Júpiter e Vênus
15 Nem a internet me ajuda
Notas iniciais
PEDRO
Deus poderia me dar um milhão de medos. Medo de onça, medo de avião, medo de nadar. Mas não. Ele tinha que me dar medo de trovões. E isso era uma baita duma humilhação. Coisa ridícula de criança. Melhor, de bebê.
Meus sentimentos encontravam-se confusos demais. Queria a merda do gato borralheiro perto de mim. Mas ao mesmo tempo não queria. Porra, o que diabos estava acontecendo comigo? Havia aguentado muita chuva durante toda minha vida. Apesar disso, corri para a cama daquele imprestável, daquele filho da puta. E agora, estava seriamente arrependido.
E ele ainda fez de questão de mostrar que sabia da minha presença. Porra! Por que ele não fingiu dormir? Domingo não bastava? Ele tinha que esfregar na minha cara? Afastei sua mão com força, ainda que gostando do seu toque.
— Tinha que acordar. — resmunguei, mais comigo do que com ele.
— Arrogante demais para admitir novamente do que sente medo?
Apontei-lhe o dedo médio, mesmo sabendo que ele não poderia ver. Que droga. Olhei para o teto escuro. Quando cheguei, a energia ainda não tinha ido embora e a luz estava acesa. Lembrei-me então que Gabriel sentia medo de escuro. E que talvez precisasse de mim como eu precisava dele. Que pensamento mais viado pelo amor da Santa Skol.Puxei os cabelos, respirando o mais fundo possível.
— Arrogante demais. — o tom não era de pergunta, somente de afirmação. — Mas por que não jantou, Sr. Arrogância? Tinha miojo de sobra pra ti.
Mordi o lábio, agradecendo aos Céus a graça do escuro no momento. Sabia bem que estava vermelho. Cheguei em casa nervoso. Não bastava a desgraça do Caio ter dito que anda pegando macho por aí, vi Gabriel no campo. Eu realmente não havia planejado encontrá-lo ali. Parecia uma praga me perseguindo, me irritando, me fazendo ficar seriamente louco. Aí agarrei uma mina qualquer que dava sopa. Porque não suportei olhar a cara do gato borralheiro. Quando voltei para o apartamento, de repente meu único e fudido pensamento era de beijá-lo, agarrá-lo. A estranha não me satisfez nem um pouco. Quase fiz isso quando entrei no quarto dele. Porque, que porra, ele TAVA SÓ DE TOALHA. É vergonhoso, mas fiquei imaginando a merda de um cacete debaixo daquele pano. Mas graças a bondade divina, desceu um Pedro miraculosamente razoável (já não era sem hora) e saí. Entrei no meu quarto e fim.
Mas aí choveu.
Porque o Universo conspira contra minha pessoa.
— Fome passou. — puxei o lençol de suas pernas. Eu estava com frio e só havia um lençol. Foda-se Gabriel.
Gabriel puxou de volta.
— Dá de dividir.
— 1 não divide pra 2. — puxei segunda vez.
— 1 dividido pra 2 é igual 0,5. — o moreno também puxou. — E esse 1 inicialmente era meu.
Grunhi, desistindo de discutir. Até que ele tinha razão. Senti seus dedos roçarem em meu ombro, me cobrindo. Um arrepio filho do diabo perpassou-me. É o fim de toda a minha dignidade. Virei-me de lado. A chuva ainda caía lá fora.
Silêncio. Fechei os olhos. Queria dormir novamente e esquecer que estava do lado do gato borralheiro. Por favor. Um trovão ecoou pelas paredes do quarto. Encolhi-me o mais discretamente possível. Ele tinha que ter acordado. Gabriel puxou-me para de junto de si, por debaixo do lençol. Não reclamei, apenas tremi quando senti o calor de seu peito nu.
Ele é gay. E eu tô colado a ele. Cerrei os punhos, não me permitindo relaxar. Eu malditamente o desejava. Como desejava. Desejava tanto que machucava tudo o que aprendi durante a vida. “Homem que gosta de homem não é homem”, “Olha lá a bichinha que anda dando o cu”. Doía.
Abri os olhos e encarei a parede. Gabriel remexeu-se. Ele bem que poderia tentar me beijar, me agarrar, me tocar de um jeito. PORRACACETE, EU TAVA NA CAMA DELE, BEM DO LADO DELE. E não apresentaria a mínima objeção. Suspirei. O gato borralheiro não tomava atitude nenhuma e parecia que jamais iria tomar. Ah, claro, a não ser se fosse para me atacar quando estivesse dormindo.
— Boa noite, princesinha.
[...]
