Juventude Transviada
1 Capítulo 1 - Todos
Notas iniciais
Mariane olhou para o garoto de cabelos compridos do outro lado da sala.
Gabriel era um gênio em algumas matérias, um lixo em outras. Na maior parte do tempo, tinha uma cara de quem preferia estar em qualquer lugar menos ali. De repente, ele mudava: um sorriso aberto, batia na carteira enquanto sua risada ecoava pela sala. Metamorfose.
-- Boa tarde – o professor de educação física cumprimentou a sala. Era um homem gordo, de olhos verdes, na faixa dos 40 anos.
“Por que todos os meus professores de educação física são gordos pra porra?” ela se perguntou.
Durante o jogo, seu coração parecia estar saltando pra fora. Caiu de cara no chão duas vezes, chutou a canela da Amanda e a bateria saiu pra fora do celular.
-- Professor – ela chamou. – Posso tirar a camisa do uniforme e ficar de regata? Vai ficar suada.
-- Só dessa vez – o professor disse.
“Só dessa vez o caralho” ela pensou. Tirou a camiseta do colégio e jogou no canto da quadra. Puxou sua regata pra baixo.
Quando a bola veio em sua direção, ela chutou, pisou em falso e caiu de costas.
-- MAS QUE PORRA – berrou. Ouviu risadas, ouviu gritos, ouviu assobios. Apenas se levantou. Não tinha o hábito de se importar. Tinha o hábito de mandar as pessoas se fuderem.
-- Ei, faz um favor? – Amanda pediu. – Vai pro gol.
Mariane queria levantar o dedo para a garota, mas corria o risco do professor ver, então engoliu sua raiva e foi para o gol.
Enquanto a bola não vinha para o seu lado, ela percebeu que Gabriel estava fitando-a. Ela ficou olhando fixamente para ele, até que ele acenou com a cabeça, perguntando: “o quê?”.
Ela voltou seus olhos para o jogo. Conseguiu ver apenas o corpo grande de Katrina caindo no chão da quadra, e ouviu risos.
* * *
Jean sufocou de dar risada quando a garota gorda de cabelos compridos caiu no chão, com a bola enfiada no estômago. Porém, quando ela não levantou, apenas ficou lá, no chão, se contorcendo, de repente não parecia tão engraçado assim.
Mas Jean não parou de rir. Pra ele, o mundo poderia estar desabando, desde que seu computador (cheio de filmes pornôs) estivesse intacto, estava tudo bem.
Todos em volta de Jean pararam de dar risada quando o professor se ajoelhou ao lado da garota. Gabriel semicerrou os olhos e franziu o cenho. Danielle parecia não ligar muito, e, de fato, ela preferia continuar grudada em seu celular.
A garota foi se sentando no chão da quadra devagar, curvada, de cara fechada.
-- Amanda, precisava jogar a bola com tanta força? – o professor perguntou.
-- Não vou pedir desculpas – Amanda disse. – Ela que se enfiou na frente.
-- Ah, cala a porra dessa boca – Mariane disse.
Amanda parecia estupefata. Jean parou de rir.
-- Treta, treta, treta, treta... – ele cruzou os dedos.
-- O que você disse? – Amanda olhou fixamente para Mariane.
-- Você me ouviu – disse Mariane. Não parecia exatamente muito segura de si, mas parecia com raiva. E uma juventude transviada, quando está com raiva, segue seus instintos a risca.
-- Garotas! – cortou o professor. – Deu por hoje! Alguém pegue gelo para essa garota, pelo amor de deus.
Danielle começou a dar risada. Olhou para Caio.
-- Ouviu? – ela disse. – Deu por hoje!
-- Deu por hoje! – Caio repetiu. Ele e Dani ficaram dando risada até que o sinal tocou.
* * *
Katrina odiava ir no banheiro da escola.
Na verdade, ela odiava a escola.
Realmente, ela odiava tudo a sua volta porque não conseguia parar de odiar a si mesma.
Odiava tanto tudo que até se acostumava. Se acostumava a se fechar, a cochichar seus xingamentos em silêncio, a mentir para fugir de seus problemas.
Havia várias pessoas que ela admirava, mas, no geral, realmente pareciam babacas de alguma forma. Odiava o fato de que todas, ou quase todas, fingiam ser o que não eram. Mariane, por exemplo. Em um verão, ela parecia querer se matar de fome. Seus ossos estavam saltados, seu rosto estava fino, sua bunda e seus peitos (que antes chamavam a atenção) pareciam ter evaporado de uma hora para outra. Katrina sabia que Mariane estava sofrendo, mas simplesmente não conseguia parar de achar que a garota era uma vadia estúpida e inconsequente.
E todas aquelas máscaras a sua volta? Davam nos nervos. Sorrisinhos, likes, comentários. Por trás, sabia que todos estavam vivendo apenas como se esperassem que algo emocionante acontecesse em suas vidas.
E quem disse que ela mesma não estava vivendo daquela maneira?
Entrou no banheiro e deu de cara com Anna e Danielle encostadas na parede. Anna, uma garota loura com olhos marrom claros, parecia preocupada. Seus braços estavam sempre cheios de pulseiras e seus olhos carregados de sombra (uma de cada cor, todo dia).
-- Katrina – Anna chamou. Katrina levantou o rosto. Anna quase enfiou seus dedos no rosto de Katrina – Meus dedos estão cheirando as cigarro?
Katrina não tinha ideia se estavam ou não, e não estava nem um pouco a fim de cheirar os dedos de uma garota que mal conhecia. Olhou para Anna fixamente. Era uma garota inteligente, mas simplesmente muito cabeça de vento.
-- Não estão – Katrina respondeu, franzindo o cenho.
Sabia bem o cheiro de cigarro, pois seu pai acordava no meio da madrugada pra fumar. Normalmente, quando Katrina resolvia passar a noite no computador. Toda vez que seu pai se aproximava, ela fechava a aba do Tumblr e fingia que estava vendo vídeos de ciências. Não sabia como seu pai não percebia que ela simplesmente detestava ciências – massa, volume, extensão, tabela periódica... Para que usaria aquilo em sua vida? Queria ser Youtuber. Queria ir para São Paulo, fazer vídeos sobre coisas polêmicas, vídeos em que poderia falar todos os palavrões que bem entendesse, pensando apenas em todos os views que teria.
Tão, tão ingênua.
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