Just One More Step
1 Capítulo único
Notas iniciais
Ignore os erros, não foi betada, só revisada ^^
Devilla olhava, sorrateiramente, o jardineiro de sua casa através da janela de vidro do seu quarto no segundo andar da casa colonial. Seu corpo, quase completamente escondido atrás da pesada cortina de veludo azul escuro, formigava por ir até onde o respeitável Oji estava.
Era fascinante ver a forma como o grande corpo se movia de forma tão graciosa e como cuidava tão delicadamente dos canteiros de Camélia. Para Devilla, Oji cuidava magnificamente das flores, mas sua mãe, a tirana Eva, reclamava que o jardineiro ignorante estava matando suas delicadas e preciosas flores.
Sua mãe não gostava dele, mas Devilla não sabia o motivo, ela achava impossível não gostar ou pelo menos desejar aquele lindo homem. Ela não entendia como sua mãe não podia admirá-lo ainda mais com sua maravilhosa pele negra como ébano e os olhos da cor de chocolate amargo derretido, seu nariz perfeitamente desenhado e os lábios grossos, por onde saía a mais linda das vozes. Seu espanhol tão carregado de sotaque africano quase não deixava que pronunciasse as palavras mais longas da língua espanhola. Seu sotaque arrastado a fazia tremer internamente, todas as vezes que o jardineiro lhe cumprimentava.
Surpreendida pela aparição do pai no jardim, Devilla fechou mais a cortina, deixando que somente seus incríveis olhos azuis aparecessem. Ela não queria que ninguém a visse espreitando Oji. Não queria responder os questionamentos que viriam, ou ser repreendida por seus pais.
Seu pai foi tão breve quanto sempre era, simplesmente entregou um pedaço de papel ao homem e foi embora, provavelmente iria para seu escritório, no primeiro andar da casa, encerrar-se em seu mundo de negócios pelo resto do dia e só sairia na hora que Justine, a governanta, fosse lhe chamar para o jantar, era isso que ele fazia após uma briga com mamãe.
Na noite passada, os dois tinham brigado como cão e gato quando se encontram, ou talvez até pior. Eva havia gritado insanidades e quebrado pelo menos meia dúzia de peças frágeis e algumas outras coisas mais pesadas, certamente na tentativa de acertá-lo. Hoje cedo, no momento que Devilla desceu para o desjejum, as portas do ateliê de sua mãe estavam abertas e as telas de pintura estavam no chão, os pinceis espalhados com duas ou três cores diferentes se misturando no chão acarpetado, cacos e mais cacos de vidro espatifados no chão, e Justine dava ordens a duas empregadas sobre como limpar a sala.
E ver aquela cena foi quase demais. Ela não gostava de saber que seus pais brigavam, não só por que não queria que se separassem, mas também pelo fato do clima que ficava na casa. O dia seguinte à briga era sempre pior do que a briga de fato.
A menina viu o jardineiro tirar as luvas sujas de terra adubada e colocá-las debaixo do braço, para ter suas mãos livres para abrir o papel. Sua expressão imparcial e neutra esboçou um singelo e quase imperceptível sorriso, que só seria notado por alguém que o estivesse observando atentamente, como Devilla. Seguramente, aquele papel era um cheque com o salário mensal que seu pai dava a Oji, por seus serviços.
Não era uma grande quantia, mas o suficiente para o homem mandar para a sua família que havia ficado na África.
Após guardar o papel no bolso do macacão jeans, Oji calçou novamente as luvas e continuou a trabalhar no canteiro de Camélias. Devilla continuou escondida atrás das cortinas até que sua mãe a gritou.
Apressando-se para não desagradar sua mãe, Devilla calçou os sapatos de salto que combinavam com sua roupa e abriu a porta de madeira do seu quarto. O corredor estava um verdadeiro rebuliço: empregadas corriam de um lado a outro com telas em branco e os quadros pintados de sua mãe, tintas e cavaletes transferindo-os do ateliê destruído para algum outro lugar desconhecido a Devilla.
Ignorando a bagunça, a menina desceu as escadas e encontrou sua mãe lhe esperando, na porta da sala de visitas.
— Querida, quero que vá até a cidade atrás de Javier, o nosso advogado e peça que ele venha até aqui. Depois passe na boutique e pegue com Inês os papeis do seu pai — instruiu ela.
—Mas mamãe, isso não seria responsabilidade do papai? — perguntei em um espanhol perfeito, ao contrário do belo jardineiro.
— Quem sabe onde seu pai está? Deve estar com aquele jardineirozinho.
— O pai estava no jardim agora a pouco — respondi.
— Não importa Devilla! Faça o que lhe mandei.