Acordei. A janela do quarto estava aberta e a luz do sol entrava sem escrúpulos no cômodo. O lado da cama de Gabriel encontrava-se impecavelmente arrumado, como se ninguém houvesse passado a noite ali. Dei um soco no travesseiro, lembrando-me da maldita madrugada. Outra vez, enfiei-me nos braços deles. Puxei os cabelos. Era humilhante. Mas havia gostado, como havia gostado.
O som do chuveiro chegou aos meus ouvidos. O gato borralheiro estava tomando banho. Minha mente, que nunca foi santa, o imaginou sem roupa, sendo molhado pela água fria. Podia ser água quente, mas preferia água fria porque o queria arrepiado. Não era possível que eu era o único que me arrepiava naquela merda.
Não, cara, olha o que tô pensando, pelo amor dos deuses, olha o que tô pensando.
Bufei.
Desisto de mim, chega.
Levantei-me após um suspiro zangado. Dei o primeiro passo em direção da saída. Necessitava dar o fora antes que ele me visse por motivos óbvios. Entretanto, uma súbita cantoria desafinada me fez ficar:
— E nessa loucura de dizer que não te quero, vou negando as aparências, disfarçando as evidências. Mas para que viver fingindo, se eu não posso enganar meu coração. Eu sei que te amo! Chega de mentiras, de negar o meu desejo. Eu te quero mais do que tudo, eu preciso do teu beijo. Eu entrego a minha vida, pra você fazer o que quiser de mim. Só quero ouvir você dizer que sim.
“Evidências”, de Chitãozinho e Xororó. Eu sempre odiei a fazenda, mas sempre gostei de música sertaneja. Minhas melhores recordações da infância eram dos finais de tarde em que ficava perto dos peões de meu pai e escutava os modões. E lá vinha Gabriel cantando. Cantava mal, horrivelmente mal. Só que mesmo assim, alguma coisa encantava-me no jeito que os versos saíam na sua voz.
O som da água parou. Minha mão decidiu suar. A porta do banheiro se abriu e Gabriel apareceu. De toalha. De toalha. Quase lambi os beiços ao ver as linhas de seu corpo bronzeado. Eu não sei era possível, porém ele estava mais bonito do que qualquer dia anterior. Okay, eu gosto de macho, especialmente desse macho, eu realmente desisto.
— Bom dia, princesinha. — ele sorriu, balançando os cabelos molhados. — Dormiu bem?
— Considerando que estava do teu lado, até que não foi ruim.
Ele abriu o guarda-roupa. Ele vai se vestir na minha frente? Cerrei os punhos. E o que eu faço? Bati a palma da mão contra a coxa. Queria ver. Quer dizer, é que se eu saísse, ele iria achar que um corpo pelado de homem me incomodava. Podia até estar bem humilhado, mas precisava manter a pose.
E Gabriel tirou a toalha. Segurei a respiração. Eu já havia visto a merda do pau do gato borralheiro outras vezes, não muitas. A mais recente foi sábado. Mas era... Não, eu não tô pensando em pau. Cruzei os braços, mordendo o lábio inferior. Tá, eu tô pensando em pau. Sah mizerah.
Eu já havia pegado ali, mas por cima da calça, com cueca e tudo mais.
— Duro, Pedro? — Gabriel riu.
Olhei para mim mesmo. Ereção. Devo ter ficado vermelho. O moreno largou o guarda-roupa e aproximou-se. ELE TAVA PELADO. E meus olhos não conseguiam fugir de seu pênis. ELE TAVA CHEGANDO PERTO DEMAIS, PELADO.
— Eu posso fazer uma coisa
O gato borralheiro meteu a mão dentro de meu short. Eu estava sem cueca. Arfei, bastante surpreso. Porque Gabriel nem andava me beijando, para início de história. Deixei ele trazer meu membro para fora. Apenas engoli a saliva que tinha na boca.
— Eu deixo você pegar hoje.
O garoto ofereceu-me seu próprio membro, também ereto. Toquei, só tremendo. A lembrança dele fugindo de mim porque peguei ali na última vez ainda estava viva na minha memória. E agora ele oferecia assim o esquema. Bem, parar de ser cu doce antes tarde do que nunca.
Apoiei minha testa no seu ombro e deslizei a outra mão livre por seu peito, enquanto nós masturbávamos um ao outro.
— Pedro, acorda.
Semicerrei os olhos e levantei a cabeça. Eu estava em cima de Gabriel, com uma mão no seu peito e a outra... A outra no seu membro. Pulei para longe, assustado. Era só um sonho, porra! Sonhei com o gato borralheiro em situações pervertidas, caralho! Ele sentou-se, exibindo uma ereção destacada pelo pano fino do short.
— Eu... — comecei, erguendo as mãos.
— Pedro... — ele pareceu vermelho, mordendo o lábio. — Eu posso limpar.
