Júpiter e Vênus
5 Isso não aconteceu
PEDRO
Passei a mão no rosto, bastante estressado. Meu dia não estava sendo legal. Para começar, eu cheguei atrasado na aula de Cálculo e a professora não me deixou entrar. Depois, a fome estava corroendo meu estômago. Esqueci o dinheiro em cima da mesa, logo, não poderia comprar nada e ficaria com o vazio na barriga por um bom tempo. Tudo isso por culpa do gato borralheiro.
E ainda tinha aquilo. Foi um pesadelo, não foi real. Cerrei os dentes e recordei da cena. Devia ser meio da noite. Entreabri os olhos no momento em que senti um volume em cima de mim. Meu coração gelou ao dar de cara com Gabriel – somente de toalha – chupando meu mamilo. Antes que eu pudesse pensar, sua mão firme apertou meu membro. Para piorar a situação, eu fiquei excitado. Virei-me de bruços para disfarçar esse fato assim que ele levantou-se. E todo o tempo, eu fingi dormir. Isso não aconteceu. Balancei a cabeça, totalmente incrédulo. O gato borralheiro era mais do que certinho. Ele não seria capaz de atacar alguém assim, era? E nesse caso, eu estava dividindo um apartamento com um gay... Um gay que já me viu pelado... Isso não aconteceu!
— Pedro, em que planeta você tá? — a voz de Jéssica ecoou nos meus ouvidos.
Levantei a cabeça e olhei para a garota na minha frente. Estávamos sozinhos no banheiro masculino. Depois que a vaca da professora me dispensou da aula, acabamos nos encontrando no corredor. Sem pensar muito, puxei a menina pelo braço até ali e comecei a agarrá-la. Ela não ofereceu resistência, coisa que facilitou muito a minha vida. Mas...
— Pedro, o que tá acontecendo com você? — Jéssica fechou o sutiã e me empurrou para longe.
— Não sei. — respondi com certa amargura. — Eu tive um sonho esquisito. — Claro que foi um sonho, eu não fiquei duro com o toque de um homem. — E aí, sei lá.
— Hum. Como assim, pode explicar? — ela cruzou os braços.
Não, eu não posso. Comprimi os lábios, quase chorando. Foi fácil ignorar aquela imagem bizarra mais cedo, quando meu cerébro estava enuviado pelo sono. Só que naquele momento, estava ficando bem difícil.
— Ei, eu sou sua amiga desde o trote... Confia em mim. — Jéssica pegou minha mão e acariciou meu rosto.
— Eu... Eu... — balbuciei. — Eu... Droga!
— Calma... — ela me abraçou. — Calma. Vai dizer que sonhou com um homem gostoso te pegando?
Mordi o lábio. Foi exatamente isso... Mas não! Gabriel não é gostoso! Mais ou menos... Porra nenhuma!
— Esquece. — puxei o celular do bolso e chequei a hora. — Minha aula de Geometria Analítica começa daqui a pouco. Tchau. — e saí praticamente correndo.
[...]
Tamborilei os dedos na mesa da lanchonete, procurando a coragem de comprar um lanche fiado. Estava morrendo de fome. Minhas mãos naquela altura do campeonato já estavam frias e tremendo. Eu não havia comido na noite anterior. Afinal, saí da faculdade direto para o bar e após isso, desabei no sofá da sala. Senti um suor gelado escorrer pelo meu rosto. Passei a mão na testa e respirei fundo.
— Oi, Pedro. — levantei os olhos e vi uma menina magricela. Ela era bonitinha, apesar dos traços indígenas óbvios.
— Te conheço? — questionei.
Ela revirou as órbitas.
— Suponho que esteja com fome e sem dinheiro...
— Não. — menti.
— Sério? E por que tá aqui?
Cruzei os braços e deixei o silêncio responder.
— Orgulhoso demais para admitir. Okay, tua babá mandou R$ 50,00. — ela puxou uma nota do bolso do vestido e a jogou em cima da mesa.
Abri a boca, um pouco muito surpreso. Antes que eu pudesse falar alguma coisa, a garota saiu. Eu a segui com os olhos. Ela sentou-se numa outra mesa, ao lado de Gabriel. Os dois trocaram algumas palavras e em seguida, o gato borralheiro me encarou de um jeito cortante. Engoli em seco.
