Justiça

2 Capítulo II - Decisão


Notas iniciais
Rodada 2, tema "Borbulhante ".

O Capitão Cardoso abriu a gaveta de sua mesa e puxou de dentro uma pasta, deixou na minha frente e se levantou. Assim que o fez notei que o homem era um armário. Alto e forte, nem parecia que beirava já os cinquenta anos. Sua presença era imponente. Foi conflitante vê-lo ir á cafeteira e servir duas xícaras de café quente e borbulhante. Trouxe-as com cuidado e as apoiou em sua mesa, sentando-se. Fui obrigada a ajeitar minha cadeira, de modo que ficasse mais próxima e, desse modo, não pude esconder o quanto estava nervosa.

— Sinto muito pelo que presenciou. — Disse ao perceber minhas mãos inquietas. — Acredito que deve ter sido a primeira vez.

— Não, senhor. — Rebati.

Ele me olhou, intrigado. Pela forma e rapidez que respondi pareceu temer tirar mais informações, por isso se limitou a ficar calado. Esperei alguma verbalização de seus pensamentos.

— Chamei-a aqui para proíbi-la de investigar qualquer coisa referente ao suicídio.

Fui pega de surpresa. Mesmo que, sim, eu já tenha conversado com uma ou duas pessoas sobre assassinatos disfarçados de suicídio, não esperava que fosse chegar tão rápido ao comando. E de qualquer maneira, em momento algum deixei a entender que abriria um inquérito para o caso. Aprendi que não dá pra confiar em muitos na delegacia.

— Perdão? — Falei forçando uma expressão de desentendimento.

— Não finja que não sabe do que estou falando. O que pretende fazer é perda de tempo e energia. Ele se matou. Não tem o que investigar.

— Sim, senhor. Concordo. — Rebati. — Porém, o discurso dele era completamente incriminatório. O homem pediu para eu fazer justiça por ele. Pode ser um caso de assédio moral, podem tê-lo induzido, instigado...

— Pode parar.

— Senhor, ele me deu um nome. E logo depois se matou. Por que faria isso se não fosse para incriminar o culpado? — Continuei rapidamente. — Na maioria dos caso em que a vítima deixa nomes antes de morrer é para fornecer á polícia...

— Pare! — Disse em tom mais firme. — Respeite essas pessoas que foram mortas, assassinadas. Ele se matou, suicidou. Você não é nenhum ser divino para trazer justiça aos mortos e existem vivos que precisam dela mais que eles. Essa mesma justiça que você jurou dá-los, ou se esqueceu?

— Não, senhor.

Preferia não responder, mas não queria demonstrar que me sentia intimidada. Ele continuou seu discurso.

— O homem era rico, com dezenas de empresas. O prédio da qual ele pulou era dele, na verdade. Morava no Leblon com todas as regalias.

Nada novo. Já esperava que o homem fosse bem resolvido ou rico. Precisava mais que alguns estereótipos para argumentar comigo. Por isso continuei firme.

— Estou colocando você para resolver os trâmites do laudo. Deve recomendar uma assistente social para a família e ajudar na burocracia do IML. — Ordenou-me. — Esses são os dados do morto.

Puxei a pasta e a abri. Nela se encontravam alguns pertences que se encontravam com o morto. Chaves de um carro, algumas notas de real e alguns documentos que provavelmente estavam dentro da carteira. Curiosa, resolvi ler rapidamente e algo me chamou atenção. Seu nome.

Eduardo Diogo Santos Oliveira.

Me assustei e preferi não acreditar, mas infelizmente as peças agora pareciam ter se encaixado. Havia me desesperado por nada.

Na noite anterior havia chorado por horas forçando-me a esquecer o ocorrido. Temi por minha saúde mental e não consegui dormir tentando organizar meus próximos passos, dividida entre conhecer o homem ou deixar a cena se perder no meu esquecimento. Então fui para o trabalho pensativa e disposta a saber os procedimentos para esse tipo de caso. Logo fui impedida de agir, o que me deu mais vontade, para então todas as minhas vagas previsões serem erradas. Porém, só me fez ficar mais encucada, disposta a saber o que estava acontecendo. Não pude parar de pensar em seu nome.

Diogo Oliveira.