Juventude Transviada

19 Capítulo 19 - Katrina


Notas iniciais
Estamos chegando ao fim dessa geração e eu to bem triste Trilha: Hollow Moon Bad Wolf (Awolnation) https://www.youtube.com/watch?v=i2PsXT88UeU

Katrina não sabia porque Lucas havia ficado tão furioso.

Achava que ele já havia se acostumado com tudo o que as pessoas realmente achavam dele. Porque todos pensavam assim. Todos achavam ele confuso, exagerado, dramático. Sempre sentia demais, sentia por todos. Todo mundo sabia disso.

Não sabiam?

É claro que sabiam.

Katrina abriu o portão de sua casa. Bruno, Sarah e Jean entraram. Quando Katrina abriu a porta da sala, revelando um ambiente bagunçado, os três se jogaram no sofá lado a lado e não disseram nada.

-- Caramba, que empolgação – Katrina disse. Ligou seu aparelho de rádio e Anaconda começou a tocar. Ela deu risada e começou a dançar. Os três olharam pra ela e, por um momento, ela se sentiu absolutamente patética, ali, movendo seu corpo gordo de um lado para o outro.

Shh, ela silenciou a voz em sua cabeça. Não poderia se deixar ter aquela baixa autoestima. Parecia Mariane quando fazia aquilo.

-- Vamos chamar os outros – Katrina disse.

-- Os outros estão de castigo ou ocupados – Jean disse. Katrina revirou os olhos.

-- Se eu consigo pular um muro, eles conseguem.

-- Pensei que o muro quebraria – Bruno comentou. Jean e Sarah riram. Katrina deu uma risada sem graça, mas, na verdade, estava meio magoada.

-- Será que a Thau vai voltar? – Katrina perguntou.

-- Não importa – Sarah suspirou. – Eu prefiro ir embora – ela se levantou.

-- Eu vou com você – Jean disse, se levantando também.

-- Isso – Katrina disse. – Vão trepar como se não houvesse amanhã.

-- Cala a porra da sua boca – Sarah disse, pegando sua bolsinha.

-- Você nunca vai conseguir deixar de ser a porra de uma criança!

Sarah fungou e saiu pela porta. Jean franziu o cenho, olhou para Katrina e levantou o dedo do meio. Saiu atrás de Sarah. Katrina bufou.

Talvez eu tenha ido longe demais, ela pensou. Deu de ombros. Olhou para Bruno. Que se foda.

-- Só nós, agora – Katrina se sentou ao lado dele. Ele olhou pra ela bem sério.

-- Nada vai rolar – ele disse.

-- Claro que não. Você rastejaria de volta pra Thau em um instante.

-- Não rastejaria não.

-- Sim, rastejaria – Katrina revirou os olhos. – Não é que ela não goste de você. Ela não gosta de ninguém, não de verdade, sabe? Só que ela beija todo mundo.

-- Ela gosta da Jeana.

-- Não. Ela ficou com pena porque a Jeana é... Bom... Bastante excluída, né? Quer dizer, olha só pra ela.

-- Qual o problema com ela?

-- Além das roupas, da esquisitice e dela ser lésbica?

-- Você é cruel – Bruno tirou um cigarro e um isqueiro do bolso e acendeu um cigarro. Katrina franziu o cenho.

-- Não vai me oferecer?

-- Você nem fuma.

-- A Mariane não fuma, mas vocês oferecem pra ela.

-- Porque ela sabe a hora de calar a boca.

Katrina bufou. Não sabia porque continuava conversando com ele. Nem gostava dele. Talvez ela só soubesse que, se mandasse ele embora, significaria estar completamente sozinha. E era a única coisa que ela não suportava realmente.

-- Vamo no pc? – Katrina perguntou.

-- Pra quê? – Bruno franziu o cenho.

-- Vamo ver uns vídeo ae – Katrina pegou seu celular e abriu o Youtube. – Já viu o novo vídeo do Japa?

-- Você assiste Japa?

-- Você prefere Cristian Figueiredo? Ou Kéfera?