— Tudo bem, mamãe. — Assim que ouviu a resposta de Devilla, Eva deu-lhe às costas e voltou a cuidar de seus afazeres.
Devilla ordenou que Hugo, o motorista da família, a levasse até a cidade e foi questão de minutos para ele aprontar o carro e um pouco mais de uma hora e meia até que a menina fizesse o que minha mãe havia mandado.
Antes mesmo do almoço, estavam de volta à propriedade da família Merida e na volta Devilla ainda havia conseguido tirar algum proveito da rápida viagem à cidade. Tinha conseguido ver a locomotiva passando. A linha férrea ficava longe da nossa casa, mas sempre que conseguia, escapava e ia até os trilhos e os acompanhava por alguns metros. Achava simplesmente fascinante a forma como funcionavam, transportando pessoas e mais pessoas, o jeito como eram longas e como eu era pequena perto de um dos vagões e dos trilhos.
Seu sonho sempre foi fazer uma viagem a trem, mas sua mãe quase teve um ataque cardíaco quando lhe revelou esse desejo, há alguns anos. Disse que filho algum dela chegaria perto dos pobres que andavam de locomotivas. Então, simplesmente se limitei a ir até os trilhos, sonhar um pouco e se perguntar se Oji já havia andado de trem.
Entregou os papéis a mãe e foi atrás de Oji. Provavelmente a essa hora ele já teria terminado seu serviço e poderia lhe dar um pouco de atenção. Talvez até mesmo poderia tirar algum proveito dele. Aquele beijo que havia roubado dele na semana passada tinha lhe dado grandes ideias para essa semana.
O encontrou no depósito de materiais guardando seus equipamentos de jardinagem. Ela entrou silenciosamente e o encontrou parcialmente nu, com seu macacão jeans já desabotoado e caído até a cintura e a camisa de algodão branco que ele levava posta por baixo do jeans, enrolada e posta no seu bolsa de trás.
“Será que ele seria tão delicado com ela quanto era com suas flores?”, ela se perguntava. Seu torso desnudo dava a Devilla o que imaginar.
A força que Oji empregava, por mais mínima que fosse, para guardar e organizar os materiais de jardinagem, fazia com que os músculos de suas costas se retesassem, deixando-a tentada a passar as pontas dos delicados dedos sobre a superfície firme. Gotículas de suor pontilhavam as costas, e Devilla podia apostar o colar de pérolas que levava posto em seu pescoço, de que o abdómen definido também estava...
— Senhorita Devilla? — chamou ele, interrompendo seus pensamentos pecaminosos.
— Sim? — respondeu surpresa.
— Posso ajudá-la? — perguntou ele calmamente. Ela não havia notado que tinha chegado tão perto dele.
— Por que está perguntando isso?
— O único motivo de estar aqui é para pedir que eu faça algo pela senhora — ele declarou em seu pesado sotaque. “Como aquilo podia ser tão sexy?”, ela se perguntava.
— Ah... não quero nada, para falar a verdade. — “Talvez somente que o senhor me dê um ou dois beijos com seus lábios macios”, respondeu.
— Então, por que está aqui? —Oji perguntou encarando-lhe com seus incríveis olhos cor de chocolate amargo.
“Não dizem que chocolate amargo faz bem? Então, talvez um pouco de Oji não faça muito mal.”, discutia mentalmente.
— Por que está aqui, senhorita? — insistiu, depois que ficou encarando-o por algum tempo. O homem lentamente começou a chegar próximo dela. Cada passo calculado centímetro a centímetro, esperando que Devilla corresse. Mas ali ela ficou. Seja lá o que você que aquele homem fizesse, ela queria.
Desejava qualquer que fosse o seu toque.
No início, quando seu pai o trouxe para trabalhar aqui, ela não ligou muito para ele. Era para ela somente mais um homem qualquer, um imigrante, negro e com educação precária, vindo de um país de ignorantes. Mas conforme a semana passou ele se revelou simplesmente encantador.
Abria a porta para ela; arrumava o guarda-sol de forma que o sol não a alcançasse; tirava o chapéu quando passava; e lhe cumprimentava quantas vezes passasse por ele. Como um cavalheiro e não um negro ignorante.
Antes de Oji vir morar aqui, Devilla não tinha contato com muitos da sua cor. Houve somente uma vez em que foi até a casa de uma amiga de sua mãe, e lá havia um negro trabalhando, era um dos seus empregados. No seu bairro, não havia negros. As pessoas mais altas da sociedade espanhola moravam por ali, e negros eram sinônimos de pobreza e falta de classe.
Sua mãe ficou espantada quando seu pai o trouxe, mas não falou nada, foi somente depois de umas duas ou três semanas que ela começou a implicar com Oji.
Este, que agora a estava olhando de forma profunda, não parecia alguém que se pudesse odiar.
