Estava em uma sala escura, a mesma sala escura de sempre. Tudo era grande, eu gritava e gritos finos saiam. Minhas mãos, corpo tudo de uma criança. Era como se eu tivesse voltado no tempo. Quando ele entrou. Gritei mais. Ele me pegou nos braços, me debati mas era fraca demais, ele me jogou no sofá, eu chutei sua cara, ele me deu um tapa, pegou o cinto, me debati mais e mais, meus pulmões queimavam com os gritos.

-CALA A BOCA! -ele gritou, mas continuei gritando, ele me bateu com o cinto. -CALA SUA BOCA AGORA VADIAZINHA DE MERDA!

Comecei a chorar, não tinha mais jeito. Era aquilo de novo, e de novo, e de novo. Vendo que eu não lutava mais ele puxou meu vestido.

Como alguém poderia fazer isso com uma menina de 4 anos?

Era o que eu sempre pensava. Ele abaixou minha calcinha e sussurrou no meu ouvido, me dando vontade de vomitar, ele cheirava a álcool.

-Você sempre sede, não é? Vadiazinha.

****

Acordei com meu grito de agonia. Não sei contar quantas vezes tive aquele sonho.

E todas as vezes eu passava mal.

Bati na porta do Keaton e ele atendeu com cara de sono, mas logo ficou tenso.

-Tio Jorge?

Assenti e ele me guiou ate seu quarto. Deitou do meu lado em sua cama e me abracou por trás, começou a mexer no meu cabelo e eu chorava compulsivamente.

-Sh.. vai ficar tudo bem, já passou... eu to aqui.. não vou deixar ninguém nunca, mas nunca te fazer mal de novo ta bom?

-Promete?

-Prometo.

Ele continuou a mexer no meu cabelo e dizer coisas reconfortantes, eu era um pé no saco, eram 4 da manhã e eu lá, chorando sem deixar ele dormir. Parei de chorar aos poucos, mas aquele soluço chato que sempre fica quando você chora muito ficou.

-Desculpa.. mesmo.

-Não precisa se desculpar..

-Serio.. isso é sacanagem.. quase toda noite isso, não sei como você suporta.

-Não sei, acostumei eu acho.

-Eu não, só de pensar em tudo que ele já fez em mim e eu mantive em segredo por tanto tempo... por medo...

-Não pensa nisso, só não pensa.

-Foi horrível Keaton horrível.. não sei como minha tia casou com esse cara..

-Mas ela já separou, e ninguém mais vai fazer isso com você, ninguém tá legal?

-Obrigada.

-Para de falar isso menina. -ele disse com voz de gay.

-Só você pra me fazer rir nessas horas, Stromberg.

-Eu sei, sou um arraso pode falar.

Gargalhei na cama e ele começou a brincar de lutinha comigo.

-PARA SEU BAITOLA TA DOENDO!

-BAITOLA O SEU CU!

-Keaton, para, são 4 da manhã.

-Tá bom.. pé no saco.

Me virei e ele puxou a cama debaixo. Segurou minha mão e disse.

-Sem pesadelos.