"Frank"
— Por que você simplesmente não consegue manter sua palavra? Por que não consegue ser responsável pelo menos uma vez? — Frank falava com o velho amigo, enchia um copo de água enquanto John o observava, desta vez sem bebidas ou qualquer coisa, estava sentado no sofá, fingindo prestar atenção no que ele falava. — Você não tem mais 28 anos, você tem uma família para cuidar e simplesmente os deixa de lado, não consigo entender.
— Hã? O que você disse mesmo? — Ele ria de maneira seca, coçava a testa que tinha algumas cicatrizes e sorria para Frank rapidamente, mas logo fechou o rosto ao ver o olhar de reprovação deste, conseguiria causar calafrios em qualquer um que fosse com aquela expressão — Parece que você continua com o mesmo bom humor de antes...Sabe, eu tento manter bem aquela família, mas se você vivesse com a Mary vinte e quatro horas por dia iria entender o porque dos meus sumiços. Ela simplesmente exige demais e as crianças, nossa, como eu odeio aquelas crianças, só servem pra me causar mais problema.
— Então é isso? Você odeia os seus filhos e deixa sua esposa se virando sozinha? Isso não é um casamento John, ainda mais se você sai com outras, isso é completamente errado. — Ele o olhava seriamente, com certeza John saía para festas, ele via aquilo se encaixando facilmente com o caráter dele.
— O que você tá querendo dizer? Você realmente acha que eu trairia a Mary? É, assim nós percebemos as pessoas que realmente valem a pena... — John coçava a barba por fazer, preta com alguns pequenos pedaços se tornando grisalhos, limpava o nariz torto e grande antes de olhar fixamente para Frank, aumentando seu tom de voz ao falar. — Eu sou errado, mas não sou esse tipo de cara e se você tivesse se envolvido com alguém de maneira intensa entenderia o que estou dizendo, não vou deixá-la, nunca faria isso, mas não é simples a convivência. Quando você se casar, se é que um dia alguém vai querer passar todo o tempo com você, você vai entender.
— Olha, não quero passar o resto da noite com essas provocações infantis, já somos velhos o suficiente para entender que isso é desnecessário. — John revirava os olhos enquanto ouvia o que Frank dizia, não prestava atenção e fingia estar bocejando, queria deixar bem claro que não se importava. — Mary pediu que eu procurasse por você, mas você simplesmente entrou aqui sem permissão nenhuma e eu não tenho o menor interesse de saber como você fez isso, mas eu quero saber o que você queria com isso, então, por que veio aqui?
— Desde o dia em que eu te conheci eu soube que você era um cara certinho, daqueles que dorme cedo e é organizado, sabe? Eu nunca estive errado, você é praticamente um nerd, você deu sorte de não ter estudado comigo, teria apanhado bastante, o armário seria sua segunda casa. — Ele falava rindo, gargalhava de levar a cabeça para trás, mas logo ficava sério e o encarava, respirando profundamente antes de continuar falando. — Eu procurei você porque quero mudar, eu tenho responsabilidades e blá blá blá, mas eu não tenho nada, não tenho qualificação e nem sei por onde começar. Eu não sou de abaixar a cabeça, você sabe, mas, Frank, você é o único que eu sei que me ajudaria.
— É, talvez eu possa conseguir alguma coisa para você, mas preciso que você haja de uma outra maneira, só assim vou saber que você realmente quer mudar.
— Eu faço o que você quiser, só você falar. — Ele se mostrava determinado demais, dessa vez parecia estar falando sério.
— Você tem que ficar longe da bebida, chega dessas fugas, chega de agressões com sua esposa e com as crianças, você deveria dar amor para elas, não surras e xingamentos. É, eu sei de tudo isso, Oliver sempre me fala o que Guy ouve nas redondezas da sua casa, não tente mentir, assuma seus erros e mude. — Frank falava de maneira dura, olhava seriamente e tentava manter a calma, já fazia muito tempo que não lidava com John, mas sempre foi algo difícil, mesmo nos tempos em que eram melhores amigos, ele sempre sabia como se tornar insuportável.
