Notas iniciais
Acho que estou postando essa fic somente por eu estar triste...

Baseada na música Just take my heart - Mr. Big

“It's late at night and neither one of us is sleeping. I can't imagine living my life after you're gone. Wondering why so many questions have no answers. I keep on searching for the reason why we went wrong…”

Deveria ser uma noite como qualquer outra, mas não era. Uma brisa gelada, vinda de alguma fresta tocava o meu rosto, mas o que me fazia arrepiar é a cena que se desenrola a minha frente.

Como se estivesse preso a uma realidade paralela, observo mais uma roupa sendo posta na mala, que está em cima do que deveria ser nossa cama. Um pronome possessivo no plural que será substituído por outro, no singular.

Um suspiro cansado escapa de mim e sou incapaz de conter. Não consigo entender o porquê a mulher que amo está fazendo as malas para ir embora. Envolta por uma calma fria, ela realmente está decidida a seguir a diante com isso.

— Por que está indo embora? – forço-me a falar. Talvez porque o silêncio esteja me sufocando, talvez por acreditar que isso possa ser um pesadelo no qual, a qualquer instante, vou acordar.

Vejo as mãos que habilmente estão dobrando uma camiseta pararem ao escutar a pergunta proferida por mim.

— Nossa relação é uma fachada há um bom tempo, Lucas – a escuto dizer direta e objetiva, mas com certo ar didático – Não quero mais isso para mim. Não quero mais ficar presa a algo inexistente.

Mais uma vez o silêncio se faz presente, enquanto sinto o olhar dela esperando a próxima pergunta que vou fazer. Engulo meu orgulho antes de perguntar:

— Não podemos tentar?

— Já tentei. Mais vezes do que sou capaz de contar. É fácil para você falar isso, quando não fez nenhum esforço evidente para que possamos continuar dando certo. Estou cansada de esforços unilaterais. E não tente me convencer do contrário. A verdade é uma só: acabou meu amor por você. E não há nada que possa fazer com relação a isso. Não agora, não mais.

Sinto meu corpo doer a cada palavra dita. Como se a dor de ter minha alma dilacerada mais uma vez, transbordasse para meu físico. Nem percebo quando me afasto da janela, me sentando no lado oposto da cama, onde não está ocupado pela mala.

A realidade funciona muitas vezes como um verdadeiro tapa na cara. Não é desta forma que vejo nossa relação. Não foi unilateral. Me doei, me entreguei. Não serei hipócrita ao dizer que fiz tudo o que estava ao meu alcance, pois algumas vezes deixei a desejar. Não sou perfeito. Para mim as coisas estavam bem, eu estava feliz e imaginei que você também estava. Você parecia estar.

Quanto mais penso nisso, percebo que existe a possibilidade sim de que, por minha situação estar cômoda, ter enxergado felicidade onde não existia. Será que fui tão cego assim? Minha mente desesperadamente tenta buscar o momento exato de onde o que sentia por mim começou a deixar de existir. O que aconteceu? O que fiz? O que deixei de fazer? Muitas perguntas e não tenho a capacidade de descobrir a resposta de nenhuma delas. E ter essa percepção de minha ineficiência de obter uma resposta, aumenta mais o aperto em meu coração.

“Where is our yesterday. You and I could use it right now. But if this is goodbye...”

Meus pensamentos são interrompidos pelo barulho da mala, que apenas agora me dou conta de que estava fechada, sendo posta no chão. Quando nossos olhos se encontram, te escuto dizer:

— Sei que agora a pouco fui injusta quando joguei a culpa em você sobre nosso término. Peço desculpas por isso. Um relacionamento é feito de duas pessoas e se não está mais dando certo, também possuo minha parcela de culpa. Falar que não tenho, significaria negar minha responsabilidade. Sei que é triste e que traz sofrimento, mas não dá mais para sermos um casal. Nós dois já passamos por términos em nossas vidas, esse apenas será mais um. Espero que não dificulte as coisas e que fique bem. Outro dia volto para pegar o restante de minhas coisas.

