Diana

Acordei decidida a resolver uma pendência logo cedo. Não era coragem. Era falta de opção.

Liguei para a viúva antes das nove. Pessoas como ela ainda acreditam que problemas graves respeitam horário comercial. O telefone tocou três vezes antes de ser atendido.

— Dona Consuelo — disse, sem rodeios. — O José deixou algum computador, caderno, pasta… qualquer coisa que não tenha ido parar oficialmente nas mãos dos investigadores?

Houve um silêncio do outro lado. Não longo. Mas pesado.

— Eu escondi pouca coisa — ela respondeu por fim. — Demorei pra perceber que eles não estavam investigando nada… só recolhendo. Mas ainda ficaram algumas pastas. E o notebook antigo. Eles levaram só o novo. Achei que era procedimento.

Procedimento. Sempre essa palavra.

— Tem mais alguma coisa? — perguntei.

— Acho que sim… alguns pen drives. Não sei do que se trata. Nunca mexi nisso. — A voz dela falhou. — Eu devia ter desconfiado antes.

— Não devia — respondi, automática. — Você confiou. Isso não é erro. É o que esperam que as pessoas façam.

Ela respirou fundo.

— Diana… você vai me ajudar, não vai? — disse, de repente. — Você não vai pegar isso tudo e sumir, né?

A pergunta veio crua. Sem rodeios. Sem verniz.

— Dona Consuelo — respondi, firme —, eu prometo que vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance.

A promessa não era só para ela. Era para mim.

Desliguei.

Não podia julgá-la por desconfiar. Nem a polícia era confiável. Por que eu seria?

Sofia já estava pronta para sair quando cheguei à sala. Mochila no ombro, celular no silencioso, aquela concentração específica que ela só assumia quando sabia que o risco tinha passado do aceitável.

— Vamos em dois carros — falei. — Eu vou até a casa da viúva. Você encontra seu informante.

— E depois a gente troca — ela completou.

Assenti. O meu carro já tinha circulado demais. Endereço demais. Olhos demais.

— Qualquer sinal de confusão — acrescentei, encarando-a com seriedade —, você aborta e vai para um lugar seguro. Sem heroísmo.

— Eu sei — ela respondeu. — Não é minha primeira vez fazendo isso.

Era verdade. Mas era a primeira vez que eu a colocava num jogo dessa magnitude.

— Ok — disse, porque não havia mais nada a dizer.

Saí torcendo para que tudo desse certo. Para nós duas.


A casa da viúva ficava numa rua tranquila demais para alguém que tinha acabado de perder o marido. Casas iguais, muros baixos, plantas cuidadas. Um bairro onde o tempo parecia andar mais devagar por acordo coletivo.

Estacionei a uma quadra de distância. Costume antigo.

Dona Consuelo abriu a porta antes mesmo de eu tocar a campainha. Estava arrumada demais. Como se tivesse passado a manhã tentando impor ordem a algo que já tinha saído completamente do controle.

— Entra — disse, abrindo espaço.

A sala cheirava a produto de limpeza recente. Limpeza nervosa. A que não remove nada, só mascara.

— Eles vieram três dias depois do enterro — ela começou, antes mesmo de eu perguntar. — Dois homens. Um dizia ser da seguradora, o outro… o outro não dizia nada. Só anotava.

Andei pela casa com cuidado. Não por respeito. Por atenção.

— Disseram que era padrão recolher equipamentos eletrônicos — ela continuou. — Que ajudaria a entender o estado emocional do José.

— E você acreditou.

Ela assentiu, envergonhada.

— Levaram o notebook novo. O celular. Um HD externo. — Engoliu seco. — Não devolveram nada.

— E ninguém nunca devolve — murmurei.

Ela me levou até um pequeno quarto que servia de depósito. Caixas empilhadas, roupas antigas, papéis que nunca tinham encontrado um destino definitivo.

— É isso — disse, apontando para uma caixa de papelão simples, escondida atrás de um ventilador quebrado.

Ajoelhei-me e abri.

Pastas de papel. Anotações à mão. Receitas médicas. Extratos. Protocolos impressos. Um notebook antigo, grosso, com a carcaça arranhada. E três pen drives sem identificação.

Coisa demais para alguém que “não tinha nada de errado”.

— Ele começou a anotar tudo depois que aquele plano de segurança entrou em vigor — ela disse, observando de longe. — Disse que era só pra se organizar melhor.

Plano de segurança.

Guardei a informação.

— Eles mexeram aqui? — perguntei.

— Não. — Ela balançou a cabeça. — Esse quarto eu tranquei. Disse que era bagunça minha.

Bagunça. Outro luxo.

Fechei a caixa com cuidado.

— Dona Consuelo — falei, levantando —, isso aqui é importante. Muito mais do que eles gostariam.

— Isso prova alguma coisa?

Olhei para ela.

— Prova que o José desconfiava. E que alguém se deu ao trabalho de impedir que isso viesse à tona.

Ela sentou-se devagar no sofá, como se aquela constatação tivesse peso físico.

— Eles podem voltar? — perguntou.

— Podem — respondi. — Mas agora vão encontrar menos do que antes.

Levei a caixa comigo.

Ao sair da casa, senti aquela sensação familiar. Não era medo. Era confirmação.

Não tinham levado tudo porque não sabiam exatamente o que procurar.

Ainda.

Entrei no carro e fui até o porta-malas.

A caixa pesava mais do que eu esperava. Não pelo tamanho, mas pelo conteúdo acumulado — papel demais, memória demais. Apoiei-a no chão por um segundo antes de erguer de novo. Ao colocá-la no porta-malas, ouvi o barulho seco dos pen drives batendo entre si, um som curto, plástico, quase insignificante.

O encaixe não foi perfeito. Precisei empurrar a caixa um pouco mais para o fundo, forçando o espaço entre o estepe e uma mochila antiga. A tampa fechou só na segunda tentativa.

Fiquei alguns segundos com a mão apoiada no metal, sentindo a vibração do carro ainda desligado.

José da Silva tinha tentado deixar rastros.

Agora, eles pesavam.