-- Honestamente? Eu prefiro que todos eles morram – Bruno soprou a fumaça. – Eu odeio essa viadagem de youtubers.

-- Eu vou seu uma youtuber!— Katrina quase gritou.

-- Não, não vai.

-- Vou sim.

-- Não vai! Você não tem assunto que preste, você não tem opinião que preste, você é homofóbica e até um pouco racista!

-- Não sou racista! Eu tô falando com você, né?

-- Ah, o Bolsonaro não é preconceituoso. Afinal, ele respira o mesmo ar que os gays, né?

-- Nada a ver – Katrina bufou. – Quando eu for pra São Paulo e virar youtuber, você vai engolir o que você tá dizendo.

-- Você vai ter uma carreira brilhante – Bruno disse. – Como atendente do McDonald’s.

Katrina estava prestes a chorar.

Sim, ela sabia que não ia conseguir ser uma youtuber de sucesso. Sabia que não chegaria aos 1.000 views. Nunca conseguiria ter seu canal patrocinado. Danielle e Sarah de vez em quando faziam vídeos juntas, falavam umas merdas e ganhavam visualizações – mas era diferente. Elas eram bonitas, elas tinham um sorriso lindo. E elas não investiam, não tentavam realmente. Elas faziam por diversão.

Katrina queria tudo. Queria os patrocinadores e o sucesso, queria fãs fazendo fila para tirar foto com ela, queria pessoas pedindo autógrafos em seus livros... Que livros? Ela não conseguia nem escrever certo em seu status do WhatsApp.

Katrina fungou.

-- Ah, qual é – Bruno resmungou. – Não chora agora não, porra. Tá parecendo uma criança.

-- Sai daqui – Katrina disse.

-- Que merda. Não. Eu não faço garotas chorarem. Eu sou um merda, mas eu não faço garotas chorarem. Quem faz isso é o Gabriel, aquela besta.

Katrina deu uma risadinha. É, talvez não fosse tão patética assim.

-- Você tem leite Ninho aqui? – Bruno perguntou, de repente. – Eu necessito de leite Ninho.

-- Acho que tem um pouco no armário debaixo da pia na cozinha – Katrina disse. Bruno se levantou. Katrina ouviu uma madeira batendo e depois, uma exclamação. Bruno surgiu na porta.

-- Você têm brigadeiro em lata! – Bruno disse. Katrina olhou e franziu o cenho.

-- Minha mãe deve ter deixado aí antes de ir – ela deu de ombros. Bruno parecia uma criança que havia acabado de achar a chave de uma loja de brinquedos. Pegou duas colheres e se sentou ao lado de Katrina. Começou a comer o brigadeiro de colher. Estendeu pra ela. Ela deixou sua estupidez de lado e começou a comer.

* * *

Algumas horas depois, quando Bruno foi embora, Katrina se jogou no sofá. Queria mais um pouco de cocaína, mas havia perdido seu saquinho. Tentou se lembrar da calça que usava quando colocara o saquinho no bolso.

Foi até o armário e vasculhou o bolso de todas as suas calças. Achou o saquinho, espalhou o pó em cima da cômoda e passou sua narina. Fungou e ligou o rádio. Fechou os olhos. Deixou a música preencher sua cabeça.

Quando as pessoas iam embora, ela não tinha muito a fazer. Se não fizesse nada, provavelmente começaria a pensar demais. Esse era o erro que as pessoas cometiam, e ela sabia. Ela não se importava em se mover sozinha, em sua própria casa, desde que sua mente estivesse em outro lugar.

Corem dançavam na frente de seus olhos e uma sensação de euforia tomava conta dela. Ela sentia como se pudesse fazer qualquer coisa. Pulou pela casa, na antiga cama dos pais, na sua cama, nos sofás. Correu pelo quintal, pela sala, em volta da antiga lareira nunca ligada, jogou as panelas pelo chão da cozinha e gritava consigo mesma.

Talvez aquela fosse a única maneira dela se sentir viva de alguma maneira.

Notas finais
Eu detesto a Katrina tipo muito
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.