Júpiter e Vênus
42 Epílogo
GABRIEL
Olhei para Pedro dormindo na minha frente. Não era muito diferente de quando ele tinha 18 anos. Ainda tinha aquela beleza extremamente fora do comum: olhos, nariz, boca, bochecha e queixo faziam um conjunto quase profano pelo tamanho da perfeição. Acariciei seu cabelo amarelado. Ele não se mexeu no primeiro segundo, mas logo acordou.
— Ai, puta que pariu, hoje é feriado. — Pedro bufou. — Me deixa dormir.
Eu sorri e voltei o rosto para teto. Havia retornado para o Brasil em definitivo pouco depois daquela noite na praça. Não queria passar minha vida inteira na Europa morrendo de frio e falando inglês e/ou francês. Pedro comentou que era meu espírito de pobre que não me abandonava. Talvez. Estávamos em São Paulo agora. Eu e ele. Nós dois.
— Pode dormir, playba. — Respondi.
Ele apoiou a cabeça no travesseiro com um resmungo, revirando os olhos, mas me olhando ao mesmo tempo. Tínhamos trinta anos, nos conhecemos com oito, no entanto só havíamos gastado dois anos das nossas vidas juntos. Nunca saberei se tinha que ser necessariamente assim ou se só fizemos as escolhas erradas.
O importante era o presente.
— Vou fazer algo pra gente comer. — Complementei. — Quer o quê?
— Qualquer coisa.
— Depois não me reclame.
Coloquei meus pés no chão. Todavia, antes que eu levantasse, as mãos de Pedro envolveram minha cintura. Ele apertou o nariz contra a parte anterior do meu ombro. Passei a mão no seu braço branco. Eu não tinha visto em Minas Gerais, mas havia uma cicatriz fina de um corte no pulso. Eu me arrepiava ao pensar em Pedro desse jeito.
— O que foi? — Perguntei.
— Nada.
Eu havia aprendido que os “nada” de Pedro não eram nada.
— Tem certeza?
— Não quero que saia da cama.
— Não quer comer?
— São só nove horas da manhã, deixa de ser desesperado.
Virei meu corpo para trás e encarei aquelas íris castanhas tão familiares para mim. Quis beijá-lo, mas já havia tentado isso em uma manhã na semana passada e ele disse que primeiro escovar os dentes. Então eu somente o abracei. Sua pele tinha marcas da noite. Deslizei o polegar em um roxo na sua clavícula. Ele afastou minha mão.
— Vou ter que usar camisa de gola alta a semana toda pra esconder isso.
Eu ri.
— Não mandei nascer transparente, pode nem triscar que já fica a marca da mão.
— Vai se fuder.
Ele deitou novamente, me arrastando consigo. Apoiou a cabeça no meu peito. Ficou em silêncio enquanto roçava as unhas na minha barriga. Brinquei com seu cabelo. Era uma paz matutina a qual eu já havia me acostumado. Não era nenhum trabalho ter Pedro nos meus braços, na verdade, era o que eu mais havia sentido falta.
Percebi que ele adormeceu novamente quando sua respiração se tornou mais harmoniosa. Eu achava meio complicado passar a manhã dormindo, não nasci em nenhum berço de ouro, às cinco da manhã devia estar de pé para começar a trabalhar. Entretanto, eu estava especialmente cansado da semana na universidade.
Logo o acompanhei.
Acordei com um vácuo no lado direito da cama. Mas o barulho de água denunciava que ele estava tomando banho. Busquei o celular para olhar a hora. Duas da tarde. Se Pedro estava de pé em um feriado, realmente tinha que ser em uma hora daquela. Pulei no chão e fui para o banheiro. Escovei os dentes rápido. Arrastei a porta do Box em seguida.
Ele estava coberto de espuma.
— Será que eu posso ter privacidade?
— Já peguei e chupei isso tudo ai, sem nenhuma exceção.
Ele atirou água na minha direção.
— Ridículo.
— Eu?
— Tu. — Pedro rezingou. — Vem pra cá. Já tá pelado mesmo.
Entrei debaixo do chuveiro. A água estava demasiado fria para quem tinha acabado de sair da cama. Apanhei o sabonete. Ensaboei meu corpo por uns minutos. Tudo desceu para o ralo. Pedro lavava cabelo com shampoo. Estendi a mão para pegar um pouco. Ele mostrou uma careta indignada de um digno Pedro Guerra Bozza.
— Sai, isso é pra cabelo liso. Teu cabelo nem é liso.
— Ai, deixa de frescura.
— Nan.
Ele me deu o outro shampoo, de outro tipo. Tomei-o de suas mãos e fiz o que estava com vontade de fazer desde que acordei: agarrar aquele loiro que não perdia a essência de princesinha. Beijei sua boca. Ele não custou a retribuir o beijo e me encostou à parede. Desci uma mão até sua bunda e com a outra fechei o chuveiro pela conta de água.
Então, ouvi o som do celular de Pedro tocando alto. Parei.
— Aff. — Pedro rolou os castanhos para cima.
— Teu celular tá tocando.
— E daí, só quem me liga é o trabalho ou a Jéssica e o Caio.
Continuamos a nos beijar, no entanto, o celular também continuava com a chamada. Pedro finalmente desistiu e se enrolou na toalha. Retornou ao quarto. Terminei meu banho sozinho. Quando deixei o banheiro, Pedro estava sentado na cama com o celular na mão e uma expressão perdida no tempo e espaço. Ainda tinha shampoo no cabelo.
— O que foi? — Perguntei.
— Meu pai morreu.
[...]
