Justice League Dark: Immortal Hunter
1 Prólogo
Notas iniciais
Era noite.
A chuva caía violentamente sobre um pequeno vilarejo na Islândia, misturando-se à neve que cobria as ruas e transformando os caminhos de terra em extensas faixas de lama.
Mas já não havia um vilarejo.
A tempestade caía sobre suas ruínas.
As casas que antes eram pequenas e simples agora estavam reduzidas a estruturas negras e fumegantes. Algumas ainda conservavam pequenas chamas, dançando entre paredes quebradas e vigas expostas. Outras haviam perdido partes inteiras de sua estrutura, como se alguma coisa tivesse atravessado seus interiores à força.
Algumas simplesmente haviam desabado.
Havia marcas profundas nas paredes.
Algumas pareciam ter sido deixadas por garras.
Outras eram longas demais.
Fundas demais.
Antinaturais demais.
Uma carroça estava tombada no meio de uma das pequenas estradas. Um dos eixos havia se partido, deixando a estrutura inclinada sobre uma das rodas. Sacos rasgados e os poucos objetos que transportava estavam espalhados pela lama, sendo lentamente cobertos pela água da chuva.
Mais adiante, havia uma igreja.
Ou o que restava dela.
Parte do edifício havia desabado, deixando o interior completamente exposto à tempestade. A porta principal, porém, ainda permanecia presa às dobradiças.
Movia-se lentamente com o vento.
Para frente.
Para trás.
Para frente.
Para trás.
No alto da torre parcialmente destruída, o sino permanecia pendurado de maneira torta.
O vento o fazia balançar.
Até que—
CLANG.
O som atravessou o vilarejo.
Era o único ruído naquele lugar além da chuva, do vento e do ranger ocasional das portas destruídas.
As ruas estavam cobertas de lama, neve, destroços, sangue e corpos.
Dezenas deles.
Homens.
Mulheres.
Crianças.
Nenhum havia tido qualquer chance.
Um homem estava caído de costas próximo a uma pequena fonte de pedra. Os braços permaneciam afastados do corpo, como se tivesse tentado se proteger de alguma coisa que jamais poderia enfrentar.
Uma mulher jazia alguns metros adiante.
Ao lado dela, uma criança permanecia imóvel.
Não era necessário aproximar-se para compreender o que havia acontecido.
A morte havia passado por aquele lugar sem distinguir idade, força ou inocência.
No centro da praça havia uma enorme marca circular queimada no chão.
A terra ao redor estava completamente escurecida.
Pedras haviam sido partidas.
A neve havia derretido.
E, em alguns pontos, a lama ainda soltava pequenas colunas de vapor.
Ali havia acontecido alguma coisa.
Algo que nenhum ser humano deveria ter testemunhado.
Algo que havia deixado uma cicatriz no próprio chão.
Então, em meio àquela cena apocalíptica, alguma coisa se moveu.
Uma massa escura permanecia próxima ao centro da praça.
Não era fumaça.
Não exatamente.
Parecia fumaça, mas possuía densidade demais para ser apenas isso.
Uma névoa negra se contorcia sobre o chão, reunindo-se em espirais que subiam lentamente enquanto a chuva atravessava sua forma sem conseguir dissipá-la.
Por alguns segundos, aquela coisa pareceu resistir.
Tentou permanecer.
Tentou agarrar-se ao mundo físico.
Mas estava perdendo.
A massa começou a se desfazer.
Pequenos fragmentos negros desprenderam-se de sua forma e foram carregados pelo vento.
Primeiro lentamente.
Depois cada vez mais rápido.
Até que a última parte daquela presença se dissolveu no ar.
E, quando desapareceu completamente, restou apenas silêncio.
Um silêncio absoluto.
Atrás daquela fumaça, havia alguém.
Imóvel.
Alto.
Quase dois metros de altura.
Seu corpo era largo e extremamente musculoso, mas não havia nada de humano em sua aparência naquele momento.
Tiras e faixas negras, pesadas e sobrepostas umas às outras, cobriam todo o seu corpo. Envolviam seu torso, seus braços e suas pernas em camadas irregulares, como se fizessem parte de uma vestimenta antiga cuja origem não poderia ser facilmente compreendida.
Uma longa capa negra caía de seus ombros.
Pesada.
Irregular.
As extremidades eram agitadas pela tempestade, abrindo-se ocasionalmente com o vento antes de voltarem a envolver sua silhueta.
O capuz estava erguido.
