Just Like Me
1 Capítulo 1 - Eu sou louco!
Notas iniciais
Um dia talvez eu encontre algum jeito bom de começar a escrever essa história.
Começar me apresentando não é um jeito muito legal, então vou começar contando sobre quando a luz acabou na minha casa quando eu tinha seis anos e meu melhor amigo estava lá.
- E agora, capitão Banana? Precisamos de um plano de emergência!
- Tive uma ideia, capitão Cabeça de Ovo! Vamos para o quartel general buscar lanternas!
Ele parou de subir as escadas e me fuzilou com o olhar.
- Por que você me chamou de Cabeça de Ovo?
- Porque você me chamou de Banana.
Aquele dia nós salvamos minha avó da poltrona assassina, iluminamos toda a casa até encontrar minha irmã, que estava presa em sua cama, sendo obrigada pelo Mestre Poeira a ler um livro sobre princesas.
Então o Banana e o Cabeça de Ovo cresceram e se tornaram Fabito e Beck. Fabito, porque o nome dele é Fabricio e ele odeia essa merda de nome. Então ele preferia “Fabinho”, porque parecia Fabio, e Fabio é menos pior que o nome grande e esquisito dele. Mas como eu não sou gay pra chamá-lo de forma tão gay, resolvi espanholizar as coisas e chamá-lo de Fabito.
De onde vem o Beck? Fácil: meu nome é Bernardo e eu fumo muita maconha. Essa foi a apresentação perfeita, não acha?
Eu tive uma vida relativamente fácil, considerando que fui abandonado pela minha mãe – na verdade ela foi sequestrada e nunca mais voltou – e fui encontrado por uma velhinha adorável e adotado por um casal que tinha uma filha da minha idade. Meus novos pais morreram um ano depois desse dia que acabou a luz em casa, num acidente de avião. Eu sei, isso é triste e tal, mas vai por mim, eu superei e você não precisa sentir pena. O que eu não superei foi o problema de coração, o que me levou a fumar maconha. Se você não sabia, agora sabe que a maconha é muito útil pra te manter vivo se você estiver morrendo do coração, olha que legal!
Eu tive convulsões, paradas cardíacas, taquicardia e mais um monte de problemas. Uma vez eu fui a um médico que me disse que eu tinha o coração de um velho de oitenta anos e que ou eu tratava ou eu morria. Perguntei quais eram as opções e ele me receitou milhões de remédios, que eu tomei, até descobrir a linda, perfeita, maravilhosa Cannabis Sativa. Se essa porra de erva fosse uma mulher eu já tinha feito... bom, deixa pra lá.
A verdade é que eu vivo bem com essa bosta de problema. Eu só não convivo bem com essa merda de doença. Qual doença? TPB: Transtorno de Personalidade Borderline. Eu sou maluco!
O grande fato é que minha vida é sinônimo de instabilidade. Não que eu classifique estabilidade como “avanço” ou “melhora”, mas acho que posso chamá-la de... entendimento. Conhecimento de fatos? É, pode ser.
Eu fui uma criança amável, que se contentava com pouco. Hoje eu tenho muito. Muito problema. Já cheguei a pensar que sofria de várias doenças diferentes, mas acabei descobrindo que eu sou Border.
Minha vida toda eu briguei com pessoas que eu gostava e acabei perdendo-as. Me envolvi em confusões terríveis, até matei algumas pessoas, tudo por causa dessa doença. Viva à minha loucura!
Nos últimos anos, minhas crises diminuíram drasticamente, sem eu precisar de tratamento com psicólogos. Eu não tomava nenhum remédio regularmente, mas sabia que a minha avó colocava comprimidos antidepressivos no meu chocolate quente pela manhã. Uma vez eu encontrei um frasco no meio dos produtos de limpeza – lugar do armário que eu nunca mexo – e no dia seguinte eu a vi espremendo um comprimido e misturando-o à minha bebida.
Eu nunca fiquei bravo ou chateado por ela fazer isso. Eu sou grato. Eu devo isso à ela. O amor da minha avó adotiva por mim a fez me medicar todos os dias de manhã sem que eu soubesse e aquilo resultou numa melhora incrível.
Mas acho que ela parou de me dar remédios, porque ultimamente eu tenho andado esquisito. Ontem, por exemplo, eu me peguei pensando na minha mãe. A minha mãe biológica, de quem eu nem lembrava o rosto. A única coisa que eu lembrava é que ela era viciada em cocaína. Depois de lembrar dela, eu lembrei dos meus pais adotivos. Principalmente da minha mãe, aquela mulher que me fez tão bem, sempre cuidou de mim como se eu tivesse saído dela e me amou até o dia em que foi viajar com meu pai numa segunda lua de mel e aquele maldito avião caiu. E pensando em tudo aquilo eu peguei o estilete da minha irmã e passei no meu pulso levemente na horizontal, para deixar uma marca de arranhão. Ao ver a linha rosada que se formou, passei o estilete com mais força, na intenção de rasgar minha pele, mas...
Eu parei.
Por que eu ia me cortar? Que porra isso ia melhorar? Só preocuparia minha avó, minha irmã e eu correria risco de pegar tétano por causa da lâmina enferrujada que eu estava passando no meu braço.
Então peguei a garrafa de pinga que escondia embaixo da cama e fui pro banheiro, joguei um pouco no braço pra desinfetá-lo e então lavei com água e sabão.
A partir daquele momento eu jurei pra mim mesmo que nunca mais tentaria me cortar.
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