Just don't be afraid
17 Capítulo Especial - Ser Alguém
Notas iniciais

Germano’s P.O.V.
“Não te esqueças de comer sempre os legumes todos. Nem de cuidar de ti. Trata bem a senhora Linda e o senhor Marcus, como se eles fossem teus pais. E por favor, não te esqueças que vales muito mais do que um filho de uma empregada. Há uma vida maravilhosa à tua espera, desde que te empenhes. Sei que serás alguém.
Agradeço a Deus por me ter dado um filho tão maravilhoso como tu.
Nunca te esqueças de mim! Amo-te Germano, para sempre.”
Estas foram as últimas palavras da minha mãe quando perdeu a batalha contra o cancro. Palavras que me tornaram aquilo que sou hoje.
A partir desse dia comecei a morar com a família Petrov, como um filho até acabar o secundário e como mordomo depois. Sempre o vi o Ken como irmão e agradeço muito por aquilo que a família Petrov fez por mim até agora. Contudo, isso não faz com que eu queria esta vida para mim. Sei que mereço mais, muito mais. Mais dinheiro, mais fama, mais tudo. Não quero ser pop-star nem nada do género, nem quero ter muito trabalho. Se tiver dinheiro já me chega.
Não me entendam errado, só sou ambicioso.
E como tal, sempre que vejo uma oportunidade de subir na vida, agarro-a com unhas e dentes. Estas só começaram aparecer por volta dos meus dezassete anos, assim que o meu corpo começou a ganhar forma, principalmente devido ao exercício físico, e quando acabei o secundário. Aparentemente, as riquinhas, filhas dos amigos da família, acham piada ao romance “proibido” entre mordomo e patrão. E eu aproveitava-me disso.
Atenção que não ando a fazer sexo com todas as miúdas que entram aqui em casa. Só entreguei o meu corpo a uma única pessoa. Aliás, ao meu diabo preferido. É só uma pena que ela seja pobre, para isso mais vale estar sozinho.
Mas voltando às riquinhas, só lhes dedicava um pouco de tempo até me fartar. Eram sempre chatas demais, fúteis e vadias (isto para não chamar outra coisa). Por isso nunca resultou muito bem esse meu plano. Não ia aguentar uma vida com alguém assim só por dinheiro. Sei que consigo arranjar algo que seja fácil de suportar.
No entanto parecia que as amigas ricas tinham acabado, fazendo-me pensar seriamente se devia deixar este meu plano de lado, até que a proposta de casamento para o Kentin apareceu.
Foi um caos em casa nessa semana. Os pais achavam que era uma boa ideia aceitar, mas o rapaz recusava-se dizendo que já amava alguém. E como o filhinho não quer, os pais também não.
Até que convenci o Kentin a aceitar. Primeiro, porque era uma boa oportunidade de o fazer esquecer a estúpida da Matilde e depois porque precisa de amigos novos. Persuadi-lo foi fácil, uma simples frase bastou: “que tal usares isso para fazer ciúmes à Matilde?”. Aceitou de imediato, a pensar que realmente ia conseguir algum com a estúpida – desculpem a repetição da palavra, mas é isso que ela é para mim, uma pessoa estúpida – da Matilde assim, mas para variar, ela continua a não querer saber dele. Mas não interessa, ele aceitou fazer parte disto.
Algo simples como um noivado que podia trazer muitos benefícios para o meu irmão, pelo menos era o que eu achava.
Porém, tudo mudou no dia a da apresentação assim que a vi descer as escadas. Era, e é, a miúda mais linda que já vi em toda a minha vida. Vi-a juntar-se à sua família e com seu sorriso envergonhado. Quando a pude ver demais de perto, fiquei ainda mais encantado. Usava um vestido azul, que ai até um pouco acima dos joelhos e que tinha um decote discreto. Deduzi logo que não se tratava nenhuma vadiazinha de quinta categoria como todas as outras que tinha conhecido.
A partir desse dia, todo o meu plano se modificou. O meu objetivo focou-se em conquistar aquela carteira bonita. E seria fácil, principalmente porque o Kentin iria acabar por trata-la mal como faz a toda a gente que não conhece. Era só uma questão de sedução e suposto amor. Simples.
E foi com isso na cabeça que comecei tudo. Todas a minhas investidas até agora, desde as mensagens até aos abraços quando o Ken era estúpido demais.
Leva-la ao parque foi a melhor ideia que tive. Ela ficou caidinha por mim a partir daquele dia, onde lhe mostrei o meu “suposto” eu. Não lhe menti em nada do que disse, mas obviamente que não quero voltar aquelas situações de “normalidade” como denominei na altura. Com o dinheiro que a minha Annelise possui não preciso de voltar a comer no chão enfrente ao hipermercado. Entretanto, nesse mesmo dia, comecei a senti uma coisa esquisita. Uma espécie de alegria quando estava com ela. Algo que nunca senti com ninguém, que me fez duvidar se realmente estava tudo a correr como eu queria. Comecei a pensar nisso, até chegar à conclusão que talvez isto fosse amor. Até porque para quem nunca o sentiu seria difícil identificar tal sentimento. Cogitei até deixar o plano, não queria apaixonar-me. Só queria dinheiro. Mas entretanto continuei.
