Just Like Me
3 Capítulo 3 - Alguém pra confiar
Notas iniciais
A Dani estava na festa. Enquanto o Teta foi falar com o Fabito, ela me ajudou a levantar e me levou pra casa dela. Eu não conseguia andar, então um cara teve que me carregar até o carro dele e dar carona pra gente, depois me carregar até a cama dela.
– Você quer que eu chame uma ambulância? – ela tava sentada no chão, passando a mão na minha testa.
– Não. – se até respirar doía, falar era uma tortura.
– Mas você precisa ir pra um hospital!
– Ficar. Deitado. Tempo. – mesmo com aquela frase desfragmentada ela entendeu que eu quis dizer que ficaria alguns dias deitado na cama dela.
– Tá, mas eu vou chamar minha tia, ela é enfermeira, vai dar um jeito nisso. – ela deu uma risadinha – Você é um merda.
Era incrível como a Dani conseguia me aguentar e nunca reclamar de nada que eu fazia. Aquilo me fazia um bem tão grande, que às vezes eu me esquecia que a gente era só amigo. Eu gostava de cada pedacinho dela, como se fosse meu. Ela era daquele tipo de pessoa que mesmo que tu fique sem falar por anos, se tu encontra no supermercado, toda aquela amizade de antes vai voltar depois de cinco minutos de conversa de um jeito que não tem como explicar, porque a Dani é assim : inexplicável.
Então a tia dela foi até lá, me deu uma cartela de comprimidos para dor e uma bolsa térmica. Tudo o que eu tinha que fazer era esperar e colocar a bolsa com água quente ou fria durante algumas semanas, até aquela merda melhorar. Eu já tinha feito tanto aquela bosta, que devia andar com uma bolsa térmica presa à minha barriga.
Passei dois dias na casa da Dani, até conseguir me levantar e ir pro táxi e então pra minha casa, onde a minha avó me esperava com mais comprimidos pra dor e com certeza um antidepressivo.
– Você vai ficar deitado, ok? Nada de esforço. Qualquer coisa pode chamar a mim ou sua irmã.
Minha irmã. Ou eu devo dizer “irmã”? Sei lá, que se foda. A Thaís nunca teve vocação pra irmã, neta e muito menos pra filha, porque ela sumia na segunda e voltava no domingo, sem dar explicações de nada pra ninguém e achava que tava tudo bem. O mundo era dela e ela sabia disso.
– E aí, idiota? – ela entrou no meu quarto – Não cansou de apanhar, não?
– Vai se foder. Vai comprar chocolate pra mim. O dinheiro tá na minha carteira, ali em cima da mesinha.
Ela pegou minha carteira, tirou a única nota que eu tinha ali – vinte reais – e deu um beijo na minha testa.
– Chocolate com amendoim?
– Claro, anta.
Ela sorriu.
– Beleza, já volto.
Depois de dizer isso, ela saiu do meu quarto e voltou uma semana depois, com metade do chocolate com amendoim e uma nota de dois reais rasgada.
Essa é a minha irmãzinha.
..
Anos depois, eu tava com 23, se não me engano. Eu falava com uns amigos do Fabito, resolvi que ia aparecer junto do Teta e o Coca numa das festas do Bola, um cara que passava droga pra geral e tomou o lugar de melhor amigo do Fabito depois da merda que a Melissa fez.
O Coca era um cara estranho, ele não falava muito e eu tinha certeza que ele ia morrer logo, ou acabar na cadeia, porque ele era parado na rua direto por policiais e sempre encontravam uma paranga com ele. Eu nunca o considerei meu amigo, mas ele tava sempre comigo, então eu não podia descartar o cara da história, apesar dele ser totalmente irrelevante.
O Teta acabou virando meu “melhor amigo”. Entre aspas, porque eu não sabia se podia confiar nele do mesmo jeito que confiava no Fabito e acabava não falando muito com ele. Mas ele sempre me ajudou nas minhas merdas, quando eu tinha algum ataque ele me acalmava e ficava tossindo quando eu fumava perto dele, porque ele não gostava do cheiro do meu cigarro.
O Bola tava sempre dando uma festa por aqui e por aí e quando eu sabia que o Fabito ia, eu não perdia a oportunidade de aparecer e fazer algum show. Eu já quebrei uns caras, já chamei a polícia pra prender ele – não deu em nada, porque o policial era amigo dele -, já tentei conversar com ele enquanto tava muito bêbado, mas acabei com o pulso quebrado, entre muitos outros ossos partidos.
Mas dessa vez seria diferente, porque o Bola contou que ele descobriu que tinha uma irmã e levaria ela na festa. Eu não ia perder aquela chance...
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