Poderia levar da cama e segurar seu braço. Poderia gritar, discutir, implorar. Extravasar todos os meus piores sentimentos. Agir movido por ira ou orgulho ferido. Entretanto, simplesmente me resignei, te deixando ir. Nenhum de nós dois merecemos esse tipo de desgaste. Se é sua decisão e é irremediável, por respeito, apenas tenho que aceitar sua partida.

Te vejo levar a mala em direção a porta e reparo no balanço de seus cabelos castanhos que vão até a altura dos ombros, contrastando com a cor de sua pele. Penso na forma que você joga o cabelo quando eles te irritam ao tocar o rosto, te incomodando a visão. Do brilho de seus olhos quando em seus lábios sorriem de forma felina, quando em sua mente surge uma ideia interessante. O som de sua risada contagiante de quando está animada ou de seus sorrir contido, ao ficar com vergonha. Seu morder de lábios, algumas vezes resultado de sua ansiedade, até mesmo por tédio. Penso na forma que gesticula, quando está irritada ou agitada. Do encaixe perfeito de seus braços em mim, quando me abraçava. Também penso nas diversas vezes em que senti calma e paz por estar envolto neles.

Nunca imaginei que esses detalhes passariam em minha mente em um momento como este. Honestamente jamais passou em minha cabeça que essa separação poderia acontecer. Pensei sim que nosso relacionamento evoluiria para muito mais.

Escuto a porta do apartamento se fechar e agora o único sentimento que me domina é de querer voltar atrás. Algumas vezes desejamos sinceramente voltar ao passado para consertar seja lá o que pudesse ser consertado. Hoje mais uma vez eu desejei isso, mas é impossível. A porta que há pouco foi fechada e seus passos se afastando daqui demonstram claramente que não é uma decisão passível de mudança. Meu conhecimento de sua personalidade me relembra de que quando toma uma decisão, ela é definitiva. Que já pesou os prós e os contras, colocou tudo na balança, que passou dias e dias pensando para decidir e bancar a decisão. Não importando o quanto doa em você ou em quem for o alvo. E isso significa que isso é um adeus e que te perdi. E a única coisa que talvez me resta, é aceitar.

“Just take my heart when you go. I don't have the need for it anymore. I'll always love you, but you're too hard to hold. Just take my heart when you go…”

A vida muitas vezes é uma vadia. Ouvi uma vez essa frase e não tinha entendido a realidade por trás dela até agora. Você pensa que sua vida está estável, que tem tudo o que deseja para ser feliz e que é uma questão de tempo para realizar todos os seus planos. Mas, sempre tem um maldito mas, tudo muda ao seu redor, o que era certo e sólido, dissolve, desaba, dilui. Te passando a impressão que o seu planejamento não passou de mera ilusão. Por que sim, a vida é uma vadia e vai te fazer questão de te mostrar isso quando estiver em seu momento mais realizado.

Levanto-me da cama e vou até a cozinha e me sirvo de uma boa dose de whisky. Com o copo em mãos, sinto-me perdido por alguns segundos, indeciso de que cômodo da casa devo-me dirigir.

Opto pela sala e vou até o sofá me sentar. Após me acomodar, bebo um generoso gole da bebida que se encontra em meu poder, que até então estava intocada. O gosto amargo desce em minha garganta, me causando um leve desconforto por beber um pouco rápido demais. Encaro o copo que estou segurando e me dou conta de que o aperto com bem mais força do que o necessário para que ele fique firme. Essa indicação faz com que perceba que minha calma está indo embora e que talvez não serei mais capaz de segurar toda a dor que estou sufocando.

Olho mais uma vez para o pedaço de vidro que seguro e por instinto, sinto vontade de jogá-lo com raiva até a parede mais próxima. Como se o impacto e os estilhaços resultante de minha ação fossem o suficiente para extravasar e exorcizar a revolta que cresce em mim. Abandono essa ideia rapidamente, pois destruir coisas seria apenas atestar minha incapacidade de manter o controle. Sem contar que de nada serviria a bagunça que eu faria. Não iria diminuir nenhum pouco todas essas sensações ruins.