Franzi o cenho. Do que ele estava falando? Limpar o quê? Olhei, então, para a cama. A cama estava seriamente suja. De sêmen. Continuei o caminho com os olhos até minha roupa e minhas pernas. Também sujas. Levei as mãos até a boca. Vergonha e humilhação eram eufemismos.
Corri para a saída.
[...]
Depois que me limpei e me vi em um estado normal, chequei a hora. CINCO DA MANHÃ. Caralho. Joguei-me na minha cama, desejando nunca ter nascido. Querer a companhia dele em dias de chuva, agarrá-lo, qualquer coisa não era tão humilhante quanto aquilo. O demônio havia chegado realmente no limite. Já não podia negar que o desejava.
Cobri a cabeça com o travesseiro. Eu conseguia imaginá-lo colocando os lençóis na máquina de lavar, questionando a si mesmo com que a princesinha estava sonhando. “Ah, deve ter sido comigo”. Bati na minha testa até não poder mais. Maldito gato borralheiro. Por quê, mãe? Não sou um filho tão ruim. Nem uso drogas. Só álcool.
— Caralho, cacete, porra, buceta, merda, droga, tomar no cu.
Arranquei uns fios de cabelo. Eles já estavam prontos para serem cortados mesmo, nem iriam fazer falta. Meu Deus, dá um jeito na minha vida, por favor. Bati um punho contra o colchão, remexendo-me e remexendo-me. Não olharia para a cara do gato borralheiro nunca mais.
Eu não sairia do quarto.
Peguei o celular e entrei no navegador. Digitei as palavras chave: “como se matar quando suja de porra a cama de um filho da puta que você quer agarrar”. Sem resultados. Nem a internet me ajuda.
— Pedro. — Gabriel bateu na porta.
Não falei nada.
— Pedro, isso não é coisa de outro mundo.
Não, claro que não. Só te ataquei, tu ficou duro, tu – a merda de um gato borralheiro – me viu em estado ridículo, magina.
— Pedro, deixa de ser fresco. Eu sei que tu não dormiu de novo.
— Vai se fuder, Gabriel.
[...]
— Algum problema, Pedro? — Jéssica perguntou, encarando-me com seus grandes olhos claros.
— Nenhum. — respondi num resmungo. — Absolutamente nenhum problema na minha vida.
Afastei o copo de Coca-Cola. Havia evitado a companhia de Caio mais cedo. E o pior é que ele nem se importou com isso. Meteu-se com Vicente e os dois logo começaram a ser melhores amigos do nada. Desceu uma raiva. Caio era MEU amigo e ponto final. Não iria dividi-lo com ninguém.
Só não iria aceitar que ele gostava de macho. Mas eu também gosto, pensei quase chorando. Depois de tudo o que aconteceu entre Gabriel e eu, não havia mais como fugir do fato. Eu gostava de macho, por mais que não quisesse de jeito nenhum. Jéssica pegou o resto de minha coxinha, ainda sem tirar os olhos de mim.
— Pedro, você está com olheiras. E tu fica horrível de olheiras com essa cara branca de fantasma.
— Não dormi bem. — suspirei. — Nem sempre pode se ter um sono de beleza.
A morena ergueu a sobrancelha, nem se esforçando para não mostrar a desconfiança. Nem se esforçando. Suspirei e fugi do seu olhar. Voltei-me para a fila da lanchonete. Havia gente bonita e gente feia. Umas gatinhas, que em outros dias passaria umas cantadas. Outros dias. Porque nesse, exatamente, me sentia devastado por dentro e por fora.
— Vai ter uma social hoje. — Jéssica ajeitou o longo cabelo negro. — Na casa de um carinha da Engenharia de Minas. Vai comigo? Não quero ir sozinha.
— Como é o nome dele?
— Sei lá.
Sorri.
— Sua doida.
— Só sei que ele é do terceiro semestre.
— Vou ver.
Eu provavelmente iria, nunca fui de dispensar cerveja. E não queria ir para casa à noite. Precisava adiar o máximo possível o momento de ver Gabriel. Mesmo sabendo que o encararia em algum momento.
— Desde quando o Caio e o Vicente são amigos? Caio não andava contigo? — a morena apontou com o queixo para o lado esquerdo.
Os dois estavam na maior intimidade, sentados numa mesa do canto, falando alto sobre o campeonato brasileiro. Havia outros três caras com eles na mesa, acompanhados de refrigerante à vontade, mas só Vicente e Caio se destacavam na conversa. Dei o dedo na sua direção (in)discretamente. Foda-se.
— Caio cheira dinheiro. Só quer andar com rico. Talvez descobriu que o Vicente tem mais dinheiro que eu.
Jéssica fuzilou-me com o olhar.
— Você é um idiota.
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