Já é natal
1 Badalar dos sinos
Você respira com dificuldade. As pessoas passam apressadas pelas vitrines à procura dos presentes de ultima hora. Os presentes que ninguém daria se não fosse por simples educação. Quem sente prazer em presentear o chefe sociopata que negou seu pedido de ferias? Se não fosse pelo estupido amigo secreto você não se preocuparia se essa gravata vai ou não apertar aquele pescoço horrendamente gordo. Você ve isso em cada rosto. Afinal já é quase Natal. Você é o único que assiste a tudo, observa tudo que todos tentam esconder ou negar. Os presentes comprados de má vontade, as crianças com seus ímpetos mesquinhos, a cobiça nos olhos dos menos afortunados. As vitrines brilham e clamam. Chamam os incautos para dividas impagáveis. O dinheiro suado de muitos se esvai entre seus dedos. Parcelem e deixem sua alma como garantia. Tudo é possível, mesmo que não seja necessário, afinal já é quase Natal. Sua barba está mais rala que no ano passado. Provavelmente estará ainda menor no ano que vem. Mas calma, afinal já é quase Natal. Sentado no meio dessa balburdia infernal, você percebe que não é mais necessário. As pessoas passam por você e nem ao menos o notam, e mesmo aqueles que param, param unicamente para pedir coisas para enaltecer seus próprios egos. Você está cansado, o sorriso não nasce mais em seu rosto. As mãos frias mesmo com as grossas luvas. A neve cai e o vento frio enche seus velhos pulmões. O relógio se aproxima das ultimas horas do dia. Logo será Natal. Após o Natal tudo volta ao normal. A ressaca moral por tudo que foi feito ou dito atinge a todos. Logo você poderá descansar. Afinal, logo o Natal acabará. Deixará seu posto para o merecido descanso. Então, até logo. Te vejo ano que vem.
Como assim? Talvez o senhor não volte ano que vem? Pois bem. Teremos um Natal de qualquer forma. No ano que vem e nos próximos. Com ou sem você. Agora volte a trabalhar e sorria.
Afinal, agora é Natal.
Fale com o autor