Justiça por assinatura
7 Capítulo 6
Diana
Cheguei ao balcão virtual às nove em ponto, como manda o manual de boas maneiras para quem quer ser ignorada com eficiência. Nada de atalhos, nada de favores, nada de improviso. Segui o ritual exatamente como o sistema gosta: educada, paciente e com todos os formulários preenchidos até o último campo obrigatório.
Nome do solicitante: Diana Azevedo.
Categoria: Investigadora Autônoma – Licença C.
Motivo: Solicitação de contraprova toxicológica, laudo complementar e acesso ao histórico médico do falecido José da Silva, incluindo identificação do médico prescritor do medicamento supostamente ingerido em excesso.
Enviei.
A tela piscou. Carregou. Pensou. Me julgou em silêncio.
— Sinto muito, mas não posso te ajudar — disse a atendente do outro lado da videochamada, com um sorriso treinado para parecer humano.
Ela não parecia ter mais de trinta anos. Fundo neutro, iluminação perfeita, voz calma demais para alguém que trabalha com morte alheia o dia inteiro.
— Ótimo — respondi. — Não estou pedindo ajuda. Estou solicitando documentos.
O sorriso vacilou por meio segundo. Pequena vitória pessoal.
— Essa solicitação não é feita aqui.
— Claro que não é — pensei. Nada nunca é feito no lugar certo. — Pode me informar onde é feita?
— A senhora precisa agendar um atendimento específico para esse tipo de demanda.
— Entendo. — Eu não entendia, mas fingir é uma habilidade útil. — E esse agendamento é feito…?
— Online.
Respirei fundo. Contei até três. Evitei contar até dez, porque isso sempre termina mal.
— Certo. Depois do atendimento, posso solicitar a contraprova e o laudo complementar?
— Após o atendimento, a senhora poderá abrir uma solicitação para análise da viabilidade do pedido.
A viabilidade do pedido. A morte ainda estava sendo avaliada como inconveniente ou apenas cara.
— E o histórico médico?
— Está incluído no mesmo processo.
— E o nome do médico que prescreveu o medicamento?
Ela piscou. Duas vezes.
— Essa informação é sensível.
— Curioso — respondi. — Porque o nome do morto não parece ter sido.
O sorriso voltou, agora um pouco mais rígido.
— Posso verificar as datas disponíveis para o agendamento, senhora?
— Por favor.
Ela digitou. O sistema pensou de novo. Sempre pensa demais quando a resposta é não.
— A próxima data disponível é daqui a três meses.
Três meses. Tempo suficiente para apagar arquivos, reclassificar casos e enterrar perguntas incômodas com honras burocráticas.
— Perfeito — menti. — Anota aí.
Ela hesitou.
— No entanto — acrescentou, como quem oferece sobremesa —, existe a possibilidade de antecipação mediante upgrade de plano.
Claro que existe.
— E quanto custaria essa demonstração súbita de eficiência? — perguntei.
— Apenas quinhentos reais. Com o upgrade, conseguimos uma vaga já para amanhã.
Amanhã. Olha só como o sistema fica ágil quando sente o cheiro de dinheiro.
Sorri. Não por simpatia. Por reconhecimento do inimigo.
— Então deixa eu ver se entendi — falei, mantendo a voz calma. — Para confirmar se um homem morreu por negligência própria ou por algo… diferente, eu preciso esperar três meses. Mas se eu pagar quinhentos reais, a verdade fica disponível amanhã.
— Não colocaria nesses termos — ela respondeu rápido demais.
— Eu colocaria — pensei. — Mas tudo bem.
Fingi ponderar, como se quinhentos reais fossem uma decisão moral complexa e não uma taxa de pedágio institucional.
— Vou pensar — disse. — Pode deixar a solicitação registrada.
— Claro. O protocolo será enviado por e-mail.
A tela apagou. Atendimento encerrado com sucesso.
Encostei na cadeira e ri sozinha. Baixo. Sem humor algum.
Não tinham negado meu pedido. Tinham feito algo muito mais elegante.
Tinham colocado preço nele.
E isso me dizia tudo o que eu precisava saber.
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