Junto à máscara, escondia completamente sua cabeça.
Mas os olhos permaneciam visíveis.
E não eram olhos humanos.
Não havia pupilas.
Não havia íris.
Apenas a esclera.
Uma luz azul brilhava onde deveriam existir olhos.
Um azul escuro.
Profundo.
Quase triste.
Quase melancólico.
Duas correntes negras estavam presas aos seus pulsos.
Espessas.
Longas.
Cobertas por pequenos espinhos.
Elas percorriam seus braços, cruzavam seu torso e desapareciam parcialmente sob as camadas de tecido negro antes de voltarem a surgir sobre seus ombros.
Uma delas repousava sobre o chão.
A outra permanecia presa à sua mão esquerda.
Na mão direita, ele segurava uma lâmina escura.
Não refletia a luz das chamas.
Não refletia a luz da lua.
Parecia absorver ambas.
Negra como o próprio vazio.
A arma que havia encerrado a existência daquela coisa.
Por alguns segundos, o homem permaneceu olhando para o lugar onde a entidade havia desaparecido.
Nenhum movimento.
Nenhuma palavra.
A lâmina começou a desaparecer lentamente na escuridão de sua própria capa, como se fosse engolida pelas sombras que cobriam seu corpo.
Então ele se moveu.
Um passo.
A corrente presa ao seu pulso arrastou-se pela lama.
Clink.
Outro passo.
Ele começou a caminhar pela praça.
Não caminhava como alguém que procurava sobreviventes.
Caminhava como alguém que procurava respostas.
Seus olhos azuis percorreram as ruínas.
Cada casa.
Cada corpo.
Cada marca deixada nas paredes.
Cada pedaço de destruição.
Ele analisava tudo.
A forma como as construções haviam sido destruídas.
A direção das marcas.
A posição dos corpos.
O centro da praça.
A marca circular queimada no chão.
Nada parecia escapar à sua atenção.
Ele se aproximou de uma das casas parcialmente destruídas.
Parou.
Observou as marcas na parede.
Passou os dedos sobre uma delas.
Profunda.
Irregular.
Não era de um animal comum.
Ele retirou a mão.
Continuou.
Mais alguns passos.
Então algo chamou sua atenção.
Um pequeno pedaço de tecido estava preso a um galho quebrado, balançando violentamente sob a força do vento.
Ele parou diante dele.
A mão alcançou o tecido.
Puxou-o.
O pedaço se soltou.
Era bege.
Áspero.
De um material diferente das roupas utilizadas pelos habitantes daquele lugar.
Ele virou o tecido entre os dedos.
Observou.
Não pertencia a nenhum dos mortos.
E havia outra coisa.
O tecido não parecia adequado para aquele frio.
Não era o tipo de material que alguém daquela região escolheria para se proteger da neve e das temperaturas extremas.
Era estranho.
Fora de lugar.
E, naquele vilarejo, praticamente tudo que estava fora de lugar poderia significar alguma coisa.
Os olhos azuis permaneceram fixos naquele pequeno pedaço de tecido.
Ele conhecia aquele tipo de tecido.
Conhecia também o corte.
O acabamento.
A maneira como uma peça daquele material costumava ser trabalhada.
Alfaiataria inglesa.
Por alguns segundos, ele permaneceu imóvel.
Não era uma prova.
Poderia ser apenas uma coincidência.
Mas era uma coincidência que merecia ser investigada.
Ele fechou lentamente a mão ao redor do tecido.
Guardou-o.
A chuva continuava caindo.
O sino voltou a balançar no alto da igreja.
CLANG.
O homem ergueu o rosto.
Observou a escuridão além das ruínas.
Quem quer que tivesse causado aquilo não estava mais ali.
Mas havia deixado algo para trás.
Uma pista.
E ele sabia reconhecer uma quando encontrava uma.
Só precisava descobrir até onde aquela pista o levaria.
A figura virou-se.
A capa negra acompanhou o movimento.
As correntes se moveram sobre seu corpo.
E o som metálico voltou a ecoar pelas ruas destruídas enquanto ele começava a deixar o centro do vilarejo.
Clink.
Clink.
Clink.
O caçador havia encontrado sua verdadeira caça.
O clima em Londres estava severo.
Numa rua estreita e mal iluminada, um homem ensanguentado corria sem direção aparente. Seus passos eram desajeitados, quase desesperados, como se ele próprio não soubesse para onde estava indo.
Ele só queria se afastar dali.