Oji estendeu o braço e escorregou sua mão sobre a sua cintura puxando-a para ele, e mesmo por sobre o tailleur de linho branco que eu usava, Devilla conseguia sentir o calor da sua mão pousada sobre o tecido.
Seu corpo bateu contra o seu. Seus braços se enrolaram a sua volta e os de Devilla foram para o seu pescoço, seus lábios desceram lentamente até os da menina e, como se ela fosse uma delicada folha de árvore, ele encostou seus lábios nos dela. Ao primeiro contato, ele foi delicado e suave, mas em duas batidas do coração acelerado de Devilla, seus lábios finos e delicados foram pressionados pelos grossos de Oji.
Aquele era o melhor momento de sua vida. Aquele toque de lábios. Aquele encontro de almas era o que Devilla mais desejava nos últimos tempos. Sentir seu toque, sonhar encontrá-lo, ansiar por alguma troca de palavras era no que seu dia se resumia.
O beijo não durou muito mais tempo, logo Oji se afastou lhe deixando fria e vazia de pé em meio a um quarto escuro e entulhado de “lixo”.
Havia sido bom, mas não era tudo o que Devilla sonhava. Não tinha sentido um fogo a consumindo ou coisa parecida, como imaginava em seus sonhos pecaminosos.
Tudo tinha sido normal, nenhuma sensação diferente ou triunfante. Como tinha sido o beijo que Juan, seu antigo flerte, roubou dela no ano passado. A única diferença era que Devilla tinha consentido e desejado esse.
— Preciso ir, tenho que trabalhar — falou ele, virando-se e recolhendo um regador de metal que estava no chão.
— Tudo bem. — Devilla saiu dali um pouco mais decepcionada do que entrou, mas o beijo desastroso não abalou seu desejo por Oji. Talvez o resultado ruim com o beijo não fosse culpa dele ou de Devilla, mas sim do lugar onde estavam. Aquele monte de coisas amontoadas e material para criadagem não poderia criar uma boa aura para romance.
Entrou em casa e foi direto a cozinha se informar sobre a hora em que o almoço seria servido, e encontrou sua mãe sentada à mesa começando a ser servida por uma empregada. “Talvez minha distração pecaminosa tenha demorado mais do que eu imaginava.”, pensou.
— Não sabia onde você estava, então mandei servir o almoço — informou sua mãe com todo o seu jeito frio.
— Desculpe-me estava dando uma volta — mentiu.
— Não importa. — E realmente não importava. Sua mãe sempre foi fria e distante, mesmo antes das brigas com seu pai começarem, agora ela só estava pior. A cada briga ele ficava mais distante, mais o clima na casa ficava insuportável, e mais o seu pai sumia. Antes ele se esforçava em fazer as refeições com elas, agora? Ele só aparecia no jantar e quanto Devilla e sua mãe já estávamos acabando.
O almoço ocorreu sem maiores problemas, isso se você ignorasse a falta de familiaridade que havia à mesa, e assim que terminou de comer levantou-se e foi para a biblioteca, talvez um pouco de piano fosse lhe fazer esquecer um pouco Oji e o episódio do beijo de mais cedo.
— Devilla — chamou sua mãe, depois de algum tempo. A menina estava tocando sua peça preferida e a mais odiada por Eva.
— Sim, mamãe.
— Pare de me incomodar com essa música infernal e vá atrás daquele jardineirozinho. Peça-o para vir aqui. Agora.
— Claro, mãe. — Não importava o quanto episódio de mais cedo tinha sido ruim, seu coração deu um pulo dentro do peito só de pensar em vê-lo novamente. “Será que ele me daria outro beijo?”, questionou-se.
Levantou do piano e logo se pôs a procurá-lo. Ele havia dito que iria trabalhar, mas o sol estava alto no céu e mexer nas plantas a esse horário não era muito recomendado. Devilla andou por todo o jardim e a pequena casa do caseiro, mas nada de Oji.
Depois de andar mais uma vez por metade do jardim, ouviu um barulho vindo do jardim de Eva, que ficava depois da piscina e foi construído há cerca de oito anos, lembrava-se dos construtores carregando pedras e mais pedras quando tinha somente nove anos, e ficava na janela do ateliê da sua mãe vendo-os trabalhar.
Seu pai o construiu para Eva, já que esta ama plantas. Na verdade o jardim era uma estufa feita de vidro, ferro e pedras. O rio que corria por trás da propriedade cortava a estufa dando um brilho mágico.
E atrás da estufa que brilhava imponentemente sob o sol, uma casinha de alvenaria que guardava terra, vasos e adubos, era a fonte do barulho. A menina andou silenciosamente pela grama verde e bem aparada e encontrou o quarto de alvenaria com a porta entre aberta e através dela, se derramavam gemidos.
