Just Friends - 2ª Temporada
27 Capitulo 27
Notas iniciais
Ela dormiu um pouco, mas não demorou pra acordar. Estava mais calma, mas a expressão amedrontada ainda estava ali .
–O que eu vou fazer? Precisava desse emprego...
–Eu posso buscar suas coisas se quiser...
Realmente eu tava doida pra ir lá!
Ela levantou a cabeça, me olhando ainda meio acuada.
–Eu vou também. Vai ser a ultima vez que ponho os pés lá. E...
–E...?
–Eu quero que ele pague pelo medo que eu senti.
–Isso você pode deixar comigo...
Apesar de eu nunca pegar o carro de ninguém emprestado, peguei o da Laura – era causa de força maior.
Não demorou para estarmos na porta do café, que estava cheio. Otimo, mais publico para ver isso.
Entrei com sangue no olho, enquanto ela andava tímida, ainda morrendo de medo. Sorri, tentando mandar uma mensagem de “vai dar tudo certo, fica calma!”. Mas não sei se ela entendeu certo, porque fechou os olhos, respirou fundo e entrou.
–Vai pegar suas coisas, e me espera aqui na porta. Eu vou resolver uma coisa e em menos de 10 minutos eu to de volta.
Ela não questionou, concordando com a cabeça, indo buscar o restante das coisas que tinha na sala dos funcionários.
Me peguei de punhos fechados ao invadir a sala dele. Não me dei o trabalho de ver se tinha alguém lá dentro, pedir permissão ou perguntar se ele estava ocupado. Era claro que ele não estava, nunca estava. As pernas esticadas na mesa enquanto tentava dormir. Bati a porta ao passar, o que fez com que ele levasse um puta susto.
–O que é isso?
–Temos que ter uma conversinha – disse me encostando na porta, com os braços cruzados.
–Você sequer trabalha aqui garota, não tem nada pra falar comigo.
–Ah não? – tive que rir. Sua expressão era tão indiferente que me dava ainda mais nojo. Fui caminhando até sua mesa — Então que tal falarmos da garota que você tentou atacar ontem a noite? Não, quer saber? Vamos direto ao assunto – bati as mãos na mesa, me curvando para encarar ele de perto – Pensei que tivesse deixado claro que você não tinha sequer o direito de pensar nessas garotas! Mas pelo visto não fui tão clara quanto era preciso. Eu avisei para não tocar em nenhum fio de cabelo delas, e você me ignorou... Vamos ver então como voce vai lidar com isso na cadeia.
Ele riu. Uma risada alta e escandalosa, de deboche. Senti meu sangue ferver nas veias.
–E vai fazer o que? Me denunciar? E contra o que? Estupro? Eu quase não cheguei a tocar em você garota...
–Acho que a policia vai considerar o fato de que voce abusava da sua sobrinha, e que tentou passar a mão em mim e se aproveitou da situação com uma das suas funcionarias ontem a noite, chegando até mesmo a rasgar a saia dela... Isso pode não chegar a ser uma denuncia de estupro, mas com certeza, é uma denuncia de abuso sexual... E claro, tentativa de estupro. E você deve saber o que acontece com esse tipo de gente né?
–Você não tem provas.
–Mas tenho duas vitimas, que já o suficiente para no mínimo voce ter uma ficha.
–E voce acha o que? Que eu vou ser preso? Eu tenho dinheiro, posso pagar qualquer coisa e no dia seguinte eu vou estar sentado aqui no mesmo lugar. Não tente bancar a esperta pra cima de mim...
–Ah, voce tem dinheiro? E que tal um pequeno showzinho no seu estabelecimento? Será que com a fama desse lugar acabada, voce ainda ia ser tão rico assim? Quem sabe se a pobre garçonete indefesa não era obrigada a fazer suas vontades...
–Isso é mentira.
–E em quem vão acreditar? Na pobre vitima ou em um tarado como voce?
Ele não rebateu mais.
–Pode esperar aqui sentadinho pela sua fama. Já imaginou o sucesso que vai fazer? Voce aparecendo algemado saindo desse escritório cafona, com todos os repórteres em cima de voce... Sem duvida é uma ótima propaganda para o local. Voce foi burro de brincar comigo, mas se foi assim que voce quis, que os jogos comecem Senhor Octavio.
Sai batendo a porta com ainda mais força, com todos me olhando.
Eu ainda tava puta!
Ela já me esperava na porta, com a bolsa no ombro. Seus olhos percorriam o lugar com pressa, como se estivesse procurando um local de fuga caso houvesse alguma coisa.
Dei um ultima olhada e percebi que ele estava vindo. Empurrei as coisas de uma das mesas e subi, batendo dois copos para chamar ainda mais a atenção.
Todos me olharam, e eu comecei a falar em voz alta.
Ela me olhou chocada com o que eu estava fazendo.
–Eu sei que muitos estão na correria e só queriam comer em paz e vão achar que eu sou louca, mas preciso de só um minuto da atenção de vocês. Eu já fui funcionaria aqui... Algum de vocês estava aqui quando me demiti? – umas três mãos se levantaram em diferentes lugares – Otimo. Naquele dia, eu sai daqui por estar insatisfeita. E não to falando de muitas horas de trabalho ou pouco dinheiro, pelo contrario – ele saiu do escritório, quase me matando com os olhos – Eu sai porque esse senhor que era meu chefe, ao me achar parecida com uma sobrinha dele, se achou no direito de fazer comigo o mesmo que fazia com ela. E é exatamente isso que vocês estão pensando. E tenho o desprazer de contar que ontem a noite, a cena se repetiu. Não comigo, e muito menos com a sobrinha dele, mas sim com uma outra funcionaria, que não tinha noção do risco que corria ao ficar sozinha com ele. E eu tenho certeza de que boa parte ta me olhando e pensando “e o que eu tenho haver com isso?”. Só queria que pensassem que podia ser sua Irma, ou sua filha... E que o café da esquina é bem mais gostoso.
Ele me olhava paralisado, recebendo todos os olhares.
–Quando eu me demiti, eu prometi que ia ferrar com a vida desse cara se ele tocasse em mais alguem e isso chegasse aos meus ouvidos. Mas como ele mesmo disse, ele tem dinheiro, então não sofreria da forma correta... E é por isso que eu to aqui, ele tem o dinheiro de vocês, e eu não acho que ele mereça nenhum centavo. A escolha é sua, pode continuar vindo aqui sempre, mas se quer um conselho, não fiquem sozinhos com ele. E... Sintam-se livres para levantar e ir embora, é por conta da casa. O café da esquina é mais gostoso, mais barato e você não corre o risco de ser estuprado pelo dono, olha que noticia boa! – meu tom ia de ironia pra baixo! Ele me olhava sem reação — Agora, acho que já peguei muito do tempo de vocês... Obrigada pela atenção e... Cuidado com o que comem, porque bem... Ele ataca as garotas na cozinha também, então imaginem o que pode parar no bolo de vocês, se é que vocês me entendem...
Antes de descer, vi boa parte das pessoas empurrando os pratos para longe. Algumas fizeram cara de nojo e cuspiram de volta o que estavam mastigando. Outras levantaram e foram embora, xingando e resmungando. O cara ficou louco com o prejuízo, gritando “volte aqui, ela é louca, você me deve vinte e cinco reais!”. Mas ele não recebeu esse dinheiro, na verdade, isso lhe custou vários insultos e uns dois murros no rosto.
Dei uma ultima olhada antes de sair. Mandei um beijo para ele, que estava zonzo da ultima porrada que recebeu e sai.
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