— Ei. — Caio interrompeu minhas observações. Olhei para o lado, meu amigo vestia uma camisa cinza de feira com bermurda jeans. Seus cachos castanhos, como sempre, estavam escondidos pelo boné.
— Hum.
— Não fica exibindo esses cinquenta reais assim.
— Ah. — sorri. — Compra uma Coca e pizza pra gente?
Ele pegou o dinheiro e foi fazer o pedido. Voltei minha atenção para Gabriel e a índia, mas ambos haviam saído. Poucos minutos depois, Caio apareceu com dois pedaços de pizza e mais dois refrigerantes. Ele sentou-se na cadeira de minha frente.
— Todo mundo tá comentando sobre sua quase briga com o Gabriel. Mandaram um monte de fotos no WhatsApp.
— Falando o quê? — perguntei enquanto abria a latinha.
— Que você é um mole, caça briga e não aguenta...
— Isso não é verdade! — exclamei subitamente zangado.
— Vai lá calar a boca do povo, se puder.
[...]
Caio não quis beber depois da aula. Ele era um bom aluno – nos padrões universitários – e preferiu estudar para a prova de Álgebra que seria dali uns dias. Ainda bem, já que eu não tinha dinheiro suficiente para bancar o bar. Fui para casa. Joguei minha mochila praticamente vazia em qualquer canto e deitei no sofá. O relógio do receptor marcava 7 horas em ponto.
— Milagre não chegar bêbado em casa. — Gabriel apareceu na sala com a cara irritante de sempre. Estava vestido somente numa bermurda.
— Para de ser chato. — resmunguei. — Ao menos uma vez na vida, bebedor de água.
Ele riu e sentou-se no chão.
— Pelo menos não irei ficar gordo daqui alguns anos. Ao contrário de você.
— Vai te fuder. — revirei os olhos.
O gato borralheiro deu de ombros.
— Por que me mandou aqueles R$ 50,00? — perguntei.
— Porque... Eu sabia que você não fez café-da-manhã já que é um menininho mimado. Voltei aqui em casa umas horas depois e vi seu dinheiro em cima da mesa. Supus que você tivesse esquecido. Sou legal, no fim de todas as contas. Não queria que... Morresse de fome.
Comprimi os lábios.
— Ah.
— Ah. — ele repetiu com um ar entediado.
— Ah. — repeti também. — Eu não iria sujar minhas fabulosas mãos na cozinha, sabe.
— Tu é muito fresco. — Gabriel sorriu.
— Teu cu. — dei o dedo.
De repente, a campainha tocou. Franzi o cenho, eu não estava esperando visitas. Gabriel se adiantou e foi atender. Bem, gatos borralheiros servem exatamente para isso. Contudo, ele sumiu de minhas vistas. Um tempo longo demais passou-se. Sentei no sofá e questionei a mim mesmo o que havia acontecido. Será que ele morreu? Apurei os ouvidos. Tudo estava silencioso. Ele morreu e agora vou ter o trabalho de ligar para a mãe dele, que merda.
Levantei-me com a curiosidade ardendo nas veias e fui até a porta. Assim que a abri, dei de cara com Gabriel sendo agarrado pela loira do dia anterior. Ela não percebeu minha presença, mas ele sim. Mordi a língua e voltei para dentro, com medo de levar outro soco na cara. Não, não era medo. Era só... Tá, era medo.
Ele é hétero. E aquilo não aconteceu. Sorri aliviado ao chegar nessa conclusão.
[...]
Liguei a TV e pus num filme qualquer. Quando Gabriel voltou para a sala, a mocinha já estava sendo pedida em casamento pelo cara. Espera, eu tou assistindo comédia romântica? Balancei a cabeça, meio incrédulo com o meu jeito lesado, e mudei o canal.
— Tá namorando com ela? — perguntei assim que Gabriel sentou-se no outro sofá.
— Quem sabe. — ele sorriu.
— Mas usou camisinha?
— Princesinha, minha vida sexual não te interessa. — ele ergueu a sobrancelha.
— Princesinha o caralho! Mas, espera. — pus a mão no queixo, pensando um pouco. — Não vem me dizer que você é virgem!
— Já disse que não é da tua conta. — o gato borralheiro jogou uma almofada em minha cara e saiu para o quarto.
— Virgem! — gritei e ele bateu a porta.
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