Sofia

Acordei mais cedo do que a Diana, como de costume. O silêncio da manhã ainda estava intacto, daquele tipo que não exige nada de você. Meditei por alguns minutos, tentando organizar a cabeça antes de vestir outra pele. Infiltrar-se nunca foi algo que eu gostasse. Fingir ser outra pessoa cansa de um jeito diferente — e quase sempre a personagem precisa ser alguém sem escrúpulos, com um passe VIP direto para o inferno.

Mesmo assim, eu sabia fazer. Sempre soube. Melhor do que a Diana, inclusive. Ela não tem paciência para teatrinho. Diz que prefere a verdade nua e crua. Eu prefiro o disfarce bem passado. Funciona mais rápido.

Coloquei o café para coar e fui preparar minha mochila. O básico: bloco de notas, caneta, celular reserva, carteira com documentos falsos e uma confiança ensaiada que só uso quando preciso. Enquanto fechava o zíper, ouvi a Diana se mexendo no quarto. Pelo horário, devia estar ligando para a viúva. Ela sempre resolve as coisas difíceis cedo, como quem quer evitar que o dia crie coragem.

Sentei no sofá com o notebook aberto e voltei a ler sobre a empresa responsável pelos serviços de segurança. Sentinel Prime. Nome forte, promessa vaga. Proteção personalizada, monitoramento contínuo, resposta imediata. Tudo escrito com um cuidado quase carinhoso.

Abri os termos da apólice. Letras pequenas, frases longas, exceções discretas. Li devagar, como quem procura rachaduras numa parede recém-pintada. Precisava memorizar aquilo. Saber quais perguntas fazer — e, principalmente, para quem fazer. Pessoas diferentes dizem coisas diferentes quando acreditam estar falando com alguém do “mesmo nível”.

Meu informante não conhecia minha verdadeira identidade. Para ele, eu era Antonella Castellani. Nome chique sempre abre portas. Carrega expectativa. Pessoas assim não pedem, avaliam. Eu só precisava sustentar isso por algumas horas.

Saí de casa pouco depois. Trocaríamos de carro na saída do bairro, como combinado. A Diana cuida das rotas. Eu cuido dos sorrisos. Cada uma com seu tipo de risco.

O prédio da Sentinel Prime era limpo demais. Vidros impecáveis, entrada ampla, segurança visível mas silenciosa. No térreo, um café integrado ao saguão — ambiente claro, música baixa, cheiro constante de algo recém-desinfetado. Funcionários usavam crachás grandes demais, como se precisassem lembrar o tempo todo quem eram ali dentro.

Cheguei alguns minutos antes. Sempre chego cedo. É uma forma discreta de controle.

Escolhi uma mesa perto da parede, de onde dava para ver a entrada e o balcão. Pedi um café simples. Enquanto esperava, senti um desconforto leve, quase físico. Não era medo. Era a sensação incômoda de estar sendo medida. Um segurança passou por mim duas vezes, lento demais para ser casual.

Meu informante chegou às 10h30 em ponto. Reconheci antes mesmo de olhar direito. Ombros caídos, passos pesados, olheiras mal disfarçadas. Ele parecia cansado demais para alguém que trabalhava num lugar que vendia “proteção”.

— Antonella? — perguntou, baixo.

— Claro — respondi, sorrindo. — Obrigada por vir.

Ele se sentou com cuidado excessivo, como se qualquer movimento errado pudesse chamar atenção. Usava camisa social bem passada, mas o nó da gravata estava frouxo demais para aquele ambiente.

— Trabalho no setor administrativo — disse rápido demais. — Contratos, renovações… essas coisas.

Assenti, tranquila. Não apressei.

— Estou avaliando alguns prestadores — falei. — Houve… inconsistências.

A palavra fez efeito. Ele ajeitou a postura, mas o cansaço não foi embora.

— A Sentinel cresce rápido — comentou. — Às vezes os processos demoram a acompanhar.

Disse isso como quem repete algo aprendido. Logo depois, suspirou sem perceber. Pequeno erro humano.

— Crescer rápido costuma custar caro — respondi. — Para alguém.

Ele desviou o olhar por um segundo.

— A senhora está falando de algum cliente específico?

Fingi pensar. Mexi a colher na xícara sem beber.

— José da Silva — disse, por fim. — Apólice ativa. Encerramento rápido.

O nome, em si, não significava nada para ele. O padrão, sim. Vi quando entendeu. O maxilar travou por um instante.

— Houve outros — disse, mais baixo. — Casos parecidos. Sempre dentro do contrato. Tecnicamente.

— Tecnicamente — repeti.

— Às vezes o serviço é suspenso antes da revisão completa — continuou. — Chamam isso de… otimização de recursos.

Ele falou como quem sabe que a expressão não significa nada. Passou a mão no rosto, cansado.

— E quem decide isso? — perguntei, suave.

Ele hesitou. Olhou em volta. Depois respondeu:

— Não é um setor só. — Pausa. — É uma cadeia. Médicos, analistas, jurídico. Tudo muito bem alinhado.

Alinhado. Palavra confortável. Disse aquilo com um tom quase automático, mas os olhos estavam cansados demais para fingir convicção.

Pagamos a conta sem discutir. Levantei primeiro.

— Agradeço pela conversa — falei. — Foi esclarecedora.

Ele assentiu, aliviado e esgotado ao mesmo tempo. Contradição honesta.

Ao sair do prédio, senti o desconforto voltar. Um dos seguranças me acompanhou com o olhar. Não sorriu. Não fez nada. Apenas observou tempo demais.

Mantive a postura. Caminhei firme até o carro.

Só quando fechei a porta senti o ar voltar aos pulmões. Minhas mãos estavam frias no volante.

Não havia provas ainda. Mas havia direção. E, naquele tipo de caso, isso já era perigoso o suficiente.

Antes de ligar o motor, respirei fundo. Pensei na Diana, na viúva, no José. Pensei que talvez ainda houvesse tempo.

Esperança não é ingenuidade.

É escolha.

E eu ainda escolhia acreditar que aquela história podia terminar diferente.