O mais rápido possível.
Depois de algumas ruas, finalmente parou sob a luz fraca de um poste.
Apoiou as mãos nos joelhos e respirou profundamente.
Uma.
Duas.
Três vezes.
O peito subia e descia rapidamente.
A camisa estava parcialmente aberta. O casaco estava rasgado em alguns pontos e havia sangue espalhado pelo tecido.
Mas não parecia ser dele.
O homem ergueu lentamente a cabeça.
Era John Constantine.
Seu rosto estava abatido.
Não pelo cansaço.
Pela culpa.
Ele levou a mão ao bolso do casaco e retirou um cigarro amassado.
Colocou-o entre os lábios.
Por alguns segundos, procurou o isqueiro.
Quando finalmente o encontrou, suas mãos ainda tremiam levemente.
Click.
A chama iluminou seu rosto por um instante.
Constantine acendeu o cigarro, tragou profundamente e segurou a fumaça por alguns segundos antes de soltá-la lentamente.
— Tá...
Sua voz saiu baixa.
Ele levou a mão ao outro bolso.
Retirou um pequeno amuleto.
Estava rachado.
Constantine ficou olhando para ele.
O objeto parecia ter perdido completamente a função que deveria possuir.
Ele virou o amuleto entre os dedos.
— Isso foi... inesperado.
Ergueu os olhos para o céu.
A lua aparecia parcialmente entre as nuvens.
Por alguns segundos, ficou em silêncio.
Então fechou os olhos.
As lembranças voltaram.
O ritual.
O momento em que tudo começou a sair do controle.
O erro.
As consequências.
Constantine abriu os olhos novamente.
— Merda...
Tragou o cigarro.
— Puta merda.
Olhou novamente para o amuleto.
— Que diabos... por que aquilo deu errado?
A pergunta ficou suspensa no ar.
Nenhuma resposta veio.
Constantine soltou um suspiro irritado e arremessou o amuleto para longe.
O objeto desapareceu entre as sombras da rua.
Ele permaneceu parado por alguns segundos.
Então começou a caminhar.
Precisava de uma bebida.
Precisava pensar.
E, principalmente, precisava fingir para si mesmo que ainda tinha alguma ideia do que estava fazendo.
O bar não ficava muito longe.
Era um daqueles lugares que Constantine conhecia bem demais.
Entrou sem chamar muita atenção.
Passou os olhos pelo estabelecimento e caminhou diretamente até o balcão.
Antes de se sentar, passou a mão pelo próprio casaco.
Murmurou algumas palavras quase inaudíveis.
Uma pequena distorção percorreu o tecido.
O rasgo desapareceu.
O sangue também.
Em poucos segundos, o casaco parecia novo.
Constantine sentou-se numa cadeira mais afastada.
— Whisky.
O homem atrás do balcão colocou o copo diante dele.
Constantine segurou a bebida e ficou observando o líquido por alguns segundos.
Então tomou um gole.
O gosto amargo desceu pela garganta acompanhado de uma ardência familiar.
Ele apoiou o copo sobre a mesa.
Ficou ali.
Em silêncio.
Minutos passaram.
Constantine encarava o vazio enquanto o cigarro queimava lentamente entre seus dedos.
Até que a porta do bar se abriu.
Uma mulher entrou.
Ela caminhou tranquilamente pelo estabelecimento.
Não demonstrava pressa.
Não precisava.
Havia algo em sua presença que fazia com que as pessoas simplesmente não prestassem atenção nela.
Ela atravessou o bar até chegar à mesa de Constantine.
Parou ao lado dele.
— Você parece abatido, John.
Constantine nem olhou para ela.
— Você sempre diz isso quando me encontra.
A mulher puxou a cadeira ao lado dele.
Sentou-se.
— Porque você sempre parece estar assim.
Só então Constantine virou o rosto.
— Nimue.
Ela sustentou o olhar.
Madame Xanadu.
— Eu não vim aqui para perder tempo.
Constantine deu outra tragada.
— Que pena. Eu estava começando a achar que você tinha vindo me fazer companhia.
Xanadu ignorou o comentário.
— Eu estava lendo as cartas.
Constantine ergueu uma sobrancelha.
— E?
— Seu destino estava estranho.
— Isso é novidade?
— Não.
Ela fez uma breve pausa.
— Primeiro, as cartas indicaram apenas um período de má sorte. Nada que eu já não tenha visto antes em sua vida.
Constantine soltou uma risada curta.
