Just a dream?

1 Capítulo 1- Adryan.


"Gloomy Sunday."

Leu as palavras escritas em inglês.

As tocou. Um leve toque com seus dedos indicadores, passeando sob cada letra.

Eram realmente incríveis os velhos discos de seu tio Ivan. Havia coisas imagináveis lá, até mesmo discos que nem sabia que existia.

Todos finais de semana, seus pais iam viajar, porém detestava caminhos longos o causavam enjôos. Ia de mal estar a vômitos contínuos. Por este motivo, ficava na casa de seu tio, Ivan.

Apesar de Ivan ser carrancudo, era um homem com bom gosto culinário e musical, porém ficava a maior parte do tempo resmungando o quão os gatos da vizinha eram irritantes quando começavam uma algazarra por cima do telhado de sua casa. Ele era um verdadeiro demônio quando se tratava de sua vizinha, Dona Elizabeth.

Dona Elizabeth era uma daquelas típicas donas de casa que mantinha tudo na mais organizada ordem, usava roupas extravagantes com cores bastante chamativas da cor de rosa — choque até a cor laranja e sempre trajava os chapéus enormes e os saltos-altos. Tinha a aparência um tanto quanto etiquetada, mas o que mais marcava nela era o nariz enorme arrebitado juntamente com o forte sotaque suíço.

Seu tio e Dona Elizabeth sempre foram rivais, faziam competições por tudo.

Ainda lembrava-se do dia em que eles apostaram quem corria mais rápido por todo o quarteirão, porém ninguém venceu, já que seu tio parou no meio da corrida reclamando de dores nas costas e Elizabeth parou quando caiu em uma poça de lama, já que a mesma estava correndo de salto alto.

Mas, no fundo, sabia que os dois sentiam alguma coisa um pelo outro, mas eram iguais a adolescente birrentos procurando esconder o óbvio.

Nem mesmo ele, John Taylor- que é um adolescente- faz este tipo de coisa.

Apesar de estar passando por uma fase "do cão" era bastante tranqüilo, estudioso, mas não era muito inteligente, gostava de praticar esportes principalmente natação, gostava de jazz e música clássica graças aos discos do tio, enfim... Um filho que todo pai ou mãe desejaria ter. Um filho "padrão".

Só existia um pequeno e minúsculo detalhe:

Era curioso.

Oh, curiosidade...

Consome por dentro de todo ser humano, fazendo com que até a pele mais áspera arrepie-se, faz com que o estômago revire-se, com que o corpo trema com aquela necessidade de descobrir... Descobrir algo novo ou não tão novo assim.

"Ah, mas curiosidade mata!"

Não! Curiosidade não mata!

Curiosidade te faz viajar em um navio junto com vários piratas em busca do ouro. Curiosidade te faz corajoso. Curiosidade te faz ser invencível.

Tirou a franja de cabelos ruivos de seus olhos, procurou o relógio.

21h30min.

Ivan disse que sairia para comprar bebidas para passar a noite, mas até agora não havia voltado.

Levantou-se do chão de madeira da sala de estar.

A sala de estar era organizada. Um abajur clássico acima de uma desgastada cômoda, os sofás cor de vinho com desenhos de flores místicas douradas, o relógio-cuco antigo, um tapete de cobre marrom... É... Seu tio Ivan era bem conservador quando se tratava de móveis.

Sem falar na estante a qual faltava um pé e era completamente cheia de discos.

E tinha certeza:

Seu tio nunca trocaria aquela estante por outra, já que quem deu esta estante a ele foi sua falecida esposa, Margareth.

A senhora Margareth era tão doce quanto o mais irresistível pudim. Sempre procurava ajudar todos a sua volta, e simplesmente amava Ivan.

Era totalmente apaixonada por ele, apesar de Ivan não ter correspondido esse amor na mesma intensidade que ela, tinha certeza que seu tio tinha muito carinho por ela.

Era um casamento "arranjado".

Mas, mesmo assim, Margareth se dedicou de corpo e alma, de carne e espírito a um amor que nem um dos maiores cientistas ou filósofos conseguissem explicar.

Ela sabia lidar muito bem com o carrancudo de Ivan. De alguma forma ele tentava corresponder ao amor, porém nunca conseguia já que não a amava.

Os dois poderiam ser considerados melhores amigos morando juntos.

Até que Margareth engravidou. Era para ser um momento feliz.

Só que na hora do parto, Margareth não suportou e muito menos o bebê.

Três dias antes de morrer ela havia dado aquela estante ao amado, pois segundo ela, aquela estante foi um dos seus melhores passatempos na sua infância e queria que o marido cuidasse bem dela.

Era uma despedida.

A última coisa que ela sussurrou antes de morrer tinha sido:

"Adryan. Adryan Blainey."

E, ao falar este nome ela dera um sorriso tão nostálgico que nem parecia estar à mercê da morte.

Agora... A pergunta que ficou até hoje:

"Quem era Adryan?"

A família dela afirmou não conhecer um único Adryan.

Foi aí que começaram os palpites. Mas o pior de todos foi:

Amante.

É lógico que não era!

Margareth nunca iria trair Ivan. Ela o amava. Porém, todos começaram a acreditar nesse palpite estúpido, menos Ivan que sempre defendia a falecida de todos aqueles argumentos, até eles pararem.

E pararam.

O fato é:

Por melhor que a pessoa seja, sempre irá ter aqueles que fantasiam coisas inexistentes sobre ela.

Suspirou.

Ouviu o seu estômago denunciar que já havia passado o horário do “rango”.

Andou até a cozinha. Procurou na geladeira, no forno... Até que lá no cantinho do armário achou um pacote de biscoitos.

“Estou com sorte!”

Pensou com um sorrisinho maroto.

Entretanto antes mesmo que pudesse saborear aqueles biscoitos, começou a escutar leves batidas.

Arregalou os olhos.

”Um... Ladrão?!”

Oh... Não, não e não!

O que um adolescente de 14 anos, magricela, branquelo e com sardas no rosto poderia fazer agora?

Não tinha nenhum preparo físico, mesmo praticando esportes nunca tinha sido bom em lutas.

“Droga...”

Começou a prestar atenção naquele barulho, na origem dele. Estava vindo da estante de Margareth.

Abriu devagar a gaveta do armário e retirou uma faca.

Coragem?

Não. Não era coragem. Era curiosidade, ela estava o consumindo agora.

Parou de frente para a parte lateral da estante de Margareth.

Engoliu o ar seco, seu corpo ficou trêmulo e seus olhos arregalaram-se com o que viu.

Um giz.

Um giz branco estava... Debatendo-se contra a parte lateral da estante e ele estava... Flutuando pelo ar.

Pensou que aquilo era uma alucinação.

Até que o giz parou de batucar... E começou a escrever.

“A”

“D”

“R”

“Y”

“A”

“N”

“Impossível...”

Pensou. Mas o giz continuou:

“B”

“L”

“A”

“I”

“N”

“E”

“Y”

Ficou estático. O giz havia escrito “Adryan Blainey.”

***

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.