E estava tudo a correr bem, apesar da “paixão”, mas até isso está minimamente a meu favor. O verdadeiro problema surgiu no dia a seguir. Eu não sei o que aconteceu dentro daquela casa, mas seja o que for, foi suficiente para aproximar um pouco os dois. E isto não é bom, nada bom.
Ao primeiro, volto a salientar, não passava do interesse pelo seu dinheiro. Mas entretanto, tornou-se numa espécie de honra tê-la para mim, e só para mim!
Admito que talvez me custe um pouco fazer isto ao Kentin, mas ele que se foda! Ele sempre foi rico e eu sempre o tratei como um irmão mais novo, sempre o apoiei quando ele chegava a casa todo aleijado por causa dos idiotas da sua escola. E quando frequentávamos a mesma, ele andava sempre comigo, e por consequência vinha a Matilde, que até uma vez chegou a confessar que era apaixonada por mim. Ao que respondi de imediato que não tinha qualquer sentimento por ela a não ser ódio por aquilo que sempre fez, e ainda faz, ao Ken.
Mas porra, esta mulher será minha, MINHA!
Tipo, ela é tão perfeitinha, riquinha, bonitinha, fofinha. É normal que aquele imbecil fosse começar a gostar dela! Mas ela vai ser minha, porque eu não a vejo assim. Eu vejo-a perfeita, rica, linda. Sem ‘inhas nessa merda toda, e vou lutar por ela! Ela vai ser minha, dê por onde der!
Decidi que devia elaborar uma espécie de plano para os afastar ou então para que não se aproximem mais. Peguei num papel e comecei a rabiscar tudo o que me vinha à cabeça.
1º Prender de alguma maneira a Anne, para que não se aproxime muito do Kentin;
Como ela é aquilo que se chama de “pessoa moralmente correta” nunca irá trair-me, por isso sempre que o Ken tentar aproximar-se, ela vai afastar-se.
2º Arranjar uma maneira de acelerar a decisão dela quanto ao noivado;
Deve haver uma maneira de fazer com o dia da decisão dela possa ser antecipado. Quanto mais cedo ela se livrar desta porcaria mais fácil fica para mim.
3º Se não fizer os dois primeiros, elaborar um plano para que se afaste do Kentin:
3.1 Arranjar aliados para o tal plano.
Se ela não quiser algum tipo de relacionamento comigo nem conseguir adiantar o tal dia, tenho de afasta-los. Afinal eles têm de passar muito tempo juntos e isso pode levar a que se aproximem ainda mais.
Para tal, tenho de arranjar ajuda. Mas quem é que quer que eu afaste o Ken da Annelise?
«– Já estava a demorar a perguntar German! – Disse – Ela disse que queria impedir-me de “conhecer a minha ruína”… Vai se lá entender… Vá, já a viste? Como é? É bonita?»
A Matilde é claro! É óbvio que ela não quer perder a atenção e o carinho que o Kentin lhe dá. Até que essa vadiazinha me pode ser útil…
Se esta não resultar tenho alguém que me poderá ajudar também, mas acho que não será necessário recorrer-lhe.
Acho que já tenho minimamente tudo organizado. Olhei mais uma vez para o papel, memorizando o que tinha escrito, e queimei-o com o isqueiro que estava em cima do balcão da cozinha.
Vi o Kentin chegar e correr para o quarto. Ótimo, pelas horas, posso por a primeira parte do plano em prática ainda hoje. Subi até ao seu quarto para perguntar se a Annelise ainda se encontrava em casa. A conversa durou mais do que eu queria, mas mesmo assim tive bastantes informações úteis.
Antes de sair de casa para ir ter com ela, preparei mentalmente a nossa conversa. Afinal, não vai ser fácil fazê-la aceitar aquilo que quero. Nada que um pouco de manipulação não resulte.
«»
Cheguei à minha casa, que fica no fundo do jardim da mansão Petrov, e bati a porta com força.
– Foda-se! – disse enquanto empurrava as coisas que estavam em cima da secretária para o chão. Fui à cozinha beber água, tentando acalmar-me.
Eu estava… Eu estava quase a conseguir! Maldito Castiel! Odeio tanto aquele corno de merda! Mas ele vai paga-las, ai se vai!
Entretanto, isso vai ter ficar para depois. Primeiro tenho que pensar no que fazer com a Annelise, já que hoje as coisas não correram muito.
