Diana


Sofia chegou em casa jogando a bolsa no sofá com mais força do que o necessário, como quem descarrega o dia junto com os ombros. O cabelo estava preso de qualquer jeito, a maquiagem intacta demais para quem tinha passado a tarde inteira mentindo profissionalmente.

— Antes que você pergunte — ela disse, largando os sapatos no meio da sala —, sim, eu me sinto uma pessoa horrível.

— Ótimo sinal — respondi. — Pessoas confortáveis demais costumam ser inúteis.

Ela fez uma careta e foi direto para a cozinha, abrindo a geladeira como se esperasse encontrar respostas ali dentro.

— Consegui o nome da clínica — disse, finalmente. — A viúva não só lembrou como fez questão de anotar. Clínica São Rafael. Bairro médio, fachada limpa, recepção cheirando a desinfetante barato e culpa mal resolvida.

Levantei uma sobrancelha.

— E eles falaram?

— Falaram — ela respondeu, pegando água. — Não comigo. Com a versão de mim que apareceu lá.

— Gosto dessa versão.

— Eu também. — Ela tomou um gole longo. — Me identifiquei como vendedora de planos de proteção para idosos. Aqueles superfaturados, cheios de promessa e vazios de cobertura. Disse que estava ampliando a carteira de médicos parceiros.

— Parceiros — repeti. — Palavra bonita para cúmplice.

— Exato. Expliquei que os planos eram direcionados para pessoas sem plano ativo de segurança, mas com histórico médico “instável”. Disse que os médicos receberiam um percentual por indicação de pacientes em potencial.

— E eles morderam?

— Diana… — Sofia sorriu de canto. — Eles praticamente imploraram pelo folder que eu inventei na hora.

Encostei na bancada, cruzando os braços.

— Que tipo de plano?

— Inferior ao Básico — ela respondeu. — Bem inferior. Cobertura mínima, atendimento remoto, zero perícia, zero acompanhamento. Mas vendido como “proteção essencial para a terceira idade”.

— Claro. Essencial para quem vende.

— Um dos médicos — ela continuou — até comentou que era uma boa alternativa para pacientes “difíceis”. Gente que faz pergunta demais. Que insiste em exame. Que quer segunda opinião.

Senti o estômago revirar.

— José da Silva fazia acompanhamento lá?

— Fazia. — Sofia assentiu. — Consulta regular. Pressão, insônia, estresse. Nada fora do comum. O nome dele estava no sistema. E sabe o que mais?

— O quê?

— O médico que assinou o laudo do hospital aparece como prestador associado da clínica. Não oficialmente, claro. Mas o nome circula. Bastante.

Sorri. Agora sim.

— Você flertou com quantos médicos?

— Dois. — Ela deu de ombros. — Um clínico geral e um coordenador administrativo. O clínico me passou mais informação. O outro pediu porcentagem maior.

— Profissionalismo seletivo — comentei.

— Ah, e mais uma coisa — ela acrescentou, já indo para o quarto. — Eles têm uma lista de pacientes “recomendáveis”. Pessoas que, segundo eles, “precisam de soluções mais definitivas”.

A casa ficou em silêncio por um segundo.

— Sofia — chamei.

— Oi?

— Nunca mais diga isso como se fosse normal.

Ela apareceu na porta, séria agora.

— Eu sei. Não é.

Olhei para o arquivo aberto sobre a mesa. José da Silva tinha entrado naquele sistema muito antes de morrer.

— Obrigada, Sossô.

Ela sorriu de leve.

— De nada. Mas da próxima vez, você vai comigo. Flertar cansa.

Não respondi. Já estava ocupada demais ligando pontos que alguém acreditou que ninguém fosse ligar.