Nunca pensei que iria retornar àquele interior. Mas também nunca pensei que iria perdoar Pedro. Era um dia praticamente inteiro de viagem de São Paulo até ali, isso de avião. De carro poderia dar três dias. Deixei minha bolsa sobre a cama do ex-quarto de Pedro na antiga casa principal da família Bozza. O ar que me rodeava era deprimente.
Não era como se o lugar estivesse caindo aos pedaços. Não. O pai de Pedro era milionário e com certeza deve ter contratado alguém para administrar tudo no lugar de dona Juliana. As coisas estavam do mesmo jeito. Era como voltar no tempo. Se eu fechasse os olhos, poderia ver um Pedro criança jogando video-game na sala. Isso que era terrível.
— Pedro?
Pedro estava apoiado na janela. Não havia falado muito na viagem. Vestia uma camisa branca de manga curta.
— Quer falar? — Perguntei.
— Não.
— Tudo bem.
Sentei numa poltrona do canto da parede sem saber o que dizer. Lá embaixo estava o caixão. Foi um AVC fatal. Eu havia me acostumado a não pensar em Sérgio Bozza, mesmo agora. Se estava longe, se Pedro havia se libertado, não era problema meu. Não queria papo com o homem que desgraçou nossas vidas. Mas o destino tem suas ironias.
O enterro seria dentro de duas horas. Nós (eu) havíamos ajeitado para que não houvesse ninguém de fora. Okay, os empregados poderiam aparecer e olhar o cadáver rosa-acizentado do falecido patrão na casa. Não que quisessem se despedir, ninguém gostava do pai de Pedro. Curiosidade das pessoas com os mortos. Eu realmente não ligava.
Mas o enterro era nós dois, o coveiro e o padre.
— É melhor falar, Pedro. — Eu insisti depois de uns minutos. — Não guarda pra tu, por favor.
Ele volveu o rosto. Eu vi suas rachaduras. Ele parecia um homem, tinha cara de homem, mas estava perdido como um menino. E a verdade é que eu não estava em uma situação muito diferente. Eu não queria revisitar o passado daquela forma. Meu coração estava apertado. No entanto, eu tinha que ficar de pé por ele. Ele já havia desabado demais.
— Vem cá.
Ele se afastou da janela e veio até mim. Pôs os joelhos no chão e chorou no meu colo. Deixei que o fizesse. Apertei seu ombro.
— Eu odeio tudo isso. — Pedro falou afinal.
— Eu também odeio.
— Por mim ele era jogado em qualquer vala.
— Eu sei.
Desci para o chão, para o seu lado. Ele me abraçou e eu o abracei. Não sei em que momento as lágrimas também me vieram. Chorei por todas as coisas que passamos, eu e ele. Nós estávamos juntos, mas estávamos exaustos. Naquele instante, decidi que seríamos felizes, não importava o tempo que perdemos e o que foi tirado de nós.
Quando a hora chegou, descemos. As pessoas que estavam por perto se afastaram e eu ouvi sussurros. Pedro olhou para o pai morto e acenou para que lacrassem o caixão.
Logo estávamos indo ao cemitério. Era no fim da cidade. Sérgio Bozza seria enterrado ao lado da esposa, Juliana Bozza. Avistei a lápide da mulher que me apoiou em tudo e que só me pediu que eu cuidasse do filho dela. Do além da morte, era possível escutar seu eco: “meu filho não tem juízo”. Acheguei Pedro perto do meu corpo.
— Do pó veio e ao pó voltará.
Eu levantei os olhos para o céu enquanto o padre falava. Não ligava para o sermão. O céu estava azul, azul perfeitamente limpo e sem nenhuma nuvem. O sol brilhava alto, sol de quatro horas da tarde, lançando luz e sombra no chão. O que era estranho, dado que era inverno. Era como se o céu estivesse comemorando, na verdade.
— Filho da puta. — Pedro resmungou para si. — Ele nunca me amou e eu nunca o amei.
O caixão começou a sumir no buraco cavado. Pedro se aproximou e empurrou com o sapato a argila vermelha que ficou para trás. Preferi me manter distante. Ele tinha o direito de odiar o pai sozinho. O meu não havia feito o que Sérgio fez, ele somente ignorava minha sexualidade. Eu não tinha ideia do sentimento.
Meu ódio por Sérgio não era um ódio de filho.
— E morreu.
Descruzei os braços para ver quem era. Quer dizer, não devia haver mais ninguém. E aquela voz, aquela voz eu não reconhecia. Me virei para trás. Era um homem negro. Tinha uma tatuagem de uma árvore no braço esquerdo, exibida pela camisa de manga curta. Era uns cinco centímetros mais alto do que eu.
— Quem é você? — Questionei.
— Ah. Meu nome é Leandro Sanches. Pode me chamar de Sanches.
— Você...
— Não se preocupe comigo. Eu só queria me despedir dele.
E por quê?
— Ele não era tão ruim quanto parecia. — Sanches sorriu com certa dose de humor negro. — Ele só endureceu demais e fingiu ser quem não era por mais de quarenta anos.
— Fingiu ser quem não era?
— Ele era gay. Nós ficamos juntos por seis meses e... A família dele descobriu. E ele começou a se auto-reprimir.
Minha cabeça não continha a ideia do que o homem estava contando. Não fazia sentido. Sérgio era o homem que surtou porque encontrou o filho nu comigo na mesma cama. Olhei para Pedro desejando um modo de compreender a história. Ele se aproximava, a cova estava terminada. Sanches se afastou automaticamente.
— Quem era aquele homem? — Pedro indagou.
— Não sei.
— Ele me pareceu meu professor de Física.
— Não sei.
Ele suspirou.
— Me tira daqui.
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