Já é Quase Ano Novo
2 Simpatia
Notas iniciais
27/12
7 da manhã.
O relógio grita e a luz do sol arde através das finas cortinas fechadas. Ao desligá-lo com um tapa e abri-las, constato a beleza do dia que se abre, também, à minha frente. Poucos carros parecem passar — nenhum buzinando -, o céu está claro e quase não vejo pessoas na rua, uma pessoa passeia com um cachorro muito grande e uma outra, de azul, parece andar inquieto, meio perdido. Destranco as janelas e deixo o ar da manhã entrar, permitindo-me inalar o frescor matutino. Apoiada na mesa, tento vasculhar a rua com a visão, apertando os olhos e sem ver absolutamente nada com clareza. Levanto minha mão para ajustar os óculos e com ela encontro o meu próprio rosto.
Claro.
Busco pelo quarto, tateando cegamente pela cama, o meu par de óculos castanhos. Quase amasso o dito cujo com o pé, mas me impeço de pisoteá-lo no último segundo, perdendo o equilíbrio. Caio. Maldito tapete velho. Recolho meus óculos e, ao restaurar a visão, prendo as cortinas com seus respectivos prendedores, dou um último olhar suspirante ao morno da manhã e vou à mínima cozinha que se acolhe no meu apartamento.
Procuro o pó de café. Não tem na primeira prateleira. Não tem na segunda. A terceira não foi projetada para meu biotipo e, por conseguinte, preciso da “escadinha” para visualizá-la. “A escadinha” é uma escada portátil, levemente enferrujada, de três degraus pretos e infinita utilidade, deixada pelo antigo inquilino. Subo seus degraus enquanto me apoio na prateleira e vislumbro um pequeno pacote de café, surrado e perto do fim. Com um suspiro, alcanço o dito cujo e desço, iniciando a preparação do néctar amargo e divino que me mantém em pé, dia após outro.
Enquanto a água é fervida, abro meu notebook e batuco suavemente ao lado do mouse enquanto espero que seja mostrada a área de trabalho. Após um longo momento de espera, é aberta minha página do Word com meu livro interminado. Sento no banco alto e releio os últimos trechos do capítulo anterior.
“ Martha revira sua mala em busca de sua camisa favorita, mas não a encontra em lugar algum. De alguma forma, ela não fazia ideia de como, a outra mala com todos seus objetos preferidos fora parar em Curitiba. Maldito buraco negro de Curitiba. Sentada na cama, ela suspira e leva as mãos ao rosto, tapando seus olhos e deitando-se na cama.
— Onde fui me meter? – Ela se pergunta em voz alta, abafada pelas próprias mãos.
Seu telefone vibra com uma mensagem: Seu pai avisava que demoraria a voltar. ‘Ótimo’ pensa a menina enquanto revira seus olhos de forma irônica. Somente dois dias nessa cidade e tudo... ”
Minha releitura é interrompida pelo som da água borbulhando acima do limite da panela e caindo no fogão, imediatamente vaporizando. Levanto-me com urgência e giro o botão que controla a intensidade do fogo, para que continue a ferver em fogo baixo enquanto busco o coador. O café é preparado de forma mecânica, e bebo um gole do líquido escuro logo que o derramo em minha caneca decorada com um gato, arrependendo-me amargamente, de forma literal, já que esquecera do açúcar.
O interfone toca seu som estridente e sou surpreendida por uma voz desconhecida, e severamente metálica pela velhice do aparelho, ao atender.
”Oi, bom dia!" uma risada simpática "É aqui que tem uma tradutora de alemão? Eu sou Marcelo, tô precisando ajeitar uns documentos...” o desconhecido se interrompe, esperando minha resposta.
Deixo escapar um breve murmuro inteligível enquanto avalio se ainda me lembro de algo além de Guten Tag antes de responder.
“É sim” digo, finalmente, passando a mão livre pela juba selvagem e cacheada que mantenho na cabeça.
“Posso subir ou prefere que eu espere aqui?” a voz indaga.
Penso por meio segundo na pergunta, estranhando o fato dessa pessoa não ligar antes de aparecer em minha casa tão cedo e sinceramente pensando em mandá-la embora, mas sou vencida pela necessidade maior: O pagamento.
“Pode subir sim. É o 302 B, primeira porta a direita” Respondo simplesmente.
