Diana


Peguei o telefone e disquei um número que já tinha salvado mais finais do que eu gostava de admitir.

— Onde podemos nos encontrar?

A resposta veio sem rodeios. Anotei o endereço, enfiei o celular no bolso, peguei as chaves do carro e a bolsa com o tablet. Nada de despedidas. Gente como nós não se despede — apenas muda de cenário.

O trajeto levou vinte minutos. Tempo suficiente para organizar as perguntas, cortar excessos, ensaiar silêncios. Eu não podia me dar ao luxo de ficar exposta, muito menos de transformar aquilo numa conversa longa demais. Conversas longas deixam rastros.

“Será que eu deveria mencionar o Paolo?”, pensei, olhando o semáforo fechar pela terceira vez seguida.

Melhor não. O nome tinha peso. Peso demais. Bastava pronunciá-lo para mudar o humor de uma sala inteira. Se eu quisesse ajuda, esse era exatamente o tipo de palavra que precisava ficar guardada.

Cheguei antes. Sempre chego.

Pedi uma mesa para dois no canto mais discreto do restaurante. O tipo de lugar que se orgulha de não chamar atenção: luz baixa demais para fotos, música neutra demais para memória. Dei uma gorjeta generosa antes mesmo de sentar-me. A garçonete entendeu o recado rápido demais.

Provavelmente achou que era para uns amassos clandestinos. Mal sabia ela que Tony tinha idade para ser meu pai. E, de certo modo, tinha sido exatamente isso durante anos — a versão torta, silenciosa e nada carinhosa da palavra.

Cinco minutos depois, ele cruzou a porta.

Tony caminhava mais devagar do que antes. Não muito, mas o suficiente para denunciar o tempo. Usava o mesmo tipo de casaco neutro de sempre, como se tivesse parado de envelhecer em algum ponto estratégico da vida. Quando me viu, estreitou os olhos para focar. A visão também não era mais a mesma.

Levantei a mão num aceno discreto.

Ele veio até a mesa, sentou-se sem cerimônia e suspirou antes mesmo de falar.

— Olá, Diana.

— Olá, Tony.

Ele me olhou com aquela expressão que misturava cansaço e curiosidade profissional. Nunca conseguia decidir se estava irritado ou apenas resignado.

— Em que posso te ajudar dessa vez? — perguntou. — Mais um caso de algum pobre coitado?

Assenti enquanto levava o copo de refrigerante à boca. A garçonete tinha acabado de trazer. Gelo demais. Sempre gelo demais.

— Por que você ainda aceita esses casos? — ele continuou, sem me dar tempo de responder. — Você podia estar em outro nível. Outro círculo.

— Porque preciso pagar as contas — respondi. — E porque não vou me vender para subir de cargo.

Ele fez um gesto impaciente com a mão.

— Fala baixo, menina. — Olhou em volta, automático. — Não sei por que ainda te ajudo nessas merdas.

Havia afeto na reclamação. Um tipo específico, áspero, que só existe quando alguém já desistiu de te convencer.

— Qual é o nome? — perguntou.

Não respondi em voz alta.

Deslizei o tablet pela mesa, desbloqueado, com os arquivos já abertos. Não era só um nome. Nunca era. Era uma sequência organizada com cuidado: José da Silva no topo, seguido de Henrique Mota, Marcos Teixeira, Laura Pacheco. Datas, clínicas, assinaturas.

Tony nem tocou no tablet de imediato.

Apenas olhou.

O efeito foi imediato.

O maxilar se contraiu primeiro. Depois o olhar endureceu, como se ele tivesse acabado de reconhecer um velho inimigo numa fotografia mal impressa. Ele puxou o tablet para mais perto, passou o dedo pela tela uma vez, depois outra. Leu os nomes devagar demais.

— Não… — murmurou. — Não pode ser coincidência.

— Não é — respondi.

Ele levantou os olhos para mim rápido demais.

— Você está mexendo em coisa grande, Diana.

— Eu sei.

— Não, você não sabe — corrigiu. — Você acha que sabe. Isso é diferente.

Ele voltou ao tablet, agora com menos cuidado. Passou os dedos pelas datas, pelas assinaturas, pelos selos de encerramento.

— Esses nomes… — Ele respirou fundo. — Esses nomes não aparecem juntos por acaso.

— Eles aparecem juntos porque alguém decidiu que deveriam — respondi. — O método é o mesmo. Só muda o discurso.

Tony empurrou o tablet de volta para mim como se estivesse quente demais.

— Você não devia estar vendo isso.

— Mas estou.

Ele passou a mão pelo rosto, um gesto antigo. O tipo de gesto que antecede decisões ruins.

— Esse consórcio… — começou, mas parou. Olhou ao redor de novo. — Você sabe o que acontece com quem insiste em ligar pontos que não deveriam ser ligados.

— Sei — respondi. — Já aconteceu comigo antes.

Ele riu sem humor.

— Pois é. E mesmo assim você continua.

— Porque alguém tem que continuar.

Tony ficou em silêncio por alguns segundos. Tempo demais para alguém que sempre teve respostas prontas.

— O José… — disse por fim. — Esse nome não devia ter chegado até você.

— Chegou porque a viúva não soube aceitar o silêncio.

— Silêncio é um luxo — ele respondeu. — Alguns compram. Outros recebem imposto.

— E outros morrem — completei.

Ele fechou os olhos por um instante. Quando abriu, havia medo ali. Não o medo histérico. O medo informado. O pior tipo.

— Diana… — Ele baixou a voz ainda mais. — Se você seguir com isso, vai queimar pontes que ainda nem sabe que existem.

— Algumas pontes merecem fogo.

— Não quando você ainda está em cima delas.

A garçonete passou perto da mesa. Tony se calou imediatamente. Só voltou a falar quando ela se afastou.

— Esses nomes — ele disse, quase num sussurro — não são só vítimas. São testes.

— Testes de quê?

Ele me encarou, sério agora.

— De até onde dá para ir sem ninguém perceber.

O restaurante continuava funcionando ao redor. Talheres, risadas contidas, música ambiente. A vida seguindo com uma normalidade obscena.

— Você vai me ajudar? — perguntei.

Tony hesitou.

Esse foi o sinal mais claro de que eu estava certa.

— Vou — disse, enfim. — Mas depois disso, você não pode dizer que não foi avisada.

— Nunca digo.

Ele se levantou antes que eu pudesse responder, empurrou o tablet de volta para mim com cuidado exagerado.

— Apaga esse arquivo da sua tela — murmurou. — Agora.

Obedeci.

Tony saiu sem olhar para trás.

Fiquei ali, observando a tela escura refletir meu rosto.

O nervosismo dele tinha respondido mais do que qualquer palavra.

E confirmado o que eu já suspeitava: não era só um método.

Era um sistema testando seus próprios limites.