— Guy, certo? Ele sempre teve uma boca muito grande... — Ele coçava a barba novamente e passava a mão nos cabelos pretos. — Não se preocupe, eu honro a minha palavra, eu vou mudar e vou fazer coisas que vocês não acreditariam sair de mim, vocês irão se surpreender com o que eu posso fazer, acredite.
— Tudo bem, amanhã eu vou procurar algum emprego para você na empresa, algo que você consiga fazer e que ganhe bem. — Ele se mostrava animado com a chance que tinha, enquanto Frank continuava a se manter sério, ainda precisava de mais uma coisa. — Quero que você fique aqui por um tempo, quero ver como você vai agir aqui e acho que eles precisam de um tempo longe de você, você sabe, as crianças.
— Quem você pensa que é pra me impedir de ver meus filhos? — John se levantava da cadeira rapidamente, dava alguns passos em direção a Frank, quase como um animal descontrolado, a raiva visível de alguém que se irritava até com o vento.
— Não estou dizendo que você não vai vê-los, apenas que não vai morar com eles, não achei que fosse ser algo que lhe deixaria aborrecido, mas percebo que és instável. — Frank falava enquanto se dirigia até a geladeira logo atrás de si e pegava uma jarra de suco e colocava em um copo, odiava refrigerante ou qualquer tipo de bebida alcóolica e o tomava rapidamente, logo guardando o copo e ao terminar observava-o e falava calmamente — Acredito que dessa maneira você não seja o mais qualificado para esse emprego.
— Não... Eu...É... — Ele parava de bufar como um touro e tentava se recompor, arrumando a manga da camisa quadriculada e se sentando novamente na cadeira, mudando o olhar para o chão, não era normal vê-lo daquela maneira, arrependido. — Isso não vai acontecer novamente, eu vou ficar aqui, não se preocupe.
Frank encarou-o por alguns segundos, um olhar desconfiado, não conseguia acreditar muito nas palavras dele, mas precisava pensar no que John havia feito anos atrás, havia ajudado-o quando não tinha mais ninguém, afinal, não tinha familiares nem ninguém com quem contar e John estava nessa mesma situação, não negaria ajuda para quem um dia havia estendido a mão em momentos de dificuldade.
— No final do corredor fica o quarto de hóspedes, não é nada demais mas a cama é confortável e tem um bom espaço para as suas coisas, também deve ter algumas roupas nas gavetas, acho que talvez sirvam. — Frank apontava com a cabeça para o corredor enquanto Frank caminhava até o quarto calmamente, estava um pouco sujo, as roupas pareciam estar com ele há alguns dias.
— É, como vocês falam mesmo?... Valeu? Obrigado? Tanto faz... — Conseguia-se ouvir alguns passos no corredor, ecoavam naquele vazio e silêncio quase mortal, mas logo eles eram cortados rapidamente e ouvia-se 3 passos lentos e uma risada após eles, logo, John aparecia novamente, dessa vez com um porta-retrato nas mãos e um sorriso estranho no rosto. — Você ainda tem essa foto? Achei que não gostava de lembrar do passado.
— O que é isso? — Com um puxão rápido e eficaz, ele conseguia pegar o porta-retrato e ver aquela imagem nostálgica. Era uma foto antiga, dez anos atrás haviam tirado uma foto para cada integrante, estavam trajados com suas fantasias ridículas e vergonhosas, John era o líder, ficava no centro, Capitão Estrela Vermelha, era um ex-militar, agressivo em campo e com um uniforme que lembrava o Capitão América, porém com o vermelho sangue na estrela do peito. Do lado esquerdo estava Mary-Lynn ou Solar, seu uniforme roxo com detalhes em preto, usava uma máscara simples da mesma cor e sempre com um sorriso no rosto, um que agora era raro, perto dela estava Lewis, que naquela época ainda atendia como Ajudante, o uniforme era branco e azul escuro, tentava parecer sério na foto, mas era o mais franzino e jovem dali. Do outro lado de John, que tinha um sorriso maquiavélico, estava ele mesmo, Frank vestia seu uniforme azul escuro e usava um bigode falso, era o mais alto dali, sério, mas calmo, ao contrário do resto não fazia nenhuma pose, apenas estava ali, estático, e por fim, Samuel ou Silêncio, era o herói mudo, negro e o mais corajoso deles, com toda a certeza, o uniforme era todo preto, apenas o rosto era coberto por uma tinta branca, ele sorria de maneira envergonhada, todos estavam felizes, bons tempos.
