Just a little bit of your heart.
1 Capítulo único.
Notas iniciais
É apenas uma One-Shot, mas ela é de longe a mais diferente de todas as outras que já escrevi e eu gostei muito do resultado, eu espero que vocês gostem tanto quanto eu e...
Boa leitura!
A garota estava sentada em frente à tela pincelando com tons claros o desenho ainda incompleto, a pouca luz do entardecer entrando pela janela era a única iluminação do local, uma melodia triste era tudo que se podia escutar ecoando entre as paredes daquele velho ateliê.
- Quem é esse?
Uma voz aguda e familiar ‘quebra’ a melodia e assusta a garota que estava perdida em seus devaneios.
- Ei, não está me escutando?
- Desculpe, eu estava distraída. O que você disse?
- Quem é esse na pintura? É a primeira vez que eu vejo você o pintando.
- Ah... – A garota voltou a olhar para o quadro e como por costume seu coração apertou com as lembranças. – Não é ninguém... Eu apenas fui pintando conforme as imagens vinham na minha mente, talvez seja a junção de várias pessoas que eu já vi na vida.
A garota riu levemente com sua mentira, uma mentira que ela mesma queria acreditar que fosse verdade, mas era impossível negar que não conhecia aquele rosto, não apenas o rosto, mas ela conhecia profundamente cada parte do corpo daquele que lá estava, e foi neste momento que ela praguejou por desenhar com tanta perfeição um rosto que ela tanto queria apagar de sua mente.
- Você desenha tão bem que parece uma fotografia, mas bem que eu suspeitei que tanta beleza assim não podia ser de alguém real...
A garota fitava agora os olhos verdes do rapaz da pintura, ela não sabia se era por lembrar tão nitidamente de seu rosto ou pelo simples fato da tinta ainda não ter secado completamente, mas aquele verde parecia brilhar de uma maneira intensa e penetrante, ela podia sentir seus pensamentos mais profundos serem todos expostos para aqueles olhos verdes.
- Carla!
- Ah! Você disse algo?
- O que você tem hoje? Eu disse que volto já aqui pra irmos embora, ou você vai com aqueles seus amigos?
- Não, eu vou com você.
- Então volto já.
- Ok, estou quase terminando aqui. — Carla viu a amiga sair e voltou-se para a tela encarando o rosto na pintura, um rosto que lhe trazia tantas recordações.
“Por que eu não esqueço seu rosto? Por que sua imagem parece estar gravada profundamente na minha mente... No meu ser? Será que você lembra de mim...Depois de todos esses anos?"
A garota pegou o pincel e continuou a pintar o que faltava, a cada pincelada na tela sua mente divagava para mais perto das lembranças daquele que partiu seu jovem coração.
“Onde você está agora? Está com uma nova garota? Talvez seja melhor eu não saber... Mas, eu sempre me questiono... você nunca se perguntou como eu me sentir quando você partiu?
É tão pateticamente engraçado como eu continuo a mesma boba apaixonada por você, eu lembro como se fosse ontem a primeira vez que nossos olhos se encontraram... A primeira vez que eu sentir o toque quente das suas mãos nas minhas, o gosto dos seus lábios no nosso primeiro beijo e como eu rezei naquela noite pra ter apenas um pouquinho do seu coração pra mim...
Lembro do seu perfume e do som da sua risada, lembro do seu velho ateliê com as cortinas de marfim levemente desbotadas que o vento balançava as fazendo tocar minha pele enquanto eu estava deitada na sua cama e você me pintava em uma tela antes em branco... Ah! E como eu lembro tão claramente das suas pinturas que tanto me encantavam, você sabia que estou cursando Belas Artes por causa de você? Você foi minha inspiração, minha mais doce e dolorosa inspiração...
Lembro de nós dois dançando na sala da minha antiga casa ao som de Frank Sinatra e você dizendo que me amava... Me pergunto o que houve com esse amor que você tanto me falava... Lembro da briga entre você e meu irmão quando descobriu sobre nós dois, onde será que foi parar aquele cara tão romântico que eu sonhava todas as noites dos meus quinze anos?
E eu me lembro tão estupidamente bem das suas costas largas se afastando de mim sem ao menos me dar um ‘Adeus’ e como eu fiquei parada, em pé no meio daquele parque que costumávamos ir, chorando por você estar indo embora da minha vida.”
Lágrimas se misturavam com as tintas na aquarela que estava no colo da garota, suas mãos trêmulas esfregavam seus olhos na tentativa inútil de parar aquelas que ainda teimavam em descer pelo seu rosto, mas a dor ainda era tão forte como há cinco anos atrás.
Então a dor enfim se fez mais presente que nunca naquele breve momento de inspiração e tirando uma de suas mãos do rosto ela pegou o pincel e jogou desordenadamente as cores escuras da sua aquarela naquela tela com cores claras de um passado tão sombrio.
À medida que a pintura ficava cada vez mais abstrata o coração da garota se acalmava e quando restou apenas poucos traços de algo que já foi um rosto, suas lágrimas cessaram...
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