Embora tenha de admitir que aquele momento no final do nosso encontro foi como a cereja no topo do bolo. Pelo menos aquele beijo mostrou-me que ela, apesar da sua aproximação com o Kentin, continua derretida por mim. Talvez até já me ame, quem sabe.
Por falar nisso, daqui algum tempo vou ter de lhe dizer “Eu amo-te” e tem que ser na altura certa para que um “Também te amo” saia da boca dela sem que tenha tempo para pensar nisso.
Talvez um jantar? Não, muito normal. Cinema? Cliché demais. Um passeio? Nop, já fizemos muitos. Talvez seja melhor deixar o encontro “especial” para depois e pensar no próximo. É isso, primeiro vou arranjar algo mais “simples”, já que é isso que gosta, e quiçá mais tarde me venha a ideia perfeita.
Afinal é isso que eu tenho de ser para ela, perfeito. Espero que ela tenha achado que a minha atitude com o Castiel tenha sido puro ciúmes em relação a ela, não quero que comece a achar que sou obcecado ou algo do género. Claro que tenho de demonstrar ciúmes, tristeza e ficar chateado com ela de vez em quando. Mas será tudo planeado, pelo menos até ter aquela fortuna na minha mão.
Sei que mais tarde já não será preciso mais nada disso, é bastante fácil conviver com ela e sei que me irei adaptar rapidamente quando morarmos juntos. E pretendo isso quando ela acabar o secundário.
Isso não é muito importante agora. Não gosto de fazer planos a longo prazo, muita coisa pode mudar até lá.
Ouvi alguém a bater a porta e fui abrir antes que entrassem e vissem a confusão que fiz à pouco. Surpreendi-me quando vi o Kentin do outro lado.
– Sim? – perguntei com a sobrancelha arqueada.
– A minha mãe disse para ires lavar o carro. Era só isso, até logo – foi-se embora sem me deixar responder. Lavar o carro? Ainda ontem o fiz… Deve ter alguma saída importante, deve ser isso. Peguei no telemóvel e sai em direção à garagem.
«»
Dia seguinte
Sempre que me lembro da imagem do Kentin com o braço por cima dos ombros da Annelise a entrarem dentro de casa, sinto odeio a escorrer-me pelas veias. Como ousa por as mãos naquilo que é meu? Caralho, como eu quero dar-lhe um soco!
Passei a mão pela barba rala, e tentei controlar os meus pensamentos. Tenho de estar calmo assim que sair do carro. Abri a porta e fui em direção à mansão Petrov. Espero que não seja preciso nada, não tenho cabeça para aturar aquelas empregadas coscuvilheiras que só falam do “casamento” entre o Kentin e a Annelise. Burras de merda, não vai haver casamento nenhum entre eles, pelo menos enquanto eu ainda estiver em jogo.
Assim que entrei, Morgana disse-me para ir à sala falar com a senhora Linda.
– Oh Germano! Ainda bem que chegaste – proferiu assim que me viu. – Sabes onde está o Kentin?
– Não senhora, pensei que ele já tivesse voltado com a menina Annelise.
– Eles saíram para ir à escola e disseram que voltavam antes do jantar, mas ainda não chegaram e o Kentin não atende o telefone, ele não te disse nada? – Linda encontrava-se visivelmente preocupada. O que não era para menos, apesar daquela fachada de “rapaz rebelde” o Kentin sempre foi muito certo me relação à mãe, e o facto de ele não estar a atender o telefone é porque a coisa é grave.
– Não senhora, não falo com ele desde ontem.
– Tudo bem Germano, era só isso. Desculpa ter-te mandado vir quando já te tinha dito que não ia mais precisar de ti. Podes ir – assenti com a cabeça e dirigi-me para a minha pequena casa. Ia abrir a porta quando parei para abrir uma mensagem.
“ Estou no parque em frente à minha casa, podes vir cá? Pf” – Anne
“Estou ai em cinco min.”
«»
Assim que lá cheguei, uma Annelise chorosa correu até mim abraçando-me fortemente.
– Ei, que se passa pequena? – murmurei.
– O Kentin… Ele… Eu… – ela não parava de chorar. – Eu… Eu tentei dizer-lhe a verdade sobre a Matilde… Ele… Ele disse um monte de coisas… Coisas horríveis… Ela também… Eu só queria…
– Shhh, calma… – beijei-lhe a cabeça. – Vai ficar tudo bem, eu estou aqui contigo. Sempre vou estar.
Assim que ouvi toda a história, pude perceber que mais uma vez o Kentin voltou a facilitar-me as coisas e que a Matilde, mesmo sem ter falado com ela, fez o que era suposto.
Bem Kentin, quando finalmente te aperceberes já vai ser tarde. Até porque isto é um jogo, e eu nunca jogo para perder.
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