— É... Tempos que não voltam mais... Eu ainda lembro das vezes que tivemos que sair correndo dos policiais, quando a escada de emergência quebrou e caímos na caçamba de lixo, ficamos cheirando a chorume por dois dias. — Ele ria, com certa saudade talvez, enquanto Frank não esboçava muita emoção. — Ainda não entendo como você pôde querer abandonar tudo aquilo... Ainda não consigo entender como eu pude seguir Mary e viver essa vida, todo dia sentado em um cubículo pra ganhar quase nada, mas algo me diz que tudo isso vai mudar, sabe? É um pressentimento.
— Foram nossas decisões John, não tem como voltarmos atrás, faz parte da vida. Siga em frente, pare de chorar por causa do passado, os garotos fazem um trabalho tão bom quanto o nosso antigamente, Oliver é um líder tão bom quanto você era. — Olhava para a foto sem muito interesse e logo a virava para outro lado, aquilo havia passado, não tinha vontade de voltar para aquela vida, tinha uma carreira agora e não podia simplesmente abandonar tudo.
— Não é questão de fazerem um trabalho bom, é a falta de emoção que temos hoje... Você não sente falta da adrenalina? Eu sinto falta até dos socos que levava, coronhadas e as facadas de raspão, as pedras que jogavam em nós, o peso dos extintores de incêndio que eu usava pra bater naqueles ladrõeszinhos, o som das escadas de incêndio enquanto fugíamos... Tudo isso faz falta, hoje eu só tenho as cicatrizes pra mostrar. — Ele falava com certa raiva, arrependimento e esperança, naquele momento, Frank tinha certeza de que ele daria tudo para voltar aos seus dias de glória.
— Acabou, John. — Dois tapinhas no ombro dele eram o bastante, Frank se dirigia até seu quarto, abandonando o antigo parceiro ali, de pé na cozinha lamentando as escolhas que havia feito, talvez se ele tivesse se mantido como um protetor Mary iria abandoná-lo, talvez assim poderiam ser felizes, mas não foi o que aconteceu, os amantes seguiram caminhos completamente opostos.
O quarto era grande, uma cama de casal grande e cinza, os lençóis eram de seda e estavam colocados perfeitamente na cama, a vista da cidade chegava em seu quarto, com as janelas grandes no lugar da parede, observava as luzes da cidade que começava a viver novamente. Colocava seu casaco perfeitamente no criado mudo, próximo dos livros de auto-ajuda que tinha e do óculos para a leitura, retirava os sapatos e os colocava próximos do tapete do quarto e enfim fechava a porta, trancando-a. Frank respirava fundo antes de se despir, abria a porta do guarda roupa com fundo falso, onde guardava seu antigo traje, arrumava suas roupas que usaria no dia seguinte, no espelho do quarto conseguia ver as várias marcas que ficaram em seu corpo, todos tinham cicatrizes e ele havia quebrado vários ossos em 5 anos, mais do que esperava. O celular vibrava em cima do criado-mudo, fazendo com que ganhasse a atenção dele, que se dirigia com passos curtos e pacientes, apenas para ver 8 chamadas perdidas e algumas mensagens, poderia ter se dado o luxo de nada responder, mas enfim respondia a as vezes dramática, Rose, uma mensagem simples, "Amanhã falo com você" e em seguida desligou o celular, deixando-o em cima da pilha de roupas.
Deitado na cama ele observava o teto, respirava fundo tentando relaxar, era muita informação para uma noite só, revirava-se a cada 20 segundos, a cabeça cheia de pensamentos e questionamentos, se perguntava se estava fazendo o certo ou se simplesmente deveria abandoná-los para a própria sorte, só eram mais problemas desnecessários... Mas ele não faria aquilo, não teria a frieza necessária.
Quando fechava os olhos parecia que as memórias o assombravam novamente, conseguia se imaginar novamente no beco que revirou sua vida de cabeça para baixo.
