lado apenas porque me preocupei com o beijo que dei em Gabriel.

— Pedro. — Caio se abaixou. — Pedro, olha pra mim.

— SAI DAQUI, CAIO.

Me pus de pé num salto. De algum jeito, começou com Gabriel, aquele infeliz fazia questão de acabar com minha vida, realmente. Eu iria achar aquele porra, eu queria satisfações, e dessa vez, eu as teria de fato. Saí na disparada para o lado do campus que era de Humanas. O caminho era longo, porém, a distância não me preocupou. Eu somente desejava o pescoço do gato borralheiro na minha mão.

— Onde é o prédio de Letras? — questionei ao primeiro indivíduo que achei.

— É aquele ali com o desenho de uma mulher negra...

Corri para o prédio que ele apontou. Entrei rápido.

Não demorei a encontrar Gabriel. Ele estava no meio da escada, o filho de uma prostituta arrombada conversando com... Marcelo??????? Parei.

— Marcelo, você não pode vir me procurar aqui!

— Por quê? Acho que tá fugindo de mim.

— Olha, eu não sei, aquele beijo...

— Vai dizer que não gostou?

— É... Foi bom, mas...

E Marcelo o beijou antes que completasse a frase. Apertei o corrimão, vendo as mãos daquele falso que se disse meu amigo nos ombros do meu gato borralheiro. Meu. Meu. Meu. Não! Como ele ousava? Ele é gay, ele conhecia o Gabriel também, por que não pensei nisso em nenhum momento? E Gabriel... E ainda houve outro beijo... E Gabriel se permitia a isso. Eu era... Era... Eu estava... Coloquei a mão na boca. Meus olhos ardiam. Virei as costas e desci.

Notas finais
Eu ainda não respondi a maior parte dos comentários, mas responderei todos agora :') Próximo capítulo até dia 30. Gif da sofrência do Pedro que não consegui incluir no capítulo: http://giphy.com/gifs/l3vR1WYopTDZ0cPJe