— Então até aí, tudo normal.
— Depois mudou.
O sorriso desapareceu lentamente do rosto dele.
— Mudou como?
Xanadu o observou por alguns segundos antes de responder.
— Morte.
Constantine ficou em silêncio.
Tomou outro gole do whisky.
— Eu já lidei com a morte inúmeras vezes.
— Eu sei.
— E todas as vezes eu escapei.
— Eu sei disso também.
Constantine olhou para ela.
— Então por que essa seria diferente?
Xanadu não respondeu imediatamente.
Seu olhar ficou mais sério.
— Porque não foi apenas uma carta.
Constantine franziu a testa.
— O que quer dizer?
— O destino mudou diante dos meus olhos.
Ela fez uma pequena pausa.
— E havia duas presenças.
Constantine largou o copo.
— Duas?
— Sim.
Xanadu desviou brevemente o olhar, como se tentasse organizar aquilo que havia percebido.
— Não consegui identificar exatamente o que eram. Monstros, entidades... talvez algo completamente diferente.
— E você está me dizendo isso porque...?
— Porque uma delas era muito mais forte do que a outra.
Constantine permaneceu imóvel.
— E?
— A mais forte matou a outra.
O cigarro continuava queimando entre seus dedos.
Constantine não o tragou.
— E isso tem alguma coisa a ver comigo?
Xanadu finalmente voltou a encará-lo.
— Ela está procurando você.
O silêncio entre os dois pareceu durar mais do que deveria.
Constantine olhou para o próprio copo.
Depois para o cigarro.
— Fantástico.
Xanadu se levantou.
— Eu apenas vim avisá-lo.
— Muito gentil da sua parte.
Ela começou a se afastar.
— John.
Ele olhou por cima do ombro.
— Tome cuidado.
Constantine sustentou o olhar dela por alguns segundos.
— Quando você diz isso, normalmente alguém acaba morto.
Xanadu não respondeu.
Apenas continuou caminhando.
Constantine acompanhou sua partida com os olhos.
Quando a porta se fechou atrás dela, ele permaneceu sozinho novamente.
Olhou para o whisky.
Tomou o último gole.
Dessa vez, o gosto parecia mais amargo.
Ele colocou o copo sobre a mesa.
Por alguns segundos, não fez nada.
Então levou a mão ao bolso e sentiu o espaço vazio onde antes estava o amuleto.
Seu olhar mudou.
Talvez aquilo realmente tivesse dado errado.
E, pela primeira vez naquela noite, Constantine começou a considerar a possibilidade de que o problema não tivesse terminado.
Talvez tivesse apenas começado.
Horas mais tarde, o caçador estava diante de Londres.
Já era dia.
A cidade permanecia coberta por um céu cinzento, pesado e nublado. A chuva havia diminuído, mas o frio continuava cortando as ruas.
Ele havia passado as últimas horas procurando.
Alfaiatarias.
Lojas antigas.
Estabelecimentos que ainda trabalhavam com tecidos e cortes tradicionais.
Entrara em praticamente todas as que poderiam ter alguma relação com aquele pedaço de tecido.
Nada.
Nenhuma resposta.
Nenhuma peça que correspondesse àquela fibra.
Mas aquela não era a única maneira de descobrir sua origem.
Ainda havia quem conhecesse aquilo.
Criaturas que viviam nas sombras de Londres.
Criaturas que os humanos jamais perceberiam.
O caçador conhecia Londres.
Não apenas suas ruas.
Conhecia seus becos.
Seus túneis.
Seus lugares abandonados.
Conhecia os cantos onde coisas que não deveriam existir encontravam abrigo.
Conhecia as criaturas que se escondiam pela cidade como ratos tentando fugir do próprio destino.
Mas elas não podiam fugir.
Não dele.
Ele sempre voltava.
E sempre as encontrava.
Pouco antes do entardecer, encontrou o lugar que procurava.
Um bar.
Para olhos humanos, era apenas um estabelecimento velho e mal iluminado.
Algumas pessoas conversavam.
Outras bebiam.
O bartender trabalhava atrás do balcão.
Nada fora do comum.
Mas aqueles não eram olhos humanos.
Através do azul sobrenatural de seu olhar, as ilusões desapareciam.
As formas humanas se desfaziam.
Pele.
Rosto.
Olhos.
Tudo aquilo era apenas uma máscara.
O que existia por baixo era muito diferente.
Ele abriu a porta.
Entrou.