“Brigado” responde a voz robótica do outro lado da linha.
Aperto o botão que destrava a porta principal e fecho meu notebook. Bebo outro gole e deixo a caneca de lado, buscando rapidamente uma bermuda. Visto-a e aliso minha camisa amarela, que fora meu pijama, esticando-a em meu corpo com as mãos. Ouço o barulho de passos no corredor e chuto um sutiã que estava jogado no chão da sala para dentro do quarto, fechando sua porta em seguida. Ouço a campainha e apresso-me a abrir a porta, dando a última ajeitada no cabelo ao passar pelo espelhinho que mantenho na parede atrás do sofá.
Ao abrir a porta, me deparo com um rapaz moreno, nos seus belos 20 anos, com os olhos verdes mais belos que já vi na vida, trajando uma camisa azul-escuro. Tenho a impressão de já ter visto essa camisa azul antes...
“Oi, eu sou Lívia, a tradutora de alemão” digo com meu melhor sorriso de sono matinal e dou um passo para trás, dando espaço para que ele possa passar “Pode entrar”.
Ele sorri de volta e agradece com a cabeça.
“Oi Lívia, sou Marcelo. Gostei das plantinhas. Isso são hibiscos?”.
Me surpreendo com o comentário e com seu leve sotaque, de origem desconhecida por mim, e genuinamente alargo meu sorriso com o interesse.
“São sim” indico a mesa “Você quer café? Acabei de fazer” perguntei, mas na verdade desejando que ele não quisesse para que eu não passasse vergonha com o desastre absurdo que é a minha pessoa.
“Não, muito obrigado, fica pra próxima” ele diz e eu suspiro baixo de alívio. Com uma breve risada, se senta no sofá e espalha uma série de papéis do que parece ser um contrato completamente em alemão na mesa de centro.
Passo os olhos rapidamente pelos escritos enquanto tento organizá-los em ordem e busco as palavras em minha mente. Algumas não vêm rápido à cabeça e algumas nem me lembro do que significam mais, mas mantenho o rosto sério.
“Certo. Quantas páginas tem aqui, você sabe?” pergunto sem parar de fitar os papéis.
Ele leva a mão ao queixo e olha brevemente para a esquerda enquanto parece tentar se lembrar.
“Tem vinte e três, eu acho. É mais de um documento” ele responde e folheio as páginas e balanço a cabeça positivamente enquanto conto, confirmando sua fala e internamente amaldiçoando a quantidade irreverente de páginas que ele trouxe.
“Ok, eu costumo cobrar 50 centavos a página do alemão pra português, então fica doze reais, mais ou menos” paro de mexer nos documentos para pensar por alguns segundos enquanto faço a conta simples em minha cabeça “Onze e cinquenta, pra ser mais exata. Você tem um prazo?”.
Ele murmura um ok quando menciono o preço e estreita os olhos com minha pergunta.
“Bom, eu não tenho bem um prazo, mas seria bom o mais rápido possível” responde, o sorriso voltando a seu rosto.
“Tudo bem, três dias tá bom pra você?”
“Tá sim” ele coloca as mãos nos bolsos
Coloco os papéis na bancada, ao lado do notebook e me viro para ele.
“É só isso?” pergunto, deixando escapar um leve suspiro.
“É sim, muito obrigado, Lívia” ele diz e me abraça de forma repentina.
Coloco meus braços de forma desajeitada nas costas dele e nos separamos em seguida.
“Ah, me agradeça depois dos papéis entregues” dou uma risada nervosa, ainda sem graça pelo abraço.
Com um semblante mais calmo do que imagino que deveria diante da minha fala, ele ri novamente e se dirige à saída, mãos nos bolsos de trás da calça. Levo a minha mão aos cabelos, ajeitando minha franja ao redor dos óculos e buscando esconder meu constrangimento enquanto o rapaz está de costas. Ainda que seja morena, sinto minhas bochechas ferverem e corarem enquanto dou uma risada simpática para disfarçar o nervosismo. O rapaz para, olha seu relógio de pulso e se volta para mim abruptamente, me fazendo arregalar os olhos.
"Aliás, sobre aquele café" ele inclina a cabeça para o lado, colocando a mão do relógio de volta no bolso.
"Sim?" digo, o sorriso simpático quase se desmanchando em desespero.
"Acho que eu aceito sim"
Meu sorriso vacila por um segundo.
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