Notas iniciais
Agora sim, estamos rumo às respostas que todos estão aguardando. Já perto do fim, começo a sofrer antecipadamente de abstinência...

AGORA

“Onde você esteve esse tempo todo?”

Adrien está acariciando os dedos de M, tentando dissipar um pouco a atmosfera sombria do momento.

“Por aí… a maior parte do tempo passei em Amsterdã, num albergue. Terminei os estudos no ano seguinte, e foi quando parti. Não podia mais andar pelas mesmas ruas, fazer as mesmas coisas, pensando que você nunca mais estaria ali, comigo, então desisti. Falei com meus pais que faria uma viagem, e não voltei.”

“Depois daquele tempo você conheceu outras pessoas? Sabe… você não precisa responder se não quiser mas, houve alguém…?”

“Não. Não houve mais ninguém depois de você.”

Um misto de satisfação e alívio o invade.

“O que a fez voltar?”

“Uma foto sua… num anúncio de revista. Na época o fato de você ter desaparecido da mídia reforçou minha teoria de que não tinha sobrevivido, apesar de eu não ter te encontrado, você sabe… no vale da colina. Um dia eu estava folheando uma revista e vi você, só de jeans, sem camisa.” A tristeza pela lembrança é substituida por um comichão. “Na foto havia uma luz difusa por trás, que deixava seu rosto nas sombras, mas eu não teria como deixar de reconhecer você, mesmo você estando tão… diferente. É claro que eu tinha medo de que o destino estivesse me pregando alguma peça, que eu estava enxergando coisas onde não existiam.”

De fato, não era só a barba por fazer, propositalmente conservada, que o tornava diferente. Eram também os músculos, os pêlos no abdomen, sensualmente formando um funil até o cós da calça; o cabelo, mais comprido e despenteado; a pequena linha máscula ao lado dos lábios, deixada ali depois de muitos sorrisos debochados. E aqueles olhos…Ele parecia agora um tipo de deus mitológico, um pedaço de mau caminho que ela queria só pra ela.

“Foi então que voltei correndo a Paris. Fui até sua antiga mansão e vasculhei em todos os lugares que nos eram familiares. Como não estava pronta ainda para anunciar minha volta, permaneci escondida. E quando eu já estava quase me convencendo de que não passara de um alarme falso, eu o vi…”

ANTES

Adrien tenta abrir os olhos mas uma luz branca ofusca sua visão. Ele se esforça pra focar alguma coisa com a vista ainda se acostumando com a claridade. Uma parede verde, um sofá, uma persiana. Ele não fazia idéia de onde estava.

A porta do recinto em que está se abre e por ela passa uma mulher de meia idade, vestida de branco.

“Bom dia! Como está se sentindo? Procure não se levantar por enquanto, por favor. Vou avisar o médico que está acordado!”

Ele estava em um hospital. O que estava fazendo ali?

Dali a uns minutos um homem magro e alto, com cabelos grisalhos entra no quarto.

“Doutor? O que houve? Como eu vim parar aqui?”

O homem interrompe o passo e fica a observá-lo com intensidade. Aos poucos se aproxima da cama e, ao notar que o rapaz não esboça nenhuma mudança de expressão ou reação, segura-lhe a mão.

“Você não sabe quem eu sou?”

Adrien franze o cenho e não entende a pergunta.

“O senhor não é o médico?”

O homem dá um sorriso que se resume num leve arquear de lábios.

“Você não se lembra do que aconteceu?”

Na verdade, agora que o homem faz a pergunta, ele percebe que não se lembra realmente de nada. Buscando alguma memória, só consegue se deparar com uma imensa parede cinza. O fato é que ele não fazia a menor idéia do que acontecera, e o pior, não se lembrava sequer quem ele mesmo era.

72 HORAS ANTES

Marinette enfim consegue se erguer do chão. Sua mão trêmula ainda segura o pedaço de pau que usara contra Adrien. Na ponta levemente angulosa pode-se ver um resquício de sangue.

“Adrien…?”

A voz também está trêmula, e rouca por causa do quase estrangulamento.

Ela chega à beira do barranco e não enxerga nada, só percebe que existe um imenso breu. Apalpa as roupas à procura do celular; aciona a lanterna e começa a buscar na escuridão.