O ambiente inteiro ficou em silêncio.
Uma conversa morreu no meio.
Um copo permaneceu suspenso a poucos centímetros de uma boca.
Uma criatura no fundo do bar lentamente abaixou aquilo que segurava.
Ninguém precisou dizer quem havia entrado.
Aquelas criaturas conheciam as histórias.
Conheciam os avisos.
Conheciam o nome.
Não porque já tivessem encontrado o caçador.
Mas porque algumas lendas não precisavam ser testemunhadas para serem temidas.
Ele caminhou até o balcão.
Sem pressa.
Sem ameaças.
Sem sequer olhar diretamente para os outros presentes.
Parecia apenas mais um homem entrando em um bar.
Parou diante do bartender.
Retirou o pequeno pedaço de tecido.
Colocou-o sobre o balcão.
— Alguém aqui reconhece esse tecido?
Silêncio.
O bartender limpou lentamente os óculos.
Suas mãos tremiam quase imperceptivelmente.
— Informações têm um custo por aqui.
Ele levantou os olhos.
— Mas não somos imbecis a ponto de tentar cobrar alguma coisa do lendário Caçador Imortal.
O caçador permaneceu imóvel.
— Não foi a resposta que eu pedi.
O bartender engoliu em seco.
— Sinto muito, Sr. Argent. Somos criaturas de nível muito baixo. Não sabemos a quem isso pertence.
Uma pausa.
— Gostaria de poder ajudá-lo, mas realmente não sabemos de absolutamente nada.
O caçador ficou olhando para ele.
Por alguns segundos.
Não havia raiva em seus olhos.
Nem irritação.
Apenas certeza.
Ele sabia.
A criatura estava mentindo.
Talvez não soubesse exatamente a quem o tecido pertencia.
Mas sabia alguma coisa.
E aquilo era suficiente.
O bartender abriu a boca para continuar.
Não teve tempo.
Uma sombra se moveu sob a capa do caçador.
A lâmina negra surgiu de dentro da escuridão.
Um único movimento.
Rápido demais para os olhos humanos acompanharem.
A cabeça da criatura deixou o corpo.
Caiu atrás do balcão.
O corpo tombou logo depois.
O bar permaneceu em silêncio.
O caçador guardou a lâmina.
Então olhou para os outros.
— Em parte, o que ele disse era verdade.
Ninguém se moveu.
— Ele não sabia de quem era.
Seus olhos azuis percorreram lentamente o ambiente.
— Mas um de vocês sabe.
Uma criatura tentou alcançar a porta.
Não chegou até ela.
Uma corrente negra disparou pelo ar.
CLANG.
Enrolou-se ao redor de sua perna.
O caçador puxou.
O corpo da criatura atravessou o salão e bateu contra uma mesa com violência.
Madeira se partiu.
Antes que ela pudesse se levantar, ele já estava sobre ela.
Um golpe.
Depois outro.
A criatura tentou assumir sua verdadeira forma.
Seu corpo se deformou.
Braços cresceram.
A mandíbula se abriu além do possível.
Garras surgiram onde antes havia mãos.
O caçador simplesmente desviou.
Uma garra passou diante de seu rosto.
Ele segurou o braço da criatura.
Torção.
CRACK.
A criatura gritou.
Ele a lançou contra a parede.
Outro monstro veio por trás.
As correntes se moveram antes mesmo que ele precisasse olhar.
Uma delas atingiu a criatura no peito e a arrastou pelo chão.
Ela tentou se agarrar ao piso.
Não conseguiu.
O caçador puxou novamente.
A criatura foi arremessada contra o balcão.
Outra saltou sobre ele.
Dessa vez, ele sequer recuou.
A criatura atingiu seu peito.
As faixas negras absorveram parte do impacto.
Ele segurou o monstro pelo pescoço.
Levantou-o do chão.
Os pés da criatura começaram a se debater no ar.
O caçador a observou por alguns segundos.
Então a arremessou contra uma das mesas.
A madeira explodiu sob o impacto.
O restante do bar finalmente entrou em pânico.
As formas humanas desapareceram.
Criaturas de todos os tamanhos surgiram ao mesmo tempo.
Um demônio de pele acinzentada avançou pela esquerda.
Uma criatura semelhante a um lobo saltou do fundo do estabelecimento.
Duas figuras menores tentaram fugir pela porta dos fundos.
Nenhuma chegou até lá.
O caçador avançou.
Não havia hesitação em seus movimentos.