Aproximou-se vacilante sobre o que iria encontrar. Não que tivesse vergonha, mas sim sobre quem era. Quem seria a pessoa inescrupulosa que faria tal ato em um lugar comum à todos? Todos que residiam na propriedade, desde as empregadas que limpavam as coisas até a governanta, tinham seu próprio quarto e seus pais não ligavam para relacionamentos entre empregados, desde que isso não atrapalhasse o serviço.
Chegou em frente a simples porta de madeira e empurrou lentamente.
O quarto estava escuro, mas dava para ver o suficiente para chocar. Oji estava ajoelhado atrás de um homem. Sim, um homem. E seu corpo era tão fantástico como Devilla imaginava: forte, musculoso e incrível, que faria qualquer um babar e parece que até mesmo algum homem. Mas pensar nos seus pensamentos pecaminosos acerca de Oji era simplesmente nojento.
O homem de quatro à frente de Oji gemia loucamente enquanto o negro bombeava ritmicamente. Seu corpo pálido e enrugado a princípio não lhe disse quem era, mas sua cabeleira loiro pálida pontilhada com vários cabelos brancos, indicou a Devilla quem era. E isso fez com que ela sentisse o seu almoço se revirar no seu estômago e tentasse voltar.
Engoliu a bile e continuou parada ali, estarrecida com o que acontecia. Seu pai e Oji pareciam tão compenetrados no ato repulsivo que não a notaram ali. Só o fizeram quando o rosto, retorcido pelo esforço, de Oji se levantou e seus, antes lindos, olhos cor de chocolate se abriram e a viram encarando a cena.
Seus quadris pararam e seu pai, não gostando que o homem que lhe dava prazer parasse, balançou seus quadris cobrando algo.
— Continue, seu idiota! — reclamou ele ofegante. Mas seus movimentos sessaram quando seu rosto, antes abaixado, se levantou e encontrou Devilla ali. Não aguentando sua expressão deslavada, que sequer mostrou algum arrependimento, a menina saiu dali. E correu o quanto podia com meus saltos de cinco centímetros.
Ela não sabia o quanto correi, mas sabia que paraou quando chegou aos trilhos do trem. Suas pernas doíam e suas coxas despreparadas para a corrida queimavam. No caminho ela havia caído duas ou três vezes, fazendo com que seus joelhos se esfolassem e sangrassem.
Encostou-se em uma das árvores que ladeavam os trilhos, e ali ficou fechando seus olhos incríveis olhos azuis, encostando a cabeça no caule. Por alguns minutos repassei as inúmeras brigas dos seus pais. E chegou a conclusão de que talvez Eva soubesse o que seu pai fazia com o jardineiro.
Ela não conseguia se suportar por ter sonhado, imaginado e beijado aquele jardineirozinho vil. Quanto mais sonhado com o toque que ele dedicava ao seu pai. Ao seu pai!
Devilla aproximou descalça dos trilhos, já que seus sapatos de salto haviam ficado em algum lugar no trajeto, subiu nos trilhos e caminhou torpemente sobre eles. O metal frio incomodava a pele fina e delicada dos seus pés, mas ela não me importava. Nada mais importava para a linda menina.
Desde que Oji chegou naquela casa, tudo havia despencado passo por passo.
Seu pai, ela, o casamento de anos dos meus pais, o já pouco bom humor da minha mãe. Tudo.
Tudo culpa daquele imigrante.
E ela havia dado muitos passos para a escuridão, mais até do que o meu pai. Deixou-se envolver por alguns poucos cumprimentos. Apaixonou-se cegamente. Afastou-se das suas amigas, em troca de poder passar mais tempo em casa observando cada passo do belo jardineiro; discutiu com sua mãe por causa dele, com suas amigas que tentaram alertar que negros não eram confiáveis.
Talvez elas estivessem certas. Ela havia sonhado se deixando levar e no fim...
Os trilhos começaram a tremer, loucamente, sob seus pés e ao longe um apito soava, no início ela demorou a entender o que era e continuou com seus pensamentos desvairados, mas quando lembrou onde estava já era tarde demais.
A locomotiva não parou ou pode desviar. Seu corpo foi arremessado à centenas de metros à frente e caiu como um peso morto que era, com seus ossos quebrados e ensanguentados, em uma posição que eu juraria ser impossível. Com sua respiração rareando a cada segundo, a linda menina notou que tudo aconteceu por causa de alguns passos.
... E no fim... bastou mais um passo errado na sua vida para toda a dor acabar. Sem mais arrependimentos por paixonites por pessoas erradas ou arrependimentos por não ouvir algumas pessoas a alertarem...
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