Justiça por assinatura
6 Capítulo 5
Diana
Entrei na garagem do prédio aliviada por ter sobrevivido ao trânsito — o que, naquele horário, já contava como vitória pessoal. Subi para o apartamento com o arquivo do caso debaixo do braço, como quem carrega algo que ainda não decidiu se vai abrir. Enquanto esperava o elevador chegar ao meu andar, comecei a folhear as páginas sem atenção real, mais por vício do que por interesse.
Foi aí que escapei uma risada curta. Seca. Daquelas que não pedem companhia.
Até então eu não tinha lido o nome do homem.
José da Silva.
Fechei o arquivo por um segundo, encostei a cabeça na parede fria do elevador e suspirei. Não por cansaço — isso já vinha de fábrica —, mas pela previsibilidade cruel das coisas. José da Silva não era um nome. Era uma categoria. Um destino estatístico. Um corpo previamente arquivado.
José da Silva era o tipo de nome que não gera comoção, não rende manchete e não justifica coletiva de imprensa. É o nome que cabe perfeitamente em gráficos de pizza e tabelas de incidência. O nome que o sistema aprende a ignorar sem nem precisar se esforçar.
Abri o arquivo de novo.
No laudo, ele aparecia como Silva, J. Em alguns trechos, só o indivíduo. Nenhuma menção a hobbies, rotina, vícios ou manias irritantes — essas só aparecem quando a vítima vale alguma coisa além do CPF. José da Silva era funcionário público, nível baixo, setor intermediário, salário compatível com sobrevivência e sonhos modestos. Morava longe do trabalho. Pegava transporte coletivo. Tinha histórico de pontualidade exemplar e zero registros disciplinares.
Em outras palavras: invisível.
O elevador deu um tranco leve ao parar. As portas se abriram e eu caminhei até o apartamento ainda pensando nisso. Quantos Josés da Silva eu já tinha visto passarem pela minha mesa? Quantos tinham morrido por negligência, azar, erro próprio ou qualquer outro rótulo conveniente que evitasse perguntas caras?
Destranquei a porta, joguei a bolsa no sofá e larguei o arquivo sobre a mesa da cozinha. José da Silva não tinha plano ativo, não tinha advogado de renome, não tinha sobrenome composto nem contatos estratégicos. Tinha apenas uma viúva insistente demais para aceitar a versão oficial.
Sorri de canto.
O sistema odeia esse tipo de pessoa. Não o morto — esse já estava resolvido. Odeia quem se recusa a aceitar que certos nomes nascem para morrer em silêncio.
E, ironicamente, era por isso que eu estava ali.
— Então, como foi o encontro com a viúva? — Sofia perguntou, girando a cadeira do computador na minha direção, com aquele ar de quem já sabia a resposta e só queria confirmar o grau do desastre.
— O de sempre, Sossô.
— Isso não responde nada.
— Responde tudo. Dor organizada, versão oficial bem ensaiada e um laudo bonito demais para ser honesto.
Ela me analisou por alguns segundos, os olhos atentos demais para alguém que finge não se importar.
— E você concorda?
Dei de ombros, largando a pasta sobre a mesa.
— Se eu concordo ou não nunca vem ao caso. O sistema não pede opinião, pede encerramento. Mas… — fiz uma pausa curta — tem alguma coisa esquisita ali.
A imagem do trânsito voltou à minha cabeça. Os nomes surgindo um atrás do outro, como placas mal iluminadas numa estrada ruim.
— Pode puxar uns arquivos de outras mortes suspeitas? — pedi. Eu odiava remexer em casos antigos. Eles sempre voltavam com juros. — Algo está me dizendo que isso não é um episódio isolado.
Sofia já estava virando de volta para o computador.
— Quais?
— Henrique Mota, Marcos Teixeira e Laura Pacheco — disse, tentando lembrar se havia mais algum. Meu cérebro, exausto, decidiu se demitir sem aviso prévio. — Sossô…
— O quê?
— Tem café?
Ela suspirou, sem nem olhar para mim.
— Você sabe que essa quantidade absurda de cafeína que você ingere não é normal, né? Nem remotamente saudável.
— Perfeito — respondi. — Não posso me dar ao luxo de ser normal agora.
Ela levantou e foi até a cozinha enquanto o sistema carregava os primeiros arquivos. A tela começou a se encher de datas, classificações e selos vermelhos de CASO ENCERRADO. Negligência. Erro humano. Falha administrativa.
Peguei a caneca ainda fumegante das mãos dela e tomei o primeiro gole como quem aceita um acordo tácito com o próprio fígado.
Os nomes estavam lá. Diferentes idades, profissões, bairros distintos. O mesmo consórcio. A mesma pressa em concluir. A mesma assinatura no rodapé dos documentos.
Encostei na cadeira, sentindo aquele desconforto familiar se acomodar no peito.
Não era coincidência.
Era método.
E alguém tinha descoberto exatamente como matar sem cometer crime.
Ainda.
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