Não havia desperdício.
Cada golpe tinha um propósito.
Uma criatura tentou agarrar seu braço.
Ele desviou e cravou o cotovelo contra seu rosto.
Outra tentou atacá-lo pelas costas.
A corrente atravessou o espaço entre os dois.
CLANG.
O espinho se prendeu ao corpo da criatura.
Um puxão.
O monstro foi arrastado para perto.
A lâmina negra apareceu.
Um movimento curto.
A criatura caiu.
O sangue espalhou-se pelo chão.
Outra veio.
Depois outra.
E outra.
O caçador continuou avançando.
Sem gritar.
Sem provocar.
Sem demonstrar prazer.
Apenas fazia aquilo que havia feito inúmeras vezes antes.
Caçar.
Uma criatura tentou correr para uma janela.
Ele a alcançou antes.
Outra tentou se esconder sob uma mesa.
A corrente a encontrou.
Uma terceira implorou.
Ele sequer respondeu.
Em poucos minutos, o bar havia se transformado em um cenário de destruição.
Mesas quebradas.
Cadeiras espalhadas.
Sangue no chão.
Corpos espalhados por todos os lados.
E, no meio de tudo aquilo, o caçador permanecia de pé.
Intacto.
Silencioso.
Então percebeu um movimento.
Um pequeno goblin estava escondido atrás do balcão.
Tremia tanto que mal conseguia permanecer de pé.
Ele segurava alguma coisa nas mãos.
O caçador caminhou em sua direção.
O goblin levantou os braços.
— ESPERE!
O caçador parou.
O goblin respirava com dificuldade.
Estava aterrorizado.
— Eu sei!
Ele ergueu o objeto.
Um pequeno amuleto.
Rachado.
Os olhos do caçador se estreitaram.
— Constantine!
O nome saiu quase como um grito.
— É dele! Foi ele! Eu juro!
O caçador caminhou lentamente até o goblin.
Agora, olhando ao redor, não havia mais nenhuma criatura viva naquele bar.
Ele parou diante dele.
— Constantine?
O goblin assentiu rapidamente.
— Quem é ele?
— E-eu...
A criatura engoliu em seco.
— Eu não sei tudo...
Os olhos azuis ficaram ainda mais severos.
— Tudo.
O goblin começou a tremer.
— TUDO O QUE EU SEI É QUE ELE TINHA ESSE AMULETO!
O caçador estendeu a mão.
O goblin entregou o objeto imediatamente.
— E-ele estava procurando uma porta!
O caçador ficou imóvel.
— Uma porta?
— Sim!
O goblin praticamente chorava.
— Por favor... estou falando a verdade!
Ele apontou para o amuleto.
— Ele é um mago! Um mago muito conhecido! Constantine! Eu juro!
O caçador não respondeu.
Apenas observou o objeto em sua mão.
Havia um símbolo gravado nele.
Uma triquetra.
Seus olhos permaneceram sobre o desenho.
Ele conhecia aquele símbolo.
Muito bem.
Por um instante, alguma coisa mudou dentro de seu olhar.
Não medo.
Não surpresa.
Reconhecimento.
Mas seu rosto permaneceu completamente imóvel.
O goblin continuava implorando.
— Por favor...
O caçador fechou os dedos ao redor do amuleto.
Então a criatura percebeu algo.
Tarde demais.
A lâmina negra surgiu novamente da escuridão da capa.
Um único movimento.
O goblin caiu.
Silêncio.
A lâmina desapareceu da mesma maneira que havia surgido.
O caçador permaneceu sozinho no meio do bar.
Olhou novamente para o amuleto.
A triquetra permanecia gravada sobre sua superfície rachada.
Ele fechou lentamente a mão.
Uma porta.
Um vilarejo inteiro havia sido destruído.
Dezenas de pessoas haviam morrido.
Uma entidade havia sido libertada.
E tudo aquilo parecia estar relacionado à mesma coisa.
A pergunta escapou de seus pensamentos em voz baixa.
— Por que um vilarejo inteiro precisou ser sacrificado... por uma porta?
Nenhuma resposta veio.
O caçador ergueu os olhos.
Agora sabia o nome de seu alvo.
John Constantine.
E, enquanto deixava o bar para trás, uma certeza permanecia.
Ele não iria parar.
Não até encontrar Constantine.
Não até descobrir o que era aquela porta.
E não até entender por que alguém estava disposto a sacrificar um vilarejo inteiro para encontrá-la.
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