“Adrien?!”

Ela consegue gritar mais forte agora. Vira-se de costas para o declive e começa a tentar descer a encosta, tomando o cuidado com as pedras escorregadias. É uma descida acentuada, mas não totalmente inclinada. Talvez ele tivesse apenas rolado um pouco. Ela usa uma das mãos pra se segurar nas raízes da vegetação à medida que desce, e com a outra tenta iluminar cada área, à procura de Cat Noir. Fica nessa tentativa frenética de encontrá-lo. Quanto mais demora a achá-lo, mais desespero ela sente. Por fim, depois de um tempo que pra ela é eterno, seus pés batem num chão plano cheio de mato. As mãos estão cortadas, mas ela não sente as dores que deveria estar sentindo, pois a adrenalina e o desespero controlam seu corpo.

Ela anda de um lado pro outro, até que a luz do celular bate em uma mancha mais escura num amontoado de folhas secas. Sangue. Ela se aproxima e tenta encontrar algum tipo de rastro mas não consegue achar nada. Em desespero ela se ajoelha próxima ao sangue e agarra as folhas, numa tentativa de segurá-lo com ela. Nesse momento ela vê um pequeno brilho no meio da folhagem. Um brinco vermelho. Seu miraculous.

Ela o pega e enfia-o na orelha. No mesmo instante surge Tikki, que estava em algum lugar desconhecido desde o momento em que Adrien se apossara de seu brinco. Marinette chora quando a vê, mas não tem tempo a perder.

“Tikki… me ajude! Transformar!”

Ela é Ladybug novamente. Levanta-se como que renovada pelo poder do miraculous. Começa a fazer a busca pela floresta, madrugada a dentro, atrás de rastros ou qualquer evidência que indicasse onde que ele caira ou pra onde fora. Por fim, exausta, resolve esperar pelo amanhecer. Deita-se ao lado de Tikki, que encontrara alguma fruta silvestre para se alimentar. Ela percebe que não se lembra a última vez que havia comido. Adormece rapidamente para acordar apenas duas horas depois com a luz do dia.

Mais procura, mais insucesso. Seu celular apita avisando que a bateria está quase no fim. O mundo real a chama. Procura o telefone do taxista em seus contatos e liga. É hora de voltar pra casa.

——

Foi difícil explicar aos pais, ou pelo menos inventar uma história convincente, sobre os acontecimentos daquela noite. Ela estava desestabilizada e sabia que aquele papo de “eu caí” não ia colar. Não restou outra escolha senão ser o mais verossímel dentro do possível, dizendo que tinha sido atacada por algum maníaco desconhecido, consequência de ter fugido de casa, num surto rebelde inédito nela, porém comum em adolescentes de sua idade. Essa tinha sido a parte mais difícil, ver a mágoa nos olhos dos pais, tentando entender onde fora parar aquela sua doce, meiga e responsável garotinha.

Sua esperança era que, com algum inquérito em andamento, houvesse uma busca pela floresta que talvez indicasse o paradeiro do seu Adrien, a quem obviamente ela eximiria de qualquer responsabilidade.

“Filha, vamos ter que fazer exame de corpo delito.”

Ela não queria. Não podia permitir que seus pais soubessem dessa maneira que sua filha não era mais virgem. Não pôde contudo escapar da situação.

Ao ser examinada, pediu discrição para a médica, mas esta teve que colocar tudo num laudo. Cada arranhão, as marcas dos galhos nos braços, os vergões roxos em seu pescoço causado pelas garras de Adrien, os cortes no rosto e nas mãos. E quando precisou fazer o exame íntimo, Marinette chorou amargamente de vergonha. Estava definitivamente péssima.

——

Ao mesmo tempo em que Marinette era dissecada num hospital, Adrien era atendido em caráter de emergência em outro hospital, bem longe dali. Estava em Luxemburgo, e chegara ali no helicóptero da família.

A verdade é que Gabriel Agreste, ao acompanhar os planos de Cat Noir, resolvera deixar seu observatório do mal naquela noite. Ele se manteve sempre a alguns passos de distância, espreitando, esperando quando poderia finalmente se apossar dos seus tão desejados miraculous. Quando Adrien despenca morro abaixo, ele o alcança primeiro, e em seus braços o leva para longe dali. Caminha pela floresta até um ponto planejado, onde seu carro o espera.