A chuva tomava conta dos céus de Griffith City, os ráios cortavam o céu roxo cheio de nuvens, era madrugada, duas horas da manhã, Frank estava cansado e o uniforme completamente sujo de lama e encharcado, correr pelas ruas e ter que se jogar em cima dos ladrões que corriam não era uma tarefa muito fácil, mas a recompensa fazia com que valesse a pena. As sirenes dos carros que rondavam aquela área faziam sua cabeça doer um pouco, ele se encostava na parede e colocava as mãos nos joelhos, olhando para os lados, exausto. Algumas pessoas andavam pela calçada com as roupas de chuva, provavelmente os adolescentes que saíam precocemente das festas por conta do abuso com o álcool, ele nunca foi de beber, ao contrário do seu melhor amigo que era um beberrão. Ao olhar para o outro lado, Lewis vinha andando com o uniforme antes branco agora marrom, um sorriso no rosto enquanto arrumava os cabelos castanhos, jogando os para trás e se aproximando de Frank.
— Parece que hoje a noite rendeu... Quantos você capturou? Eu peguei 7. — Lewis arrumava a máscara que caía por conta da chuva e tinha no rosto um sorriso confiante e levemente arrogante, queria ser o melhor deles, trabalhar em grupo para ele não significava muita coisa, sempre quis se sobressair.
— 10. — Estava sério, enquanto a decepção e vergonha era visível no rosto do parceiro magricelo.
— Tanto faz, não é? O importante é que somos um grupo e fazemos bem pra essa cidade. — Ele falava, se afastando um pouco do mesmo, olhando para onde vinha o barulho das sirenes dos carros. — Então Frankie, posso te chamar assim? Eu tenho uma proposta para você e espero que você colabore comigo.
— Não me chame assim, meu nome é Frank. — O rosto sério e um dos punhos cerrados, odiava apelidos e qualquer gracinha que Lewis fizesse era o bastante para irritá-lo. Ele arrumava o bigode falso que começava a deslizar pelo rosto.
— Então... Frankie. — Um sorriso sarcástico no rosto começava a se formar, enquanto Lewis virava para o mesmo e respirava fundo antes de continuar a falar, sempre gesticulando bastante. — Sabe, o John está velho, não é? Ele e a Mary já tem dois filhos e todo dia as ruas ficam mais perigosas... Ele também não é mais o estrategista de antes, a idade começa a gritar nele, acho até que se ele se descuidar é capaz de distender algum músculo.
— Não brinque comigo, Ajudante. — O olhar sério, Frank tirava as mãos do joelho e ficava com a postura ereta, encarando-o, curiso para saber até onde aquilo levaria. — O que você quer dizer com tudo isso?
— Quero dizer que ele está velho demais pra isso, ele e a Mary, e nós precisamos de sangue novo e de um líder digno desse título... Eu tenho certeza de que me encaixo nisso. — Ele sorria, convencido, enquanto olhava novamente para as sirenes, respirando fundo. — É simples, Frank. Você vai botar isso na cabeça dos dois e vai dizer que eu serei o sucessor da liderança, sabe, eu sou o mais preparado pra isso e eu tenho certeza de que podemos achar gente boa para participar do nosso grupo e como eu sou uma boa pessoa, vou deixar você ter um tempo para fazer eles largarem essa vida, ok?
— Por que você acha que eu faria isso? Você com certeza está enlouquecendo. — A expressão em seu rosto era de confusão, franzia a testa e cerrava os punhos, via um garoto que tinha até certo potencial estar jogando tudo no lixo apenas para querer ser o melhor, tramando contra o próprio líder.
— É simples, você não tem opção. — O olhar era fixo em Frank, ele se afastava um pouco, talvez para a própria segurança, antes de falar ele sorria novamente, dessa vez de orelha a orelha, como uma criança perto de receber a mesada. — Ou você faz isso ou eu digo que você dorme com a Mary desde o primeiro ano que se conheceram. Acho que não vai ser muito legal perder a amizade do John, nem vai ser bacana ver o que vai acontecer com ela e com as crianças... Você sabe como ele é pirado...
— De onde você tirou uma besteira dessas? — O nervosismo era visível, não só na voz quanto na expressão, que fazia com que Lewis gargalhasse e desse alguns passos para trás. Frank não queria nem imaginar o que poderia acontecer, mas não iria tramar contra o próprio amigo. Estava entre a cruz e a espada.