Sempre pensei que um dos piores sentimentos do mundo fosse o de revolta, pois ela te consome de tal forma que é difícil controlar e prever. Algumas vezes ela te arrasta para o fundo do poço sem perceber.

Nossa, como estava enganado, e hoje enxergo com mais clareza. O amor destrói e em dimensões bem maiores e catastróficas do que qualquer outro sentimento. O que o torna o pior sentimento existente. E isso não é uma conclusão movida por rejeição ou tristeza, não. É uma percepção fria e crua da realidade. Jamais pensei que chegaria a tamanha revelação em minha vida. Graças a você, que acabou de ir embora, descobri o que nenhum ser humano deveria perceber: o amor destrói. E agora em meu coração, todos os ideais de pureza e beleza que associava a tal sentimento, deixaram de existir. O que acabou de ser destruído em mim, não será recuperado. Meu coração e minha visão bela do mundo se foi junto contigo por aquela porta. Sendo substituída pela visão realista.

“Here we are about to take the final step now. I just can't fool myself, I know there's no turning back. Face to face it's been an endless conversation. But when the love is gone you're left with nothing but talk…”

Meus olhos estão fixos na porta e com isso meus pensamentos vão para quando me chamou, me fez sentar exatamente neste sofá e me disse honestamente que estava decidida em terminar nossa relação. Que foi uma decisão muito bem pensada e que nós dois sofreríamos bastante no começo, entretanto era melhor assim. Sofrer agora para não levar uma situação desgastada mais para frente.

Naquele instante da conversa te encarei. Vi dor e tristeza. Perguntei-me em pensamento como não tinha visto isso antes? Ou será que vi e optei por fingir que não? Entretanto, isso não seria algo que pensaria agora, pois, movido pelo impacto de sua decisão, fiz a pergunta que qualquer um faria em meu lugar: havia outra pessoa?

Você passou a mão em seus olhos, fazendo uma leve massagem, como se respirasse antes de me responder. Como se eu tivesse feito a pergunta mais absurda desse mundo. Quando achou que recuperou seu alto controle, respondeu-me com uma voz sem emoção, de que homens geralmente terminam relacionamentos quando já possuem outras. Mulheres terminam quando as coisas não têm mais conserto e que este era o caso. Não sei se mereci essa resposta dura. Resolvi não insistir, nem contra argumentar, pois não levaria a lugar nenhum.

Não me dou conta de que enquanto repassava a conversa em minha cabeça, deitei-me no sofá. Também não percebi que estava abraçando uma almofada e que chorava. Em outros momentos poderia considerar essa cena patética, mas agora, tudo que eu queria era chorar e tirar de mim todas as lágrimas que segurei, toda a dor que sufoquei, todo o falso controle que mantive.

Sei que seria muita falsidade dizer que não sei viver mais sem você, pois independente do que acontece, sempre sobreviveremos. Sei que agora também não seria sincero se falasse que quero sua felicidade, indiferente se comigo ou com outra pessoa. Pelo menos agora, envolto por lágrimas e irracionalidade, permito-me ser egoísta. Sentir tudo que é bom ou ruim, passar por todas as etapas de uma fossa, afinal é isso que me aguarda nos próximos dias. E não importa quantos anos tenho, talvez a única coisa que a maturidade nos ensina é lidar com as adversidades de forma que seja menos avassaladora. Meu coração já foi destruído, não preciso gerar mais sofrimento em cima de sofrimento.

Todos dizem que sofrimento é algo que nos fortalece, mas qual o preço que temos que pagar por esse fortalecimento? Essas frases feitas me irritam completamente e por isso me dou conta de que meus pensamentos estão seguindo um caminho que é melhor não continuar.

Opto por secar minhas lágrimas e usar a almofada que estava abraçado, para deitar. Não quero pensar no amanhã, nas mudanças que precisarei fazer em minha vida. Hoje a única coisa que quero pensar é que essa situação seja apenas um até logo, mesmo sabendo em meu íntimo, da forma que te conheço, que não será assim. Apenas hoje, quero me iludir acreditando que isso não é definitivo, mesmo sabendo que é sim um adeus.

“I'd give my everything. If only I could turn you around. But if this is goodbye...”

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!