Coloca o garoto desacordado no banco traseiro e, com muita dificuldade, consegue arrancar-lhe o anel do dedo, desfazendo a transformação. Guarda no bolso o tão desejado artefato e corre para levar o filho a um hospital. A verdade é que nunca quisera fazer-lhe mal. Descobrir que o próprio filho era Cat Noir tinha desestabilizado todos os seus planos tão cuidadosamente traçados. E ele tinha sido o responsável em transformar o próprio filho numa cópia de si.

Fora exatamente assim que surgira Hawk Moth. Um herói contaminado pela dor.

—-

“Você é o meu filho… Adrien. Nós vivemos aqui mesmo, em Luxemburgo. Você estava fazendo uma trilha quando se perdeu do seu grupo. O encontramos numa busca, estava machucado. Trouxemos você aqui para o hospital. Está bem agora, em breve iremos pra casa.”

É claro que a família possuia uma casa em Luxembrugo. Isso não vinha ao caso. A questão é que como ele não se lembrava de nada, os planos que Gabriel tinha de encarcerá-lo poderiam ser adiados.

Adrien levou vários pontos na curva da cintura, onde fora atingido. Teve também deslocamento da cravícula, costelas quebradas e torção no pulso. Nada que repouso, imobilização e analgésicos não curassem depois de um tempo. O que não poderia ser remediado era o seu passado, que desaparecera como fumaça. Mas, pensando bem, que vantagem haveria em se lembrar?

UM ANO DEPOIS

Adrien estuda numa escola em Kirchberg, ao mesmo tempo em que seu pai que trabalha com moda o mantém “guardado”. Fora um ano inteiro sem se lembrar de amigos, relacionamentos, conquistas. Seu horário é cuidadosamente gerenciado para que não sobre tempo livre entre os estudos, natação, esgrima, arte, lingua estrangeira e luta. Só lhe sobra tempo pra fazer as tarefas e dormir. Foi assim que Gabriel conseguiu mantê-lo longe de qualquer coisa que pudesse conectá-lo ao seu passado.

Mas, tudo o que se faz escondido, uma hora é revelado à luz do dia. Adrien constantemente tem seus sonhos invadidos por mãos carinhosas que o tocam, intimamente. Foram várias as vezes em que ele acordou suado e assustado, com memórias de cor rubra, geralmente premiado pelo constrangimento das ejaculações noturnas, ocasionadas por alguma garota de olhos azuis.

Numa tarde num fim de semana Adrien está caminhando pelos corredores da residência em que vivem ele, o pai, uma secretária taciturna, um motorista guarda-costas calado e mais alguns serviçais. Tanta gente pra atender duas pessoas… bizarro. Ele passa por uma porta entreaberta e, sem entender muito o porquê, resolve entrar no recinto. É o escritório do seu pai.

Caminha até a estante e fica observando as lombadas dos livros. Havia livros de tudo quanto é assunto ali, enfileirados meticulosamente respeintando a ordem dos autores. Fica distraído com as opções e resolve pegar um. Folheia por um tempo e quando vai devolvê-lo ao lugar, vê um objeto brilhante na prateleira de cima, quase que escondido. Ele o pega.

Um anel.

Adrien fica rodando a jóia entre os dedos, sentindo uma forte atração pelo objeto. Num impulso ele o enfia no anelar direito. O anel começa a se aquecer e escurecer. Assustado ele tenta removê-lo mas algo começa a formigar a partir da jóia para o seu braço, e depois por todo o seu corpo. Cai de joelhos e vê uma segunda pele escura subir por seus braços e pernas. Que diabos era aquilo?

Quando a indumentária se fecha em seu tórax, ele é acometido por uma avalanche de imagens. Chuva, dor, lua, árvores, vermelho, olhos profundamente azuis, lágrimas, sangue…A força das lembranças tira-lhe o equilíbrio, e ele cai sobre a mesa, derrubando vários objetos. Logo está no chão, de joelhos, mãos trêmulas, fronte gotejada de suor.

“MyLady…”

Notas finais
... ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!