— Eu tenho certeza de que a gente já passou dessa fase de ficar mentindo, só... Só colabora comigo que vai dar tudo certo, aí a gente finge que nada disso aconteceu, só viemos pra cá pra descansar e nada mais. O que acha? — Ainda sorrindo, mas dessa vez se aproximando um pouco dele, ria como se já tivesse ganhado o jogo.
— Você não faria isso... — Ele se negava a aceitar que tinha perdido tudo, como Lewis descobriu? Sempre foram cuidadosos, cuidadosos até demais, não tinham deixado pistas nem haviam falhado em esconder os rastros, como ele descobriu? Apenas essa pergunta estava em sua cabeça.
— Você sabe que eu tenho muito dinheiro, mas se quiser pagar pra ver...
Mais um raio no céu que cortava a conversa, tão forte que havia apagado as luzes do bairro onde estavam, deixando os dois sozinhos naquele beco na escuridão, apenas com o barulho das gotas de chuva que respingavam nas poças e sujavam mais suas roupas. Outro raio caía, iluminando por alguns segundos o rosto sorridente de Lewis, mas também o sério e nervoso de Frank. O bigode falso caía no chão, a máscara que era presa por um fio de nylon também, deixando seu rosto visível, estava com raiva, não iria deixá-lo sair impune, não podia armar contra John, não mais do que havia feito por cinco anos. O punho era cerrado ao mesmo tempo que mais um relâmpago caía do céu, iluminando seu rosto e o de seu parceiro, que percebia o erro que havia cometido, franzino, não tinha chance nenhuma contra os músculos de Frank. Lewis corria para fora do beco, em direção ás sirenes e luzes dos carros, os passos por cima das poças de água eram apressados e desajeitados, o medo foi maior que a vontade de sair dali. No intervalo entre dois raios ele caiu no chão, nervoso, acabou errando o passo e caindo com o queixo na poça de chuva, sujando o uniforme branco e ficando totalmente desprotegido e livre para os ataques de fúria de Frank.
No chão, Lewis colocava as mãos no rosto para tentar não ser atingido, mas não bastaria para pará-lo. Em cima do rapaz, só teve o trabalho de preparar os punhos e socá-lo. Um, dois, três, um, dois três. A sequência continuava por tempos, socos e cotoveladas começavam a desfigurar o rosto do ingênuo rapaz enquanto o sangue escorria pela sua boca e das feridas que se abriam, o nariz quebrado e os lábios estourados. Frank não tinha controle, soltava toda a raiva que tinha ali, socos com o punho direito na bochecha e maxilar, os esquerdos iam na orelha e no braço que ainda tentava proteger o rosto. O uniforme branco antes sujo de terra se tornava vermelho sangue, o vermelho que escorria junto com a água da chuva para os bueiros do beco. Ele gritava de dor e implorava para parar, pedia socorro, este que era abafado pelos raios que caíam no momento certo em qual ele pedia ajuda, merecia aquela surra, mas não aguentava mais. Na cabeça de Frank tudo passava rapidamente, nunca mais poderia ver Mary, teria que se afastar, precisava pensar em como contornar a situação, não sabia o que fazer caso ele descobrisse tudo. Com o tempo, a raiva foi se esvaindo e a adrenalina também, Franklin olhava para Lewis com o olhar sério, não conseguia perceber o que havia feito, não estava acreditando que havia desfigurado-o. Os punhos começavam a arder, estavam roxos e vermelhos com o sangue, começavam a doer, precisava ir pra casa, mas ele olhava novamente para o rosto desfigurado de Lewis, mas dessa vez ele não tinha mais o seu rosto, Frank... Frank se via, estava com o uniforme sujo de sangue e as marcas do soco no rosto e ao olhar novamente para o seu punho e para si mesmo se via diferente, o uniforme era vermelho em si, uma estrela no peito e o reflexo de um rosto que não era o seu.
Ele acordava ofegante, suado por conta do pesadelo que tivera, olhava para a vista da cidade que começava a acordar e desligava o alarme que apitava as cinco da manhã. Frank se levantava da cama rapidamente, acostumado com a rotina monótona, desta vez, pelo menos, tinha assuntos a resolver.
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